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domingo, 22 de junho de 2025

Bebês Reborn: bonecas hiper-realistas ganham espaço no Brasil e acendem debate sobre maternidade simbólica

Freepik  
Em um país com a menor taxa de nascimentos desde 1977, surgem novas formas de maternar com bonecas de até R$ 30 mil e certidão de nascimento personalizada 

 

Em um Brasil que registra queda histórica no número de nascimentos — com 2022 marcando o menor índice desde 1977, segundo o IBGE —, um fenômeno chama atenção nas redes sociais, e-commerces e até na TV aberta: o crescimento do movimento das “mães de bebês Reborn”, bonecas hiper-realistas tratadas com afeto e rotina semelhante à de um bebê real.

Mais do que simples brinquedos ou itens de colecionismo, os Reborns são usados por mulheres e homens que os vestem, embalam, alimentam simbolicamente e levam para passeios. Embora não existam dados oficiais sobre o tamanho do mercado, a presença de milhares de anúncios em plataformas como Shopee e Mercado Livre — com preços que variam de R$ 100 a R$ 10 mil — revela uma demanda crescente.

Além da venda de bonecas, há um mercado paralelo aquecido: enxovais personalizados, carrinhos de bebê, certificados de nascimento fictícios, cursos de produção artesanal e até "consultas médicas simbólicas".

“É um fenômeno que vai além do colecionismo. Em muitos casos, o bebê Reborn funciona como um objeto transicional, que auxilia no enfrentamento de perdas ou carências afetivas. Mas é essencial manter o senso crítico para que práticas simbólicas não substituam a realidade ou interfiram em questões sociais mais amplas”, afirma a psicanalista e presidente do Instituto de Pesquisa de Estudos do Feminino (Ipefem), Ana Tomazelli.


Entre o afeto e a polêmica

Embora muitos adeptos relatem alívio emocional e benefícios terapêuticos, o fenômeno também desperta controvérsias. Casos divulgados nas redes sociais — como pedidos de atendimento preferencial por parte de pessoas acompanhadas de bonecas ou alegações de "filho doente" para justificar ausências no trabalho — acendem o debate sobre o limite entre realidade e simbolismo.

Personalidades como o Padre Fábio de Melo já comentaram publicamente sobre o tema, ampliando a discussão nas redes. Em algumas cidades, a proposta de criar o “Dia da Cegonha Reborn” gerou protestos e embates em câmaras municipais.

“Não se trata de julgar quem encontra conforto em uma boneca, mas de refletir sobre o que isso representa socialmente. A maternidade é uma experiência profundamente relacional, corporal e social. Quando objetos artificiais ocupam esse lugar, precisamos perguntar: o que está sendo encenado? O que está sendo evitado? E quem está ganhando com isso?, ressalta Ana”.


Maternidade real ainda invisibilizada

Enquanto o afeto simbólico ganha espaço, especialistas alertam para o risco de romantizar a maternidade e esvaziar suas complexidades. Dados do ecossistema de benefícios VR revelam que 7 em cada 10 mulheres ainda são as principais responsáveis por acompanhar filhos reais em consultas médicas, evidenciando o desequilíbrio na divisão de cuidados no Brasil.

Burnout materno, depressão pós-parto e sobrecarga doméstica continuam sendo realidades enfrentadas por muitas mulheres, sem o mesmo espaço de visibilidade que o fenômeno Reborn vem conquistando.

"Quando passamos a diluir o papel da maternidade em práticas simbólicas, como ser mãe de planta, de pet ou de boneca, corremos o risco de esvaziar seu significado e suas responsabilidades sociais. O maior risco está na perda do senso crítico sobre o que representa verdadeiramente a maternidade em nossa sociedade," pontua Tomazelli.

  

Redes sociais e novas formas de “maternar”

O TikTok e o Instagram têm papel central na expansão do movimento. Perfis especializados acumulam milhares de seguidores que acompanham “rotinas” com as bonecas, vídeos de “primeiro banho”, “noite mal dormida” e “consultas” com médicos fictícios. Em grupos fechados, participantes trocam experiências, fotos de “ultrassons imaginários” e dicas para personalização de enxovais.

Esse cenário tem criado um novo nicho de consumo, onde emocional e mercado se misturam. “Promover empatia para quem embala uma boneca não significa equiparar experiências ou criar obstáculos aos direitos de quem vive a maternidade real. É fundamental distinguir entre suporte emocional legítimo e a criação de uma realidade paralela que pode isolar ainda mais essas pessoas”, alerta a psicanalista.

Enquanto o fenômeno segue crescendo, especialistas recomendam atenção às motivações individuais, ao suporte emocional disponível e à forma como a sociedade lida com temas como perda, infertilidade e solidão. Afinal, entre o afeto simbólico e a realidade, existe um campo delicado e profundamente humano que merece ser escutado.   



Ana Tomazelli - psicanalista e Presidente do Ipefem (Instituto de Pesquisas & Estudos do Feminino), uma ONG de educação em saúde mental para mulheres no mercado de trabalho. Também é co-fundadora do Ipecre - Instituto de pesquisa e estudos em Ciência da Religião, uma ONG que promove conhecimento para a garantia das liberdades religiosas e promoção da paz mundial. Mentora de Carreiras, Executiva em Recursos Humanos, por mais de 20 anos, liderou reestruturações de RH dentro e fora do país. Com passagens pelas startups Scooto e B2Mamy, além de empresas tradicionais e consolidadas como UHG-Amil, Solera Holdings, KPMG e DASA (Diagnósticos da América S/A). Mestranda em Ciências da Religião pela PUC-SP e membro do grupo de pesquisa RELAPSO (Religião, Laço Social e Psicanálise) da Universidade de São Paulo, também é pós-graduada em Recursos Humanos pela FIA-USP e em Negócios pelo IBMEC-RJ. Formada em Jornalismo pela Laureate - Anhembi Morumbi. Linkedin || Instagram || TikTok.


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