Mais de 392 mil internações, quase 19 mil mortes e uma conta bilionária ao sistema de saúde: Números levantados pelo Grupo IAG Saúde entre 2024 e 2025 revelam por que proteger a população idosa de quedas é uma emergência de saúde pública no Brasil
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Para muitos idosos, uma queda não é um acidente banal. É o ponto de partida para uma internação prolongada, uma cirurgia de alta complexidade, meses de reabilitação e, em muitos casos, a perda definitiva da independência. Os dados são contundentes: entre 2024 e 2025, o Sistema Único de Saúde registrou 392.784 internações hospitalares de brasileiros com 60 anos ou mais decorrentes de quedas — um volume que gerou quase R$ 813 milhões apenas em remuneração hospitalar pública. O impacto econômico real estimado ultrapassa R$ 6,5 bilhões no período.
O Dia
Mundial de Prevenção de Quedas, celebrado todo ano em 24 de junho, existe
justamente para acender o alerta sobre uma realidade que se repete com
assustadora constância. No Brasil, o envelhecimento acelerado da população
torna o problema ainda mais urgente — e os padrões observados nos dados
hospitalares não dão sinais de melhora espontânea.
A LESÃO MAIS TEMIDA
Entre
todas as consequências de uma queda, a fratura do fêmur e do quadril ocupa um
capítulo à parte na medicina geriátrica. Segundo os dados do DATASUS, a fratura
do fêmur foi a condição clínica mais prevalente dentre os idosos internados por
quedas, correspondendo a 33,9% dos casos analisados. No período estudado, foram
118.987 internações específicas por fratura de fêmur e quadril — e elas
consumiram 54% de toda a remuneração hospitalar relacionada a quedas, embora
representassem apenas cerca de um terço do total de pacientes.
POR QUE A FRATURA DE QUADRIL É TÃO PERIGOSA?
Idosos com fratura de fêmur ou quadril necessitaram de UTI com frequência muito superior em comparação ao conjunto de internados por quedas: 52,1% desse grupo necessitou de terapia intensiva, contra 35% no resultado geral. A permanência hospitalar também é maior, e o custo médio por internação chega a R$ 18,4 mil na rede avaliada — 10% acima da média global das quedas.
O
perfil de quem mais sofre com essas lesões revela um padrão epidemiológico consistente.
As mulheres representam cerca de 70% dos casos de fratura de fêmur e quadril —
reflexo da osteoporose pós-menopausa, que fragiliza os ossos ao longo das
décadas. E são justamente as pessoas mais longevas as mais vulneráveis:
aproximadamente 55% dos pacientes com essa fratura tinham 80 anos ou mais, com
idade média de 80 anos. No resultado global das quedas, a média de idade foi de
76,7 anos — o que evidencia que o problema se concentra nas faixas etárias de
maior fragilidade.
ALÉM DO QUADRIL: UM LEQUE DE LESÕES GRAVES
A fratura do fêmur domina as estatísticas, mas a queda de um idoso pode abrir caminho para um espectro amplo de lesões graves. Os dados do DATASUS mostram que, entre os idosos internados por quedas, a fratura do antebraço — de rádio ou ulna — foi a segunda condição mais frequente, correspondendo a 12,3% dos casos. Em seguida aparecem o traumatismo intracraniano (11,4%), a fratura de perna — tíbia ou fíbula — (9,3%), fratura de ombro e úmero (6,2%) e fraturas múltiplas (5,9%).
Os dados da Plataforma Valor Saúde Brasil by DRG Brasil + IA reforçam essa gravidade por outro ângulo. Entre as internações relacionadas a quedas, as cirurgias de quadril e fêmur foram o grupo de procedimentos mais frequente, representando cerca de 20,6% de todas as internações analisadas. Mas o segundo grupo mais prevalente chama atenção pelo que revela sobre a violência do impacto: casos de estupor traumático e coma corresponderam a 8,3% das internações — situações em que o idoso perdeu a consciência após a queda, indicando traumatismo craniano severo. Cirurgias para colocação de prótese de quadril ou joelho somaram outros 7,4%, e casos de hemorragia intracraniana ou infarto cerebral associados à queda chegaram a 3,2%.
A
intensidade do cuidado necessário fica evidente nos dados de terapia intensiva.
Entre todos os idosos internados por quedas, 35% passaram pela UTI. No grupo
específico de fratura de fêmur e quadril, esse percentual saltou para 52,1% —
ou seja, mais da metade desses pacientes precisou de cuidados intensivos em
algum momento da internação. O uso de ventilação mecânica atingiu 9,7% no
resultado global, dado que evidencia a proporção de casos em estado crítico.
POR DENTRO DOS NÚMEROS
A análise foi conduzida com base em duas fontes complementares: os microdados do SIH/SUS — sistema de informações hospitalares do Ministério da Saúde — e a Plataforma Valor Saúde Brasil by DRG Brasil + IA, que agrega dados de hospitais públicos e privados com metodologia de classificação por complexidade clínica. A coerência entre as duas bases fortalece a robustez das conclusões: em ambas, a predominância feminina, a concentração de casos em octogenários e a centralidade das fraturas de fêmur e quadril aparecem como constantes.
Na Plataforma Valor Saúde Brasil by DRG Brasil + IA, que avaliou mais de 80.587 internações entre 2024 e 2025, o índice de complexidade médio das internações por quedas foi de 1,76 — numa escala em que 1,0 representa uma internação de complexidade média. Na prática, isso significa que esses pacientes exigiram 76% mais recursos assistenciais do que uma internação hospitalar típica. Entre os casos de fratura de fêmur ou quadril, o impacto é ainda mais concreto: em média 9 dias de internação e custo médio superior a R$ 18 mil por paciente — valores que revelam a magnitude do que uma única queda pode representar para o sistema de saúde e para a vida de uma família.
Em São
Paulo, o cenário é ainda mais preocupante: a mortalidade hospitalar por quedas
em idosos atingiu 6,5% no estado entre 2024 e 2025 — tanto no resultado geral
quanto no recorte específico de fraturas de fêmur e quadril —, superando a
média nacional em ambos os casos. O estado concentrou 99.059 internações e
6.470 óbitos no período.
SÃO PAULO: VOLUME ALTO, MORTALIDADE ACIMA DA MÉDIA
O estado de São Paulo concentra uma fatia expressiva do problema nacional. Entre 2024 e 2025, foram 99.059 internações de idosos por quedas apenas no estado — e 6.470 óbitos hospitalares, com taxa de mortalidade de 6,5%, significativamente acima dos 4,8% registrados na média brasileira. No recorte específico de fratura de fêmur e quadril, foram 34.063 internações e 2.140 óbitos no estado, com mortalidade de 6,3%.
As
razões para essa diferença entre São Paulo e o restante do país não são
explicadas pelos dados analisados — e merecem investigação específica. Fatores
como o perfil etário mais envelhecido da população paulista, a maior densidade
de hospitais de alta complexidade que concentram casos graves, ou diferenças
nos critérios de registro podem contribuir para o resultado. O que os números
deixam claro é que a mortalidade por quedas em idosos no estado é
consistentemente mais elevada, ano após ano.
PREVENÇÃO É POSSÍVEL — E COMPENSA
A boa notícia é que quedas em idosos são, em grande medida, evitáveis. A literatura médica acumulou décadas de evidências sobre intervenções eficazes: de programas de exercício físico para fortalecimento muscular e equilíbrio à revisão de medicamentos, adaptação de ambientes domésticos e tratamento da osteoporose. O desafio está em traduzir esse conhecimento em políticas públicas consistentes e em práticas de cuidado que cheguem a todos os idosos — especialmente os mais vulneráveis.
Os dados analisados mostram uma estabilidade preocupante: os indicadores de 2024 e 2025 são praticamente idênticos em todos os parâmetros avaliados — volume de internações, perfil de idade e sexo, taxa de mortalidade e utilização de UTI. Os dados parciais de 2026, coletados até março no DATASUS e até abril na Plataforma Valor Saúde Brasil by DRG Brasil + IA, apontam na mesma direção: 49.104 internações já registradas no SUS nos primeiros meses do ano, com taxa de mortalidade de 4,6% — em linha com o padrão dos anos anteriores. O problema não está diminuindo.
Para dimensionar o que está em jogo: somente as internações por fratura de fêmur e quadril geraram, entre 2024 e 2025, um custo assistencial estimado superior a R$ 500 milhões na rede avaliada pela Plataforma — e de R$ 439 milhões em remuneração hospitalar paga pelo SUS. São recursos que, aplicados em prevenção, poderiam evitar parte substancial dessas internações. Programas de exercício físico supervisionado para idosos, revisão sistemática de medicamentos, adequação de ambientes e rastreamento de osteoporose têm custo muito inferior ao de uma cirurgia de quadril seguida de semanas de UTI e reabilitação.
Nesse
contexto, o Dia Mundial de Prevenção de Quedas não é apenas uma data
comemorativa: é um lembrete de que bilhões de reais e, principalmente, vidas e
anos de independência podem ser preservados com estratégias que já existem — e
que precisam urgentemente sair do papel.
O QUE VOCÊ PODE FAZER PARA PREVENIR QUEDAS
1. Pratique exercícios físicos regularmente, com foco em equilíbrio, força muscular e coordenação — caminhada, pilates e tai chi são opções bem estudadas para idosos.
2. Revise os medicamentos com o médico: remédios para pressão, ansiedade e sono podem causar tontura e comprometer a estabilidade ao se levantar.
3. Adapte o ambiente doméstico: instale barras de apoio no banheiro, retire tapetes soltos, melhore a iluminação dos corredores e escadas.
4. Trate a osteoporose: consulte um médico para avaliar a densidade óssea, especialmente mulheres após a menopausa, e siga as orientações sobre cálcio e vitamina D.
5. Use calçados adequados: sapatos com solado antiderrapante e bom suporte reduzem significativamente o risco de escorregões dentro e fora de casa.
Fontes: Plataforma Valor Saúde Brasil by DRG Brasil + IA (80.587 internações analisadas, 2024–2025) e Microdados SIH/SUS – DATASUS (392.784 internações, 2024–2025). Os custos do DATASUS correspondem a estimativas baseadas na remuneração hospitalar registrada no sistema público e em referências de custo da Plataforma Valor Saúde Brasil by DRG Brasil + IA.
Grupo IAG Saúde

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