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quarta-feira, 17 de junho de 2026

Festas juninas: qual o papel da genética na compulsão alimentar?

Entenda como fatores genéticos podem influenciar a relação com a comida e por que isso vai muito além da falta de disciplina durante as celebrações


Pamonha, canjica, bolo de milho, pé de moleque e quentão. As festas juninas são sinônimo de tradição, encontros e mesas repletas de sabores que fazem parte da memória afetiva dos brasileiros. Mas, enquanto algumas pessoas conseguem parar na primeira fatia de bolo, outras sentem dificuldade em resistir a mais uma porção. O que pouca gente sabe é que essa relação com a comida pode ser influenciada não apenas por hábitos e emoções, mas também pela genética.

Estudos científicos indicam que fatores genéticos podem influenciar mecanismos relacionados ao comportamento alimentar, incluindo apetite, saciedade e predisposição à compulsão alimentar. Essa relação ganha relevância diante de evidências recentes que apontam o impacto desse transtorno na saúde da população. Um estudo publicado em 2025 no Journal of Human Growth and Development¹ mostrou que a compulsão alimentar é mais frequente do que se imagina e está associada a diversas doenças crônicas.

A pesquisa, conduzida com quase 3 mil adultos da região metropolitana de São Paulo, identificou que 4,7% dos participantes apresentaram transtorno da compulsão alimentar periódica ao longo da vida, enquanto 9% relataram episódios recorrentes de compulsão alimentar.

Os resultados também apontaram maior prevalência da condição entre mulheres e adultos mais jovens. Além disso, indivíduos com compulsão alimentar apresentaram taxas mais elevadas de hipertensão, dores crônicas, artrite, doenças pulmonares e distúrbios gastrointestinais.

Segundo os autores, os achados reforçam a importância da identificação precoce e do acompanhamento adequado dos transtornos alimentares, considerando seus impactos tanto na saúde mental quanto na saúde física e na qualidade de vida.Já uma revisão científica publicada em 2024 na Nutrients² destaca que determinados genes desempenham papel importante na regulação do apetite, do metabolismo e do acúmulo de gordura corporal.

Entre eles estão variantes nos genes FTO, associado a uma maior ingestão calórica e ao comer emocional; MC4R, envolvido nos mecanismos de saciedade e no controle do peso corporal; e genes como DRD2 e OPRM1, que atuam no sistema de recompensa cerebral e podem influenciar a busca por alimentos altamente palatáveis. Estudos também investigam variantes específicas, como FTO rs9939609, MC4R rs17782313 e CLOCK rs1801260, associadas a diferenças na regulação do apetite, no comportamento alimentar e na resposta aos estímulos de recompensa relacionados à comida².

"Nas últimas décadas, os avanços da genética permitiram compreender melhor por que algumas pessoas apresentam maior suscetibilidade a determinados comportamentos alimentares. Hoje sabemos que variantes em genes relacionados ao controle da fome, da saciedade e dos mecanismos de recompensa cerebral podem influenciar a forma como cada indivíduo responde aos estímulos alimentares.

No entanto, é importante destacar que essas características atuam em conjunto com fatores ambientais e comportamentais. A genética não determina o comportamento alimentar, mas ajuda a explicar diferenças individuais que podem contribuir para uma abordagem mais personalizada da saúde e da nutrição", afirma Gustavo Guida, geneticista da Dasa Genômica e do laboratório Sérgio Franco, no Rio de Janeiro. 



O poder do ambiente nas “recompensas alimentares”

 Além dos fatores genéticos, o ambiente exerce forte influência sobre o comportamento alimentar. Uma revisão de escopo sobre o impacto dos alimentos ultraprocessados na saúde mostrou que a exposição frequente a esses produtos está associada ao aumento do consumo energético, ao ganho de peso e a desfechos metabólicos desfavoráveis³.

Em um estudo clínico randomizado conduzido pelo National Institutes of Health (NIH), indivíduos expostos a uma dieta composta predominantemente por alimentos ultraprocessados consumiram, em média, 508 calorias a mais por dia do que aqueles que receberam uma dieta baseada em alimentos minimamente processados. Após apenas duas semanas, os participantes apresentaram ganho médio de 0,9 kg⁴.

Os resultados reforçam como a combinação entre predisposição biológica e ampla oferta de alimentos ricos em açúcar, gordura e sódio pode favorecer episódios de compulsão e excessos alimentares. Pesquisas em neurociência também demonstram que alimentos ricos em açúcar e gordura ativam circuitos cerebrais relacionados à recompensa, estimulando a liberação de dopamina é o neurotransmissor associado às sensações de prazer e motivação.

Esse mecanismo ajuda a explicar por que determinados alimentos despertam desejo intenso e podem levar algumas pessoas a continuarem comendo mesmo após a sensação fisiológica de saciedade."Hoje sabemos que a genética pode influenciar diferentes mecanismos relacionados ao comportamento alimentar. Algumas variantes genéticas afetam a produção de hormônios ligados à fome e à saciedade, enquanto outras atuam diretamente nos circuitos cerebrais de recompensa. Isso ajuda a explicar por que algumas pessoas sentem mais dificuldade para interromper o consumo de alimentos ricos em açúcar e gordura ou apresentam maior tendência ao comer emocional.

A genética não determina comportamentos, mas pode aumentar ou reduzir a suscetibilidade a determinados padrões alimentares", explica Ricardo Di Lazzaro, médico doutor em Genética e fundador da Genera, marca da Dasa, líder em medicina diagnóstica no Brasil.Em conjunto com fatores emocionais, comportamentais e ambientais, essas características podem influenciar a forma como cada pessoa percebe a fome, a saciedade e responde aos estímulos alimentares do dia a dia, especialmente em contextos de maior oferta de alimentos altamente palatáveis.

"Na prática, testes genéticos podem ajudar a identificar variantes associadas a aspectos como saciedade, preferência alimentar, metabolismo energético e maior suscetibilidade a padrões de comportamento alimentar. Essas informações não servem para prever escolhas individuais nem para determinar diagnósticos, mas podem complementar a avaliação clínica e nutricional, contribuindo para estratégias mais personalizadas e realistas para cada pessoa", afirma Giovana Hirata, nutricionista do Alta Diagnósticos, marca premium da Dasa."Comer vai muito além da necessidade biológica.

A alimentação envolve aspectos culturais, emocionais e sociais que fazem parte da nossa história. Durante as festas juninas, por exemplo, muitos alimentos típicos estão associados a lembranças afetivas, encontros familiares e momentos de celebração.

Quando esses fatores emocionais se somam a mecanismos biológicos ligados ao prazer e à recompensa, a experiência alimentar se torna ainda mais complexa. Por isso, compreender o papel da genética e do ambiente ajuda a promover uma relação mais consciente e equilibrada com a comida, sem culpa ou restrições excessivas", finaliza Ricardo Di Lazzaro.



Referências

1. Link

2. Alshammari M, AlShammari A, Alshammari M et al. Genetic Factors and Obesity: Insights into Appetite Regulation, Metabolism, and Body Weight Control. National Library of Medicine, 2024. Disponível em: Link

3. Lane MM, Davis JA, Beattie S et al. Ultra-Processed Food Exposure and Adverse Health Outcomes: Umbrella Review of Epidemiological Meta-Analyses. Disponível em: Link

4. Hall KD, Ayuketah A, Brychta R et al. Ultra-Processed Diets Cause Excess Calorie Intake and Weight Gain: An Inpatient Randomized Controlled Trial of Ad Libitum Food Intake. Cell Metabolism, 2019. Disponível em: Link5. Link


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