A psicanalista Tássia Borges analisa os mecanismos psíquicos da autoagressividade cotidiana – e alerta para os perigos de uma cultura baseada na cobrança excessiva e na busca constante pelo extraordinário
“Você não se
esforçou o suficiente.” “Deveria ter feito melhor.” “Está tudo errado em mim!”
Frases como essas, repetidas silenciosamente no pensamento, podem parecer triviais.
Mas, para a psicanalista Tássia Borges, elas revelam um movimento interno muito
mais profundo e danoso: a autocrítica desproporcional e a autorrejeição
constante – o que, em alguns casos, pode ser compreendido como uma forma de
auto-ódio.
“Vivemos uma
cultura baseada no desempenho extraordinário”, analisa Tássia. “Não basta se
exercitar duas ou três vezes por semana: tem que acordar às cinco da manhã e
fazer isso todos os dias. Não basta ler um pouco todos os dias: é preciso
terminar um livro por semana. E quando não conseguimos cumprir esses ideais
inalcançáveis, nos sentimos fracassados – e nos punimos por isso.”
Segundo a teoria
psicanalítica kleiniana, esse tipo de comportamento pode ser alimentado por um
superego arcaico e cruel - uma espécie de “voz interior” muito crítica e severa
que se forma nos primeiros anos de vida - que impõe padrões inatingíveis e
cobra o sujeito com uma dureza desmedida. “É uma autocrítica gratuita,
desproporcional e constante. Muitas vezes, nem se trata de um erro real, mas de
um julgamento interior que parte de um ideal de perfeição impossível de
alcançar”, diz a psicanalista.
Essa lógica do
“nunca é o bastante” está presente nos mais variados aspectos da vida: corpo,
carreira, relações, hábitos e até emoções. “Mesmo quando alguém está satisfeito
com uma escolha ou uma conquista, basta um comentário externo para que se
instale a dúvida, a culpa, a sensação de que deveria ter feito diferente. É um
vício de pensamento que machuca profundamente”, ressalta Tássia, que faz uma
importante observação: “Muitas vezes, esse auto-ódio é inconsciente, ou seja, a
pessoa se pune, se critica, se machuca sem perceber o que está fazendo”.
Para ela, é
preciso promover uma verdadeira cultura da autogentileza, que leve em consideração
as limitações, os contextos e a realidade psíquica de cada sujeito. “A
psicanálise nos ajuda a reconhecer que não existe um padrão universal de
existência. Cada um tem um tempo, uma história e um modo de ser. Comparações
são, muitas vezes, uma forma sutil – e cruel – de autoagressão.”
Ao nomear e
refletir sobre esse “ódio de si”, Tássia Borges propõe uma mudança de olhar.
“Quando o cuidado consigo vira mais uma exigência a ser cumprida com rigidez,
já não é mais cuidado – é punição. O desafio está em transformar o
perfeccionismo em possibilidade e o julgamento em escuta. Só assim é possível
construir um caminho de bem-estar genuíno.”





