Eugênio
Gudin, que viveu 100 anos (1886-1986), foi um brasileiro notável, com
importante participação na história do desenvolvimento nacional. Formando em
Engenharia Civil, mas versado em outras áreas, ele se dedicou aos estudos de
economia e passou a ensinar lógica econômica aos estudantes de Engenharia e de
Direito. Como teórico autodidata, escreveu quatro obras de economia, com grande
repercussão. Foi ele quem redigiu, em 1944, o Projeto de Lei que instituiu o
curso de Ciências Econômicas no Brasil.
O
professor Gudin, como era conhecido, tinha uma obsessão: ajudar o Brasil a ser
um país rico e desenvolvido. Respeitado por sua inteligência, cultura e conduta
moral, muito cedo Gudin desacreditou da competência gerencial do governo e
passou a defender limitação do Estado em suas intervenções no domínio econômico
e na vida das pessoas. Ele era um homem global e nunca entendeu por que o
governo amava fazer dívidas em dólar para pagar importações, enquanto rejeitava
investimentos estrangeiros em empresas no território nacional.
Gudin
faleceu em outubro de 1986, oito meses após a implantação do Plano Cruzado pelo
presidente Sarney, que congelou preços, prendeu pecuaristas, fechou
supermercados e praticou um amontoado de insanidades em nome do combate à
hiperinflação. Gudin, que houvera sido ministro da Fazenda por sete meses, de
setembro de 1954 a abril de 1955, abominava invencionices em economia e, já
indo para o fim de seu século de vida, ele desabafou: “O Brasil foi a amante
que mais amei, e foi a que mais me traiu”.
O
Brasil foi o amor não correspondido do professor Gudin e, com tristeza, ele
dizia que sua geração fracassou, pois, tendo tudo para atingir a grandeza, o
Brasil insistia na mediocridade. O professor Gudin não ficou sozinho: desde sua
morte em 1986 até hoje, todas as gerações fracassaram na missão de atingir a
riqueza econômica e eliminar a pobreza. Tendo tudo para ser rico, o país abriga
milhões de miseráveis.
Em
discurso de despedida do parlamento, Roberto Campos repetiu as palavras de
Gudin, e disse mais: há países que são naturalmente pobres, mas vocacionalmente
ricos (caso do Japão), e países que são naturalmente ricos, mas vocacionalmente
pobres (caso do Brasil). Devemos reconhecer, com certa melancolia, que o Brasil
é rico de recursos, mas segue atrasado, pobre e socialmente violento. Muitos
culpam o capitalismo. Mas nem o capitalismo liberal nem a democracia política
foram praticados no Brasil de forma completa.
Aqui,
tanto o capitalismo como a democracia foram usados apenas parcialmente e
apresentaram muitos de seus defeitos sem ter revelado todas as virtudes. O país
é parecido com o sujeito que, tendo grave doença, adere a um tratamento, porém,
toma metade dos medicamentos, erra na dosagem, confunde os horários e agrega
outras drogas que o médico não receitou. Não obtendo a cura, ele culpa o médico
e a receita, abstendo-se de assumir suas falhas.
Agora
mesmo, nos últimos quatro anos, o país se deu ao luxo de jogar quatro anos no
lixo, com a brutal recessão econômica, e mergulhar em profunda crise política
agravada pela rede de corrupção açambarcada pela operação Lava Jato e suas
congêneres. O Brasil tornou-se especialista em sabotar a si próprio e
desperdiçar as chances de crescer e de se desenvolver.
José Pio
Martins -
economista, reitor da Universidade Positivo
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