Em um país com a
menor taxa de nascimentos desde 1977, surgem novas formas de maternar com
bonecas de até R$ 30 mil e certidão de nascimento personalizada
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Em um Brasil que registra queda histórica no número
de nascimentos — com 2022 marcando o menor índice desde 1977, segundo o IBGE —, um fenômeno chama atenção nas redes sociais,
e-commerces e até na TV aberta: o crescimento do movimento das “mães de bebês
Reborn”, bonecas hiper-realistas tratadas com afeto e rotina semelhante à de um
bebê real.
Mais do que simples brinquedos ou itens de
colecionismo, os Reborns são usados por mulheres e homens que os vestem,
embalam, alimentam simbolicamente e levam para passeios. Embora não existam dados
oficiais sobre o tamanho do mercado, a presença de milhares de anúncios em
plataformas como Shopee e Mercado Livre — com preços que variam de R$ 100 a R$
10 mil — revela uma demanda crescente.
Além da venda de bonecas, há um mercado paralelo
aquecido: enxovais personalizados, carrinhos de bebê, certificados de
nascimento fictícios, cursos de produção artesanal e até "consultas
médicas simbólicas".
“É um fenômeno que vai além do colecionismo. Em
muitos casos, o bebê Reborn funciona como um objeto transicional, que auxilia
no enfrentamento de perdas ou carências afetivas. Mas é essencial manter o
senso crítico para que práticas simbólicas não substituam a realidade ou
interfiram em questões sociais mais amplas”, afirma a psicanalista e presidente
do Instituto de Pesquisa de Estudos do Feminino (Ipefem), Ana Tomazelli.
Entre o afeto e a polêmica
Embora muitos adeptos relatem alívio emocional e
benefícios terapêuticos, o fenômeno também desperta controvérsias. Casos
divulgados nas redes sociais — como pedidos de atendimento preferencial por
parte de pessoas acompanhadas de bonecas ou alegações de "filho
doente" para justificar ausências no trabalho — acendem o debate sobre o
limite entre realidade e simbolismo.
Personalidades como o Padre Fábio de Melo já
comentaram publicamente sobre o tema, ampliando a discussão nas redes. Em
algumas cidades, a proposta de criar o “Dia da Cegonha Reborn” gerou protestos e
embates em câmaras municipais.
“Não se trata de julgar quem encontra conforto em
uma boneca, mas de refletir sobre o que isso representa socialmente. A
maternidade é uma experiência profundamente relacional, corporal e social.
Quando objetos artificiais ocupam esse lugar, precisamos perguntar: o que está
sendo encenado? O que está sendo evitado? E quem está ganhando com isso?,
ressalta Ana”.
Maternidade real ainda
invisibilizada
Enquanto o afeto simbólico ganha espaço,
especialistas alertam para o risco de romantizar a maternidade e esvaziar suas
complexidades. Dados do ecossistema de benefícios VR revelam que 7 em cada 10
mulheres ainda são as principais responsáveis por acompanhar filhos reais em
consultas médicas, evidenciando o desequilíbrio na divisão de cuidados no
Brasil.
Burnout materno, depressão pós-parto e sobrecarga
doméstica continuam sendo realidades enfrentadas por muitas mulheres, sem o
mesmo espaço de visibilidade que o fenômeno Reborn vem conquistando.
"Quando passamos a diluir o papel da maternidade em práticas simbólicas, como ser mãe de planta, de pet ou de boneca, corremos o risco de esvaziar seu significado e suas responsabilidades sociais. O maior risco está na perda do senso crítico sobre o que representa verdadeiramente a maternidade em nossa sociedade," pontua Tomazelli.
Redes sociais e novas formas
de “maternar”
O TikTok e o Instagram têm papel central na
expansão do movimento. Perfis especializados acumulam milhares de seguidores
que acompanham “rotinas” com as bonecas, vídeos de “primeiro banho”, “noite mal
dormida” e “consultas” com médicos fictícios. Em grupos fechados, participantes
trocam experiências, fotos de “ultrassons imaginários” e dicas para
personalização de enxovais.
Esse cenário tem criado um novo nicho de consumo, onde
emocional e mercado se misturam. “Promover empatia para quem embala uma boneca
não significa equiparar experiências ou criar obstáculos aos direitos de quem
vive a maternidade real. É fundamental distinguir entre suporte emocional
legítimo e a criação de uma realidade paralela que pode isolar ainda mais essas
pessoas”, alerta a psicanalista.
Enquanto o fenômeno segue crescendo, especialistas recomendam atenção às motivações individuais, ao suporte emocional disponível e à forma como a sociedade lida com temas como perda, infertilidade e solidão. Afinal, entre o afeto simbólico e a realidade, existe um campo delicado e profundamente humano que merece ser escutado.
Ana Tomazelli - psicanalista e Presidente do Ipefem (Instituto de Pesquisas & Estudos do Feminino), uma ONG de educação em saúde mental para mulheres no mercado de trabalho. Também é co-fundadora do Ipecre - Instituto de pesquisa e estudos em Ciência da Religião, uma ONG que promove conhecimento para a garantia das liberdades religiosas e promoção da paz mundial. Mentora de Carreiras, Executiva em Recursos Humanos, por mais de 20 anos, liderou reestruturações de RH dentro e fora do país. Com passagens pelas startups Scooto e B2Mamy, além de empresas tradicionais e consolidadas como UHG-Amil, Solera Holdings, KPMG e DASA (Diagnósticos da América S/A). Mestranda em Ciências da Religião pela PUC-SP e membro do grupo de pesquisa RELAPSO (Religião, Laço Social e Psicanálise) da Universidade de São Paulo, também é pós-graduada em Recursos Humanos pela FIA-USP e em Negócios pelo IBMEC-RJ. Formada em Jornalismo pela Laureate - Anhembi Morumbi. Linkedin || Instagram || TikTok.
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