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quarta-feira, 17 de junho de 2026

10 coisas que você precisa saber sobre a nova droga para câncer de pâncreas que foi destaque na ASCO 2026

Estudo apresentado na ASCO 2026 mostrou que o daraxonrasib praticamente dobrou a sobrevida de pacientes com câncer de pâncreas metastático previamente tratados. Entenda quem pode se beneficiar da nova droga, como ela funciona e por que os resultados chamaram a atenção dos especialistas no maior evento de Oncologia Clínica, em Chicago 

 

O estudo mais comentado da ASCO 2026, principal congresso mundial de oncologia clínica, realizado em Chicago, nos Estados Unidos apresentou resultados promissores para pacientes com câncer de pâncreas avançado e o assunto teve ampla repercussão mundial nas últimas semanas. Em dez tópicos, o cirurgião oncológico brasileiro Felipe José Fernández Coimbra, secretário-geral da Sociedade Mundial de Cirurgia Oncológica (WSSO), explica o motivo para o tema ter sido o destaque do evento. A pesquisa avaliou uma nova droga chamada daraxonrasib e mostrou aumento da sobrevida, maior controle da doença, mais respostas tumorais e menos efeitos adversos graves em comparação com a quimioterapia utilizada atualmente nesse cenário. Embora ainda existam perguntas importantes sem resposta, os dados representam um dos avanços mais relevantes observados nos últimos anos para esse tipo de tumor. Confira as dez informações para entender o que os resultados realmente significam: 


1 - O estudo foi realizado em um dos cânceres mais difíceis de tratar

Embora represente uma parcela relativamente pequena dos diagnósticos de câncer, o câncer de pâncreas está entre as principais causas de morte pela doença em todo o mundo. Isso acontece porque os sintomas costumam surgir apenas em fases mais avançadas, quando o tumor já cresceu significativamente ou se espalhou para outros órgãos. Como consequência, muitos pacientes recebem o diagnóstico quando as possibilidades de cura já são limitadas.

Além disso, o câncer de pâncreas é conhecido por seu comportamento agressivo e por responder menos aos tratamentos do que outros tumores. Nas últimas décadas, a oncologia registrou avanços importantes em áreas como câncer de mama, pulmão, melanoma e alguns tumores hematológicos. No entanto, os progressos no câncer de pâncreas ocorreram de forma mais lenta, fazendo com que a doença continuasse associada a altas taxas de mortalidade e poucas opções terapêuticas capazes de mudar significativamente seu prognóstico.

Foi justamente nesse cenário que o daraxonrasib chamou a atenção dos especialistas durante a ASCO 2026. O estudo envolveu pacientes com adenocarcinoma ductal pancreático metastático, a forma mais comum do câncer de pâncreas. Isso significa que a doença já havia se espalhado para outras partes do corpo, como fígado, pulmões ou peritônio. Nessa fase, a cirurgia normalmente deixa de ser uma opção curativa e o tratamento passa a ter como objetivos controlar o crescimento do tumor, aliviar sintomas, preservar a qualidade de vida e prolongar a sobrevida.

Por se tratar de uma população com doença avançada e prognóstico historicamente desfavorável, qualquer ganho consistente em sobrevida ou controle tumoral costuma despertar grande interesse da comunidade científica. É uma das razões pelas quais os resultados do daraxonrasib foram considerados um dos destaques do congresso deste ano.


2 - Os pacientes já haviam recebido outros tratamentos e é justamente por isso que o estudo chamou a atenção

O daraxonrasib não foi testado em pessoas recém-diagnosticadas com câncer de pâncreas. Todos os participantes já haviam recebido tratamento anterior e apresentaram progressão da doença. Em outras palavras, neste grupo de pacientes, o câncer continuou crescendo apesar das terapias utilizadas até então.

No câncer de pâncreas metastático, o tratamento inicial geralmente envolve combinações de quimioterapia. Quando a doença volta a crescer ou deixa de responder, os médicos precisam recorrer a outras opções terapêuticas, conhecidas como segunda ou terceira linha de tratamento. Historicamente, os resultados nessa fase costumam ser mais limitados.

É justamente nesse contexto que o daraxonrasib foi estudado. A droga pertence a uma categoria chamada terapia-alvo. Diferentemente da quimioterapia, que atua principalmente sobre células que se multiplicam rapidamente, as terapias-alvo procuram bloquear mecanismos específicos que ajudam o tumor a crescer.

Uma forma simples de entender a diferença é imaginar uma árvore cheia de galhos. A quimioterapia tenta reduzir o crescimento da árvore como um todo. Já a terapia-alvo procura identificar qual raiz está alimentando aquele crescimento e interferir diretamente nela.

No caso do daraxonrasib, o alvo é uma via molecular relacionada ao gene KRAS, alterada em mais de 90% dos adenocarcinomas pancreáticos. Muitos especialistas descrevem essa alteração como um acelerador travado na posição máxima. Mesmo quando a célula deveria parar de crescer, ela continua recebendo sinais para se multiplicar. O objetivo da nova droga é justamente interferir nesse mecanismo.


3 - O estudo comparou a nova droga diretamente com a quimioterapia

Os pesquisadores recrutaram 500 pacientes na América do Norte, Europa e Ásia e os distribuíram aleatoriamente para receber daraxonrasib ou quimioterapia. Esse tipo de comparação direta é considerado um dos métodos mais rigorosos da pesquisa clínica porque permite avaliar se o novo tratamento realmente oferece vantagens em relação ao padrão atualmente utilizado.

Estudos desse tipo são fundamentais para demonstrar se um novo medicamento produz benefícios reais para os pacientes. Ao comparar diretamente as duas estratégias, os pesquisadores conseguem avaliar diferenças em sobrevida, controle da doença, resposta tumoral e segurança.


4 - A sobrevida praticamente dobrou

O principal resultado do estudo foi o aumento da sobrevida global. Os pacientes tratados com daraxonrasib alcançaram uma sobrevida mediana de 13,2 meses. Entre aqueles que receberam quimioterapia, a sobrevida foi de aproximadamente 6,7 meses.

Embora os números absolutos possam parecer modestos para quem não está familiarizado com a oncologia, a diferença chamou atenção porque ganhos dessa magnitude são raramente observados em pacientes com câncer de pâncreas metastático previamente tratado. 


5 - O ganho de alguns meses é considerado relevante pelos especialistas

Uma dúvida comum é por qual motivo um aumento de sobrevida de alguns meses pode ser considerado importante. A resposta está no contexto da doença. O câncer de pâncreas continua sendo um dos tumores mais agressivos da medicina. Apesar dos avanços observados em diversas áreas da oncologia nas últimas décadas, poucas terapias conseguiram alterar de forma significativa a evolução natural desse câncer, especialmente quando ele já se encontra metastático.

Por isso, os especialistas não analisam apenas o número absoluto de meses ganhos, mas também o tamanho do benefício em relação ao que existia anteriormente. No estudo apresentado na ASCO 2026, a sobrevida mediana passou de aproximadamente 6,7 meses para 13,2 meses. Na prática, isso significa que os pacientes tratados com a nova droga viveram quase o dobro do tempo observado no grupo que recebeu quimioterapia.

Segundo o cirurgião oncológico Felipe José Fernández Coimbra, secretário-geral da Sociedade Mundial de Cirurgia Oncológica (WSSO), os resultados precisam ser interpretados dentro da realidade da doença. “Quando falamos de câncer de pâncreas metastático, estamos diante de um cenário em que os avanços costumam ocorrer de forma incremental. Por isso, observar um ganho dessa magnitude em pacientes previamente tratados chama a atenção e merece ser acompanhado com muito cuidado pela comunidade oncológica”, afirma Coimbra, que é também coordenador da Comissão de Neoplasias Hepato-Bilio-Pancreáticas da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) e Líder do Centro de Referência em Tumores do Aparelho Digestivo Alto do A.C.Camargo Cancer Center. 


6 - Mais pacientes tiveram redução dos tumores

Nem sempre um tratamento que aumenta a sobrevida consegue reduzir significativamente os tumores. Por isso, outro resultado que chamou atenção foi a taxa de resposta objetiva, indicador utilizado para medir quantos pacientes apresentaram diminuição importante das lesões cancerosas. Entre os pacientes tratados com daraxonrasib, a taxa de resposta foi de 31,6%. No grupo que recebeu quimioterapia, esse percentual foi de 11,2%.

Na prática, isso significa que aproximadamente um em cada três pacientes apresentou redução relevante dos tumores com a nova droga, quase três vezes mais do que com o tratamento convencional. Para muitos pacientes, isso pode representar não apenas controle da doença, mas também redução de sintomas relacionados ao crescimento tumoral. “Isso também abre a oportunidade para novos estudos desta droga combinadas a cirurgia em tumores inicialmente não passíveis de serem removidos”, afirma Coimbra.


7 - A doença demorou mais para voltar a crescer

Além de aumentar a sobrevida, o daraxonrasib conseguiu prolongar o tempo de controle da doença. A chamada sobrevida livre de progressão foi de 7,2 meses entre os pacientes tratados com a nova terapia, contra 3,6 meses no grupo que recebeu quimioterapia.

Esse indicador mede quanto tempo o câncer permanece estável antes de voltar a crescer. Embora não represente cura, ele ajuda os médicos a avaliar por quanto tempo um tratamento consegue manter a doença sob controle.

Quando um medicamento consegue retardar a progressão tumoral, os pacientes tendem a permanecer por mais tempo em uma mesma estratégia terapêutica antes da necessidade de novas mudanças de tratamento.


8 - Você sabia que a proteína atacada pela droga foi considerada “inalcançável” durante décadas?

Hoje a proteína KRAS é um dos alvos mais estudados da oncologia, mas por muitos anos ela foi considerada praticamente impossível de ser bloqueada por medicamentos. Os cientistas sabiam que ela desempenhava papel central no crescimento de vários tipos de câncer, incluindo o de pâncreas. O problema era encontrar uma forma de interferir nesse mecanismo de maneira eficaz.

Uma analogia usada por especialistas é imaginar uma fechadura cujo mecanismo interno está desgastado. A chave até consegue entrar, mas não encontra os pontos necessários para girar e acionar o sistema. Durante décadas, os pesquisadores tentaram encontrar formas de interferir nessa engrenagem sem sucesso clínico consistente.

Por isso, muitos consideram que os resultados do daraxonrasib representam mais do que o sucesso de uma única droga. Eles demonstram que um dos principais motores biológicos do câncer de pâncreas pode finalmente começar a ser controlado terapeuticamente.


9 - O tratamento apresentou menos efeitos adversos graves do que a quimioterapia

Os resultados não mostraram apenas benefícios em eficácia. Eventos adversos graves ocorreram em 43,6% dos pacientes tratados com daraxonrasib, contra 57,5% daqueles que receberam quimioterapia.

A necessidade de interromper o tratamento por toxicidade também foi menor: apenas 1,2% dos pacientes deixaram de usar a droga devido aos efeitos colaterais, enquanto esse percentual chegou a 11,2% no grupo controle.

Embora nenhum tratamento oncológico seja totalmente livre de efeitos adversos, esses resultados sugerem que o benefício clínico observado não ocorreu à custa de um aumento importante da toxicidade.


10 - Ainda existem perguntas sem resposta e a droga não está disponível no Brasil

Apesar dos resultados apresentados na ASCO 2026, o daraxonrasib não deve ser interpretado como uma cura para o câncer de pâncreas. O estudo foi realizado exclusivamente em pacientes com doença metastática previamente tratada. Ainda não se sabe qual será o desempenho da droga quando utilizada em fases mais precoces da doença, se ela poderá ser combinada à imunoterapia ou se terá algum papel antes ou depois da cirurgia.

Como destaca Felipe Coimbra, uma das questões mais importantes agora é entender como este avanço poderá ser incorporado ao longo da jornada do paciente. “Se estamos aprendendo a controlar melhor a doença avançada, uma pergunta inevitável é o que poderá acontecer quando essas estratégias forem testadas mais cedo, em pacientes que ainda têm possibilidade de cirurgia, principalemente por que a cirurgia ainda é o principal tratamento com chance de cura desta doença”, observa.

Além disso, o medicamento ainda está em avaliação regulatória e não está disponível para uso rotineiro no Brasil. Embora os resultados aumentem as expectativas em relação à futura aprovação da droga, ainda não há definição sobre quando ela poderá chegar aos pacientes brasileiros. 

 

Felipe Coimbra – Médico cirurgião oncológico referência nacional e mundial em câncer abdominal, Felipe José Fernández Coimbra se graduou em Medicina pela Universidade Federal do Pará, fez Residência Médica em Cirurgia Geral na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e em Cirurgia Oncológica no A.C.Camargo Cancer Center, em São Paulo. Atualmente é secretário-geral da Sociedade Mundial de Cirurgia Oncológica (WSSO), diretor do Instituto Integra e líder do Centro de Referência de Tumores do Aparelho Digestivo Alto do A.C.Camargo. Presidiu a Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncologia no biênio 2015-2017 e foi o primeiro brasileiro a presidir a Americas Hepato-Pancreato-Biliary Association (AHPBA), em 2019/2020. Faz parte do comitê científico internacional da International Hepato Pancreato Biliary Association (IHPBA) e é representante internacional da Society of Surgical Oncology Americana (SSO).


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