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| Ranchinho_Id 0065 _ 0838_31x44cm ©JoãoLiberato |
Com curadoria de
José Augusto Ribeiro e colaboração do Museu de Imagens do Inconsciente,
coletiva reúne 60 obras e propõe um novo olhar sobre a produção de artistas
historicamente associados ao campo da saúde mental, recusando leituras baseadas
em diagnósticos e afirmando a potência singular de cada um deles
Com abertura em 25 de
agosto e visitação até 26 de setembro de 2026, a Galeria
Estação apresenta a exposição coletiva Uma língua
nova. A mostra, que tem curadoria de José
Augusto Ribeiro, reúne um conjunto de 60 obras de Arnold
Schmidt, Aurelino dos Santos, Clovis
Aparecido dos Santos, Enio Sérgio, Esther
Morgannah, Josef Hofer e Ranchinho,
propondo reflexões sobre linguagem e alteridade a partir de uma série de
trabalhos produzidos por artistas diagnosticados com transtornos mentais e
deficiência intelectual, convidando o público a vivenciar uma gramática própria
e uma forma singular de construir imagens, narrativas e modos de existir. O
vernissage, com início às 18h, incluirá, às 20h, um bate-papo entre o curador,
o psiquiatra Dr. José Gallucci Neto e Eurípedes Junior,
músico, pesquisador, museólogo e idealizador do Museu de Imagens do
Inconsciente, ao lado da Dra. Nise da Silveira, que assinam
textos do catálogo de Uma língua nova.
O título da mostra
foi inspirado no conto No Quadrado de Joana, de Maura Lopes
Cançado, escritora que ocupa lugar central na reflexão sobre
literatura, sofrimento psíquico e luta antimanicomial. Para Ribeiro, a
expressão "uma língua nova" sintetiza a experiência compartilhada
pelos artistas reunidos na exposição ao projetar a invenção de linguagens que
não se subordinam aos códigos estabelecidos pela história da arte, pela
medicina ou pela cultura, afirmando modos particulares de percepção e criação.
"Nosso
interesse era reunir artistas muito diferentes entre si, produzindo em
contextos igualmente distintos. Essa diversidade impede interpretações
homogêneas sobre esse conjunto de obras, justamente porque ele não constitui um
tipo unívoco de produção", afirma o curador. "Cada artista parece
desenvolver uma linguagem própria que escapa aos repertórios artísticos mais
conhecidos e validados no circuito da arte. O título descreve, justamente, essa
situação de liberdade na criação de imagens e objetos."
Embora dialogue
com uma tradição que valorizou a produção artística como expressão legítima, Uma
língua nova não pretende reafirmar a categoria da chamada "arte da
loucura". Ao contrário, parte do princípio de que essas obras devem ser
vistas antes de qualquer enquadramento clínico ou biográfico, reconhecendo sua
força estética, inventividade formal e autonomia poética. A idealização da
exposição também está intimamente ligada à trajetória da própria Galeria
Estação. Ao longo das últimas duas décadas a instituição reuniu em seu acervo
trabalhos de artistas que produziram à margem dos circuitos tradicionais da
arte.
"Todas as
mostras que fazemos são muito importantes para nós. Esta tem algo mais: uma
emoção singular. Nela reunimos sete artistas que têm em comum alguma condição
cognitiva e durante toda a vida exerceram e exercem o talento e a criatividade
como a linguagem através da qual se revelam. Dos sete conheci pessoalmente
apenas o Ranchinho e o Clovis. No caso dos outros minha relação foi diretamente
com as obras.
O curador
convidado, José Augusto Ribeiro, pesquisou e conviveu com as obras até ter
certeza de que a seleção é a que agora mostramos. Além dele, temos o privilégio
de publicar textos de outras duas pessoas muito especiais. O convite ao
Eurípedes Junior e ao Dr. José Gallucci Neto se deve ao fato de que ambos
convivem, cada um em sua especialidade, com pessoas com algum transtorno
mental. Esperamos que Uma língua nova seja uma exposição que, além de
chamar atenção para questões que talvez preferíssemos evitar, também emocione o
público", afirma Vilma Eid, sócia-fundadora da
Galeria Estação, no texto de apresentação da exposição.
Linguagens
singulares
Longe de
constituírem um grupo homogêneo, os sete artistas reunidos na mostra apresentam
trajetórias, contextos e processos criativos profundamente distintos. Há
autores que passaram por longos períodos de institucionalização psiquiátrica e
outros cuja produção se desenvolveu em ambientes familiares; artistas
autodidatas e criadores que estabeleceram relações consistentes com museus,
ateliês e centros de pesquisa; brasileiros e europeus; desenhistas, pintores e
escultores cujas obras nasceram de experiências absolutamente particulares.
Essa diversidade
constitui um dos fundamentos da curadoria. Em vez de buscar semelhanças
biográficas, Ribeiro aproxima produções que compartilham outra característica:
a capacidade de instaurar sistemas próprios de representação, independentes de
convenções acadêmicas ou expectativas do circuito artístico.
Nesse percurso, o
visitante encontrará o universo simbólico das pinturas e esculturas de Clovis
Aparecido dos Santos, as construções visuais de Arnold Schmidt, a produção intensa
de Ranchinho – presente na mostra com 14 pinturas –, a pesquisa formal de Josef
Hofer, as esculturas de influência asteca e inspiração marítima de Esther
Morgannah e as abstrações multicoloridas das obras de Enio Sérgio, compondo um
panorama que evidencia não uma identidade comum, mas a riqueza de diferentes
modos de imaginar, organizar e reinventar o mundo.
Ao reunir essas
produções em um mesmo espaço, Uma língua nova também dialoga com um
capítulo decisivo da história da psiquiatria brasileira. Sem transformar esse
contexto em tema central da exposição, a curadoria destaca o legado de
pesquisadores como Osório César e Nise da
Silveira, pioneiros ao compreender a produção artística como
forma legítima de expressão, rompendo com leituras exclusivamente
patologizantes da experiência psíquica. Essa perspectiva ganha fôlego no texto
de catálogo do psiquiatra Dr. José Gallucci Neto, que propõe
um deslocamento fundamental: em vez de buscar nas obras a confirmação de um
diagnóstico, convida o espectador a reconhecer nelas a singularidade de uma
experiência estética. Segundo ele, a criação artística não pode ser reduzida a
sintoma, tampouco compreendida como consequência do sofrimento mental. Cada
obra estabelece uma relação própria com a linguagem, produzindo sentidos que
ultrapassam enquadramentos clínicos.
Nesse contexto
interpretativo, a exposição também se aproxima da trajetória do Museu de
Imagens do Inconsciente (MII), cuja contribuição para a preservação e o estudo
dessas produções permanece incontornável. A interlocução com a instituição foi
decisiva para a mostra, permitindo incorporar obras de Esther Morgannah e Enio
Sérgio, que têm trabalhos apresentados pela primeira vez em São Paulo, e
ampliar o horizonte inicialmente formado pelo acervo da Galeria Estação.
Como observa Eurípedes
Junior, músico, museólogo, curador e pesquisador que atuou por
30 anos no MII, autor de Do Asilo ao Museu: Nise da Silveira e as coleções
da loucura (Editora Holos, 2024), esse patrimônio não representa apenas um
capítulo da história da psiquiatria, mas um conjunto de obras que conquistou
reconhecimento artístico próprio, exigindo novas formas de preservação,
pesquisa e difusão. Ao longo das últimas décadas, esse acervo deixou de ocupar
exclusivamente o campo da saúde mental para integrar o debate sobre arte
brasileira e produção contemporânea.
Essa mudança de
perspectiva também atravessa a própria concepção curatorial. Ao comentar o
processo de pesquisa, Ribeiro ressalta que a exposição não pretende construir
um panorama sobre doença mental, mas criar uma situação em que cada artista
pudesse ser reconhecido por sua potência inventiva.
É justamente nesse
ponto que o diálogo com Maura Lopes Cançado revela convergência. A expressão
"uma língua nova" não funciona como metáfora da loucura, mas como
símbolo de resistência às classificações. Assim como a escritora construiu uma
obra que tensiona os limites entre literatura, experiência e linguagem, os
artistas que compõem a exposição elaboram universos visuais que nascem de
regras próprias, indiferentes às convenções estéticas ou aos sistemas
tradicionais de interpretação.
Ao reunir artistas
de origens, gerações e percursos tão distintos, a Galeria Estação reafirma uma
vocação que acompanha sua trajetória desde a fundação em 2004: ampliar o campo
da arte brasileira a partir de produções que desafiam fronteiras culturais,
sociais e estéticas. Em Uma Língua Nova, esse compromisso encontra uma
de suas expressões mais contundentes.
SERVIÇO
Exposição Uma
língua nova
Curadoria de José
Augusto Ribeiro
Período: de 25 de
agosto a 26 de setembro de 2026
Abertura: 25 de
agosto de 2026, às 18h. Bate-papo com José Augusto Ribeiro, Dr. José Gallucci
Neto e Eurípedes Junior, às 20h.
Espaço expositivo:
2º andar e mezanino
Galeria
Estação
Endereço: Rua
Ferreira Araújo, 625 - Pinheiros, São Paulo.
Horários de
funcionamento: segunda a sexta, das 11h às 19h; sábados, das 11h às 15h; não
abre aos domingos.
Telefone: (11)
3813-7253
Email: contato@galeriaestacao.com.br
Site: www.galeriaestacao.com.br/
Instagram: galeriaestacao