Enquanto a Seleção Brasileira disputa a
Copa do Mundo, dois nomes que estavam cotados acompanham o torneio longe dos
gramados. O lateral-direito Wesley França foi cortado após sofrer uma lesão
muscular de grau três no músculo adutor da coxa esquerda durante um amistoso
contra o Egito. Já o atacante Estêvão Willian ficou fora da lista de convocados
por ainda estar em recuperação de uma grave lesão no bíceps femoral, na parte
posterior da coxa.
Embora as duas lesões tenham ocorrido
na região da coxa, elas afetam músculos com funções diferentes dentro do
futebol e exigem processos específicos de recuperação.
O que aconteceu com Wesley?
O lateral-direito Wesley sofreu uma
lesão de grau três no músculo adutor, grupo muscular localizado na parte
interna da coxa que é muito exigido em movimentos de mudança rápida de direção,
cortes laterais e chutes.
Segundo Dr. Fabrício Buzatto, médico
fisiatra e professor da pós-graduação em Medicina do Esporte da Afya Vitória,
esse é o estágio mais grave das lesões musculares. "Uma lesão de grau três
representa uma ruptura total ou quase total das fibras musculares. O músculo
perde sua integridade estrutural, causando dor importante, perda imediata de
função e um tempo de recuperação prolongado", explica.
De acordo com o especialista, o período
de cicatrização costuma variar entre oito e 12 semanas, tornando inviável a
participação do atleta em uma competição curta e de alta exigência física como
a Copa do Mundo.
O caso do atacante Estevão
A ruptura sofrida pelo atacante foi
considerada extensa, atingindo cerca de 80% do músculo. Ainda assim, o
tratamento não exigiu cirurgia. Segundo o especialista, esse tipo de
procedimento costuma ser reservado para situações específicas, como quando há
desinserção completa do tendão do osso. "Quando a lesão ocorre na
transição entre músculo e tendão ou no ventre muscular, o tratamento
conservador costuma ser a melhor opção. O tecido muscular possui boa vascularização
e grande capacidade de cicatrização quando o processo de reabilitação é
conduzido adequadamente", explica.
A evolução clínica do atacante chamou atenção
após exames realizados semanas depois da lesão indicarem uma recuperação melhor
do que a inicialmente prevista. De acordo com Dr. Fabrício, isso pode acontecer
porque os primeiros exames costumam ser influenciados pelo edema e pelo
hematoma provocados pelo trauma. "Nos momentos iniciais, o inchaço pode
fazer a lesão parecer mais grave do que realmente é. Com a redução do processo
inflamatório e a evolução da cicatrização, os exames passam a mostrar com mais
precisão a recuperação das fibras musculares", afirma.
Além disso, fatores como acompanhamento
especializado, controle rigoroso das cargas de treinamento e os recursos
utilizados no esporte de alto rendimento podem acelerar a recuperação biológica
do atleta.
Como funciona a recuperação de uma lesão muscular grave?
Dr. Raul Oliveira, professor do curso
de Fisioterapia da Afya Centro Universitário Itaperuna, explica que a
fisioterapia é apenas uma parte do tratamento, que envolve uma equipe
multidisciplinar composta por médicos, fisioterapeutas e preparadores físicos.
"O tratamento é o conjunto de todas as medidas adotadas para a recuperação
do atleta. A fisioterapia tem papel fundamental na restauração da força, da
mobilidade, do controle muscular e da capacidade funcional necessária para o
retorno ao esporte", afirma.
Segundo ele, a recuperação costuma
seguir etapas bem definidas. "Primeiro buscamos controlar a lesão e
recuperar os movimentos. Depois iniciamos o fortalecimento progressivo, a
readaptação aos gestos esportivos e, por fim, o retorno gradual aos
treinamentos e às partidas."
Por que não é possível acelerar o retorno?
Embora a pressão por resultados seja
grande, especialistas alertam que antecipar o retorno aos gramados pode trazer
consequências sérias. "O principal risco é a recidiva, ou seja, a lesão
acontecer novamente, muitas vezes de forma ainda mais grave", destaca Dr.
Raul.
Além disso, o atleta pode desenvolver
compensações musculares, sobrecarregando outras regiões do corpo e aumentando a
chance de novos problemas físicos. A liberação para voltar a competir não
depende apenas do tempo de recuperação. São avaliados critérios como força
muscular, mobilidade, resistência, ausência de dor e desempenho em testes
específicos do esporte.
"O mais importante é verificar se
o atleta consegue executar arrancadas, mudanças de direção, saltos e chutes com
segurança e desempenho próximos ao nível pré-lesão", explica o
fisioterapeuta.
Lesões musculares estão cada vez mais comuns no futebol
Para os especialistas, o aumento das
lesões musculares está diretamente relacionado à evolução do futebol moderno.
"O calendário atual atingiu um nível extremamente exigente. Muitas vezes o
atleta não dispõe do tempo necessário para recuperação completa entre uma
partida e outra", afirma o médico da Afya Vitória..
Além disso, os jogadores percorrem
maiores distâncias em alta velocidade e realizam mais sprints e desacelerações
bruscas do que em décadas anteriores, aumentando a sobrecarga sobre a
musculatura.
Por isso, mesmo quando a recuperação
evolui bem, a decisão de deixar um atleta fora de uma competição costuma ser
tomada para preservar sua saúde a longo prazo.
No caso de Wesley e Estêvão, a ausência na Copa representa uma perda técnica importante para a Seleção Brasileira, mas também reflete a preocupação das equipes médicas em garantir uma recuperação completa e segura para o futuro da carreira dos dois jogadores.
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