No frio, vasos sanguíneos se contraem e
podem elevar a pressão arterial, especialmente em hipertensos, idosos e pessoas
com maior risco cardiovascular
A queda das temperaturas no inverno pode ter impacto direto sobre a saúde cardiovascular. Embora muita gente associe a estação apenas ao aumento de doenças respiratórias, o frio também pode contribuir para a elevação da pressão arterial, especialmente em pessoas com hipertensão, idosos e pacientes com fatores de risco para infarto e AVC.
Uma revisão publicada no Journal of Human Hypertension, revista científica dedicada à pesquisa clínica em hipertensão arterial, aponta que os níveis de pressão tendem a variar conforme a época do ano, com registros significativamente mais altos nos meses frios. O artigo também destaca que a elevação provocada pelas baixas temperaturas pode dificultar o controle da doença em pacientes hipertensos e aumentar a variabilidade pressórica, fator associado a maior risco cardiovascular1.
A explicação está, principalmente, na resposta do organismo ao frio. Para preservar a temperatura corporal, que normalmente se mantém em torno de 36,5 °C a 37,5 °C, os vasos sanguíneos se contraem, fenômeno conhecido como vasoconstrição. Com os vasos mais estreitos, o coração precisa fazer mais força para bombear o sangue, o que pode elevar a pressão arterial. Além disso, o frio pode ativar mecanismos hormonais e neuroendócrinos, ambos relacionados ao controle da pressão2.
“Esse aumento pode parecer pequeno, mas em pacientes hipertensos, idosos ou com doenças cardiovasculares prévias, ele pode fazer diferença. De forma simples, a pressão considerada normal é abaixo de 12 por 8. Quando as medidas começam a se repetir acima disso, já é um sinal de atenção; e, quando chegam a 14 por 9 ou mais, podem indicar hipertensão, desde que confirmadas em diferentes aferições. No inverno, esse cuidado precisa ser ainda maior, porque o problema não é apenas a pressão subir pontualmente, mas a soma de fatores: frio, menor hidratação, menor prática de atividade física, maior consumo de alimentos calóricos e, em alguns casos, menor adesão ao tratamento”, explica Dr. Leandro Costa, cardiologista do Centro Especializado em Cardiologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
A seguir, o especialista esclarece mitos e verdades sobre pressão
alta no inverno.
Mitos e verdades sobre pressão arterial no inverno
1. A pressão arterial pode subir no frio.
Verdade.
No inverno, a exposição a temperaturas mais baixas
pode levar à contração dos vasos sanguíneos, aumentando a resistência à
passagem do sangue. Como consequência, a pressão arterial pode subir. Esse
efeito tende a ser mais relevante em pessoas com hipertensão, idosos e
pacientes com maior risco cardiovascular.
2. Pequenas elevações da pressão não têm importância.
Mito.
Mesmo aumentos discretos podem ser relevantes em pessoas
que já vivem com hipertensão ou apresentam fatores de risco, como diabetes,
colesterol alto, obesidade, tabagismo, histórico familiar de doença
cardiovascular ou doença renal. Quando a pressão permanece
elevada ou oscila muito, o risco de eventos como infarto e AVC pode aumentar.
3. O risco cardiovascular também aumenta no inverno.
Verdade.
A estação fria costuma estar associada a maior
sobrecarga cardiovascular. Além da elevação da pressão, o frio pode favorecer
alterações na circulação, maior ativação do sistema nervoso simpático e
mudanças inflamatórias e metabólicas. Uma revisão publicada em 2026 sobre
hipertensão induzida pelo frio aponta que a exposição ao frio está associada ao
desenvolvimento de hipertensão e a maior risco de eventos cardiovasculares.
4. Quem toma remédio para pressão não precisa se preocupar
com o inverno.
Mito.
O tratamento reduz riscos, mas não elimina a
necessidade de acompanhamento. Em algumas pessoas, pode ser necessário
reavaliar a conduta durante os meses frios, sempre com orientação médica. O
paciente não deve ajustar doses ou interromper medicamentos por conta própria.
5. Medir a pressão em casa pode ajudar no controle.
Verdade.
A medida domiciliar, quando feita com aparelho
validado e técnica adequada, pode ajudar o médico a entender melhor o
comportamento da pressão no dia a dia. Isso é especialmente importante porque a
pressão pode variar conforme temperatura, horário, estresse, sono, alimentação
e uso correto das medicações.
6. A pressão só aumenta se a pessoa sair no frio.
Mito.
A temperatura externa influencia, mas o ambiente
interno também importa. Casas muito frias, pouca proteção térmica e exposição prolongada
a baixas temperaturas dentro de casa podem contribuir para alterações na
pressão. Manter o corpo aquecido e evitar mudanças bruscas de temperatura são
medidas importantes, especialmente para idosos.
7. Dor de cabeça é sempre sinal de pressão alta.
Mito.
A hipertensão muitas vezes é silenciosa. Muitas pessoas estão com a pressão elevada e não sentem nada. Por isso, confiar apenas em sintomas pode atrasar o diagnóstico ou o ajuste do tratamento. A aferição regular é a forma mais segura de acompanhar a pressão.
8. Hábitos de inverno podem piorar o controle da
hipertensão.
Verdade.
Nos dias frios, é comum reduzir a atividade física,
beber menos água e aumentar o consumo de alimentos mais calóricos e ricos em
sódio. Esses fatores podem contribuir para ganho de peso, retenção de líquidos
e pior controle da pressão arterial. Sopas industrializadas, embutidos,
queijos, caldos prontos e alimentos ultraprocessados merecem atenção pelo alto
teor de sal.
Como proteger a pressão no inverno
Entre os principais cuidados estão manter o acompanhamento médico regular, medir a pressão conforme orientação profissional, não abandonar ou alterar medicamentos sem avaliação, evitar exposição prolongada ao frio, manter-se aquecido, praticar atividade física com segurança, controlar o consumo de sal e manter boa hidratação.
“Não se trata de alarmar a população, mas de lembrar que o inverno
exige atenção adicional de quem já tem hipertensão ou risco cardiovascular. A
pressão arterial é dinâmica e pode sofrer influência do ambiente, do
comportamento e da adesão ao tratamento. Quanto mais regular for o acompanhamento,
maior a chance de prevenir complicações”, reforça Dr. Leandro Costa
Hospital Alemão Oswaldo Cruz
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