Comprovantes digitais manipulados elevam o risco nas empresas e mostram que conferência visual não é mais o suficiente, demandando novas tecnologias para controle e mitigação
A fraude sempre esteve no
processo. Agora ela ganhou escala
A fraude em despesas corporativas não é um fenômeno recente. Ela sempre existiu, ainda que em formatos menos sofisticados: quilometragens superestimadas, recibos ajustados manualmente, despesas fora de política que passavam por falta de conferência mais rigorosa.
A inteligência artificial não criou esse problema.
Ela ampliou sua escala, aumentou a sofisticação dos mecanismos e reduziu o
custo de execução. Hoje, é possível gerar comprovantes altamente realistas em
segundos, com aparência legítima e difícil distinção a olho nu.
O resultado é um deslocamento relevante no risco: a
fraude deixa de ser pontual e passa a se diluir dentro de processos
aparentemente normais.
O crescimento dos deepfakes
financeiros
Os números ajudam a dimensionar esse cenário. As
fraudes com deepfakes cresceram 126% no Brasil em 2025, segundo a Sumsub, com o
país concentrando cerca de 39% dos casos na América Latina.
Ao mesmo tempo, dados da Grant Thornton indicam que
63% das empresas brasileiras sofreram algum tipo de fraude recentemente, sendo
que quase metade registrou perdas superiores a R$ 500 mil.
Esse avanço não está apenas na quantidade, mas na
qualidade das tentativas. Os indícios de manipulação deixam de ser visíveis e
passam a exigir leitura técnica dos arquivos.
O limite do modelo tradicional de
auditoria
Durante décadas, o controle de despesas
corporativas se apoiou em dois pilares: conferência visual e auditoria por
amostragem.
Esse modelo funcionava em um ambiente de menor
volume e menor sofisticação. Hoje, ele se mostra insuficiente.
Quando a fraude pode ser gerada com aparência
perfeita e replicada em escala, analisar apenas parte das despesas significa
aceitar um nível estrutural de exposição. E confiar exclusivamente no olhar
humano passa a ser uma estratégia limitada diante de evidências que não são
visíveis.
A mudança necessária é estrutural: sair de um
modelo reativo, baseado na conferência posterior, para um modelo contínuo, que
valida cada etapa do processo.
Comprovantes deixam de ser
imagens e passam a ser evidências
O ponto de inflexão está na forma como os comprovantes
são tratados.
Tradicionalmente, eles eram avaliados como imagens:
legibilidade, coerência de valores, compatibilidade com a despesa. Hoje, isso
não basta.
A análise precisa considerar a “impressão digital”
do arquivo. Metadados, histórico de edição, certificação de origem e padrões
como o C2PA (Coalizão para Proveniência e Autenticidade de Conteúdo) passam a
ser fundamentais para identificar manipulações invisíveis, como edições em
ferramentas de design ou geração sintética de documentos.
Essa abordagem transforma o processo: o comprovante
deixa de ser uma representação visual e passa a ser uma evidência técnica, com
nível de confiabilidade mensurável.
O controle precisa acontecer
durante o fluxo
Outro deslocamento importante está no momento da validação.
Quando o controle ocorre apenas no fechamento, a
empresa já está lidando com um fato consumado. A investigação se torna mais
custosa, a recuperação de valores é limitada e o esforço operacional aumenta.
Por outro lado, quando a validação acontece ao
longo da jornada (do registro ao pagamento) o cenário muda. Quilometragens
podem ser verificadas por GPS, duplicidades identificadas por padrões, e
pagamentos autenticados no momento da transação.
Na prática, isso significa reduzir a dependência de
autodeclaração e aumentar a rastreabilidade desde a origem.
IA: parte do problema e da
solução
A inteligência artificial ocupa hoje uma posição
ambivalente nesse contexto.
Ela é, ao mesmo tempo, vetor de sofisticação das
fraudes e principal aliada na sua mitigação. Sistemas baseados em IA conseguem
analisar grandes volumes de dados, identificar padrões anômalos e atribuir
níveis de risco a cada despesa.
Esse tipo de abordagem não elimina completamente o
risco, mas altera a relação custo-benefício da fraude. Quanto maior a
probabilidade de detecção, menor o incentivo para tentativas sistemáticas.
Compliance e eficiência passam a
caminhar juntos
O combate à fraude tende a ser tratado como uma
pauta de compliance. No entanto, há um impacto direto sobre eficiência
operacional e financeira.
Processos com baixa rastreabilidade geram mais
exceções, mais retrabalho e maior dependência de auditorias manuais. Já
ambientes com validação automatizada reduzem o volume de conferência, aumentam
a clareza do fechamento e liberam o time financeiro para atividades de maior
valor agregado.
Nesse sentido, prevenir fraude não é apenas evitar
perdas diretas, mas também reduzir desperdício operacional.
Um novo padrão de controle
corporativo
O avanço das fraudes impulsionadas por IA aponta
para uma conclusão clara: o modelo de controle precisa evoluir na mesma
velocidade.
Planilhas, conferência manual e auditoria por
amostragem não acompanham a complexidade atual. O novo padrão exige tecnologia
capaz de operar em escala, analisar evidências técnicas e atuar dentro do
fluxo.
Nesse novo cenário, plataformas de gestão de
despesas corporativas deixam de atuar apenas como ferramentas operacionais e
passam a contribuir de forma significativa para estruturar o controle,
integrando análise de dados, validação técnica de comprovantes e monitoramento
contínuo das transações.
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