Quando uma
sociedade não se lembra de suas violências, ela perde a capacidade de
reconhecer os sinais de sua repetição
Hoje, podemos acessar as histórias e
lutas de muitos de nossos ancestrais europeus, africanos e indígenas
graças à tradição oral que possuíam, de repassar suas lendas, crenças,
culturas, leis e memórias de geração em geração, e, com o
surgimento da escrita, algumas foram registradas posteriormente em
livros.
Somadas às tradições orais, a paleontologia e a
arqueologia contribuem também para a formação da identidade dos povos, com suas
diferenças e características próprias, definindo de fato quem
são: a sua personalidade, às quais tribos pertencem, quais lutas
empreenderam, quais erros cometeram e que levaram a tragédias, principalmente
contra a própria liberdade, a vida e a autorrealização.
Na ponta encontram-se os museus. Dados da Unesco
mostram que hoje existem cerca de 104 mil museus em todo o mundo. Em 1975, eram
apenas 22 mil. Esse crescimento tem demonstrado a importância de se lutar
contra o esquecimento e preservar a memória não só com acervos artísticos,
documentos e coleções científicas, mas também com peças de passados
obscuros. É o caso do museu de Auschwitz-Birkenau
(Polônia), instalado no local onde existiu o maior campo de extermínio
nazista, hoje transformado em memorial para que ninguém se esqueça das
atrocidades ali cometidas em nome do totalitarismo, recebendo atualmente mais
de 2 milhões de visitantes por ano.
Sobre o totalitarismo, a filósofa e escritora
Hannah Arendt (1906–1975), nascida alemã, mas de origem judia, escreveu em
seu livro “As origens do totalitarismo”: “O ideal do governo
totalitário é transformar os homens em algo de tal modo desumanizado
que eles se tornam incapazes de distinguir entre fato e ficção, entre verdade e
mentira”.
No Brasil, temos o Memorial da Resistência de São
Paulo, localizado no mesmo edifício onde funcionou o Deops/SP (Departamento de
Ordem Política e Social), fundado em 1924 e extinto aos poucos ao
longo da década de 1980. Em 2015 foi criado o Memorial da Democracia, um museu
virtual que registra casos de repressão política no Brasil e que trata o golpe
militar de 1964 como “a maior tragédia histórica da política brasileira com
mais de 400 brasileiros mortos pelos órgãos de repressão e outros milhares
torturados, com direitos de expressão e de manifestação suprimidos”.
Enfim, deixo aqui a reflexão de um filósofo da
atualidade, o Elias Dourado, mestre em Filosofia e doutor em Comunicação Social
pela Universidade de Brasília (UnB): “O esquecimento é perigoso porque ele não
apaga apenas fatos antigos. Ele reorganiza o presente. Quando uma sociedade
esquece suas violências, ela perde a capacidade de reconhecer os sinais de sua
repetição. O passado não volta exatamente igual, mas retorna por máscaras
novas: discursos autoritários, naturalização da desigualdade, desprezo pelos
direitos humanos, perseguição de minorias, violência política, racismo,
revisionismos e ataques às instituições democráticas. Por isso, preservar a
memória histórica não é culto ao passado. É uma forma de proteger o futuro”.
Eis, portanto, porque o
esquecimento histórico é muito perigoso para a democracia.
Nenhum comentário:
Postar um comentário