Entenda
a necessidade de manter os exames preventivos em dia para pacientes trans
masculinos, detalhando como a terapia hormonal com testosterona modifica o
trato urinário e reprodutor.
Apesar dos avanços na medicina e na ampliação do acesso à
saúde para a população LGBTQIAPN+, muitos homens trans ainda deixam de realizar
consultas ginecológicas por medo, desconforto ou falta de acolhimento. O
resultado é que exames preventivos importantes acabam sendo adiados ou
abandonados, aumentando o risco de doenças que poderiam ser diagnosticadas
precocemente.
Quem nasceu com útero, colo do útero e ovários continua
precisando de acompanhamento ginecológico, independentemente da identidade de
gênero. Isso significa que homens trans que não passaram por cirurgias para
retirada desses órgãos devem manter em dia exames como o preventivo do colo do
útero, além de avaliações periódicas para investigar alterações no endométrio,
nos ovários e em outras estruturas do sistema reprodutor.
Segundo o ginecologista e especialista em endometriose Dr.
Michael Zarnowski, um dos principais desafios é desmistificar a ideia de que o
acompanhamento ginecológico deixa de ser necessário após o início da transição
hormonal. “A testosterona provoca mudanças importantes no organismo, mas ela
não elimina automaticamente os riscos de doenças ginecológicas. Pelo contrário,
algumas alterações exigem ainda mais atenção e acompanhamento especializado”,
explica.
A terapia hormonal com testosterona costuma levar à
interrupção da menstruação e promove modificações no trato genital, como
atrofia da mucosa vaginal, redução da lubrificação e mudanças na flora local.
Essas alterações podem favorecer desconforto durante relações sexuais, aumentar
a predisposição a pequenas lesões e até elevar o risco de infecções urinárias e
vaginais em alguns pacientes.
Além disso, sintomas como dor pélvica, sangramentos
inesperados ou alterações urinárias nunca devem ser considerados normais ou
ignorados. “Mesmo em uso de testosterona, qualquer sangramento persistente
precisa ser investigado. Também é fundamental avaliar queixas de dor ou
desconforto para descartar doenças como endometriose, infecções ou outras
condições ginecológicas”, ressalta o médico.
Outro ponto importante é que a testosterona não funciona
como método contraceptivo. Embora muitas pessoas parem de menstruar durante o
tratamento hormonal, a ovulação pode continuar acontecendo em alguns casos,
tornando possível uma gestação caso haja relação sexual desprotegida com
parceiro produtor de espermatozoides.
Para Dr. Michael, o cuidado começa pela construção de um
ambiente seguro e respeitoso dentro do consultório. “A saúde ginecológica não
deve ser associada ao gênero, mas aos órgãos que a pessoa possui e aos riscos
relacionados a eles. O atendimento humanizado faz toda a diferença para que
homens trans consigam realizar seus exames preventivos sem constrangimento e
com tranquilidade.”
Mais do que uma consulta de rotina, o acompanhamento
periódico representa uma estratégia de prevenção que pode identificar
precocemente alterações importantes e preservar a qualidade de vida. Romper o
tabu em torno desses cuidados é um passo essencial para garantir que a
população trans tenha acesso a uma assistência completa, baseada em evidências
e livre de preconceitos.
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