Sequência Anemia-Policitemia (TAPS) entre gêmeos pode evoluir sem sinais aparentes, traz risco de morte aos bebês e desafia especialistas em medicina fetal em todo o mundo
A gestação de gêmeos idênticos que
compartilham a mesma placenta, conhecida como gravidez monocoriônica, apresenta
desafios únicos para médicos e pacientes. Entre as complicações mais complexas
e menos conhecidas está a TAPS (Twin Anemia Polycythemia Sequence) ou Sequência
Anemia-Policitemia entre Gêmeos, uma condição rara e potencialmente grave que
pode comprometer a saúde dos fetos mesmo na ausência dos sinais clássicos
observados em outras complicações gemelares.
A doença ocorre quando pequenos vasos
sanguíneos microscópicos presentes na placenta permitem uma transferência
lenta, contínua e desigual de sangue entre os fetos. Como resultado, um
dos gêmeos torna-se progressivamente anêmico por perder sangue para o irmão,
enquanto o outro desenvolve policitemia, caracterizada pelo excesso de glóbulos
vermelhos, tornando o sangue mais espesso e dificultando sua circulação.
De acordo com o Prof. Dr. Rodrigo Ruano,
uma das maiores referências em Medicina Fetal e Cirurgia Fetal no Brasil e no
exterior, especialmente nos Estados Unidos, onde desenvolveu parte
significativa de sua carreira acadêmica e assistencial, a TAPS representa um
dos maiores desafios diagnósticos das gestações monocoriônicas.
“O grande problema da TAPS é que ela costuma
evoluir de forma silenciosa. Diferentemente da Síndrome da Transfusão
Feto-Fetal clássica, não existe uma alteração evidente da quantidade de líquido
amniótico que chame a atenção durante os exames de rotina. Isso faz com que o
diagnóstico dependa de uma vigilância especializada e de exames Doppler
realizados por equipes experientes em medicina fetal”, explica o especialista.
Reconhecido internacionalmente por sua
contribuição ao desenvolvimento e à introdução de diversas técnicas avançadas
de cirurgia fetal minimamente invasiva, o Dr. Rodrigo Ruano destaca que a
identificação precoce da condição pode ser determinante para o prognóstico dos
bebês.
A TAPS é considerada uma variante da Síndrome
da Transfusão Feto-Fetal (TTTS), mas apresenta características muito distintas.
Enquanto a TTTS geralmente surge entre a 16ª e a 26ª semana de gestação e
provoca diferenças marcantes no volume de líquido amniótico dos fetos, a TAPS
frequentemente aparece mais tardiamente, muitas vezes no terceiro trimestre,
sem alterações visíveis no líquido amniótico.
Além dos casos espontâneos, a literatura
médica demonstra que a condição também pode surgir após procedimentos de laser
fetoscópico realizados para tratar a própria Síndrome da Transfusão Feto-Fetal.
Estudos internacionais apontam incidência variando entre 2% e 16% após essas
intervenções.
O diagnóstico da TAPS é realizado por meio da
avaliação Doppler da Artéria Cerebral Média (ACM), um exame ultrassonográfico
especializado que mede a velocidade do fluxo sanguíneo cerebral fetal. Quando um
dos fetos apresenta anemia, o sangue circula mais rapidamente, enquanto no feto
policitêmico o fluxo torna-se mais lento devido ao aumento da viscosidade
sanguínea.
Pesquisas publicadas em importantes
periódicos científicos internacionais, como Ultrasound in Obstetrics &
Gynecology, American Journal of Obstetrics and Gynecology e Prenatal
Diagnosis, demonstram que a avaliação da Velocidade Sistólica Máxima da
Artéria Cerebral Média tornou-se o método mais eficaz para a identificação
precoce da doença, permitindo intervenções antes que ocorram danos permanentes.
Sem tratamento adequado, a TAPS pode
provocar anemia fetal grave, insuficiência cardíaca, restrição de crescimento
intrauterino, sofrimento fetal, alterações neurológicas, prematuridade e até
óbito fetal.
Estudos conduzidos por pesquisadores da Universidade de Leiden, na Holanda,
considerada um dos principais centros mundiais de pesquisa sobre a doença,
mostram que o diagnóstico precoce e o tratamento oportuno reduzem
significativamente os riscos de sequelas neurológicas e aumentam as taxas de
sobrevivência dos bebês.
Segundo o Prof. Dr. Rodrigo Ruano, o
tratamento deve ser individualizado e definido de acordo com a idade
gestacional, a gravidade do quadro e as condições clínicas dos fetos.
“Cada caso exige uma análise cuidadosa. Em
algumas situações, o monitoramento intensivo e a antecipação do parto podem ser
a melhor estratégia. Em outras, podemos lançar mão de procedimentos altamente
especializados, como a cirurgia fetoscópica a laser para interromper as
conexões vasculares placentárias responsáveis pela transferência desigual de
sangue ou, ainda, realizar transfusões sanguíneas intrauterinas para corrigir a
anemia do feto doador”, afirma.
Nas últimas décadas, os avanços
tecnológicos e o aperfeiçoamento das técnicas de cirurgia fetal revolucionaram
o manejo dessas complicações. O próprio Dr. Rodrigo Ruano participou
ativamente desse processo, sendo responsável pela introdução e disseminação de
importantes procedimentos fetais minimamente invasivos em centros de excelência
no Brasil e no exterior.
Para o especialista, o principal desafio continua
sendo garantir que toda gestação monocoriônica (gestação gemelar em que os
bebês compartilham a mesma placenta) receba acompanhamento adequado desde o
início da gravidez.
“A TAPS é uma doença rara, mas suas
consequências podem ser extremamente graves quando não diagnosticada. Por isso,
toda gestação de gêmeos que compartilham a mesma placenta deve ser acompanhada
por profissionais capacitados em medicina fetal. O diagnóstico precoce continua
sendo nossa melhor ferramenta para preservar a saúde, o desenvolvimento e a
qualidade de vida desses bebês”, conclui o Prof. Dr. Rodrigo Ruano.
Com o avanço das técnicas diagnósticas e terapêuticas, a Medicina Fetal vem ampliando cada vez mais sua capacidade de intervir antes do nascimento, oferecendo novas perspectivas para gestações consideradas de alto risco e reforçando a importância do acompanhamento especializado em centros com experiência no tratamento de doenças fetais complexas.
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