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domingo, 22 de junho de 2025

Quando a autocrítica se transforma em crueldade: o que está por trás do chamado “ódio próprio”?

A psicanalista Tássia Borges analisa os mecanismos psíquicos da autoagressividade cotidiana – e alerta para os perigos de uma cultura baseada na cobrança excessiva e na busca constante pelo extraordinário

 

“Você não se esforçou o suficiente.” “Deveria ter feito melhor.” “Está tudo errado em mim!” Frases como essas, repetidas silenciosamente no pensamento, podem parecer triviais. Mas, para a psicanalista Tássia Borges, elas revelam um movimento interno muito mais profundo e danoso: a autocrítica desproporcional e a autorrejeição constante – o que, em alguns casos, pode ser compreendido como uma forma de auto-ódio.

 

“Vivemos uma cultura baseada no desempenho extraordinário”, analisa Tássia. “Não basta se exercitar duas ou três vezes por semana: tem que acordar às cinco da manhã e fazer isso todos os dias. Não basta ler um pouco todos os dias: é preciso terminar um livro por semana. E quando não conseguimos cumprir esses ideais inalcançáveis, nos sentimos fracassados – e nos punimos por isso.”

 

Segundo a teoria psicanalítica kleiniana, esse tipo de comportamento pode ser alimentado por um superego arcaico e cruel - uma espécie de “voz interior” muito crítica e severa que se forma nos primeiros anos de vida - que impõe padrões inatingíveis e cobra o sujeito com uma dureza desmedida. “É uma autocrítica gratuita, desproporcional e constante. Muitas vezes, nem se trata de um erro real, mas de um julgamento interior que parte de um ideal de perfeição impossível de alcançar”, diz a psicanalista. 

 

Essa lógica do “nunca é o bastante” está presente nos mais variados aspectos da vida: corpo, carreira, relações, hábitos e até emoções. “Mesmo quando alguém está satisfeito com uma escolha ou uma conquista, basta um comentário externo para que se instale a dúvida, a culpa, a sensação de que deveria ter feito diferente. É um vício de pensamento que machuca profundamente”, ressalta Tássia, que faz uma importante observação: “Muitas vezes, esse auto-ódio é inconsciente, ou seja, a pessoa se pune, se critica, se machuca sem perceber o que está fazendo”. 

 

Para ela, é preciso promover uma verdadeira cultura da autogentileza, que leve em consideração as limitações, os contextos e a realidade psíquica de cada sujeito. “A psicanálise nos ajuda a reconhecer que não existe um padrão universal de existência. Cada um tem um tempo, uma história e um modo de ser. Comparações são, muitas vezes, uma forma sutil – e cruel – de autoagressão.”

 

Ao nomear e refletir sobre esse “ódio de si”, Tássia Borges propõe uma mudança de olhar. “Quando o cuidado consigo vira mais uma exigência a ser cumprida com rigidez, já não é mais cuidado – é punição. O desafio está em transformar o perfeccionismo em possibilidade e o julgamento em escuta. Só assim é possível construir um caminho de bem-estar genuíno.”

 

 

Tássia Borges - especialista em assuntos relacionados à saúde mental e o psiquismo – entre eles ansiedade, narcisismo, questões geracionais, de relacionamento, luto, solidão e entraves psíquicos que podem impedir atletas de atingir altas performances. Mestre em Psicologia Clínica pelo Núcleo de Método Psicanalítico e Formações da Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e Bacharel em Letras pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), ela trabalha com educação e linguagem há mais de 20 anos. Fundou e dirige o Instituto Kleiniano de Psicanálise, cuja missão é compartilhar de modo responsável e especializado os conhecimentos técnico-teóricos da psicanalista austríaca Melanie Klein (1882-1960) bem como de autores que dialogam com seu pensamento.



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