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| Uma população hiperconectada e cada vez mais ansiosa longe das telas Envato |
Com 185 milhões de usuários conectados, Brasil registra crescimento de dores cervicais e ansiedade ligadas ao uso do celular
O medo ou a
ansiedade de ficar longe do celular já afeta 60% dos brasileiros, segundo um
estudo do portal nomophobia.com. A nomofobia, popularmente conhecida como
síndrome do celular, tem avançado em meio ao crescimento do tempo de exposição
às telas e da hiperconectividade do país, especialmente entre os mais jovens.
Hoje, o Brasil soma cerca de 185 milhões de usuários de internet, de acordo com
o levantamento Digital 2026 do DataReportal, enquanto quase 90% dos
brasileiros com mais de 10 anos já utilizam o celular no dia a dia, segundo o
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O avanço desse
comportamento também aparece no tempo diário dedicado às telas. Dados da Comparitech
mostram que os brasileiros passam, em média, 9 horas e 13 minutos por dia
conectados, o segundo maior índice do mundo e bem acima da média global, de 6
horas e 40 minutos diários.
O crescimento da
dependência digital acompanha a ascensão dos vídeos curtos e da rolagem
infinita nas redes sociais. Dados do DataReportal apontam que 87,5% dos
adultos on-line assistem semanalmente a conteúdos em formatos como TikTok,
Instagram Reels e YouTube Shorts. Somando os mais de 5,66 bilhões de usuários
de redes sociais no mundo, as plataformas concentram mais de 15 bilhões de
horas de consumo diário — cenário que reforça o potencial viciante desses
conteúdos baseados em estímulos rápidos e na permanência contínua
on-line.
Para o psiquiatra
dos hospitais São Marcelino Champagnat e Universitário Cajuru, Marcelo Heyde,
esse modelo mantém o cérebro em estado constante de recompensa imediata. “Esse
excesso de estímulos pode impactar a concentração, a memória, a qualidade do
sono e a regulação da ansiedade, pois o cérebro se acostuma com as recompensas
rápidas e simples em detrimento de tarefas minimamente mais complexas”,
explica. Segundo o médico, este fenômeno, recentemente nomeado como brain rot
— ou apodrecimento cerebral —, apesar de não ser um termo técnico, ajuda a
descrever os sintomas de dependência digital, que podem reduzir o interesse por
atividades que exigem mais atenção.
Uma análise global
publicada em 2025 na revista Psychiatry Research, que reuniu dados
de mais de 30 mil participantes de 18 países, apontou que uma em cada duas
pessoas apresenta nomofobia moderada e uma em cada cinco sofre com níveis
graves do transtorno. “Trata-se de um estado de alerta constante, em que a
pessoa precisa ficar checando o celular, pelo receio de perder o assunto do
momento, gerando um estado de tensão contínua, muito semelhante ao estado de
alguém que está em sobreaviso. O cérebro passa a se acostumar com ciclos
rápidos de recompensa e hiperestimulação frequente, o que dificulta pausas e
aumenta a necessidade de permanecer conectado”, ressalta o especialista.
Impactos do uso
excessivo também atingem o corpo
Além dos efeitos
neurológicos, o uso do celular também tem ampliado os casos de dores crônicas e
problemas causados pela má postura. De acordo com o ortopedista do Hospital São
Marcelino Champagnat, Mauro Fernandes Junior, após a pandemia, houve um aumento
significativo das queixas de dores musculares e na coluna, além de desconfortos
relacionados à exposição contínua de telas. “O trabalho remoto, o ensino a
distância e o maior tempo de permanência em celulares e computadores
contribuíram para mudanças de hábito e piora da ergonomia no dia a dia”,
ressalta.
O ortopedista
afirma que, antes, esse tipo de problema era mais frequente em adultos em idade
produtiva e que, hoje, os sintomas aparecem cada vez mais cedo, inclusive em
adolescentes e jovens adultos. “Isso não significa necessariamente uma lesão
estrutural grave da coluna, mas, sim, um aumento de sobrecarga muscular, da
fadiga postural e da dor associadas ao uso prolongado de dispositivos
eletrônicos", explica.
É importante
destacar que a dor cervical costuma ter diversas causas. Além do tempo de tela,
fatores como sedentarismo, estresse, sono inadequado e má postura também
exercem grande influência. Uma das consequências é a chamada síndrome do
pescoço de texto, ou text neck, causada pela sobrecarga
gerada pela posição inclinada da cabeça durante o uso prolongado do celular. O
especialista destaca que quanto maior a flexão do pescoço, maior a carga
exercida sobre a musculatura e as estruturas da coluna cervical.
Quando a cabeça
permanece inclinada para frente durante o uso do celular, a força exercida
sobre a coluna cervical aumenta significativamente. Isso acontece porque a
gravidade intensifica a pressão sobre a região do pescoço, fazendo com que os
cerca de 5 kg da cabeça possam representar uma sobrecarga equivalente a até 27
kg. Segundo o médico, embora esses valores não representem literalmente o “peso
real” sobre a coluna, eles ajudam a mostrar como passar muito tempo em postura
inadequada pode aumentar bastante a pressão sobre o pescoço e favorecer dores e
desconfortos.
O uso repetitivo e
prolongado do celular também pode contribuir para dores musculares, tendinites
e problemas causados pela compressão dos nervos, como a síndrome do túnel do
carpo. Essa condição ocorre quando o nervo que passa pelo punho fica
pressionado, o que pode causar dor, sensação de cansaço nas mãos, formigamento
e dormência. Entre os principais sinais de alerta estão perda de força,
dificuldade para segurar objetos, dormência persistente, piora progressiva dos
sintomas e redução da coordenação motora.
Em casos mais
avançados, o ortopedista salienta que pode ocorrer perda muscular na região da
palma da mão e comprometimento da função do nervo. “Quando o quadro permanece
por muito tempo sem tratamento, parte da recuperação pode se tornar limitada,
por isso o diagnóstico precoce é fundamental", alerta.
Prevenção exige
mudanças simples na rotina
Diante de uma
rotina em que a tecnologia está cada vez mais presente, o especialista reforça
que a prevenção continua sendo a principal forma de evitar complicações.
Pequenas mudanças de hábito no dia a dia podem fazer a diferença na redução do
risco de dores e lesões, como:
·
manter o
celular mais próximo da altura dos olhos, evitando longos períodos com o
pescoço inclinado;
·
fazer
pausas regulares durante o uso prolongado de telas;
·
alternar
posições ao longo do dia;
·
praticar atividade
física regularmente;
·
fortalecer
a musculatura do pescoço, dos ombros e das costas;
·
manter
atenção à ergonomia no ambiente de trabalho e estudos, deixando o celular
virado para baixo ou fora do alcance;
·
para os
vídeos curtos, estabelecer um limite diário de tempo máximo para consumo desse
tipo de conteúdo.
Além disso,
fatores como sono adequado e controle do estresse também são fundamentais na
prevenção das dores crônicas nos músculos e nas articulações.
Hospital São Marcelino Champagnat
Hospital Universitário Cajuru

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