Médicos e dentistas alertam que a
periodontite severa abre portas para inflamações sistêmicas no organismo,
afetando desde o controle da glicose até a saúde cardiovascular.
Um sangramento discreto na pia durante a escovação pode parecer
banal, mas merece atenção. Esse é um dos sinais mais comuns da periodontite,
uma doença inflamatória crônica que compromete os tecidos de suporte dos dentes
e que também se associa a alterações sistêmicas relevantes, incluindo pior
controle glicêmico e maior carga inflamatória relacionada à saúde
cardiovascular.
Embora comece na boca, a periodontite não é apenas um problema
local. A inflamação persistente no periodonto pode contribuir para um aumento
da carga inflamatória sistêmica, especialmente em pessoas com outras condições
crônicas, como diabetes e doenças cardiovasculares. “A periodontite não deve
ser descrita apenas como uma infecção. O conceito atual é o de uma doença
inflamatória crônica, desencadeada por desequilíbrio do biofilme e mantida por
uma resposta inflamatória do hospedeiro que pode repercutir além da cavidade
oral”, explica a Profa. Dra.
Manuela Rocha Bueno, da São Leopoldo Mandic. “Quando o
quadro é severo e persistente, a boca pode funcionar como uma fonte adicional
de inflamação sistêmica, o que ganha importância especial em pacientes com
diabetes e fatores de risco cardiovasculares”.
A relação com o diabetes é bidirecional. Pessoas com diabetes
apresentam maior risco de desenvolver periodontite e de ter formas mais graves
da doença, enquanto a inflamação periodontal também pode dificultar o controle
metabólico, favorecendo resistência à insulina e piora da hemoglobina glicada
em parte dos pacientes.
No caso do sistema cardiovascular, a evidência científica aponta
uma associação entre periodontite e marcadores
inflamatórios, alteração no funcionamento dos vasos sanguíneos e aterosclerose.
Estudos observacionais indicam plausibilidade biológica para essa conexão, mas
reforçam que ainda seriam necessários ensaios clínicos para comprovar impacto
direto do tratamento periodontal na redução de eventos cardiovasculares
maiores, como infarto e AVC.
“Essa conexão exige um olhar integrado entre odontologia e
medicina. O sangramento gengival recorrente e a mobilidade dentária não devem
ser vistos como detalhes sem importância”, acrescenta a especialista.
“Identificar e tratar a periodontite precocemente não é apenas uma medida para
preservar dentes; é uma forma de reduzir carga inflamatória e ampliar o cuidado
com a saúde geral”.
A literatura científica também destaca que o tratamento
periodontal pode melhorar marcadores inflamatórios sistêmicos e, em alguns
estudos, favorecer o controle glicêmico, mas os resultados variam conforme a
gravidade do caso, o perfil do paciente e a efetividade da terapia periodontal.
Isso reforça a necessidade de diagnóstico individualizado, manutenção periódica
e integração entre cirurgião-dentista, endocrinologista e cardiologista, quando
indicado.
A realidade invisível no Brasil
Esse impacto na saúde geral ganha ainda mais relevância diante da
alta frequência das doenças periodontais no país. Estudos epidemiológicos
indicam que uma parcela muito expressiva da população adulta brasileira
apresenta periodontite em diferentes graus, incluindo formas destrutivas da
doença, muitas vezes sem diagnóstico adequado. A grande preocupação é que se trata
de uma condição crônica e, em muitos casos, silenciosa no início, o que favorece
a evolução sem que o paciente perceba imediatamente o problema.
“Como a periodontite pode progredir de forma discreta, muitas
pessoas só procuram atendimento quando já há sinais mais evidentes, como
sangramento recorrente ou mobilidade dentária”, alerta o cirurgião-dentista. “A
gengiva saudável não deve sangrar. Quando o sangramento aparece com frequência,
ele indica inflamação e pode sinalizar perda progressiva dos tecidos que
sustentam os dentes, com repercussões que vão além da boca.”
Sinais de alerta
Os principais sintomas que merecem avaliação odontológica incluem:
- Sangramento recorrente: Durante o uso do fio dental ou da escova;
- Recessão gengival: Exposição da
raiz do dente, dando a impressão de dentes mais longos;
- Mau hálito persistente: Alteração no hálito que não cessa com a higiene
convencional;
- Mobilidade e alteração na mordida: Sensação de dentes moles ou que mudaram de posição.
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