Estudo apresentado
na ASCO 2026 mostrou que o daraxonrasib praticamente dobrou a sobrevida de
pacientes com câncer de pâncreas metastático previamente tratados. Entenda quem
pode se beneficiar da nova droga, como ela funciona e por que os resultados
chamaram a atenção dos especialistas no maior evento de Oncologia Clínica, em
Chicago
O estudo mais comentado da ASCO 2026, principal
congresso mundial de oncologia clínica, realizado em Chicago, nos Estados
Unidos apresentou resultados promissores para pacientes com câncer de pâncreas
avançado e o assunto teve ampla repercussão mundial nas últimas semanas. Em dez
tópicos, o cirurgião oncológico brasileiro Felipe José Fernández Coimbra,
secretário-geral da Sociedade Mundial de Cirurgia Oncológica (WSSO), explica o
motivo para o tema ter sido o destaque do evento. A pesquisa avaliou uma
nova droga chamada daraxonrasib e mostrou aumento da sobrevida, maior controle
da doença, mais respostas tumorais e menos efeitos adversos graves em
comparação com a quimioterapia utilizada atualmente nesse cenário. Embora ainda
existam perguntas importantes sem resposta, os dados representam um dos avanços
mais relevantes observados nos últimos anos para esse tipo de tumor. Confira as
dez informações para entender o que os resultados realmente significam:
1 - O estudo foi realizado em
um dos cânceres mais difíceis de tratar
Embora represente uma parcela relativamente pequena
dos diagnósticos de câncer, o câncer de pâncreas está entre as principais
causas de morte pela doença em todo o mundo. Isso acontece porque os sintomas
costumam surgir apenas em fases mais avançadas, quando o tumor já cresceu
significativamente ou se espalhou para outros órgãos. Como consequência, muitos
pacientes recebem o diagnóstico quando as possibilidades de cura já são
limitadas.
Além disso, o câncer de pâncreas é conhecido por
seu comportamento agressivo e por responder menos aos tratamentos do que outros
tumores. Nas últimas décadas, a oncologia registrou avanços importantes em
áreas como câncer de mama, pulmão, melanoma e alguns tumores hematológicos. No
entanto, os progressos no câncer de pâncreas ocorreram de forma mais lenta,
fazendo com que a doença continuasse associada a altas taxas de mortalidade e
poucas opções terapêuticas capazes de mudar significativamente seu prognóstico.
Foi justamente nesse cenário que o daraxonrasib
chamou a atenção dos especialistas durante a ASCO 2026. O estudo envolveu
pacientes com adenocarcinoma ductal pancreático metastático, a forma mais comum
do câncer de pâncreas. Isso significa que a doença já havia se espalhado para
outras partes do corpo, como fígado, pulmões ou peritônio. Nessa fase, a
cirurgia normalmente deixa de ser uma opção curativa e o tratamento passa a ter
como objetivos controlar o crescimento do tumor, aliviar sintomas, preservar a
qualidade de vida e prolongar a sobrevida.
Por se tratar de uma população com doença avançada
e prognóstico historicamente desfavorável, qualquer ganho consistente em
sobrevida ou controle tumoral costuma despertar grande interesse da comunidade
científica. É uma das razões pelas quais os resultados do daraxonrasib foram
considerados um dos destaques do congresso deste ano.
2 - Os pacientes já haviam
recebido outros tratamentos e é justamente por isso que o estudo chamou a
atenção
O daraxonrasib não foi testado em pessoas
recém-diagnosticadas com câncer de pâncreas. Todos os participantes já haviam
recebido tratamento anterior e apresentaram progressão da doença. Em outras
palavras, neste grupo de pacientes, o câncer continuou crescendo apesar das
terapias utilizadas até então.
No câncer de pâncreas metastático, o tratamento
inicial geralmente envolve combinações de quimioterapia. Quando a doença volta
a crescer ou deixa de responder, os médicos precisam recorrer a outras opções
terapêuticas, conhecidas como segunda ou terceira linha de tratamento.
Historicamente, os resultados nessa fase costumam ser mais limitados.
É justamente nesse contexto que o daraxonrasib foi
estudado. A droga pertence a uma categoria chamada terapia-alvo. Diferentemente
da quimioterapia, que atua principalmente sobre células que se multiplicam
rapidamente, as terapias-alvo procuram bloquear mecanismos específicos que ajudam
o tumor a crescer.
Uma forma simples de entender a diferença é
imaginar uma árvore cheia de galhos. A quimioterapia tenta reduzir o
crescimento da árvore como um todo. Já a terapia-alvo procura identificar qual
raiz está alimentando aquele crescimento e interferir diretamente nela.
No caso do daraxonrasib, o alvo é uma via molecular
relacionada ao gene KRAS, alterada em mais de 90% dos adenocarcinomas
pancreáticos. Muitos especialistas descrevem essa alteração como um acelerador
travado na posição máxima. Mesmo quando a célula deveria parar de crescer, ela
continua recebendo sinais para se multiplicar. O objetivo da nova droga é
justamente interferir nesse mecanismo.
3 - O estudo comparou a nova
droga diretamente com a quimioterapia
Os pesquisadores recrutaram 500 pacientes na América
do Norte, Europa e Ásia e os distribuíram aleatoriamente para receber
daraxonrasib ou quimioterapia. Esse tipo de comparação direta é considerado um
dos métodos mais rigorosos da pesquisa clínica porque permite avaliar se o novo
tratamento realmente oferece vantagens em relação ao padrão atualmente
utilizado.
Estudos desse tipo são fundamentais para demonstrar
se um novo medicamento produz benefícios reais para os pacientes. Ao comparar
diretamente as duas estratégias, os pesquisadores conseguem avaliar diferenças
em sobrevida, controle da doença, resposta tumoral e segurança.
4 - A sobrevida praticamente
dobrou
O principal resultado do estudo foi o aumento da
sobrevida global. Os pacientes tratados com daraxonrasib alcançaram uma
sobrevida mediana de 13,2 meses. Entre aqueles que receberam quimioterapia, a
sobrevida foi de aproximadamente 6,7 meses.
Embora os números absolutos possam parecer modestos
para quem não está familiarizado com a oncologia, a diferença chamou atenção
porque ganhos dessa magnitude são raramente observados em pacientes com câncer
de pâncreas metastático previamente tratado.
5 - O ganho de alguns meses é
considerado relevante pelos especialistas
Uma dúvida comum é por qual motivo um aumento de
sobrevida de alguns meses pode ser considerado importante. A resposta está no
contexto da doença. O câncer de pâncreas continua sendo um dos tumores mais
agressivos da medicina. Apesar dos avanços observados em diversas áreas da
oncologia nas últimas décadas, poucas terapias conseguiram alterar de forma
significativa a evolução natural desse câncer, especialmente quando ele já se
encontra metastático.
Por isso, os especialistas não analisam apenas o
número absoluto de meses ganhos, mas também o tamanho do benefício em relação
ao que existia anteriormente. No estudo apresentado na ASCO 2026, a sobrevida
mediana passou de aproximadamente 6,7 meses para 13,2 meses. Na prática, isso
significa que os pacientes tratados com a nova droga viveram quase o dobro do
tempo observado no grupo que recebeu quimioterapia.
Segundo o cirurgião oncológico Felipe José
Fernández Coimbra, secretário-geral da Sociedade Mundial de
Cirurgia Oncológica (WSSO), os resultados precisam ser interpretados dentro da
realidade da doença. “Quando falamos de câncer de pâncreas metastático, estamos
diante de um cenário em que os avanços costumam ocorrer de forma incremental.
Por isso, observar um ganho dessa magnitude em pacientes previamente tratados
chama a atenção e merece ser acompanhado com muito cuidado pela comunidade
oncológica”, afirma Coimbra, que é também coordenador da Comissão de Neoplasias
Hepato-Bilio-Pancreáticas da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO)
e Líder do Centro de Referência em Tumores do Aparelho Digestivo Alto do
A.C.Camargo Cancer Center.
6 - Mais pacientes tiveram
redução dos tumores
Nem sempre um tratamento que aumenta a sobrevida
consegue reduzir significativamente os tumores. Por isso, outro resultado que
chamou atenção foi a taxa de resposta objetiva, indicador utilizado para medir
quantos pacientes apresentaram diminuição importante das lesões cancerosas. Entre
os pacientes tratados com daraxonrasib, a taxa de resposta foi de 31,6%. No
grupo que recebeu quimioterapia, esse percentual foi de 11,2%.
Na prática, isso significa que aproximadamente um
em cada três pacientes apresentou redução relevante dos tumores com a nova
droga, quase três vezes mais do que com o tratamento convencional. Para muitos
pacientes, isso pode representar não apenas controle da doença, mas também
redução de sintomas relacionados ao crescimento tumoral. “Isso também abre a
oportunidade para novos estudos desta droga combinadas a cirurgia em tumores
inicialmente não passíveis de serem removidos”, afirma Coimbra.
7 - A doença demorou mais para
voltar a crescer
Além de aumentar a sobrevida, o daraxonrasib
conseguiu prolongar o tempo de controle da doença. A chamada sobrevida livre de
progressão foi de 7,2 meses entre os pacientes tratados com a nova terapia,
contra 3,6 meses no grupo que recebeu quimioterapia.
Esse indicador mede quanto tempo o câncer permanece
estável antes de voltar a crescer. Embora não represente cura, ele ajuda os
médicos a avaliar por quanto tempo um tratamento consegue manter a doença sob
controle.
Quando um medicamento consegue retardar a
progressão tumoral, os pacientes tendem a permanecer por mais tempo em uma mesma
estratégia terapêutica antes da necessidade de novas mudanças de tratamento.
8 - Você sabia que a proteína
atacada pela droga foi considerada “inalcançável” durante décadas?
Hoje a proteína KRAS é um dos alvos mais estudados
da oncologia, mas por muitos anos ela foi considerada praticamente impossível
de ser bloqueada por medicamentos. Os cientistas sabiam que ela desempenhava
papel central no crescimento de vários tipos de câncer, incluindo o de
pâncreas. O problema era encontrar uma forma de interferir nesse mecanismo de
maneira eficaz.
Uma analogia usada por especialistas é imaginar uma
fechadura cujo mecanismo interno está desgastado. A chave até consegue entrar,
mas não encontra os pontos necessários para girar e acionar o sistema. Durante
décadas, os pesquisadores tentaram encontrar formas de interferir nessa
engrenagem sem sucesso clínico consistente.
Por isso, muitos consideram que os resultados do
daraxonrasib representam mais do que o sucesso de uma única droga. Eles
demonstram que um dos principais motores biológicos do câncer de pâncreas pode
finalmente começar a ser controlado terapeuticamente.
9 - O tratamento apresentou
menos efeitos adversos graves do que a quimioterapia
Os resultados não mostraram apenas benefícios em
eficácia. Eventos adversos graves ocorreram em 43,6% dos pacientes tratados com
daraxonrasib, contra 57,5% daqueles que receberam quimioterapia.
A necessidade de interromper o tratamento por
toxicidade também foi menor: apenas 1,2% dos pacientes deixaram de usar a droga
devido aos efeitos colaterais, enquanto esse percentual chegou a 11,2% no grupo
controle.
Embora nenhum tratamento oncológico seja totalmente
livre de efeitos adversos, esses resultados sugerem que o benefício clínico
observado não ocorreu à custa de um aumento importante da toxicidade.
10 - Ainda existem perguntas
sem resposta e a droga não está disponível no Brasil
Apesar dos resultados apresentados na ASCO 2026, o
daraxonrasib não deve ser interpretado como uma cura para o câncer de pâncreas.
O estudo foi realizado exclusivamente em pacientes com doença metastática
previamente tratada. Ainda não se sabe qual será o desempenho da droga quando
utilizada em fases mais precoces da doença, se ela poderá ser combinada à
imunoterapia ou se terá algum papel antes ou depois da cirurgia.
Como destaca Felipe Coimbra, uma das questões mais
importantes agora é entender como este avanço poderá ser incorporado ao longo
da jornada do paciente. “Se estamos aprendendo a controlar melhor a doença
avançada, uma pergunta inevitável é o que poderá acontecer quando essas
estratégias forem testadas mais cedo, em pacientes que ainda têm possibilidade
de cirurgia, principalemente por que a cirurgia ainda é o principal tratamento
com chance de cura desta doença”, observa.
Além disso, o medicamento ainda está em avaliação regulatória e não está disponível para uso rotineiro no Brasil. Embora os resultados aumentem as expectativas em relação à futura aprovação da droga, ainda não há definição sobre quando ela poderá chegar aos pacientes brasileiros.
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