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quarta-feira, 17 de junho de 2026

Cuidados invisíveis: a importância da rotina ginecológica na saúde de homens trans

Entenda a necessidade de manter os exames preventivos em dia para pacientes trans masculinos, detalhando como a terapia hormonal com testosterona modifica o trato urinário e reprodutor. 

 

Apesar dos avanços na medicina e na ampliação do acesso à saúde para a população LGBTQIAPN+, muitos homens trans ainda deixam de realizar consultas ginecológicas por medo, desconforto ou falta de acolhimento. O resultado é que exames preventivos importantes acabam sendo adiados ou abandonados, aumentando o risco de doenças que poderiam ser diagnosticadas precocemente.

Quem nasceu com útero, colo do útero e ovários continua precisando de acompanhamento ginecológico, independentemente da identidade de gênero. Isso significa que homens trans que não passaram por cirurgias para retirada desses órgãos devem manter em dia exames como o preventivo do colo do útero, além de avaliações periódicas para investigar alterações no endométrio, nos ovários e em outras estruturas do sistema reprodutor.

Segundo o ginecologista e especialista em endometriose Dr. Michael Zarnowski, um dos principais desafios é desmistificar a ideia de que o acompanhamento ginecológico deixa de ser necessário após o início da transição hormonal. “A testosterona provoca mudanças importantes no organismo, mas ela não elimina automaticamente os riscos de doenças ginecológicas. Pelo contrário, algumas alterações exigem ainda mais atenção e acompanhamento especializado”, explica.

A terapia hormonal com testosterona costuma levar à interrupção da menstruação e promove modificações no trato genital, como atrofia da mucosa vaginal, redução da lubrificação e mudanças na flora local. Essas alterações podem favorecer desconforto durante relações sexuais, aumentar a predisposição a pequenas lesões e até elevar o risco de infecções urinárias e vaginais em alguns pacientes.

Além disso, sintomas como dor pélvica, sangramentos inesperados ou alterações urinárias nunca devem ser considerados normais ou ignorados. “Mesmo em uso de testosterona, qualquer sangramento persistente precisa ser investigado. Também é fundamental avaliar queixas de dor ou desconforto para descartar doenças como endometriose, infecções ou outras condições ginecológicas”, ressalta o médico.

Outro ponto importante é que a testosterona não funciona como método contraceptivo. Embora muitas pessoas parem de menstruar durante o tratamento hormonal, a ovulação pode continuar acontecendo em alguns casos, tornando possível uma gestação caso haja relação sexual desprotegida com parceiro produtor de espermatozoides.

Para Dr. Michael, o cuidado começa pela construção de um ambiente seguro e respeitoso dentro do consultório. “A saúde ginecológica não deve ser associada ao gênero, mas aos órgãos que a pessoa possui e aos riscos relacionados a eles. O atendimento humanizado faz toda a diferença para que homens trans consigam realizar seus exames preventivos sem constrangimento e com tranquilidade.”

Mais do que uma consulta de rotina, o acompanhamento periódico representa uma estratégia de prevenção que pode identificar precocemente alterações importantes e preservar a qualidade de vida. Romper o tabu em torno desses cuidados é um passo essencial para garantir que a população trans tenha acesso a uma assistência completa, baseada em evidências e livre de preconceitos.

 

Fonte: Dr. Michael Zarnowski — Ginecologista especialista em Endometriose.


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