Mudanças na rotina, excesso de barulho e ambientes agitados podem provocar desorientação, ansiedade e irritabilidade; adaptação do ambiente permite participação inclusiva nas celebrações
Na Copa do Mundo, milhões de brasileiros acompanham
ansiosamente o evento como um todo e a Seleção Brasileira em particular. O
período é marcado por reuniões familiares e de amigos, confraternizações e
muita torcida. Ruas, casas, clubes e até locais públicos se transformam em
verdadeiras arquibancadas improvisadas, com direito a muitas pessoas
aglomeradas, barulho de corneta, gritos e fogos de artifício.
Porém, nem todas as pessoas se sentem confortável,
empolgadas ou até mesmo felizes com o ambiente descrito acima. É o caso das
pessoas com algum tipo de demência, como a doença de Alzheimer.
Segundo o Relatório Nacional sobre Demência,
divulgado pelo Ministério da Saúde, cerca de 8,5% dos brasileiros com 60 anos
ou mais convivem com algum tipo de demência, o que representa aproximadamente
1,8 milhão de pessoas. A condição é mais frequente entre idosos e tende a
crescer nas próximas décadas em razão do envelhecimento populacional.
Especialistas alertam para alguns cuidados
fundamentais que podem garantir o bem-estar dessas pessoas, especialmente em
períodos como o final de ano ou a Copa do Mundo. Durante grandes eventos,
mudanças bruscas na rotina podem gerar desconforto para pessoas com algum tipo
de comprometimento cognitivo. Alteração nos horários das atividades habituais
como refeições e descanso podem aumentar a confusão mental e a sensação de
insegurança.
“É de fundamental importância preservar ao máximo a
rotina da pessoa com demência. A Copa pode e deve ser um momento de integração
familiar, mas sem que isso gere algum tipo de problema ou sobrecarga emocional
ou sensorial para a pessoa com demência ou até mesmo para o seu cuidador.
Pequenas adaptações no ambiente fazem toda a diferença para que ela participe
de forma segura e confortável”, afirma Christiano Barbosa, presidente da Associação
de Parentes e Amigos de Pessoas com Alzheimer (APAZ-RJ).
Entre as recomendações mais importantes está a
escolha ou disponibilização de ambientes mais tranquilos para assistir às
partidas. O excesso de ruídos, gritos, buzinas, o ambiente de tensão ocasionado
por uma disputa de pênalti, por exemplo, ou comemorações intensas podem
provocar irritabilidade, ansiedade e até episódios de agitação. Sempre que
possível, é recomendável disponibilizar um espaço mais reservado para que a
pessoa possa descansar caso se sinta desconfortável.
A alimentação também merece atenção especial.
Nessas ocasiões, é comum o consumo de alimentos diferentes daqueles que a
pessoa está habituada a comer e, dependendo do estágio da demência, podem existir
dificuldades de mastigação ou deglutição, aumentando o risco de engasgos. Por
isso, os cuidadores devem observar a consistência dos alimentos e acompanhar as
refeições de perto.
Outro fator para se ficar atento é observar sinais
de cansaço ou sobrecarga emocional. Mudanças de humor, inquietação, aumento da
confusão mental ou isolamento são indicativos que o ambiente pode estar muito
estimulante para a pessoa.
“Não devemos excluir as pessoas com demência das
celebrações. Pelo contrário, a participação social é importante para a manutenção
dos vínculos afetivos e para a qualidade de vida. O que precisamos é adaptar o
ambiente às necessidades de cada pessoa, respeitando seus limites e promovendo
acolhimento”, pondera Barbosa.
O presidente da APAZ-RJ ressalta ainda a
importância de se compreender que cada pessoa vivencia a doença de forma
diferente. “Com planejamento prévio, conscientização e respeitando as
necessidades e a individualidade de cada pessoa, a Copa do Mundo pode se
transformar em uma oportunidade de fortalecer laços familiares, criar momentos
prazerosos, despertar lembranças agradáveis à pessoa com demência e
proporcionar a ela um sentimento de pertencimento e inclusão”, finaliza.

Nenhum comentário:
Postar um comentário