Confesso: sempre me deu um misto de
desconforto e orgulho perguntar algo de tecnologia para meus filhos, hoje com
20 anos. Orgulho de ver os dois transitarem com naturalidade entre aplicativos
e novidades que eu levo semanas para entender. Desconforto por carregar décadas
de experiência profissional e de vida e, mesmo assim, não ter a mesma destreza
deles na hora de mexer numa tela.
De uns tempos para cá, com a
inteligência artificial, sinto que o jogo virou. Não é sobre disputar com meus
filhos quem entende mais de tecnologia, isso, admito, eles ainda ganham fácil.
É sobre perceber que todo o repertório que acumulei em anos de estrada virou
matéria-prima valiosa: para escrever um prompt que vai direto ao ponto, para
questionar uma resposta da IA que soa bonita mas é rasa, para discutir com a
máquina como quem discute com um colega experiente. Repertório que meus filhos,
pela idade, ainda não tiveram tempo de construir e sem ele, as respostas
que eles tiram da IA acabam ficando na superfície. O sentimento deve ser
igualmente compartilhado por pessoas da mesma geração.
Durante quarenta anos a regra foi
sempre a mesma: chegou tecnologia nova, quem manda são os jovens. Foi assim com
o computador pessoal, com a internet discada, com o Orkut, com o smartphone,
com o TikTok. Toda vez que uma novidade digital batia na porta, os mais velhos
ficavam alguns passos atrás, pedindo ajuda para o filho ou o neto configurar o
Wi-Fi. Em 2001, o educador americano Marc Prensky batizou esse fosso: de um lado,
os “nativos digitais”, que já nasceram falando a língua dos bits; do outro, os
“imigrantes digitais”, que aprenderam esse idioma na vida adulta e, por mais
fluentes que ficassem, nunca perderiam o sotaque.
Essa história se repetiu tantas vezes
que virou lei natural. Até a inteligência artificial chegar e quebrar o padrão.
Um exemplo com o uso do mesmo aplicativo por pessoas de gerações diferentes é
bem ilustrativo.
Pega o sobrinho de 19 anos e o tio de
55. Os dois abrem o ChatGPT no mesmo dia. O sobrinho pergunta “faz um texto
sobre liderança” e recebe um conteúdo genérico, do tipo que qualquer pessoa no
planeta receberia. O tio, que já liderou equipe, já apanhou de projeto que deu
errado e já sabe exatamente o que quer dizer, escreve um comando de cinco linhas
contando o contexto, o problema e o tom que precisa e recebe de volta
algo que parece ter sido escrito por ele mesmo, só que melhor.
Mesma ferramenta. Resultado
completamente diferente. E não é sorte.
Os números até confirmam o roteiro
esperado: cerca de 76% da Geração Z já testou ferramentas como ChatGPT ou
Claude, contra apenas 20% dos baby boomers. O jovem chega primeiro, sem dúvida.
Só que abrir o aplicativo é a parte fácil e é justamente aí que a
história muda de rumo.
Um estudo recente sobre colaboração
entre humanos e IA testou os dois tipos de tarefa que existem no mundo real. Em
tarefas simples, como escrever um e-mail ou resumir um texto, a IA nivela todo
mundo: iniciante e especialista saem parecidos. Mas em tarefas que exigem
julgamento, como a elaboração de uma estratégia ou a solução de um problema
real, ou ainda a tomada de uma decisão difícil, acontece o oposto: quanto mais
complexa a tarefa, maior a distância entre quem tem repertório e quem não tem.
A mesma ferramenta que empata todo mundo no trivial escancara a diferença no
que importa.
É a partir dessa constatação que temos
que o verdadeiro talento não é “saber o prompt certo”. Existe um mito de
que usar bem uma IA é decorar a senha mágica: a fórmula secreta de palavras que
destrava a resposta perfeita. A Harvard Business Review já derrubou essa ideia.
O pesquisador Oguz Acar mostra que quem realmente tira valor da IA não domina
técnicas de prompt, mas domina o problema. Sabe exatamente o que precisa
resolver antes de digitar a primeira palavra.
E isso não se aprende assistindo
tutorial no YouTube. Vem de anos de reunião chata, projeto que não deu certo,
cliente difícil, decisão tomada sem manual de instruções. É o tipo de
conhecimento que não está no Google, mas na cabeça de quem já viu aquele filme
antes. Por isso, um profissional de 50 anos, mesmo destreinado tecnicamente,
costuma fazer perguntas muito melhores à IA do que um estagiário de 22: não
porque sabe mais de tecnologia, mas porque compreende mais do assunto.
Mais do que tecnologia, esse tema
também fala sobre inteligência. E não é a cognitiva. Howard Gardner, psicólogo
de Harvard, mostrou décadas atrás que não existe uma inteligência só. Existem
pelo menos oito: lógico-matemática, linguística, interpessoal, intrapessoal,
espacial, e por aí vai. E, reparando bem, as inteligências que fazem alguém
tirar mais profundidade de uma IA não são as técnicas. São essas.
A intrapessoal ajuda a saber exatamente
o que você quer antes de digitar a primeira palavra e a entender o contexto
humano por trás de cada pergunta. A linguística auxilia a escrever um prompt
claro em vez de um amontoado de palavras soltas. A lógico-matemática, a quebrar
um problema complicado em etapas que a IA consegue seguir direitinho. Nenhuma
delas aparece em curso de “prompt engineering”, e olha que coincidência: são
exatamente as habilidades que o Fórum Econômico Mundial aponta como as mais
buscadas pelas empresas para os próximos anos, à frente até de boa parte das
habilidades técnicas. Softskill, não techskill.
Existe uma única ferramenta no mundo
capaz de medir, com rigor científico, as múltiplas inteligências e ela
carrega o reconhecimento e a revisão do próprio Howard Gardner, o criador da
teoria, lá de Harvard. Foi isso que me fez trazê-la para o Brasil e adaptá-la
ao português. Batizamos de AMI: Avaliação das Múltiplas Inteligências.
A ideia sempre foi simples: mapear,
ainda na infância, onde cada criança já é forte e onde é necessário investir.
Só que hoje esse mapeamento ganhou um motivo a mais para existir.
O repertório que uma criança constrói
através das oito inteligências não cabe em boletim escolar, é amplo demais,
inclusivo demais. É a mesma bagagem que, lá na frente, vai separar quem sabe
conversar de verdade com uma IA de quem só copia e cola resposta rasa.
Nesse contexto, entra o risco que
ninguém está contando para os jovens: usar IA com fluência não é o mesmo que
usar IA com critério. Uma pesquisa da Microsoft com a Carnegie Mellon ouviu
centenas de profissionais e identificou que quanto mais a pessoa confia
cegamente na IA, menos ela questiona a resposta. Em vez de pensar no problema,
o cérebro passa a só checar se a máquina acertou. E checar bem exige exatamente
a bagagem que só a vida ensina.
Quem cresceu perguntando tudo ao
Google, e hoje pergunta tudo à IA, corre o risco de nunca ter treinado o
músculo de desconfiar de uma resposta bonita e errada. Já quem passou décadas
resolvendo problema sem atalho carrega um detector de furada embutido, que
nenhum algoritmo ainda copiou. O espaço, assim, deixou de ser sobre idade e
passou a ser sobre repertório e repertório, goste-se ou não, é privilégio
de quem já viveu mais.
O jogo ficou mais justo, não mais
fechado. Isso não tira os jovens da jogada. Eles adotam mais rápido, testam sem
medo, erram na frente da máquina sem se importar e isso também vale ouro. A
adoção de IA nas empresas saltou de 55% para 72% em só um ano, um salto que só
acontece quando todas as gerações empurram junto.
O que mudou foi o critério de quem
ganha. Não é mais sobre quem chega primeiro no aplicativo. É sobre quem sabe o
que perguntar, quem reconhece uma resposta rasa de longe, quem consegue
transformar uma ferramenta genérica em solução para um problema real e
específico.
Pela primeira vez em quarenta anos de
revolução tecnológica, a régua não está automaticamente a favor de quem nasceu
depois. E isso é uma ótima notícia para quem passou a vida ouvindo que tinha “sotaque
digital”.
A era analógica, aquela que ensinou a
pensar antes de agir, virou vantagem competitiva.
Roberto Corazza - engenheiro, professor e especialista em Múltiplas Inteligências e idealizador do projeto AMI — Avaliação das Múltiplas Inteligências - no Brasil