Estudo em modelos celulares
demonstrou ação do dissulfeto de dialila em combinação com um medicamento
comumente usado no combate à doença
Derivado do alho, o dissulfeto de dialila é um produto natural biologicamente ativo
que tende a ser bem tolerado, facilmente disponível e de baixo custo
(imagem: Jcomp/Magnific)
Um composto derivado do alho
denominado dissulfeto de dialila é capaz de agir em interação com um
quimioterápico muito utilizado contra algumas linhagens de câncer colorretal, o
5-fluorouracilo, aumentando a citotoxicidade do fármaco e possivelmente a
efetividade do tratamento. Essa foi a conclusão de um estudo conduzido por
pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da
Universidade de São Paulo (FCFRP-USP), que estudam a interação entre os genes e
a dieta.
O 5-fluorouracilo foi escolhido
para a pesquisa por ser um medicamento que demonstrou melhorar
significativamente a sobrevida dos pacientes com esse tipo de tumor, o segundo
mais diagnosticado e a segunda principal causa de morte relacionada ao câncer
em todo o mundo. O seu uso é indicado em combinação com cirurgia mesmo nos
casos metastáticos, quando a doença já se espalhou.
Já o dissulfeto de dialila é um
produto natural biologicamente ativo (nutracêutico), classe que tende a ser bem
tolerada, facilmente disponível e de baixo custo. Além disso, é um agente que
já apresentou mecanismos antitumorais anteriormente, como inibição do
crescimento e proliferação celular, regulação do metabolismo carcinogênico,
estimulação da apoptose (morte celular programada e saudável), prevenção da
angiogênese (formação de novos vasos sanguíneos, um processo desregulado no
caso do câncer e que permite ao tumor criar sua própria rede vascular e
crescer), invasão e migração, além da redução dos efeitos colaterais.
O estudo é financiado pela
FAPESP (projetos 21/09381-3 e 22/13151-6) e os resultados foram descritos em
artigo publicado na
revista Nutrients.
Durante o projeto de mestrado
da pós-graduanda Estéfani Maria Treviso, o grupo avaliou o impacto de
diferentes tratamentos em células de câncer colorretal (dos tipos Caco-2 e
HT-29) e em células saudáveis da veia umbilical humana. Os dois grupos
celulares foram expostos por 24 horas ao quimioterápico 5-fluorouracilo e ao
composto dissulfeto de dialila — aplicados de forma isolada ou combinada. Ao
final do período, os pesquisadores analisaram a citotoxicidade de cada
abordagem, ou seja, a capacidade das substâncias de destruir as células
tumorais preservando as saudáveis.
“A conclusão foi que a sinergia
entre o extrato de alho e o quimioterápico levou a uma ação mais eficaz contra
as células tumorais utilizadas no estudo, mostrando que o uso do nutracêutico é
promissor em tratamentos adjuvantes na quimioterapia”, afirma Lusânia Maria Greggi Antunes, professora
associada da FCFRP-USP.
Experiência
prévia
A equipe já acumula experiência
com o dissulfeto de dialila. O composto foi utilizado anteriormente no
doutorado de Ana Rita Thomazela Machado, que focou em modelos celulares
de câncer de fígado – o sétimo tipo mais comum e a quinta causa de morte por
câncer no mundo. Os resultados dessa pesquisa foram publicados no
periódico Pharmaceutics. Como as opções de tratamento para a doença
costumam ser limitadas, os pesquisadores defendem que associar quimioterápicos
tradicionais a compostos bioativos de plantas é uma estratégia promissora.
Nesse caso, a ação do ativo
extraído do alho e do sorafenibe – quimioterápico já usado clinicamente que
atua bloqueando vasos sanguíneos que nutrem o tumor e sinalizando para que as
células cancerosas parem de crescer– foi testada in vitro isoladamente
e em combinação para avaliar seu desempenho contra células de carcinoma
hepatocelular.
“No segundo trabalho, o
dissulfeto de dialila foi testado em uma linhagem de carcinoma de fígado humano
conhecida por sua alta taxa de proliferação e por alterações genéticas que
ajudam o tumor a sobreviver. O composto foi capaz de induzir a morte dessas
células, inibir sua migração e autofagia, além de alterar a expressão de suas
proteínas”, conta Antunes. “Quando combinado com o quimioterápico sorafenibe, o
composto apresentou efeitos sinérgicos, mostrando-se uma estratégia promissora
para o desenvolvimento de novos protocolos clínicos”, aponta.
O artigo Toxigenomic
evaluation of diallyl disulfide effects and its association with the
chemotherapeutic agent 5-Fluorouracil in colorectal cancer cell lines pode
ser lido em: mdpi.com/2072-6643/17/15/2412.
O artigo Diallyl
disulfide induces chemosensitization to sorafenib, autophagy, and cell cycle
arrest and inhibits invasion in hepatocellular carcinoma pode ser lido
em: pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36559076/.
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/substancia-do-alho-aumenta-a-eficacia-de-quimioterapia-contra-o-cancer-colorretal/58407
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