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terça-feira, 16 de junho de 2026

Sangramento na gengiva não é normal e pode ser um alerta para todo o corpo

Médicos e dentistas alertam que a periodontite severa abre portas para inflamações sistêmicas no organismo, afetando desde o controle da glicose até a saúde cardiovascular.

 

Um sangramento discreto na pia durante a escovação pode parecer banal, mas merece atenção. Esse é um dos sinais mais comuns da periodontite, uma doença inflamatória crônica que compromete os tecidos de suporte dos dentes e que também se associa a alterações sistêmicas relevantes, incluindo pior controle glicêmico e maior carga inflamatória relacionada à saúde cardiovascular. 

Embora comece na boca, a periodontite não é apenas um problema local. A inflamação persistente no periodonto pode contribuir para um aumento da carga inflamatória sistêmica, especialmente em pessoas com outras condições crônicas, como diabetes e doenças cardiovasculares. “A periodontite não deve ser descrita apenas como uma infecção. O conceito atual é o de uma doença inflamatória crônica, desencadeada por desequilíbrio do biofilme e mantida por uma resposta inflamatória do hospedeiro que pode repercutir além da cavidade oral”, explica a Profa. Dra. Manuela Rocha Bueno, da São Leopoldo Mandic. “Quando o quadro é severo e persistente, a boca pode funcionar como uma fonte adicional de inflamação sistêmica, o que ganha importância especial em pacientes com diabetes e fatores de risco cardiovasculares”. 

A relação com o diabetes é bidirecional. Pessoas com diabetes apresentam maior risco de desenvolver periodontite e de ter formas mais graves da doença, enquanto a inflamação periodontal também pode dificultar o controle metabólico, favorecendo resistência à insulina e piora da hemoglobina glicada em parte dos pacientes. 

No caso do sistema cardiovascular, a evidência científica aponta uma associação entre periodontite e marcadores inflamatórios, alteração no funcionamento dos vasos sanguíneos e aterosclerose. Estudos observacionais indicam plausibilidade biológica para essa conexão, mas reforçam que ainda seriam necessários ensaios clínicos para comprovar impacto direto do tratamento periodontal na redução de eventos cardiovasculares maiores, como infarto e AVC. 

“Essa conexão exige um olhar integrado entre odontologia e medicina. O sangramento gengival recorrente e a mobilidade dentária não devem ser vistos como detalhes sem importância”, acrescenta a especialista. “Identificar e tratar a periodontite precocemente não é apenas uma medida para preservar dentes; é uma forma de reduzir carga inflamatória e ampliar o cuidado com a saúde geral”. 

A literatura científica também destaca que o tratamento periodontal pode melhorar marcadores inflamatórios sistêmicos e, em alguns estudos, favorecer o controle glicêmico, mas os resultados variam conforme a gravidade do caso, o perfil do paciente e a efetividade da terapia periodontal. Isso reforça a necessidade de diagnóstico individualizado, manutenção periódica e integração entre cirurgião-dentista, endocrinologista e cardiologista, quando indicado.

 

A realidade invisível no Brasil

Esse impacto na saúde geral ganha ainda mais relevância diante da alta frequência das doenças periodontais no país. Estudos epidemiológicos indicam que uma parcela muito expressiva da população adulta brasileira apresenta periodontite em diferentes graus, incluindo formas destrutivas da doença, muitas vezes sem diagnóstico adequado. A grande preocupação é que se trata de uma condição crônica e, em muitos casos, silenciosa no início, o que favorece a evolução sem que o paciente perceba imediatamente o problema.

“Como a periodontite pode progredir de forma discreta, muitas pessoas só procuram atendimento quando já há sinais mais evidentes, como sangramento recorrente ou mobilidade dentária”, alerta o cirurgião-dentista. “A gengiva saudável não deve sangrar. Quando o sangramento aparece com frequência, ele indica inflamação e pode sinalizar perda progressiva dos tecidos que sustentam os dentes, com repercussões que vão além da boca.”

 

Sinais de alerta

Os principais sintomas que merecem avaliação odontológica incluem:

  • Sangramento recorrente: Durante o uso do fio dental ou da escova;
  • Recessão gengival: Exposição da raiz do dente, dando a impressão de dentes mais longos;
  • Mau hálito persistente: Alteração no hálito que não cessa com a higiene convencional;
  • Mobilidade e alteração na mordida: Sensação de dentes moles ou que mudaram de posição.


São Leopoldo Mandic

 

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