No Brasil, 61 milhões de pessoas já convivem com essas condições;
consultas com especialistas cresceram mais de 42% no país.
Neste Dia Mundial da Alergia, celebrado em 8
de julho, a data chama a atenção para a importância do diagnóstico e do
tratamento precoce, diante do aumento da prevalência das doenças alérgicas e de
seus impactos na saúde infantil. A Organização Mundial da Saúde (OMS) calcula
que, até 2030, metade da população mundial poderá apresentar algum tipo de
alergia respiratória, alimentar ou de pele.
Atualmente, a Organização Mundial da Alergia
(WAO) estima que entre 30% e 40% das pessoas no planeta convivem com essas
condições, associadas a fatores como a urbanização, as mudanças climáticas, as
alterações ambientais e os índices de poluição atmosférica. O alergista e
professor da Afya Educação Médica Belo Horizonte, Dr Maurício Domingues
Ferreira, comenta que as doenças alérgicas constituem um dos grupos de doenças
crônicas mais prevalentes no mundo e podem acometer diferentes órgãos e
sistemas, manifestando-se desde sintomas leves até quadros potencialmente
fatais.
“Entre as principais, destacam-se a rinite
alérgica, a asma, a dermatite atópica, a urticária, as alergias alimentares, as
alergias a medicamentos e as reações a venenos de insetos. A rinite alérgica é
a forma mais frequente, comprometendo o sono, a concentração e o desempenho
escolar e profissional. A asma alérgica caracteriza-se por inflamação crônica
das vias aéreas, podendo limitar atividades físicas e, em casos graves,
representar risco de morte. A dermatite atópica cursa com eczema e prurido
intenso, frequentemente associados a distúrbios do sono e impacto emocional. As
alergias alimentares podem desencadear desde manifestações leves até
anafilaxia, enquanto a urticária crônica compromete o bem-estar e a qualidade
de vida. As alergias a medicamentos e a venenos de himenópteros, embora menos
frequentes, também podem causar reações sistêmicas graves”.
No Brasil, cerca de 61 milhões de pessoas
convivem com algum tipo de alergia. O aumento da procura por atendimento
especializado acompanha essa realidade. Um levantamento do Instituto de Estudos
de Saúde Suplementar (IESS) mostra que as consultas ambulatoriais com
alergistas e imunologistas cresceram 42,1% entre 2019 e 2022.
Dr Maurício Ferreira esclarece que o aumento
no país é entendido como consequência da interação entre alterações ambientais,
disfunção das barreiras epiteliais, desequilíbrio da microbiota e respostas
imunológicas, e não apenas como uma alteração isolada do sistema imune. Embora
a teoria da higiene tenha contribuído para essa compreensão, hoje se reconhece
que o problema envolve a redução do contato com a diversidade microbiana do
ambiente natural, essencial para o desenvolvimento da tolerância imunológica.
“A urbanização, o menor contato com a
natureza, o uso frequente de antibióticos, as mudanças na alimentação e o maior
consumo de alimentos ultraprocessados reduzem a diversidade da microbiota.
Paralelamente, poluição, fumaça, partículas de diesel e outros poluentes
danificam as barreiras epiteliais da pele, das vias respiratórias e do
intestino, facilitando a entrada de alérgenos e ativando vias de inflamação do
tipo 2. As mudanças climáticas também contribuem ao prolongar as estações
polínicas e aumentar a exposição a aeroalérgenos”, complementa o alergista.
Ele ainda ressalta que o interior das casas e
ambientes de trabalho com poeira, não são coadjuvantes nesse processo, e sim
protagonistas. Fator que se deve pelo mofo, pêlos e penas de animais,
associados a indivíduos geneticamente predispostos, que aumentam a
hipersensibilização a diversos alérgenos, desencadeando asma, rinite e
conjuntivite alérgicas. Com a urbanização, houve aumento da exposição a ácaros,
fungos e poeira, intensificando a hipersensibilização desses agentes.
Cuidados
na infância
Segundo dados do ISAAC (Estudo Internacional
de Asma e Alergias na Infância), a rinite alérgica é uma doença não contagiosa
que apresenta importante componente hereditário. Crianças com ambos os pais
alérgicos possuem maior risco de desenvolver a condição, com estimativa de
probabilidade entre 50% e 70%. A doença é mais frequente após os dois anos de
idade, acometendo aproximadamente 26% das crianças e cerca de 30% dos
adolescentes.
A médica pediatra e professora da Afya Itajubá,
Dra Glenia Junqueira Machado Medeiros, explica que a rinite alérgica é muito
frequente na infância e costuma se manifestar por espirros repetidos, coriza
com secreção transparente, coceira no nariz, nos olhos e na garganta, além de
obstrução nasal persistente.
“Alguns sinais físicos também podem chamar a
atenção, como olheiras, uma linha horizontal no nariz causada pelo hábito de
esfregá-lo constantemente conhecida como “saudação alérgica” e pequenas dobras
abaixo das pálpebras inferiores. Crianças com nariz frequentemente entupido
podem passar a respirar pela boca, principalmente durante o sono, o que, se
persistente, pode interferir no desenvolvimento da face e da arcada dentária. A
presença desses sintomas de forma contínua deve motivar uma avaliação
pediátrica”.
Dra Glenia Medeiros destaca que as doenças
alérgicas podem se apresentar de maneiras diferentes ao longo do crescimento da
criança, em um processo conhecido como marcha atópica. Nos primeiros anos de
vida, são mais comuns as alergias alimentares e a dermatite atópica, que
provoca pele seca, vermelhidão e coceira intensa. Na fase pré-escolar e
escolar, passam a ser mais frequentes as alergias respiratórias, principalmente
a asma e a rinite alérgica. Na adolescência e na vida adulta, a rinite tende a
se tornar a manifestação alérgica predominante, podendo impactar
significativamente a qualidade de vida, o sono e o desempenho escolar.
Embora a predisposição genética tenha grande
influência, algumas medidas podem ajudar a reduzir o risco de desenvolver
doenças alérgicas. “O aleitamento materno exclusivo nos primeiros seis meses de
vida é uma das principais recomendações, por contribuir para o amadurecimento
do sistema imunológico. Também é fundamental evitar a exposição ao cigarro, tanto
durante a gestação quanto após o nascimento, já que a fumaça do tabaco aumenta
o risco de asma e rinite. Além disso, manter a casa bem ventilada, controlar a
umidade, evitar mofo e reduzir a exposição a irritantes ambientais são medidas
importantes. Atualmente, também se reconhece que o contato saudável com
ambientes naturais e maior diversidade de microrganismos pode favorecer o
desenvolvimento equilibrado do sistema imunológico e contribuir para a
prevenção das alergias”, conclui a pediatra.