Pesquisa internacional liderada
por equipe da USP sugere que sistemas estáveis – como o Sistema Solar – talvez
sejam menos comuns do que se imaginava, o que impacta o surgimento de vida
complexa
Representação artística de um sistema estelar binário,
com uma das estrelas engolindo um planeta
(imagem: Anne Rathsam/com IA)
Uma equipe internacional
liderada por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) desenvolveu um
método inovador para identificar estrelas que engoliram os planetas ao seu
redor. A técnica baseia-se na detecção de variações na abundância de berílio –
um elemento químico relativamente raro – e poderá abrir uma nova janela para o
estudo da evolução de sistemas planetários.
Publicado hoje (16/06) na revista Astronomy
& Astrophysics, o estudo analisou um sistema binário formado por duas
estrelas muito semelhantes entre si, ambas do tipo solar (com características
físicas, químicas e de atividade magnética semelhantes às do nosso Sol),
chamadas HD 129171 e HD 129209. Em princípio, estrelas binárias como essas
deveriam apresentar praticamente a mesma composição química, pois nasceram ao
mesmo tempo e da mesma nuvem molecular (aglomerados de poeira e gás que
funcionam como berçários estelares). No entanto, os pesquisadores encontraram
diferenças significativas entre elas.
“A estrela HD 129171 apresenta
enriquecimento em elementos refratários, isto é, elementos que normalmente
condensam em estado sólido e constituem planetas rochosos. Isso sugere
fortemente que ela engoliu material planetário ao longo de sua evolução”, conta
a doutoranda do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas
(IAG-USP) Anne Rathsam, bolsista da FAPESP e primeira autora do artigo.
Os cientistas já suspeitavam
anteriormente que algumas estrelas poderiam incorporar planetas ou fragmentos
planetários. O diferencial do novo trabalho foi demonstrar, pela primeira vez,
que diferenças na abundância de berílio em estrelas binárias podem funcionar
como marcadores confiáveis desse processo.
O berílio possui uma
característica importante: ele não é fabricado no “coração” das estrelas ao
longo de sua evolução. Por isso, quando os astrônomos detectam a assinatura
desse elemento na luz que a estrela emite, funciona como um sinal de alerta.
Indica que a estrela engoliu material rochoso – como restos de planetas – muito
tempo depois de ter se formado.
Como explicam os autores, os
elementos lítio, berílio e boro constituem uma exceção importante na história
química do Universo. “Todos os outros elementos químicos têm sua origem na
nucleossíntese primordial [a formação dos primeiros núcleos atômicos nos
minutos iniciais logo após o Big Bang] ou na nucleossíntese estelar [o processo
de fusão nuclear que ocorre no interior das estrelas ao longo de suas vidas].
Mas o berílio e o boro não. Eles surgem principalmente por um processo chamado
‘espalação cósmica’, no qual partículas de alta energia fragmentam núcleos mais
pesados, como carbono, nitrogênio e oxigênio, produzindo elementos mais leves”,
descreve o astrônomo Jorge Luis Melendez Moreno, professor do IAG-USP e
orientador do estudo.
O lítio também é produzido
principalmente por espalação, embora uma quantidade ínfima desse elemento tenha
surgido na nucleossíntese primordial e ele possa surgir também, em
circunstâncias especiais, em alguns tipos de estrelas.
“O lítio já vinha sendo usado como possível indicador de engolfamento planetário, mas ele é destruído com relativa facilidade. O berílio é mais resistente e sua assinatura química pode durar mais tempo”, explica Rathsam.
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| Imagem real do sistema binário estudado (imagem: Digital Sky Survey/Aladin/Anne Rathsam) |
Para realizar o estudo, a
equipe utilizou dados obtidos com o espectrógrafo UVES, instalado no Very Large
Telescope (VLT), do Observatório Europeu do Sul (ESO), no Chile. O instrumento
decompõe a luz das estrelas em diferentes comprimentos de onda, permitindo
identificar assinaturas químicas extremamente sutis.
As observações mostraram que a
HD 129171 possui abundância significativamente maior de elementos refratários –
como ferro, magnésio, silício, cálcio e titânio – em comparação com sua
companheira HD 129209. Além disso, a estrela apresenta excesso tanto de lítio
quanto de berílio. Segundo os pesquisadores, o padrão observado é compatível
com a ingestão equivalente a mais de 11 vezes a massa da Terra de material
rochoso.
“Esse material pode ter vindo
de um único grande planeta ou da soma de vários corpos menores. Mas, no caso de
estrelas semelhantes ao Sol, a mistura interna é tão eficiente que a assinatura
química final não permite distinguir esses cenários”, comenta Rathsam.
Embora a principal contribuição
original do trabalho tenha sido a análise química, que possibilitou eleger o
berílio como marcador de episódios de engolfamento planetário, os autores
também discutiram, com base na literatura previamente estabelecida, os
mecanismos dinâmicos capazes de levar planetas a cair em suas estrelas
hospedeiras. Entre eles, interações gravitacionais entre planetas, perturbações
produzidas por estrelas companheiras e processos de migração orbital. Esses
mecanismos podem tornar as órbitas altamente excêntricas e instáveis, fazendo
com que planetas sejam ejetados do sistema, colidam entre si ou acabem sendo
absorvidos pela estrela central.
Uma implicação importante do
estudo diz respeito à possível raridade de sistemas estáveis, como o Sistema
Solar. Melendez ressalta que diversas linhas independentes de evidência apontam
na mesma direção. Simulações computacionais de formação planetária mostram que
arquiteturas semelhantes à do Sistema Solar – com planetas gigantes em órbitas
externas quase circulares e planetas rochosos em órbitas internas estáveis –
não surgem com frequência. Além disso, levantamentos observacionais realizados
com estrelas semelhantes ao Sol encontraram poucos análogos de Júpiter em
órbitas comparáveis à do gigante gasoso do nosso sistema.
“Quando reunimos evidências
provenientes de simulações dinâmicas, observações de exoplanetas e estudos
químicos de estrelas binárias, surge um quadro consistente indicando que sistemas
parecidos com o Sistema Solar talvez sejam menos comuns do que imaginávamos”,
pontua o pesquisador.
Melendez conta ainda que
sistemas binários são muito comuns na Via Láctea. Estimativas atuais indicam
que aproximadamente metade das estrelas da galáxia possui uma companheira
gravitacional. Como as duas estrelas de um sistema binário se formam
praticamente ao mesmo tempo e a partir da mesma nuvem molecular, diferenças
químicas entre elas constituem um forte indício de que processos posteriores –
como a ingestão de planetas – alteraram sua composição original.
“Em nosso sistema planetário,
os planetas possuem órbitas relativamente estáveis e pouco excêntricas. Mas, se
o engolfamento planetário for realmente comum, isso sugere que muitos sistemas
passam por fases dinâmicas violentas”, enfatiza Rathsam. Segundo ela, isso pode
ter implicações diretas para a existência de vida complexa.
“A vida não precisaria apenas
de bilhões de anos para surgir e evoluir. O planeta também teria que permanecer
em uma órbita suficientemente estável para sobreviver a perturbações gravitacionais
importantes”, explica.
Além de lançar luz sobre a
evolução de sistemas planetários, o estudo possui implicações para teorias de
formação estelar e para uma técnica conhecida como “chemical tagging”
(marcação química), utilizada para reconstruir a história da Via Láctea com
base na composição química das estrelas.
Se as diferenças químicas observadas
em estrelas binárias fossem causadas por heterogeneidades na nuvem primordial
que lhes deu origem, isso exigiria revisão de modelos atualmente aceitos sobre
formação estelar. Os resultados obtidos pela equipe favorecem, porém, a
hipótese de ingestão planetária.
Participaram do estudo
pesquisadores da USP, da Academia Polonesa de Ciências, da Academia Chinesa de
Ciências, da Monash University, na Austrália, e de observatórios astronômicos
italianos. O trabalho também recebeu apoio da FAPESP por meio de um Projeto Temático coordenado por Melendez.
O artigo Planet
engulfment in the chemically anomalous HD 129171/HD 129209 pair pode
ser lido em: aanda.org/articles/aa/full_html/2026/06/aa59556-26/aa59556-26.html.
José Tadeu Arantes
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/nova-tecnica-identifica-estrelas-que-engoliram-planetas/58417

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