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Por que entendemos cada vez menos aquilo que consumimos?
Vivemos cercados por informações. Gráficos,
rankings, indicadores, estatísticas que prometem clareza e objetividade. Nunca
tivemos tanto acesso a dados e, paradoxalmente, nunca foi tão difícil
compreender o que eles realmente significam. A sensação de entendimento é
confortável, mas enganosa. O que consumimos é apenas a ponta de um iceberg.
Na superfície estão as informações prontas:
manchetes, dashboards, relatórios, números organizados para rápida
leitura. Abaixo da linha d’água, invisível para a maioria das pessoas, está a
parte mais decisiva do processo: como os dados foram coletados, quais recortes
foram feitos, que critérios utilizaram na sua organização e quais narrativas
são construídas a partir deles. É nesse espaço oculto que a realidade começa a
ser moldada.
A cultura orientada por dados criou uma falsa ideia
de neutralidade. Números parecem incontestáveis. Algoritmos transmitem
autoridade. Mas dados não falam sozinhos. Eles são escolhidos, tratados e
interpretados. Cada gráfico carrega decisões anteriores, interesses explícitos
ou implícitos e vieses que raramente aparecem na superfície da informação.
Esse fenômeno afeta tanto empresas quanto a sociedade.
Decisões corporativas são tomadas a partir de indicadores que mostram eficiência,
mas escondem impactos humanos. Políticas públicas se apoiam em estatísticas que
ignoram contextos sociais. Sistemas automatizados reproduzem desigualdades sob
a aparência de racionalidade técnica. A informação pode estar correta e, ainda
assim, ser insuficiente ou enganosa.
O avanço da inteligência
artificial aprofunda esse iceberg. Ferramentas
capazes de gerar análises e narrativas sofisticadas proporcionam um resultado ainda
mais convincente, enquanto o processo que o sustenta se torna menos auditável.
Quanto melhor a história, menor a curiosidade sobre sua origem. A pergunta
deixa de ser “isso é verdadeiro?” e passa a ser “como isso foi construído?”.
Informação não é apenas dado, nem apenas narrativa.
É a combinação dos dois. Quando esse equilíbrio se rompe, caímos em dois
extremos igualmente perigosos: números sem sentido ou histórias sem lastro na
realidade. Em ambos os casos, perdemos capacidade crítica.
Mergulhar no iceberg da
informação não é um exercício técnico, mas um gesto de responsabilidade. Questionar recortes, pedir contexto, entender premissas e limites
deixou de ser opcional. Em um mundo orientado por dados, quem aceita apenas a
superfície corre o risco de confundir clareza com verdade e informação com
ilusão.

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