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sábado, 7 de novembro de 2026

Novembro deixa as pessoas mais ansiosas? Psicólogo explica como o fim do ano pode afetar a saúde mental

Proximidade das festas, balanço das metas, preocupações financeiras e sobrecarga de compromissos podem intensificar o estresse; especialista orienta como reconhecer os sinais e lidar com a ansiedade. 

 

Com a chegada de novembro, a proximidade do fim do ano começa a influenciar a rotina de muitas pessoas. Entre o planejamento das festas, as despesas extras, os compromissos profissionais e a expectativa de cumprir metas estabelecidas meses antes, o período pode vir acompanhado de uma sensação de urgência e de aumento da ansiedade. Mas será que novembro, por si só, deixa as pessoas mais ansiosas?

Embora não seja possível afirmar que o mês provoque ansiedade de forma generalizada, pesquisas internacionais identificam variações sazonais em indicadores relacionados à saúde mental. Um estudo publicado na revista científica Epidemiology and Psychiatric Sciences analisou 636.543 episódios de afastamento do trabalho por transtornos mentais na Finlândia, durante aproximadamente 20 anos, e identificou que os afastamentos associados a transtornos de ansiedade atingiram um pico em novembro. Os menores índices foram registrados entre julho e agosto e entre janeiro e fevereiro. Os resultados sugerem uma possível influência de fatores sazonais, mas não permitem concluir que o mês, por si só, cause ansiedade ou que o mesmo padrão se repita no Brasil.

Segundo o Dr. Luiz Felipe Bruno, professor de Psicologia da Afya Centro Universitário Itaperuna, a ansiedade é uma reação natural do organismo, que ajuda a antecipar situações, identificar possíveis ameaças e preparar o indivíduo para enfrentá-las. Por isso, sentir preocupação diante de prazos, mudanças e responsabilidades não significa, necessariamente, que exista um problema de saúde mental. "O sinal de alerta aparece quando ela se torna intensa, persistente e começa a prejudicar nosso bem-estar, nossos relacionamentos e nossas atividades cotidianas", explica.

 

A pressão pelo encerramento de ciclos

O fim do ano costuma ser associado à ideia de conclusão e renovação. Nesse período, algumas pessoas fazem um balanço das próprias conquistas e comparam os resultados alcançados com os objetivos definidos no início do ano. Quando existe uma diferença entre o que foi planejado e o que se concretizou, podem surgir sentimentos de frustração, culpa e insuficiência.

De acordo com o professor, concentrar a atenção apenas naquilo que não foi realizado pode reforçar sentimentos de fracasso. Por isso, é importante reconhecer as conquistas e considerar as dificuldades enfrentadas ao longo do caminho, lembrando que as expectativas nem sempre correspondem às possibilidades reais. "Vivemos em uma sociedade que valoriza excessivamente a produtividade, mas nosso valor pessoal não pode ser medido apenas por resultados ou conquistas materiais", ressalta.

A comparação com outras pessoas também pode contribuir para a frustração. Nas redes sociais, publicações que destacam conquistas profissionais, viagens, relacionamentos e realizações pessoais podem alimentar a percepção de que todos estão avançando, enquanto o próprio indivíduo estaria ficando para trás. Para o especialista, o balanço do ano se torna prejudicial quando a vida alheia passa a ser utilizada como medida de sucesso, já que essas plataformas mostram apenas recortes das experiências individuais, sem revelar necessariamente as dificuldades enfrentadas por cada pessoa.

 

Compromissos, despesas e sobrecarga

Além das questões emocionais, fatores práticos podem aumentar a tensão nesse período. O encerramento de atividades profissionais, as avaliações escolares e acadêmicas, a organização de viagens e confraternizações, além das despesas com presentes e celebrações podem concentrar diferentes responsabilidades em poucas semanas.

Para quem já enfrenta uma rotina intensa, o acúmulo de tarefas pode reduzir o tempo destinado ao descanso e ao lazer. A tentativa de atender a todas as expectativas, próprias e alheias, também pode gerar a sensação de que não há tempo suficiente para dar conta de tudo.

Outro aspecto é que as festas de fim de ano nem sempre representam um período de tranquilidade para todos. Conflitos familiares, dificuldades financeiras, luto, solidão e mudanças recentes na vida podem tornar essa época particularmente delicada.

O professor destaca que essas experiências não afetam todas as pessoas da mesma maneira. "Somos seres biopsicossociais, ou seja, nossas reações são influenciadas por fatores como predisposições genéticas, experiências de vida, recursos disponíveis e influências culturais. Incertezas sobre o futuro e até reencontros familiares marcados por divergências podem gerar angústia, mas cada indivíduo vivencia essas situações de acordo com sua própria história e contexto", afirma.


Como reconhecer os sinais de ansiedade?

A ansiedade pode se manifestar tanto emocionalmente quanto no corpo. Entre os sinais mais comuns estão: preocupação persistente, irritabilidade, dificuldade para relaxar, sensação de estar constantemente sob pressão e problemas para dormir ou manter a concentração. Algumas pessoas também podem apresentar tensão muscular, aceleração dos batimentos cardíacos e sensação de falta de ar. 

Segundo o Dr. Luiz Felipe, essas manifestações merecem atenção quando se tornam frequentes e começam a comprometer a rotina e a qualidade de vida. A intensidade, a persistência e os impactos dos sintomas são aspectos importantes para identificar quando a ansiedade deixa de ser uma reação pontual e passa a exigir acompanhamento

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Estratégias para atravessar o período com mais equilíbrio

De acordo com o especialista, uma das medidas que podem ajudar é estabelecer prioridades realistas. Em vez de tentar resolver todas as pendências antes da virada do ano, vale identificar o que realmente precisa ser feito, distribuir as tarefas e aceitar que alguns objetivos podem ser retomados posteriormente. O docente também recomenda respeitar os próprios limites, evitar cobranças excessivas e reservar momentos de descanso. Em situações de desconforto, estratégias simples, como a respiração diafragmática e pequenas pausas, podem ajudar. Estabelecer limites em encontros sociais é outra possibilidade, sem que o afastamento se torne a única forma de enfrentamento.

Outra orientação é fazer um balanço do ano considerando não apenas as metas alcançadas, mas também as dificuldades superadas e os avanços conquistados. “Essa reflexão pode ajudar a construir um planejamento mais realista para o próximo ciclo, sem transformar a virada do ano em um prazo para resolver todas as pendências” afirma o neuropsicólogo.

De acordo com o especialista, quando a ansiedade se torna intensa, persistente ou começa a prejudicar a rotina, é importante procurar ajuda profissional. O acompanhamento psicológico, explica o especialista, não tem como objetivo eliminar as emoções, mas compreender seu funcionamento e desenvolver estratégias mais saudáveis para enfrentá-las. "Não é necessário esperar que o sofrimento se torne incapacitante para buscar apoio. Cuidar da saúde mental também significa desenvolver habilidades emocionais e aprender a enfrentar as situações cotidianas com mais equilíbrio", conclui.

 

O controle nas relações afetivas mudou de ferramenta, não de lógica


A tecnologia transformou profundamente a forma como construímos vínculos afetivos. Hoje, uma relação pode envolver compartilhamento de localização em tempo real, senhas, acesso a redes sociais, mensagens ao longo de todo o dia e uma disponibilidade que, há poucos anos, simplesmente não existia. Essas ferramentas podem fazer parte de relações saudáveis quando há escolha, reciprocidade e consentimento. O problema começa quando deixam de ser possibilidades e passam a funcionar como exigências.


É justamente nessa fronteira, muitas vezes difícil de reconhecer, que se situa a Violência Facilitada pela Tecnologia entre Parceiros Íntimos (TFIPV, na sigla em inglês).

Recentemente, tive a oportunidade de representar a Cruzando Histórias como uma das especialistas ouvidas em uma pesquisa internacional conduzida pela psicóloga e pesquisadora Nina Jane Patel, no âmbito do programa Abuso Não é Amor, de YSL Beauty. O estudo reuniu profissionais de organizações de dez países para compreender por que jovens de 16 a 24 anos frequentemente têm dificuldade de reconhecer práticas de controle digital como formas de violência. A análise encontrou quatro questões recorrentes: a normalização da vigilância, os modelos de comportamento aprendidos nas relações familiares, a ausência de linguagem para nomear determinadas formas de abuso e as falhas das instituições em responder a elas. O uso da inteligência artificial aparece ainda como um fator emergente capaz de ampliar esses danos.

Embora a pesquisa tenha como foco os jovens, seus achados dialogam profundamente com o que observo há anos trabalhando com mulheres brasileiras. Na Cruzando Histórias, acompanhamos mulheres de diferentes idades, raças, trajetórias profissionais, condições econômicas e configurações familiares, muitas delas mães. E uma das aprendizagens mais importantes dessa convivência é que a violência raramente se apresenta, no início, com esse nome.

Ela pode aparecer como uma mulher que começa a evitar determinadas amizades para não gerar conflito; que sente necessidade de explicar constantemente onde esteve e com quem falou; que tem suas conversas acessadas; que altera a forma de se vestir ou de se comportar; ou que, pouco a pouco, reorganiza sua vida para administrar as reações do parceiro. No ambiente digital, esses mecanismos encontram novas formas de atuação: o monitoramento pode acompanhar a mulher onde quer que ela esteja, ultrapassar o fim da relação e alcançar suas redes de amizade, sua imagem, seus dados e até sua reputação.

Por isso, considero importante compreender a violência digital menos como uma questão exclusivamente tecnológica e mais como uma questão de autonomia.

A tecnologia não inventou a posse, o ciúme ou o controle nas relações. Ela ampliou a capacidade de exercê-los. E, quando discutimos apenas se determinada ferramenta é boa ou ruim, corremos o risco de perder de vista a pergunta mais importante: quanto espaço uma pessoa ainda tem para escolher, discordar, mudar de ideia e preservar sua individualidade dentro daquela relação?

Esse ponto é especialmente relevante no Brasil, onde ainda convivemos com padrões culturais que naturalizam diferentes formas de controle sobre as mulheres. Durante muito tempo, determinados comportamentos foram tratados como parte quase inevitável da vida amorosa: o ciúme excessivo como demonstração de interesse, a vigilância como cuidado, a renúncia feminina como prova de compromisso. Quando essas referências migram para o ambiente digital, ganham velocidade e alcance, mas continuam carregando uma lógica conhecida.

A pesquisa de Nina Patel chama atenção justamente para essa normalização. Jovens conseguem, muitas vezes, descrever o desconforto antes de conseguir nomear o abuso. Falam em relações “tóxicas”, ciúme, intensidade ou drama, mas nem sempre reconhecem que certos comportamentos envolvem coerção e perda de autonomia. Uma das contribuições que levei ao estudo foi justamente essa: a linguagem da violência muitas vezes chega tarde. Quando conseguimos dar nome ao que está acontecendo, aquele padrão pode já ter se estabelecido como parte da rotina.

Esse desafio de reconhecimento não se restringe aos jovens. No Brasil, 18% das mulheres ouvidas pela Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher não se reconheceram espontaneamente como vítimas e só identificaram a situação quando foram apresentadas a exemplos concretos de comportamentos caracterizados como violência.

É nesse sentido que vejo uma potência especial no trabalho preventivo com jovens. O Abuso Não é Amor parte da ideia de que os primeiros relacionamentos são um momento estratégico para construir referências sobre confiança, limites, ciúme, consentimento e respeito. Os nove sinais trabalhados pela metodologia — ignorar, chantagear, humilhar, manipular, agir com ciúme, controlar, invadir, isolar e intimidar — ajudam a tornar visíveis comportamentos que, muitas vezes, são minimizados ou confundidos com afeto. No ambiente digital, eles podem aparecer na exigência de senhas, no acompanhamento permanente da localização, no controle das redes sociais, na fiscalização das interações ou no uso da comunicação como instrumento de punição.

Ao mesmo tempo, minha experiência com mulheres também me ensinou que aprender a se relacionar não é algo que termina aos 20 anos. Pessoas que se relacionaram por décadas seguem sendo desafiadas a rever modelos afetivos, expectativas e acordos que aprenderam como naturais. Mulheres podem, depois de muitos anos, reconhecer pela primeira vez que determinadas concessões estavam custando sua autonomia. Homens também podem rever comportamentos que aprenderam como normais.

Os jovens podem estar vivendo suas primeiras experiências afetivas, mas todos nós estamos sendo provocados a construir relações mais conscientes, saudáveis e sustentáveis.

Há, porém, uma questão que considero fundamental nessa discussão: não podemos transformar a prevenção da violência em mais uma responsabilidade feminina. Historicamente, meninas e mulheres recebem grande parte das orientações sobre como evitar situações de risco. Aprendem a reconhecer sinais, estabelecer limites, proteger senhas, cuidar das imagens que compartilham, buscar ajuda e identificar quando uma relação se tornou abusiva. Esse conhecimento é indispensável, mas existe uma contradição quando o gênero mais atingido pela violência também é convocado a assumir quase sozinho a tarefa de preveni-la.

Se queremos mudar padrões, essa conversa precisa alcançar meninos e homens.

Precisamos falar com eles sobre consentimento e limites, mas também sobre frustração, rejeição, ciúme, masculinidades e a expectativa de controle sobre a parceira. Prevenção não é apenas ensinar uma menina a identificar quando está sendo controlada; é também oferecer a um menino instrumentos para reconhecer quando seu próprio comportamento ultrapassou um limite.

É uma provocação que faço com frequência na implementação do Abuso Não é Amor no Brasil. A metodologia tem uma enorme capacidade de oferecer linguagem e ferramentas às meninas e mulheres, que continuam sendo desproporcionalmente afetadas pela violência de gênero. Mas seu potencial educativo também pode contribuir para a formação dos meninos e homens com quem elas se relacionam. Transformar relações exige trabalhar não apenas com quem sofre a violência, mas também com os padrões sociais que ajudam a produzi-la.

Esse desafio ganha uma dimensão adicional quando olhamos para o próprio ambiente digital brasileiro. Pesquisa do NetLab/UFRJ realizada em parceria com o Ministério das Mulheres analisou 76,3 mil vídeos para mapear a chamada “machosfera” no YouTube brasileiro e identificou ecossistemas que transformam discursos de aversão, desprezo e controle sobre as mulheres em audiência e monetização. Ao mesmo tempo, 173 vítimas de deepfakes sexuais foram identificadas em instituições de ensino públicas e privadas de dez estados brasileiros, todas mulheres, entre alunas e professoras. Esses fenômenos mostram que não estamos discutindo apenas comportamentos privados entre duas pessoas. Há referências de gênero, sexualidade, poder e violência sendo produzidas e distribuídas em escala.

Por isso, responsabilizar apenas famílias, escolas ou projetos sociais seria insuficiente.

Como mãe de um menino de 12 anos, essa discussão também me atravessa pessoalmente. Tenho consciência de que minha experiência familiar parte de uma condição de privilégio e não representa a realidade da maioria das mães brasileiras. Talvez por isso minha experiência profissional com mulheres tão diversas seja ainda mais determinante na forma como enxergo o problema. Muitas mães estão tentando proteger e educar seus filhos enquanto enfrentam jornadas extensas de trabalho, desigualdade econômica, violência, sobrecarga de cuidado e condições muito diferentes para acompanhar o que acontece no ambiente digital.

Não é razoável imaginar que toda essa responsabilidade possa ser transferida às famílias.

A própria pesquisa internacional traz uma provocação importante ao mostrar que, em nove dos dez países representados, especialistas perceberam que práticas de vigilância utilizadas por pais e responsáveis podem acabar sendo incorporadas pelos jovens como referências de cuidado. Isso não significa equiparar monitoramento parental a abuso. Significa reconhecer que a proteção precisa vir acompanhada de diálogo sobre autonomia, limites e consentimento para que uma criança ou adolescente consiga, no futuro, distinguir cuidado de coerção.

Também há responsabilidades que pertencem ao poder público e às empresas de tecnologia. O Brasil tem avançado na construção desse marco. A Lei nº 15.123, de 2025, passou a prever aumento de pena para violência psicológica contra a mulher praticada com uso de inteligência artificial ou outro recurso tecnológico de alteração de imagem ou som. O Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, instituído pela Lei nº 15.211/2025, estabeleceu regras específicas para a proteção de crianças e adolescentes em produtos e serviços digitais. E, em 2026, o Decreto nº 12.976 estabeleceu diretrizes específicas para a proteção das mulheres na internet, reconhecendo práticas como perseguição digital, vigilância on-line e controle tecnológico, além de prever deveres de prevenção e resposta para provedores de aplicações.

São avanços relevantes porque apontam para uma compreensão mais madura do problema: segurança digital não pode depender exclusivamente da habilidade individual de se proteger. Estado, sistema de justiça e plataformas também precisam participar da construção de ambientes mais seguros, inclusive por meio de prevenção, mecanismos adequados de denúncia, resposta rápida a violações, proteção de dados e responsabilização quando cabível.

A inteligência artificial torna essa discussão ainda mais urgente, mas talvez também nos ajude a enxergar algo essencial. As ferramentas mudam rapidamente; as dinâmicas de violência, nem tanto. Deepfakes, rastreamento, perfis falsos ou novas tecnologias podem aumentar a escala do dano, mas continuam servindo a práticas que já conhecemos: humilhar, intimidar, isolar, vigiar e controlar. A própria conclusão da pesquisa internacional chama atenção para isso: a prevenção precisa olhar para o comportamento, e não apenas para a plataforma ou para o dispositivo.

É por isso que não acredito que a resposta esteja simplesmente em ensinar jovens a usar melhor a internet. Precisamos ajudá-los a construir outras referências de relacionamento e, ao mesmo tempo, criar estruturas sociais e institucionais capazes de sustentá-las.

Isso significa ensinar sobre autonomia, consentimento e individualidade; envolver meninos e homens de forma efetiva; apoiar famílias e educadores sem transferir a eles toda a responsabilidade; aprimorar políticas públicas; cobrar respostas adequadas das plataformas; e continuar oferecendo às mulheres linguagem e instrumentos para reconhecer situações que durante muito tempo foram naturalizadas.

A tecnologia continuará mudando. O nosso desafio é garantir que nossas referências de afeto, liberdade e respeito avancem junto com ela.

Cuidado não é controle. Intimidade não significa acesso irrestrito. E uma relação vigiada não é uma relação segura.

 

Bia Diniz - fundadora e presidente da Cruzando Histórias

 

Recomeços após os 50+: existe um manual?

Assumimos a fase dos 50 em diante como um período de recomeço e redescoberta. Recomeço profissional após ter atingido o ápice da carreira. Recomeço existencial diante do ninho vazio. Recomeços de hobbies e desafios próprios ao sobrar tempo e recursos fruto da boa gestão monetária ou da aposentadoria. 

Menos frequente é o reconhecimento dos recomeços amorosos, talvez porque permanecem invisibilizados como tema, fruto do pendor midiático a associar paixões e novos relacionamentos à fase juvenil ou início da vida adulta. Mas não seria errado reconhecer que essa imperceptibilidade responde, também, à ambivalência com que esse segmento de maduros encara o recalcular de rota no plano afetivo-amoroso. 

O que significa voltar à cena dos encontros românticos e a busca por novos laços após os 50? Essa pergunta costuma se deparar antes com mais perguntas do que respostas, porque a experiência acumulada até a vida madura termina privilegiando imperativos e mandatos que muitas vezes nos afastam da possibilidade de recomeços, ao invés de multiplicar essas oportunidades como canalizadoras da liberdade e da sabedoria colhidas. 
 
Os adultos maduros chegam ao desafio do recomeço romântico com expectativas, mas também com seus traumas e condicionamentos. De um lado, eles visam reinventar a relação afetiva como um refúgio social, um trampolino para recuperar um senso de pertencimento ao valorizar a cumplicidade, o compartilhar e a convivência sem sacrificar o desejo. De outro lado, existe a autoexigência de respeitar o próprio espaço pessoal e garantir a autonomia alcançada, muitas vezes projetada como suficiência e blindagem contra ameaças à individualidade desenvolvida. 

Essa segunda orientação de vida privilegia a autogratificação e autorrealização, fugindo dos riscos que interações e compromissos possam representar para a ideia de equilíbrio, satisfação ou plenitude individual, mas sem enxergar que o risco final pode resultar no isolamento. Não é difícil concluir que ambas as forças caminham em direções contrárias. 

A maturidade da idade deveria munir de mais recursos para negociar essas forças em potencial conflito e navegar a complexidade resultante, mas não garante resultados para ninguém. Também não imuniza contra sentir vividamente novas paixões como torrentes vorazes desestabilizadoras ou êxtases que revitalizam o mundo pessoal e contagiam positivamente outras esferas da vida. 

Os problemas de evitação afetiva, dependência emocional, sujeição a amores tóxicos ou narcisistas e uma longa lista de etecéteras (que parecem povoar as relações de gente mais nova) também podem aparecer, embora com um dramatismo menor. Só que ninguém está inoculado contra sofrer (ou impor) tais situações.  

Divulgação
Fabián Echegaray

O amor após os 50 precisa sair da invisibilidade (ou evitar morrer nos clichês obsoletos, quando, cada vez mais, os 60 parecem ser os novos 40). Podemos pensar o recomeço amoroso depois dos 50 anos como um exercício de autoconhecimento, revisão de expectativas e coragem para estabelecer vínculos sem perder a própria identidade. 

No ar, interpelando todos, mas especialmente quem já viveu várias décadas de experiências, os interrogantes exigem elaborar melhor e de modo prático sobre como se relacionar com o outro sem confundir amor com idealização, desejo com necessidade de validação e compromisso com a renúncia à liberdade individual. Talvez seja hora de filmes, romances, músicas e outros formatos de histórias ilustrarem, narrarem e representarem essas cenas. 

 

Fabián Echegaray - escritor e autor do livro "Tango Feroz", que narra a história do fim do relacionamento de um casal maduro, deslanchando uma busca frenética por sentido envolvendo desejo, ressentimento e autoengano


Infância sem tempo para brincar: por que recuperar o brincar livre é essencial para o desenvolvimento

Em meio a rotinas cada vez mais preenchidas por atividades dirigidas e pela presença de telas, garantir tempo, espaço e liberdade para brincar ganha importância no desenvolvimento infantil
 

A brincadeira é uma das principais linguagens da primeira infância e exerce papel central no desenvolvimento integral da criança. Longe de ser mero entretenimento ou passatempo, o brincar é uma atividade estruturante, na qual se cruzam dimensões cognitivas, motoras, emocionais e sociais. É brincando que a criança experimenta possibilidades, cria hipóteses, estabelece relações, enfrenta desafios e amplia a compreensão sobre si mesma e sobre o mundo.  

Ao mesmo tempo, as oportunidades para brincar livremente vêm disputando espaço com uma infância cada vez mais organizada pelos adultos. Rotinas preenchidas por compromissos e atividades dirigidas, o avanço do uso de telas e dispositivos e a redução das oportunidades de convivência e brincadeira em espaços externos transformam a relação das crianças com o tempo livre. 

Para Lilian Murad Bruner, mestre em Educação e diretora de Educação Infantil do Colégio Visconde de Porto Seguro, esse cenário exige atenção para que o brincar não seja tratado como secundário na rotina infantil. “Brincar não é um intervalo entre atividades consideradas mais importantes. É por meio da brincadeira que a criança investiga, cria, negocia, desenvolve autonomia e constrói diferentes aprendizagens. Por isso, garantir tempo, espaço e liberdade para brincar é parte essencial do desenvolvimento infantil”, afirma.
 

Quando brincar também é parte da proposta pedagógica

Na Educação Infantil, preservar o brincar livre significa criar condições para que a criança possa explorar, imaginar, construir, fazer escolhas e estabelecer relações com autonomia. Nesse contexto, cabe à escola planejar ambientes e experiências que favoreçam a curiosidade sem determinar previamente todos os caminhos da brincadeira. 

No Colégio Visconde de Porto Seguro, essa concepção faz parte da proposta pedagógica do Portinho. Materiais não estruturados, como elementos da natureza, caixas e tecidos, podem ampliar as possibilidades de criação justamente porque não determinam uma única maneira de brincar. O adulto, por sua vez, acompanha as experiências, observa as interações e aprendizagens que surgem e atua como mediador quando necessário. 

“O papel do adulto não é conduzir cada etapa da brincadeira, mas criar contextos que despertem curiosidade e permitam que a criança faça escolhas, teste possibilidades e atribua seus próprios significados à experiência”, explica Lilian.

O planejamento do ambiente também passa pela segurança. Em vez de funcionar como uma forma de restringir movimentos, um espaço estruturado de maneira estratégica pode ampliar a autonomia e reduzir a necessidade de proibições constantes. Aspectos como mobiliário adequado, ausência de quinas perigosas e escolha de superfícies apropriadas contribuem para que a criança possa se movimentar e explorar com maior liberdade. 

“A segurança deve criar condições para a exploração, e não impedir que ela aconteça. Quando o ambiente é pensado para acolher a curiosidade e o movimento da infância, conseguimos oferecer proteção sem retirar da criança a oportunidade de experimentar seus próprios limites”, afirma a educadora. 

Nesse processo, a presença atenta do adulto continua sendo fundamental. Diante de um perigo real, a intervenção é necessária. Já os pequenos desafios e frustrações que fazem parte da brincadeira podem se transformar em oportunidades para que a criança busque soluções, perceba limites e desenvolva confiança em suas próprias capacidades. 

Em uma infância marcada por agendas cada vez mais estruturadas e por novas formas de interação mediadas pela tecnologia, preservar momentos em que a criança tenha liberdade para imaginar, explorar, conviver e descobrir também é uma forma de cuidar de seu desenvolvimento. Garantir o brincar, dentro e fora da escola, é garantir espaço para que a própria infância aconteça.

 

Colégio Visconde de Porto Seguro


Enem 2026: para estudantes neurodivergentes, o desafio pode começar antes da primeira questão

Marcela Oliveira, especialista em neuroreabilitação infantil, traz dicas para estudantes lidarem com a sobrecarga, manterem a concentração e se prepararem para os dias de prova, além de orientar as famílias sobre como ajudar nessa reta final

 

Depois de meses de estudos, simulados e revisões, a chegada do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) costuma trazer uma mistura de expectativa e ansiedade. Para estudantes com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), transtorno do espectro autista (TEA) e outras condições do neurodesenvolvimento, porém, os desafios podem ir além do conteúdo cobrado. Permanecer várias horas em uma sala, administrar o tempo, lidar com ruídos e manter a concentração até a última questão podem exigir um esforço tão grande quanto resolver a própria prova. 

Em 2026, o Enem será realizado nos dias 8 e 15 de novembro. No primeiro domingo, os participantes enfrentarão cinco horas e meia de avaliação, com questões de Linguagens, Ciências Humanas e Redação. No segundo, serão cinco horas de provas de Matemática e Ciências da Natureza.  

Segundo Marcela Oliveira, fisioterapeuta, pesquisadora, fundadora e diretora da Clínica Follow Kids, especializada em neuroreabilitação infantil, a preparação desses estudantes precisa considerar não apenas o conhecimento adquirido, mas também as condições necessárias para que consigam demonstrá-lo. 

“Imagine um estudante que conhece o conteúdo, mas perde muito tempo tentando retomar a concentração depois de um barulho ou de uma distração. Ou aquele que consegue resolver questões difíceis, mas tem dificuldade para organizar a sequência da prova e acaba deixando perguntas sem resposta. Isso não significa falta de conhecimento. Muitas vezes, existe uma dificuldade relacionada à atenção, à organização ou à regulação emocional que precisa ser considerada na preparação”, explica. 

A especialista ressalta que não existe um comportamento único entre estudantes neurodivergentes. Enquanto alguns apresentam dificuldade para sustentar a atenção em tarefas prolongadas, outros podem ser especialmente sensíveis a estímulos do ambiente ou mudanças de rotina.
 

O desafio de administrar a própria prova

Uma das dificuldades que podem aparecer no Enem está relacionada às funções executivas, habilidades envolvidas no planejamento, na organização, no controle de impulsos e na capacidade de ajustar o próprio comportamento. 

Na prática, isso pode significar dificuldade para decidir por qual questão começar, perceber que está gastando tempo demais em uma resposta ou interromper uma tentativa quando ela não está funcionando. Alguns estudantes podem ficar presos a uma questão difícil, enquanto outros respondem impulsivamente, sem revisar o enunciado, ou se perdem diante de textos longos. 

“Às vezes, o estudante passa muito tempo tentando resolver uma única questão porque sente que precisa terminá-la antes de seguir. Quando percebe, já comprometeu o tempo das demais. Por isso, além de estudar o conteúdo, é importante treinar estratégias para reconhecer quando vale insistir, quando é melhor avançar e como retomar uma questão depois”, orienta Marcela. 

Os simulados podem ajudar nesse processo, especialmente quando utilizados para observar como o estudante administra o tempo e reage às dificuldades. A proposta não deve ser apenas reproduzir a pressão do exame, mas identificar quais estratégias funcionam melhor para cada pessoa.

 

Quando o corpo dá sinais de sobrecarga

Nem sempre a dificuldade aparece como uma crise evidente. Alguns estudantes começam a demonstrar irritabilidade, inquietação, cansaço excessivo, dificuldade para dormir ou resistência a atividades que antes conseguiam realizar. Outros ficam mais silenciosos ou evitam conversar sobre a prova. 

Esses comportamentos não são exclusivos da neurodivergência, mas merecem atenção quando representam uma mudança importante no funcionamento habitual do adolescente.

“Quando o estudante já está sobrecarregado, aumentar a cobrança nem sempre melhora o rendimento. É preciso observar se ele está conseguindo dormir, se alimentando adequadamente, fazendo pausas e mantendo alguma atividade prazerosa. Não adianta exigir mais horas de estudo de alguém que já não consegue aproveitar aquele tempo. Às vezes, reorganizar a rotina produz um resultado melhor do que simplesmente acrescentar mais tarefas”, afirma Marcela. 

A poucas semanas do exame, portanto, a preparação não precisa significar mais horas de estudo ou mudanças radicais na rotina. Pequenos ajustes podem ajudar o adolescente a reconhecer sinais de sobrecarga, organizar o tempo e chegar à prova com estratégias que já conhece. Nesse processo, a participação dos pais é importante para oferecer segurança e apoio, sem assumir o controle de todas as decisões.

 

Como se autorregular na reta final e durante o Enem? 

Marcela Oliveira reúne seis orientações que podem ser adaptadas às necessidades de cada estudante:
 

1. Troque maratonas de estudo por períodos que realmente funcionem. Blocos menores, com objetivos claros e pausas planejadas, podem ser mais eficientes do que longas horas diante dos livros. Os pais podem ajudar na organização, mas é importante que o adolescente participe das decisões sobre sua rotina.


2. Aprenda a reconhecer os primeiros sinais de sobrecarga. Irritação crescente, dificuldade para compreender um texto simples, inquietação ou sensação de bloqueio podem indicar a necessidade de uma pausa. Levantar, caminhar, beber água ou respirar lentamente são possibilidades. O ideal é experimentar essas estratégias antes do exame para descobrir quais realmente ajudam.


3. Treine o que fazer quando a concentração se perde. Durante os simulados, o estudante pode praticar uma sequência simples: perceber que se distraiu, voltar ao enunciado, identificar o que a questão pede e decidir se consegue continuar ou se é melhor avançar. O objetivo não é evitar toda distração, mas aprender a retomar a atividade sem aumentar a frustração.


4. Reduza as surpresas dos dias de prova. Conhecer antecipadamente o trajeto, conferir o local do exame e separar documentos e materiais permitidos ajuda a diminuir preocupações. Para estudantes que têm dificuldade com mudanças de rotina, conversar sobre como será o domingo pode trazer mais previsibilidade. Os pais podem ajudar com a logística, sem transmitir ansiedade.


5. Na véspera, apoio vale mais do que cobrança. A família deve evitar comparações, cobranças de última hora e conversas repetidas sobre notas ou aprovação. Manter horários de sono, refeições e atividades habituais tende a ser mais útil do que tentar compensar meses de preparação em uma única noite.


6. Entre um domingo e outro, respeite o tempo de recuperação. Depois da primeira etapa, o estudante terá uma semana até as provas de Matemática e Ciências da Natureza. Antes de retomar as revisões, é importante considerar o desgaste do primeiro dia. Insistir em conferir o gabarito imediatamente ou discutir cada resposta pode aumentar a ansiedade.


“A autorregulação não significa conseguir ficar calmo o tempo inteiro. Significa aprender a reconhecer o que está acontecendo consigo e desenvolver recursos para lidar com aquilo. Alguns estudantes vão precisar de mais apoio para organizar o tempo, outros para administrar estímulos ou frustrações. O importante é conhecer essas estratégias antes de chegar à prova, porque o dia do Enem não é o melhor momento para experimentar algo completamente novo”, explica Marcela.

 

Atendimento especializado: o que o estudante precisa conferir

Além da preparação emocional, acadêmica e cognitiva, estudantes que necessitam de recursos de acessibilidade devem verificar a situação do atendimento especializado solicitado ao Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). 

O Enem prevê atendimento especializado para diferentes condições, incluindo TDAH, TEA, dislexia e discalculia. Entre os recursos disponíveis, conforme a necessidade comprovada e a análise do Inep, estão tempo adicional, auxílio para leitura ou transcrição e outras medidas de acessibilidade. 

A solicitação regular desses recursos ocorre durante o período de inscrição, e sua concessão depende das regras do edital. Portanto, não basta apresentar um diagnóstico no dia da prova para obter automaticamente tempo extra ou adaptações. A orientação é consultar a Página do Participante e conferir os recursos autorizados, além das informações sobre o local e os horários do exame. 

“Os recursos de acessibilidade não existem para oferecer vantagem a um estudante, mas para reduzir barreiras que podem comprometer sua participação. É importante que a família compreenda isso e que o adolescente saiba quais recursos terá disponíveis”, afirma Marcela.

 

O resultado não define o estudante

Embora o Enem tenha grande importância no acesso ao ensino superior, Marcela chama a atenção para o peso emocional que muitas famílias atribuem ao exame. Para adolescentes que já convivem com dificuldades de aprendizagem, organização ou autorregulação, a sensação de estar sendo permanentemente avaliado pode tornar esse período ainda mais desgastante. 

“A família precisa ajudar o estudante a se preparar, mas também transmitir segurança. Um adolescente que encontra dificuldades para manter a atenção ou organizar suas tarefas não precisa ouvir que está desperdiçando oportunidades. Ele precisa compreender suas dificuldades, aprender estratégias e ter condições de demonstrar o que sabe. O Enem é uma etapa importante, mas o resultado de dois domingos não pode definir a capacidade, a inteligência ou o futuro de ninguém”, conclui.

 

Marcela Oliveira - fisioterapeuta, pesquisadora e especialista em Neuroreabilitação Infantil, fundadora e diretora da Clínica Follow Kids, especializada em neuroreabilitação infantil. Com mais de 20 anos de experiência, atua no desenvolvimento de crianças com diferentes condições neurológicas e do neurodesenvolvimento, com foco na funcionalidade, autonomia, participação social e qualidade de vida.


Mitos e verdades: o que a ciência explica sobre o famoso “branco” na hora da prova

Ansiedade, noites mal dormidas e pressão por resultados podem prejudicar a recuperação de informações durante exames 

 

Esquecer uma resposta que parecia estar na ponta da língua durante uma prova é uma experiência comum entre estudantes. Conhecido popularmente como “dar um branco”, o fenômeno pode provocar insegurança e a sensação de que todo o conteúdo estudado foi esquecido. Mas, em muitos casos, a dificuldade não está em aprender ou armazenar a informação, e sim em recuperá-la diante de uma situação de estresse. 

A ciência mostra que o estresse agudo pode afetar o funcionamento da memória e de outras funções cognitivas. Um estudo publicado em 2019 na revista Cerebral Cortex¹, identificou que o estresse reduz a capacidade de recuperar detalhes de experiências anteriores e altera a relação entre a atividade do hipocampo, região importante para a memória, e outras áreas cerebrais envolvidas na lembrança. Por isso, o “branco” não envolve apenas a memória: a atenção, a memória operacional (que mantém e manipula informações enquanto o estudante interpreta e resolve uma questão) e as funções executivas (como planejamento, controle de impulsos e flexibilidade mental) também participam desse processo e podem ser afetadas pelo estresse. 

Isso ajuda a explicar por que um estudante pode dominar determinado assunto durante a preparação e, ainda assim, ter dificuldade para responder a uma questão no momento da avaliação. O chamado “branco”, portanto, não significa necessariamente falta de conhecimento ou de capacidade intelectual. 

“Quando o branco acontece, a primeira coisa a fazer é evitar entrar em um ciclo de preocupação com o próprio bloqueio. Uma pausa breve, acompanhada de uma respiração lenta e confortável, pode ajudar a reduzir a tensão. Se a resposta não vier, vale passar para outra questão e retornar depois. O objetivo é recuperar a concentração sem aumentar a pressão sobre si mesmo”, recomenda a Dra. Lorena Del Sant, Psiquiatra e professora da Afya Educação Médica.

 

Mitos e verdades sobre o branco na hora da prova 

Mito: dar um branco significa que o estudante não estudou o suficiente.

O bloqueio momentâneo não é, por si só, um indicador da qualidade da preparação. A ansiedade pode comprometer a concentração e dificultar o acesso a informações que já foram aprendidas. Isso não significa que a preparação seja irrelevante, mas que o desempenho também pode ser influenciado pelo estado emocional e pelas condições em que a prova é realizada.

 

Mito: estudar até o último minuto é a melhor maneira de evitar o esquecimento.

Revisar o conteúdo pode ajudar na aprendizagem, mas sacrificar o sono para estudar por mais tempo pode ser contraproducente. O sono participa da consolidação da memória e contribui para o funcionamento cognitivo. Por isso, manter uma rotina de descanso adequada é parte importante da preparação para as avaliações.

 

Verdade: resolver questões e fazer simulados é uma das estratégias de estudo com melhor respaldo científico.

Conhecida como evocação ativa, a prática de tentar recuperar o conteúdo da memória, em vez de apenas relê-lo, fortalece o aprendizado e facilita o acesso à informação depois. Além de familiarizar o estudante com o formato da prova, simulados e listas de exercícios treinam a recuperação em condições semelhantes às da avaliação, o que pode reduzir o impacto do estresse no dia.

 

Verdade: a ansiedade em excesso pode prejudicar o desempenho, mesmo quando o estudante conhece a matéria.

Certo grau de ansiedade é esperado diante de uma avaliação e pode até ser adaptativo, pois ajuda a manter o estudante alerta e motivado. O prejuízo ocorre principalmente quando ela se torna excessiva. A preocupação excessiva com o resultado pode consumir parte dos recursos de atenção necessários para interpretar enunciados e recuperar informações. Além disso, sintomas físicos, como aceleração dos batimentos cardíacos, tensão muscular e respiração mais rápida, podem aumentar a sensação de perda de controle durante a prova.

 

Mito: existe uma técnica capaz de impedir qualquer branco.

Não há uma estratégia que elimine completamente a possibilidade de bloqueio. Entretanto, hábitos de estudo consistentes, sono adequado e técnicas de manejo da ansiedade podem ajudar a reduzir o impacto do estresse e favorecer o desempenho.

 

O que fazer quando o branco acontece? 

Quando a mente parece travar durante uma avaliação, tentar forçar a lembrança a qualquer custo pode aumentar a tensão. Algumas medidas simples ajudam a recuperar a concentração e a retomar a resolução da prova:

·         Interrompa a tentativa de responder por alguns instantes e relaxe os ombros, se possível.

·         Inspire e expire de maneira lenta e confortável, sem prender o ar ou forçar o ritmo. Isso pode ajudar a diminuir a sensação de ansiedade.

·         Se a lembrança não vier, avance para uma pergunta que consiga responder. Retomar o assunto mais tarde pode facilitar a recuperação da informação.

·         Identifique palavras-chave e tente relacionar a pergunta aos conceitos que estudou, sem exigir que a resposta apareça imediatamente.

·         Evite trocar horas de sono por revisões extensas na véspera e organize a preparação com antecedência.

·          

“Se der um branco durante a prova, reconheça que a ansiedade pode estar interferindo na sua concentração, sem se cobrar por isso. Faça uma pausa breve, respire lentamente e retome a questão por uma parte que pareça mais fácil. Aos poucos, você pode recuperar o foco e seguir no seu ritmo, sem precisar resolver tudo de uma vez”, orienta a especialista da Afya.


 

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Referências

1. Link

 

Deu branco na hora da prova? Neurocientista explica o que fazer para recuperar a memória

Ansiedade excessiva, privação de sono e dificuldades de concentração podem prejudicar a recuperação de informações durante o ENEM. Especialista explica como controlar a reação e retomar o raciocínio.

 

Com a chegada do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), marcado para os dias 8 e 15 de novembro, um dos receios dos estudantes é esquecer, durante a prova, conteúdos que passaram meses estudando. Conhecido popularmente como "deu branco", o fenômeno pode estar relacionado à ansiedade excessiva e à dificuldade temporária de recuperar informações armazenadas na memória.

O neurocientista Dr. Fabiano de Abreu Agrela, Pós-PhD em Neurociências, diretor científico do Centro de Pesquisa e Análises Heráclito (CPAH) e professor convidado da pós-graduação em Neurociências e Comportamento da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), explica que o problema nem sempre representa falta de conhecimento.

Segundo o especialista, a ansiedade elevada pode comprometer a atenção e sobrecarregar a memória de trabalho, responsável por manter e manipular informações durante a resolução das questões. Pensamentos relacionados ao medo de errar, à pressão familiar e às consequências de uma nota baixa disputam recursos cognitivos com a própria atividade intelectual.

O uso excessivo das redes sociais também merece atenção. A exposição constante a notificações, vídeos curtos e comparações sociais, principalmente quando interfere no sono e na rotina de estudos, pode contribuir para dificuldades de concentração e sintomas de ansiedade. Essa associação, porém, não significa que as redes sociais sejam a causa direta do bloqueio de memória.

O que fazer quando der branco?

A primeira recomendação é interromper por alguns segundos a tentativa de recordar a resposta. Respirar lentamente, com uma expiração mais prolongada, pode ajudar a controlar a ativação fisiológica da ansiedade.

Em seguida, o estudante deve reler o enunciado e identificar palavras-chave relacionadas ao conteúdo estudado. Essas pistas podem facilitar a recuperação de informações por associação.

Se a dificuldade continuar, a orientação é passar para outra questão e retornar posteriormente. Insistir repetidamente na mesma resposta pode aumentar a frustração e consumir tempo que poderia ser utilizado em outras perguntas.

Fabiano também recomenda que os candidatos evitem noites mal dormidas, reduzam as distrações digitais e pratiquem simulados sob condições semelhantes às do exame. O treinamento ajuda a familiarizar o estudante com a pressão do tempo e a identificar dificuldades antes da prova.

O neurocientista é autor do estudo científico "Técnicas para memorização: sobre as células de engramas", publicado em 2021 na revista Ciencia Latina Revista Científica Multidisciplinar. O trabalho discute mecanismos da memória, neuroplasticidade, atenção e estratégias que podem favorecer a retenção e a recuperação de conhecimentos.

A principal orientação é compreender que esquecer uma informação e apresentar dificuldade momentânea para recuperá-la são situações diferentes. Controlar a ansiedade, reorganizar a atenção e utilizar pistas de memória podem ajudar o estudante a retomar o raciocínio sem comprometer o restante da prova.

  

Dr. Fabiano de Abreu Agrela - Pós-PhD em Neurociências, diretor científico do Centro de Pesquisa e Análises Heráclito (CPAH) e professor convidado da pós-graduação em Neurociências e Comportamento da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS)


O cérebro de 70 anos ainda pode aprender a pensar de um jeito que nunca pensou

Especialista do Supera explica por que criatividade não é privilégio da infância e o que a neuroplasticidade tem a ver com isso

 

A criatividade costuma ser tratada como um dom que nasce com alguns e desaparece com a idade. A neurociência aponta o contrário: ela é resultado da combinação de repertório acumulado, e o cérebro continua capaz de formar conexões novas em qualquer etapa da vida.   

Para a diretora pedagógica nacional do Supera - Estimulação Cognitiva, Patrícia Lessa, a criatividade não é um território reservado à infância nem à juventude. "Ao mesmo tempo que há um declínio da velocidade de processamento e da memória operacional com o envelhecimento, outras habilidades se fortalecem; os alunos mais velhos já têm uma vivência. A memória semântica (conteúdo), por exemplo, vai se ampliando", afirma. 

A explicação está na forma como o cérebro produz ideias. Segundo a neurociência, a criatividade resulta da combinação de atividades já registradas em diferentes partes do cérebro e não da atividade de um suposto "centro de criatividade". Quanto mais repertório acumulado, mais matéria-prima disponível para combinar. 

"O que fazemos, a variedade e a complexidade crescente do que fazemos em cada etapa da vida tem um impacto sobre o funcionamento do cérebro mais tarde. A forma como você trata seu cérebro hoje pode afetar seus anos de saúde mental e a sua capacidade criativa, não apenas hoje, mas também no futuro", explica Patrícia Lessa. 

O ponto central é que esse processo não se encerra na juventude. "Quando realizamos sempre as mesmas tarefas, o cérebro tende a economizar energia. Isso é natural, mas desafios inéditos são fundamentais para fortalecer a chamada reserva cognitiva, que ajuda o cérebro a lidar melhor com o envelhecimento", diz a diretora. 

A reserva cognitiva é o conjunto de recursos construídos ao longo da vida por meio da educação, da aprendizagem contínua, das atividades intelectuais, do trabalho e da convivência social. É ela que permite maior adaptação diante das mudanças próprias do envelhecimento. E é também o que sustenta a flexibilidade de pensamento. 

"Nosso cérebro precisa de novidade, variedade e grau de desafio crescente. Quando ele é estimulado da forma correta, consegue dar melhores respostas. No caso das crianças, a resposta é mais desempenho escolar, para adultos, uma aprovação em um concurso público e melhor desempenho no trabalho. Já para os idosos, a estimulação cognitiva oferece ganhos significativos em memória, concentração, raciocínio e reserva cognitiva", afirma Patrícia. 

Assim, exercitar a mente mostra-se o melhor caminho para garantir que a criatividade continue sendo uma ferramenta ativa em qualquer etapa da vida. 


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