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quarta-feira, 28 de outubro de 2026

AVC: o que acontece entre a chegada ao Pronto-Socorro e o início do tratamento?

 HAC 
No Hospital Angelina Caron, protocolo de atendimento prioriza rapidez no diagnóstico e no tratamento; reconhecer os sintomas e buscar ajuda imediatamente são atitudes decisivas para reduzir sequelas 

 

Uma pessoa chega ao pronto-socorro com dificuldade para falar, perda de força em um dos braços ou desvio na boca. A equipe precisa agir rapidamente: cada minuto pode fazer diferença entre uma recuperação com menos sequelas e limitações que acompanham o paciente por toda a vida. No Acidente Vascular Cerebral (AVC), o tempo é um fator determinante para preservar a função cerebral e aumentar as chances de recuperação.

O AVC é uma emergência neurológica que ocorre quando o fluxo sanguíneo para uma região do cérebro é interrompido ou quando há o rompimento de um vaso sanguíneo, provocando danos às células cerebrais. A condição apresenta alto risco de morte e incapacidade, e a agilidade no reconhecimento dos sintomas, no diagnóstico e no início do tratamento é fundamental para o prognóstico.

No dia 29 de outubro, Dia Nacional de Prevenção ao Acidente Vascular Cerebral (AVC) e Dia Mundial do AVC, o Hospital Angelina Caron, localizado em Campina Grande do Sul, na Região Metropolitana de Curitiba, chama a atenção para a importância do atendimento rápido e explica o que acontece entre a chegada do paciente ao pronto-socorro e o início do tratamento.


Uma corrida contra o tempo

Quando há suspeita de AVC, o atendimento segue etapas que precisam ser conduzidas com rapidez e precisão. No Hospital Angelina Caron, um protocolo específico orienta a equipe na avaliação do paciente, na investigação do quadro e na definição da conduta terapêutica mais adequada.

O primeiro passo é reconhecer os sinais de alerta e realizar uma avaliação clínica e neurológica. Em seguida, exames de imagem, especialmente a tomografia computadorizada de crânio, ajudam a identificar o tipo de AVC e a orientar a escolha do tratamento. Essa diferenciação é essencial porque as abordagens para os dois principais tipos da doença são distintas.

O AVC isquêmico acontece quando um vaso sanguíneo que leva sangue ao cérebro é obstruído, geralmente por um coágulo. Já o AVC hemorrágico ocorre quando há o rompimento de um vaso, provocando sangramento no cérebro ou em suas proximidades.

“Reconhecer os sintomas e procurar atendimento imediatamente é fundamental. No AVC isquêmico, existe uma janela de tempo para realizar a trombólise química, tratamento que utiliza medicamentos para dissolver o coágulo e restabelecer a circulação sanguínea. Em geral, esse tratamento deve ser iniciado em até quatro horas e meia após o início dos sintomas, desde que o paciente atenda aos critérios clínicos necessários. Por isso, precisamos considerar não apenas o tempo dentro do hospital, mas também o período entre o aparecimento dos sintomas, o deslocamento até o pronto-socorro, a avaliação médica e a realização dos exames”, explica Eduardo Hummelgen, coordenador do Serviço de Neurologia e Neurofisiologia do Hospital Angelina Caron.

A trombólise química pode transformar o prognóstico de pacientes elegíveis, aumentando as chances de recuperação e reduzindo o risco de sequelas. A indicação, porém, depende da avaliação médica e da confirmação de que o tratamento é seguro para cada caso.


Como reconhecer os sintomas de um AVC?

Os sinais de um AVC podem surgir de forma súbita e nem sempre aparecem todos ao mesmo tempo. Entre os principais sintomas estão:

- Fraqueza ou perda de força: principalmente em um lado do corpo, atingindo o rosto, o braço ou a perna.

- Alteração na fala: dificuldade para falar, articular palavras ou compreender o que outras pessoas dizem.

- Assimetria facial: um lado da boca fica torto ou parece não responder normalmente.

- Alterações visuais: perda súbita da visão ou dificuldade para enxergar.

- Alterações no equilíbrio e na coordenação: tontura intensa, dificuldade para caminhar ou perda repentina de equilíbrio.

- Dor de cabeça súbita e intensa: especialmente quando diferente das dores habituais e acompanhada de outros sintomas neurológicos.

Ao perceber qualquer um desses sinais, a orientação é acionar imediatamente o serviço de emergência, pelo SAMU (192), e não esperar que os sintomas desapareçam. Também é importante observar e, se possível, registrar o horário em que os sintomas começaram ou a última vez em que a pessoa foi vista sem eles. Essa informação ajuda a equipe médica a avaliar as possibilidades de tratamento.


Recuperação começa ainda durante a internação 

Depois da fase aguda, o cuidado continua. A recuperação de um paciente que sofreu AVC exige acompanhamento multidisciplinar, com participação de médicos, profissionais de enfermagem, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e fisioterapeutas. O trabalho integrado permite acompanhar diferentes aspectos da saúde, identificar limitações e iniciar intervenções de acordo com as necessidades de cada pessoa.

A reabilitação deve começar tão cedo quanto for clinicamente seguro, respeitando as condições do paciente. A fisioterapia, por exemplo, pode contribuir para recuperar movimentos, trabalhar força muscular, melhorar a mobilidade e estimular a independência nas atividades cotidianas. Já a fonoaudiologia pode atuar nas dificuldades de fala, linguagem e deglutição, enquanto a terapia ocupacional auxilia na retomada de habilidades necessárias para as tarefas do dia a dia.

A alta hospitalar também faz parte desse processo. O paciente e seus familiares devem receber orientações sobre os cuidados necessários, a continuidade da reabilitação motora, o uso correto dos medicamentos e as medidas para reduzir o risco de um novo episódio. O acompanhamento após a internação é importante para dar continuidade à recuperação e reforçar o controle dos fatores de risco.


Coração e cérebro: uma conexão importante na prevenção

Além de reconhecer os sintomas e garantir o atendimento rápido, prevenir o AVC exige atenção à saúde cardiovascular. Coração e cérebro estão diretamente conectados pela circulação sanguínea, e algumas alterações cardíacas podem aumentar o risco de um evento cerebrovascular.

“Coração e cérebro estão intimamente relacionados. Algumas arritmias, como a fibrilação atrial, podem favorecer a formação de coágulos dentro do coração. Quando um desses coágulos se desprende e chega à circulação cerebral, pode provocar uma obstrução e desencadear um AVC. Por isso, identificar e tratar as doenças cardiovasculares é uma medida importante de prevenção”, explica Nayara Pravato Maziero, cardiologista do Hospital Angelina Caron.

A prevenção também envolve controlar a pressão arterial, o diabetes e o colesterol, não fumar, praticar atividade física regularmente, manter uma alimentação equilibrada e realizar acompanhamento médico. Pessoas com arritmias ou outras doenças cardiovasculares devem seguir as orientações individualizadas dos profissionais de saúde, inclusive quanto à necessidade de medicamentos para reduzir o risco de formação de coágulos.


Câncer de mama: nem sempre o primeiro sinal é um caroço

Dr. Rodolfo Gusmão, médico integrativo e CEO do Instituto Aeon, explica quais sinais merecem atenção e por que a mamografia continua essencial.

 

Quando se fala em câncer de mama, a primeira imagem que costuma vir à cabeça é a de um caroço palpável. Embora o nódulo seja um dos sinais mais conhecidos da doença, ele não é o único. Alterações na textura da pele, mudanças no mamilo e secreções inesperadas também podem indicar que algo precisa ser investigado. 

O alerta ganha importância durante o Outubro Rosa, campanha dedicada à conscientização sobre o câncer de mama e à importância do diagnóstico precoce. Para o Dr. Rodolfo Gusmão, médico integrativo e CEO do Instituto Aeon, reconhecer mudanças no próprio corpo é importante, mas não substitui o acompanhamento médico. 

“Existe uma associação muito forte entre câncer de mama e a presença de um caroço. O problema é que algumas alterações podem aparecer de outras formas. Conhecer esses sinais ajuda a identificar quando é necessário procurar uma avaliação, mesmo que não exista nenhum nódulo perceptível”, explica o médico.
 

Os sinais que vão além do nódulo 

Entre as alterações que merecem atenção estão a retração ou o espessamento da pele da mama, especialmente quando ela adquire uma aparência semelhante à casca de laranja. Mudanças recentes no formato do mamilo, como uma inversão que não existia anteriormente, e descamação persistente também precisam ser avaliadas. 

Outro sinal importante é a saída espontânea de secreção pelo mamilo, principalmente quando ocorre em apenas uma mama, sem relação com a amamentação. Vermelhidão persistente, especialmente quando não há uma causa infecciosa aparente, também pode justificar investigação. 

Essas manifestações não significam necessariamente a presença de câncer. Muitas podem estar relacionadas a condições benignas, mas a persistência ou o aparecimento de mudanças novas exige atenção. 

“O objetivo não é transformar qualquer alteração em motivo de medo, mas entender que o corpo pode apresentar sinais diferentes. O que merece investigação é principalmente aquilo que surge de forma inesperada, persiste ou representa uma mudança em relação ao padrão habitual daquela pessoa”, destaca Dr. Rodolfo.
 

Dor na mama é sinal de câncer? 

A dor mamária costuma gerar preocupação, mas, quando aparece de forma isolada e sem outras alterações associadas, raramente está relacionada ao câncer de mama. Na maioria das vezes, o desconforto tem origem benigna e pode estar associado às oscilações hormonais do ciclo menstrual, entre outras causas. 

Isso não significa, porém, que a dor deva ser ignorada. Quando é persistente, localizada ou acompanhada de outras mudanças, a avaliação médica é importante para identificar sua origem. 

“Nem toda dor representa um sinal de gravidade, assim como a ausência de dor não significa que está tudo bem. O mais importante é observar o contexto, a persistência dos sintomas e a presença de outras alterações”, explica o especialista.
 

Autoconhecimento não substitui mamografia 

Observar as próprias mamas e reconhecer mudanças no corpo são atitudes importantes, mas não substituem os exames de rastreamento. A mamografia permite identificar alterações que ainda não são perceptíveis ao toque ou à observação, aumentando as possibilidades de detectar a doença em fases iniciais. 

A idade de início e a periodicidade do rastreamento devem considerar as recomendações médicas vigentes e o risco individual. Mulheres com histórico familiar relevante ou outros fatores de risco podem precisar de acompanhamento específico. 

“O autoconhecimento corporal e a mamografia têm funções complementares. Um ajuda a reconhecer mudanças que surgem no dia a dia; o outro pode identificar alterações antes mesmo de qualquer sintoma. Nenhuma dessas estratégias deve ser vista como substituta da outra”, ressalta Dr. Rodolfo.
 

O principal alerta é não esperar aparecer um caroço 

A detecção precoce continua sendo uma das principais estratégias para melhorar as possibilidades de tratamento do câncer de mama. Por isso, o cuidado não deve começar apenas quando um nódulo se torna palpável. 

Mudanças persistentes na pele, no mamilo ou no aspecto das mamas merecem avaliação profissional, independentemente da idade ou da realização recente de exames de rotina. 

“Conhecer o próprio corpo é importante, mas não significa assumir a responsabilidade de identificar uma doença sozinha. O fundamental é procurar orientação diante de alterações persistentes e manter o acompanhamento recomendado. Quanto mais cedo uma alteração suspeita é investigada, maiores são as possibilidades de agir no momento adequado”, conclui o médico.

 

Instituto Aeon


Dia Mundial da Psoríase: dermatologista da SBCD explica como reconhecer a doença e quais cuidados adotar

 

Magnific 

Lesões avermelhadas, descamação e coceira podem ser confundidas com ressecamento; doença inflamatória e imunomediada não é contagiosa e requer acompanhamento médico

 

Vermelhidão, descamação, coceira e placas persistentes na pele nem sempre são apenas sinais de ressecamento e podem estar relacionadas a uma doença inflamatória e imunomediada que afeta diferentes regiões do corpo e pode ser confundida com alterações comuns da pele. No Dia Mundial da Psoríase, celebrado em 29 de outubro, o alerta é para a importância de reconhecer os sinais e buscar avaliação médica sobre a doença.

A dermatologista Viviane Maiolini, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica (SBCD), explica que as lesões podem aparecer em diferentes regiões do corpo. Cotovelos e joelhos estão entre os locais mais frequentes, mas o quadro também pode atingir o couro cabeludo, as axilas e as virilhas. Dependendo da região, os sinais podem se parecer com problemas mais comuns, como a caspa intensa.

“Pode parecer caspa intensa ou dermatite seborreica que não melhora no couro cabeludo. Também pode afetar as unhas, causando inflamação e presença de pus na região. Por isso, se o paciente apresentar essas lesões ou manchas e placas avermelhadas e descamativas no corpo ou na região genital, que podem vir acompanhadas de coceira ou dor, é importante consultar um dermatologista para receber o diagnóstico e o tratamento adequados”, explica a Dra. Viviane, que atua na área de doenças imunomediadas e é especialista em cirurgia dermatológica e oncologia cutânea.

Uma das diferenças entre a psoríase e o ressecamento comum está no aspecto e na persistência das alterações. A pele seca pode apresentar descamação e coceira, especialmente em períodos de baixa umidade ou após a exposição a fatores que favorecem a perda de hidratação. Já a psoríase costuma provocar placas inflamadas, que podem apresentar descamação e persistir mesmo com medidas simples de hidratação.

“A psoríase é uma doença imunomediada e inflamatória da pele. Já o ressecamento comum pode ocorrer em qualquer pessoa”, acrescenta a especialista.


Hábitos que podem piorar os sintomas

Alguns cuidados no dia a dia podem ajudar a preservar a barreira da pele e evitar fatores que favorecem o ressecamento e a irritação. Banhos muito quentes e prolongados, por exemplo, podem retirar parte da oleosidade natural da pele. Por isso, a recomendação é optar por água morna, reduzir o tempo do banho, utilizar sabonetes menos abrasivos, evitar esfregar a pele e aplicar hidratante após o banho.

A hidratação pode contribuir para reduzir o ressecamento e o desconforto, mas não substitui o tratamento indicado pelo dermatologista quando há psoríase.

O estresse também merece atenção. De acordo com Dra. Viviane, ele pode contribuir para a piora das manifestações da doença, mas não é considerado a causa da psoríase.

O estresse não causa psoríase. A doença tem origem genética e imunológica, mas situações de estresse podem agravar o quadro. Isso pode acontecer porque o paciente fica mais preocupado com a condição e pode manipular as lesões, o que pode contribuir para a piora da psoríase”, esclarece.

Outro ponto é o chamado fenômeno de Koebner, que pode ocorrer quando a pele sofre algum tipo de trauma ou atrito. Em pessoas com psoríase, lesões provocadas por arranhões, cortes ou outras agressões à pele podem favorecer o aparecimento de novas lesões na região. Por isso, coçar ou manipular as placas deve ser evitado.


Psoríase não é contagiosa

Apesar de suas manifestações visíveis, a psoríase não é uma doença contagiosa, pois o contato com as lesões não transmite a condição para outras pessoas.

“Psoríase é uma predisposição da pessoa. Pode tocar na lesão, ela não é contagiosa”, reforça a dermatologista.

A condição também exige uma abordagem que considere a saúde de forma ampla. Por ser uma doença inflamatória sistêmica, a psoríase pode estar associada a outras condições, como hipertensão, síndrome metabólica e alterações cardiovasculares. Por isso, o acompanhamento médico é importante para avaliar o paciente de forma integral.

“A psoríase é uma doença inflamatória sistêmica, que acomete principalmente a pele e pode ocorrer também nas articulações, causando a artrite psoriática. Porém, está provado que quem tem psoríase apresenta maior risco cardiovascular e de desenvolver síndrome metabólica. Logo, é interessante procurar atendimento médico para diagnosticar e tratar a psoríase e suas possíveis comorbidades”, orienta a Dra. Viviane.


Como escolher um médico habilitado

A SBCD ressalta a importância de a população buscar um profissional habilitado para acompanhamento, diagnóstico e tratamento. Para isso, é fundamental verificar se o médico possui o Registro de Qualificação de Especialista (RQE), qualificação atestada pelo Conselho Regional de Medicina (CRM).

A consulta é simples e pode ser feita a partir do nome do profissional no site do Conselho Federal de Medicina (CFM). Clique aqui!

Esse cuidado na escolha ajuda a evitar atendimentos inadequados por profissionais não habilitados e garante mais segurança ao paciente.


Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica - SBCD

 

Exercício físico ganha espaço na prevenção e no tratamento do câncer

A prática regular de exercícios físicos é reconhecida por seus benefícios à saúde cardiovascular e metabólica. Nos últimos anos, também ganhou espaço nas pesquisas sobre câncer, tanto na prevenção de alguns tumores quanto na evolução de pacientes após o diagnóstico. Estudos indicam que pessoas fisicamente ativas apresentam menor risco de desenvolver determinados tipos de câncer e que programas estruturados de exercícios podem melhorar resultados clínicos em situações específicas. Uma revisão científica publicada na revista Nature Reviews Clinical Oncology, de autoria de Joshua W. Bliss e Lee W. Jones, analisa os avanços e as limitações das evidências sobre o papel da atividade física na prevenção e no tratamento oncológico. A principal conclusão é que os benefícios são promissores, mas não podem ser generalizados para todos os tumores ou etapas da doença. 

Na prevenção, estudos observacionais associam níveis mais elevados de atividade física a uma menor incidência de diferentes tipos de câncer. Uma análise que reuniu dados de 1,44 milhão de adultos, distribuídos por 12 grupos de pesquisa, encontrou associação entre maior prática de exercícios e menor risco de 13 tipos de tumor. Entre os resultados, a redução relativa do risco foi de aproximadamente 21% para o câncer de endométrio e de 16% para o câncer de cólon. 

Esses números, no entanto, exigem cautela. Estudos observacionais identificam associações, mas não demonstram, por si só, que o exercício seja a causa direta da redução do risco. Outros fatores, como alimentação, peso corporal, tabagismo e condições gerais de saúde, podem influenciar os resultados. Também é necessário considerar que pessoas com doenças ainda não diagnosticadas podem reduzir suas atividades físicas. 

Após o diagnóstico, a atividade física também tem sido associada a melhores resultados. Pesquisas observacionais apontam relação entre a prática de exercícios e menor mortalidade geral e específica por câncer em diferentes grupos de pacientes. Em uma análise com 90.844 sobreviventes da doença, cumprir as recomendações de atividade física esteve associado a uma mortalidade por todas as causas 42% menor. Como se trata de uma associação observacional, o resultado não comprova que o exercício, isoladamente, tenha provocado essa diferença. 

A evidência mais consistente de benefício clínico vem de estudos que avaliaram programas estruturados de exercícios. Um exemplo é o ensaio clínico CHALLENGE, que acompanhou pacientes com câncer de cólon em estágio III ou em estágio II de alto risco após cirurgia e quimioterapia adjuvante. Os participantes que realizaram um programa de exercícios apresentaram melhora na sobrevida livre de doença e na sobrevida global. 

O resultado representa um avanço importante porque vai além da observação de hábitos e avalia uma intervenção planejada. Ainda assim, não significa que o exercício produza o mesmo efeito em todos os tipos de câncer. Outro estudo de fase III, o ECHO, não encontrou melhora na sobrevida livre de progressão entre pacientes com câncer de ovário submetidas a tratamento sistêmico inicial. A diferença entre os resultados reforça a necessidade de avaliar cada tumor e contexto terapêutico separadamente. 

Também não há, até o momento, evidências conclusivas de que a prática de exercícios aumente diretamente a resposta dos tumores aos tratamentos sistêmicos, incluindo a imunoterapia. Alguns estudos iniciais identificaram alterações em marcadores biológicos, mas esses resultados ainda não permitem estabelecer qual intensidade ou quantidade de atividade física seria necessária para produzir um efeito antitumoral comprovado. 

A revisão destaca, portanto, a importância de distinguir os benefícios gerais da atividade física dos efeitos específicos sobre a evolução do câncer. Exercitar-se pode contribuir para a saúde e estar associado a melhores desfechos, mas não substitui cirurgia, quimioterapia, radioterapia, imunoterapia ou qualquer outra terapia indicada pela equipe médica. 

As recomendações gerais da Organização Mundial da Saúde para adultos são de 150 a 300 minutos semanais de atividade aeróbica de intensidade moderada, ou de 75 a 150 minutos de intensidade vigorosa, além de exercícios de fortalecimento muscular. Para pessoas em tratamento oncológico ou em recuperação, porém, a rotina deve ser adaptada às condições clínicas, aos efeitos adversos, à capacidade funcional e às orientações dos profissionais de saúde. 

A chamada oncologia do exercício busca justamente avançar nessa personalização. O desafio é identificar quais modalidades, intensidades e períodos de treinamento são mais adequados para cada perfil de paciente e em quais situações os exercícios podem melhorar desfechos clínicos relevantes. 

O conjunto das pesquisas aponta para um papel crescente da atividade física no cuidado oncológico, mas também evidencia lacunas que precisam ser preenchidas. A prevenção de determinados tumores e os benefícios observados em grupos de pacientes são campos promissores. Para transformar essas associações em recomendações específicas e comprovar efeitos sobre a progressão da doença, ainda são necessários ensaios clínicos robustos, realizados em diferentes tipos de câncer e fases do tratamento.

 

Fernando Bray - médico, especialista em gastroenterologia cirúrgica e coloproctologia em São Paulo. Doutor e Mestre em Ciências da Saúde


Outubro Rosa: conheça a Cabelegria, projeto que transforma solidariedade em autoestima

ONG apoiada pela Fundação Fenômenos já recebeu mais de 420 mil doações de cabelo e confeccionou mais de 14 mil perucas

 

Durante o Outubro Rosa, a Cabelegria, ONG apoiada pela Fundação Fenômenos, chama a atenção para a importância da autoestima e do bem-estar emocional de mulheres que enfrentam o câncer de mama. Desde 2013, a organização transforma doações de cabelos em perucas destinadas a pacientes que convivem com a queda dos fios durante o tratamento oncológico ou em decorrência de outras patologias. Ao longo de sua trajetória, a iniciativa recebeu mais de 420 mil doações de cabelos e confeccionou e entregou mais de 14 mil perucas. 

Fundada por Mariana Robrahn e Mylene Duarte, a Cabelegria nasceu do desejo de apoiar mulheres em um momento de vulnerabilidade. A iniciativa se tornou uma das maiores organizações de arrecadação de cabelos do país. 

Além da confecção de perucas, a Cabelegria também desenvolve iniciativas voltadas ao resgate da autoestima e ao empoderamento feminino, com ações de conscientização, acesso à informação e promoção da saúde física e emocional. Hoje, o trabalho também contribui para a geração de renda de nove costureiras envolvidas na produção das perucas, ampliando o impacto social da iniciativa. 

“Quando começamos a Cabelegria, nossa vontade era ajudar quem estava passando por um momento tão delicado. Com o tempo, entendemos que recuperar a autoestima também faz parte desse processo e que poderíamos fazer muito mais. Hoje, nosso trabalho busca olhar para essas pessoas de forma integral, oferecendo não apenas uma peruca, mas acolhimento, informação, oportunidades e ferramentas para que elas possam se reconhecer novamente e se sentir fortalecidas”, afirma Mariana Robrahn, fundadora da Cabelegria. 

Para facilitar o acesso das pacientes às perucas, a Cabelegria realiza o envio gratuito após solicitação pelo site e mantém nove bancos físicos em São Paulo e no Rio de Janeiro, onde é possível experimentar os modelos. A organização também conta com um banco de perucas móvel, que leva o atendimento para diferentes locais e públicos. 

“Uma das coisas que mais valorizamos na Fundação Fenômenos é a capacidade de identificar projetos que nascem de uma necessidade real e conseguem desenvolver soluções concretas. A Cabelegria é um exemplo disso. O que começou com a mobilização de duas mulheres se transformou em uma rede de solidariedade que envolve doadores, profissionais e voluntários de diferentes regiões do país”, destaca Amanda Busch, diretora geral da Fundação Fenômenos.

 

https://www.instagram.com/cabelegria/


Fundação Fenômenos
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Gravidez na infância e adolescência custa caro ao futuro das meninas, alerta Plan Brasil no Dia Internacional da Menina

 Pesquisa “Marcas do Tempo”, da Plan Brasil, mostra que quase 9 em cada 10 jovens que engravidaram entre 15 e 19 anos se casaram ou formaram união após a gestação.

 

Ter engravidado na infância ou na adolescência aumenta em 24 pontos percentuais a chance de uma jovem estar fora da escola e em 21 pontos percentuais a chance de ela não concluir o Ensino Médio. É o que mostra a pesquisa “Marcas do Tempo: Gravidez na Adolescência e seus Impactos na Vida de Mulheres no Brasil”, da Plan International Brasil, que ouviu mais de 1.500 jovens mulheres de 19 a 29 anos em todas as regiões do país. Os resultados embasam a campanha “Meninas respeitadas, direitos protegidos”, lançada pela organização para marcar o Dia Internacional da Menina, celebrado em 11 de outubro. 

Instituído pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 2011, o Dia Internacional da Menina é celebrado todo 11 de outubro para dar visibilidade aos direitos das meninas e aos desafios específicos que elas enfrentam em todo o mundo.
 

Casamento infantil e uniões informais com crianças e adolescentes

No Brasil, a pesquisa da Plan mostra que gravidez e casamento na infância e na adolescência caminham juntos. Além dos 88% que se casaram ou formaram uma união após engravidar entre os 15 e os 19 anos, 53% das jovens que engravidaram na infância ou adolescência são hoje casadas ou vivem em união estável, mais que o dobro do registrado entre as que não passaram pela experiência (26%). E, entre as jovens que vivem em união, ter engravidado cedo aumenta em 19 pontos percentuais a probabilidade de essa união ter começado antes dos 16 anos, idade abaixo da qual o casamento é proibido no país desde 2019. 

Os dados oficiais reforçam o cenário. Em 2022, 12% dos nascimentos no Brasil foram de mães com até 19 anos, e cerca de 14 mil bebês nasceram de meninas de até 14 anos, faixa etária em que, pela lei brasileira, qualquer relação sexual configura estupro de vulnerável. Aproximadamente 16% dessas mães foram declaradas casadas ou em união estável no registro de nascimento dos filhos, segundo o Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC). 

Nas 50 entrevistas em profundidade da pesquisa, casamentos e uniões precoces aparecem como um fator que aprofunda as consequências da gravidez na infância e na adolescência: aumenta a sobrecarga de trabalho doméstico e de cuidado, restringe a autonomia, dificulta a permanência na escola e expõe as meninas à violência doméstica. Uma das entrevistadas, hoje com 24 anos, engravidou aos 10 e resume: “Casei com 13 anos. Minha adolescência foi sempre ser dona de casa. Até adulto foi ser dona de casa, na adolescência. Na minha infância, aproveitei muito pouco, depois que engravidei.”
 

Um custo que acompanha a vida inteira

A pesquisa da Plan Brasil mostra que o prejuízo acompanha essas jovens até a vida adulta. Entre as que engravidaram cedo, 83% já tiveram que deixar um emprego ou perderam oportunidades de trabalho por causa do cuidado com os filhos, e 48% vivem com até dois salários-mínimos, contra 34% das que não passaram pela experiência. A interrupção dos estudos pesa nessa conta: segundo o Ipea, concluir o Ensino Médio eleva a renda de uma pessoa entre 11% e 20% ao longo da vida. O casamento infantil também: o Banco Mundial estima que a prática reduz em 9% os ganhos de uma mulher ao longo da vida. 

Os relatos também mostram como a falta de rede de apoio e a sobrecarga de cuidado se traduzem em perda de renda. “Com certeza já perdi por não ter rede de apoio, porque a minha rede de apoio hoje é meu marido e minha mãe. Minha mãe tem a vida dela e meu marido tem que trabalhar, e aí a prioridade hoje é ele trabalhar. E aí eu já perdi vários, inclusive empregos bons, porque eu não tinha ninguém com quem deixar”, conta uma entrevistada de 23 anos da região Centro-Oeste.
 

Prevenir é investir

Não prevenir também tem um custo alto para o país. A gravidez e a maternidade na adolescência geram perdas econômicas estimadas em R$ 6,2 bilhões por ano no Brasil, o equivalente a 0,06% do PIB, segundo o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA). A experiência da Plan Brasil mostra que a prevenção dá resultado. Nas avaliações dos projetos da organização, a proporção de adolescentes aptas a tomar decisões sobre a própria saúde sexual e reprodutiva passou de 33% para 82%, e a parcela de participantes que veem o casamento como uma decisão da vida adulta subiu de 52% para 93%. 

Para Cynthia Betti, CEO da Plan Brasil, prevenir a gravidez na infância e na adolescência é uma questão de direitos e também de desenvolvimento. “Quando uma menina engravida, ela perde a infância, interrompe os estudos e vê suas oportunidades de trabalho encolherem. Mas essa conta não é só dela, ela recai sobre todo o país. Investir no rompimento dos ciclos de violências contra as meninas é fundamental para construir um Brasil socialmente justo e economicamente sustentável. No Dia Internacional da Menina, queremos mobilizar toda a sociedade para garantir que cada menina possa crescer livre, segura e respeitada”, afirma.
 

Mobilização em diferentes frentes

Como parte das comemorações do Dia Internacional da Menina, o movimento Meninas Ocupam levou adolescentes e jovens mulheres a espaços de liderança e tomada de decisão em todas as localidades onde a Plan Brasil atua. Criada no país em 2016, a iniciativa permite que as participantes apresentem propostas e levem questões de suas escolas, comunidades e rotinas diretamente a lideranças.

Teresina (PI), São Luís (MA) e Codó (MA) receberam o Festival das Meninas nos dias 9, 10 e 15 de outubro, respectivamente, com apresentações culturais, oficinas e rodas de conversa. Os eventos foram realizados com organizações parceiras e contarão com meninas e jovens participantes dos projetos da Plan Brasil.

Em 11 de outubro, a organização também abriu as inscrições para a segunda edição do Fundo de Incentivo Acelere o Relógio da Igualdade, que prevê até R$ 600 mil em repasses para projetos liderados por meninas e jovens mulheres, coletivos, movimentos sociais e organizações da sociedade civil.

Durante todo o mês de outubro, uma campanha digital reforçará a conscientização e a captação de doações para a ONG.
 

Sobre a pesquisa

“Marcas do Tempo” combina uma survey nacional com 1.500 jovens mulheres de 19 a 29 anos, com uso de técnicas de inferência causal (pareamento) para comparar jovens que passaram ou não pela experiência de gravidez na infância ou adolescência, controlando por características prévias, e 50 entrevistas em profundidade. A pesquisa foi realizada pela Akauã Consultoria em Dados, com apoio de organizações parceiras em diferentes regiões do país, e contou com comitê externo de ética de pesquisa da Flacso Brasil.
  

Plan Brasil
www.plan.org.br


Perda persistente do olfato exige investigação médica

 

magnific
Alteração pode estar associada a inflamações, pólipos nasais, infecções virais e traumas; avaliação precoce ajuda a identificar a causa e orientar o tratamento 


A perda do olfato durante uma gripe ou um resfriado costuma ser temporária, mas, quando a capacidade de sentir cheiros não retorna mesmo após a melhora dos sintomas, é importante investigar a causa. A anosmia, como é chamada a perda total do olfato, pode estar relacionada a diferentes condições e afetar não apenas a percepção dos aromas, mas também o paladar, a alimentação e a segurança no dia a dia. “Na gripe e no resfriado, a perda do olfato costuma ser mecânica. A mucosa do nariz fica inflamada e inchada, impedindo que as partículas de cheiro cheguem à região responsável por identificá-las. Quando a infecção passa, o olfato geralmente volta em alguns dias ou até uma ou duas semanas”, explica a Dra. Bárbara Salgueiro, otorrinolaringologista do HOPE. 

Quando a alteração persiste, porém, o mecanismo pode ser diferente. Em alguns casos, a própria infecção compromete as células responsáveis pela percepção dos cheiros ou as estruturas nervosas envolvidas nesse processo. Segundo a especialista, nas perdas de origem viral, cerca de metade dos pacientes recuperam o olfato nas primeiras seis semanas, embora a melhora possa continuar por até dois anos. “O tempo é um fator importante. A chance de recuperação diminui bastante depois de 18 a 24 meses, por isso não é recomendado esperar indefinidamente para procurar ajuda”, alerta. A covid 19 também evidenciou esse problema, já que parte dos pacientes apresentou perda prolongada do olfato, inclusive sem nariz entupido ou coriza. 

Entre as causas mais frequentes da anosmia persistente estão a rinossinusite crônica e os pólipos nasais, formações benignas associadas à inflamação da mucosa. Essas condições podem dificultar a chegada dos odores à região olfatória e, com a inflamação prolongada, prejudicar o funcionamento das células responsáveis pela percepção dos cheiros. Alterações anatômicas, como o desvio de septo, também podem interferir nessa passagem. Já os traumatismos cranianos podem lesionar as fibras nervosas que levam as informações olfatórias ao cérebro. “As infecções virais também podem afetar diretamente as estruturas do olfato. Em algumas situações, além de deixar de sentir cheiros, o paciente passa a percebê-los de maneira distorcida, geralmente desagradável. Essa alteração é chamada de parosmia”, esclarece a médica. 

A ausência de congestão nasal não significa que o olfato esteja funcionando normalmente. Pelo contrário, quando a pessoa deixa de sentir cheiros sem apresentar coriza ou obstrução, é preciso considerar a possibilidade de comprometimento das células olfatórias, dos nervos ou das áreas cerebrais relacionadas a essa função. Além das infecções, existem causas menos comuns, como doenças neurológicas degenerativas, efeitos de determinados medicamentos, exposição a substâncias tóxicas e, raramente, tumores. Por isso, a avaliação médica é importante para identificar a origem da alteração e evitar que uma condição tratável passe despercebida. 

A recomendação é procurar um otorrinolaringologista quando o olfato não voltar algumas semanas após o desaparecimento dos sintomas respiratórios ou quando a perda surgir e piorar gradualmente sem uma causa aparente. Algumas situações exigem avaliação rápida, como a perda olfatória após uma pancada na cabeça, especialmente quando acompanhada de alterações na visão, fraqueza, confusão ou dor de cabeça diferente do habitual. Sangramentos nasais recorrentes e obstrução persistente de apenas um lado do nariz também precisam ser investigados. “Quando a perda acontece sem sintomas nasais, não devemos simplesmente atribuí-la a um resfriado que ainda não passou. É necessário entender o que está acontecendo e, a partir disso, definir a conduta mais adequada”, orienta a otorrinolaringologista. 

A investigação começa com uma conversa detalhada sobre o início e a evolução dos sintomas, possíveis infecções, traumas, uso de medicamentos e exposição a produtos químicos. Em seguida, o médico pode realizar a nasofibroscopia, exame feito com uma câmera fina que permite observar o interior do nariz e identificar inflamações, pólipos e alterações anatômicas. Testes específicos de olfato ajudam a avaliar a capacidade de reconhecer diferentes aromas. Dependendo das suspeitas clínicas, também podem ser solicitadas tomografia dos seios da face ou ressonância magnética para investigar alterações estruturais e possíveis causas neurológicas. 

O tratamento varia conforme o diagnóstico e o tempo de evolução. Nos casos de rinossinusite crônica com pólipos, podem ser indicados medicamentos em spray nasal, tratamentos por via oral durante períodos curtos e, quando necessário, cirurgia endoscópica dos seios da face. Para perdas após infecções virais, o treinamento olfatório é uma das estratégias com melhor evidência científica. Ele consiste em cheirar regularmente aromas diferentes, seguindo orientações profissionais, para estimular a recuperação da função olfatória. “Muitos casos podem apresentar melhora, mas a recuperação nem sempre é completa. Quanto mais cedo identificamos a causa e iniciamos o tratamento, maiores são as oportunidades de resposta”, afirma a médica. 

Além dos impactos na percepção dos cheiros, a anosmia pode comprometer a experiência alimentar, porque boa parte do que reconhecemos como sabor depende do olfato. A alteração pode reduzir o prazer de comer e levar a pessoa a aumentar o consumo de sal ou açúcar para tentar compensar a perda. Também existem riscos relacionados à dificuldade de perceber fumaça, vazamentos de gás e alimentos estragados, além dos efeitos emocionais e das mudanças na qualidade de vida. “A perda persistente do olfato não deve ser considerada normal. Se os cheiros não voltaram algumas semanas depois de um resfriado ou se a alteração apareceu sem sintomas nasais, procure um otorrinolaringologista. Investigar precocemente é fundamental para identificar a causa e ampliar as possibilidades de recuperação”, conclui a Dra. Bárbara Salgueiro.


Poliomielite: Brasil não alcança meta de cobertura ideal e especialista reforça urgência da vacinação diante dos desafios de cobertura no país

Com o Brasil mantendo o status de área livre da doença desde 1994, médico alerta que a queda nos índices vacinais e a circulação global do vírus exigem atenção redobrada dos pais e atualização rigorosa das cadernetas infantis

 

Embora o Brasil não registre casos de poliomielite por poliovírus selvagem desde 1989 e tenha recebido a certificação de erradicação da doença nas Américas em 1994, autoridades e profissionais de saúde mantêm sinal de alerta ligado. O fantasma da paralisia infantil, enfermidade viral aguda que pode causar sequelas motoras permanentes e irreversíveis, volta ao centro dos debates públicos em virtude dos desafios históricos para alcançar a meta ideal de 95% de cobertura vacinal populacional. De acordo com dados do Ministério da Saúde, a cobertura vacinal infantil foi de 88,28% em 2026.  

A doença é transmitida principalmente por via orofecal, através do contato direto com pessoas infectadas ou com água e alimentos contaminados. Cerca de 90% a 95% dos contatos com o vírus ocorrem de forma assintomática e uma pequena parcela pode apresentar sintomas leves semelhantes aos de uma gastroenterocolite, mas em cerca de 1% dos casos o vírus atinge o sistema nervoso central, provocando a temida paralisia flácida aguda. 

Para o médico infectologista do Grupo São Lucas, Cláudio Penido Campos Júnior (CRM:100827/RQE: 50036), a falsa sensação de segurança gerada pelo longo período sem casos ativos no território nacional é um dos principais motores da hesitação vacinal. 

"Apesar de atingir uma pequena parcela da população infectada, a paralisia flácida pode ter complicações severas e permanente de perda de movimento, dificuldade respiratória. É um quadro neurológico muito grave que conseguimos prevenir através da vacinação. No entanto, já há alguns anos, o Brasil não vem atingindo a cobertura vacinal necessária para manter essa condição de bloqueio, de proteção populacional", sinaliza o médico. 

O especialista também enfatiza que a manobra de imunização coletiva é a única barreira eficaz contra a reintrodução do patógeno, lembrando que ainda existem países com transmissão endêmica ativa do vírus selvagem, como o Afeganistão e o Paquistão. Com o intenso fluxo global de viajantes, a baixa cobertura populacional abre uma brecha perigosa. 

"A poliomielite hoje é uma condição de alerta pela Organização Mundial da Saúde. O Brasil ainda está dentro do enquadramento de doença erradicada, mas a hesitação vacinal traz preocupações. Se há essa quebra da vacinação coletiva, o país volta a ficar suscetível à reintrodução do vírus. Se não corrigirmos essa cobertura vacinal, ficamos vulnerável à reintrodução da doença", alerta. 


Atualização no Esquema Vacinal e Segurança 

O Programa Nacional de Imunizações (PNI) consolidou importantes atualizações estruturais alinhadas às diretrizes globais da Organização Mundial da Saúde (OMS). A tradicional "gotinha" (vacina oral boral de vírus atenuado) deu lugar exclusivo à Vacina Inativada Poliomielite (VIP), de administração injetável, proporcionando um perfil ainda maior de segurança.  

Além disso, o calendário infantil brasileiro conta com o esquema composto por três doses iniciais no primeiro ano de vida (aos 2, 4 e 6 meses) e reforços estratégicos essenciais, incluindo a dose de reforço aos 4 anos de idade, consolidando a imunidade de longa duração na infância. 

Para monitorar e blindar o país contra eventuais ameaças, a vigilância epidemiológica brasileira atua em duas frentes principais, sendo elas a notificação imediata e compulsória de qualquer caso suspeito de síndrome de paralisia flácida aguda em unidades de saúde, e a pesquisa ambiental sistemática por meio da monitorização do vírus em amostras de água e esgoto urbano, técnica capaz de identificar a circulação silenciosa do patógeno antes mesmo do surgimento de casos clínicos. 

“É fundamental que o país mantenha essas atividades muito regulares e que se desenvolvam formas mais atuais, modernas e contemporâneas de informação, de sensibilização das pessoas com relação à importância da vacinação. A recomendação unânime da comunidade médica e científica é manter a caderneta de vacinação das crianças menores de 5 anos rigorosamente em dia. A prevenção continua sendo o único escudo capaz de garantir que o Brasil permaneça livre da poliomielite”, conclui o especialista.  

 

Grupo São Lucas de Ribeirão Preto (SP)

Quando a sinusite começa no dente, a tecnologia de imagem ajuda a investigar a origem do problema

 

PreXion Elite permite direcionar a avaliação tanto para
 estruturas de pequenas dimensões quanto
 para áreas mais amplas
  Divulgação

Condições odontogênicas podem responder por até 40% dos casos e exemplificam situações que exigem diferentes níveis de detalhamento nos exames

 

Uma dor de cabeça persistente, pressão no rosto, congestão nasal e secreção podem ter, em alguns casos, uma origem que não está nas vias respiratórias. Alterações dentárias também podem comprometer o seio maxilar e provocar a chamada sinusite odontogênica, quadro que exemplifica um dos desafios do diagnóstico por imagem na odontologia: identificar pequenas alterações nos dentes e, ao mesmo tempo, avaliar áreas mais amplas da face. 

Segundo o estudo “Sinusite odontogênica: uma causa antiga, porém subestimada, de sinusite maxilar”, a sinusite odontogênica pode representar de 25% a 40% dos casos. A relação ocorre principalmente pela proximidade entre as raízes dos dentes posteriores superiores e os seios maxilares, o que faz com que alterações de origem dentária possam repercutir nesta região. 

“Quando os sintomas são persistentes, unilaterais ou recorrentes, é importante considerar que a origem pode estar em uma estrutura dentária. Além da congestão, secreção, pressão ou dor facial, o paciente pode apresentar redução do olfato e episódios repetidos de piora aguda”, explica Mike Bueno, doutor em Radiologia Odontológica. 

A necessidade de avaliar situações clínicas que exigem níveis distintos de detalhamento esteve entre os desafios considerados no desenvolvimento do PreXion Elite, novo tomógrafo odontológico desenvolvido e fabricado no Brasil pela Alliage. Bueno participou do projeto desde as primeiras etapas, contribuindo com a experiência clínica para a definição dos recursos de imagem do equipamento. 

Primeiro equipamento odontológico no mundo com a tecnologia Dual Focal Spot (DFS), o PreXion Elite utiliza dois pontos focais distintos de acordo com a modalidade de exame. Na tomografia, trabalha com ponto focal efetivo 0,17 mm e oferece diferentes campos de aquisição, permitindo direcionar a avaliação tanto para estruturas de pequenas dimensões quanto para áreas mais amplas, de acordo com a necessidade clínica. 

É justamente essa diferença de escala que aparece em quadros de origem odontogênica. Uma alteração periapical ou um canal adicional pode exigir alto nível de detalhamento, enquanto a avaliação do comprometimento dos seios da face demanda uma área maior de aquisição. 

“Nesse tipo de investigação, precisamos responder perguntas diferentes com a mesma qualidade de imagem. Uma alteração periapical ou um canal adicional pode exigir um nível muito alto de detalhe, enquanto a avaliação da sinusopatia demanda uma área mais ampla, que inclua os seios maxilares, suas vias de drenagem e outras estruturas que podem estar envolvidas”, explica Bueno.

 

Tecnologia parte de demandas clínicas 

O desenvolvimento do PreXion Elite partiu da necessidade de atender demandas distintas de imagem em uma mesma plataforma. O equipamento integra tomografia computadorizada, panorâmica e cefalometria e incorpora, além do Dual Focal Spot, recursos para correção de movimentos, redução de artefatos metálicos e estabilização do paciente. 

“O desafio não era apenas reunir diferentes exames em um mesmo equipamento, mas criar uma plataforma capaz de acompanhar a investigação clínica em diferentes escalas. Em um caso, o profissional precisa enxergar uma estrutura de poucos milímetros; em outro, precisa ampliar o campo para compreender estruturas que podem estar relacionadas ao quadro investigado”, afirma Caetano Biagi, CEO da Alliage. 

No caso de condições relacionadas aos seios da face, a análise das estruturas dentárias pode ajudar a identificar alterações que exigem uma avaliação mais detalhada. Entre elas, estão canais adicionais e alterações na região próxima à raiz do dente. 

“O PreXion Elite permite identificar, por exemplo, a presença de um quarto canal em molar superior, verificar se ele está com entrada calcificada e saber se possui um forame apical independente ou se converge com o canal principal. Essas informações podem mudar a abordagem do endodontista, porque ajudam a localizar uma alteração que pode estar na origem do quadro e orientar o tratamento”, conclui Bueno.

 

 Alliage


Perda de peso pode frear avanço de doenças no fígado e nos rins

Os dois órgãos estão entre os mais afetados pela obesidade e costumam adoecer sem dar sinais. Estudos mostram regressão das lesões após a cirurgia bariátrica e metabólica

 

A esteatose hepática, popularmente conhecida como gordura no fígado, muitas vezes é descoberta por acaso em um ultrassom e tratada como um achado sem importância. Para o cirurgião bariátrico César De Fazzio, diretor do ICD (Instituto de Cirurgia Digestiva), em Brasília, é justamente essa leitura que dá tempo para a doença avançar. “O diagnóstico de dano hepático virou quase rotina no consultório, e o mais preocupante é que o paciente costuma chegar sem saber que tem a condição e, quando já ouviu falar dela, não dimensiona a gravidade”, afirma. Junto com os rins, o fígado está entre os órgãos que a obesidade compromete em silêncio. Em muitos casos, a lesão só é percebida em estágio avançado. 

Quando persiste, a esteatose pode evoluir para esteato-hepatite, que é a inflamação do tecido, e depois para fibrose e cirrose, mesmo em quem nunca bebeu e não tem hepatite viral. O silêncio se explica pela grande reserva funcional dos dois órgãos, que mantêm o funcionamento normal por anos de agressão contínua. O tecido do fígado não dói, as enzimas hepáticas podem continuar normais com a doença já estabelecida e o ultrassom convencional mostra a gordura, mas não a fibrose. 

Nos rins, a creatinina, exame mais pedido na rotina, só se altera quando uma parte expressiva das unidades de filtração já foi perdida. “Quando o diagnóstico vem pelo sintoma, em qualquer dos dois órgãos, a doença normalmente já está em estágio avançado”, alerta o médico. 

Por isso, na avaliação antes da cirurgia bariátrica e metabólica, o médico vai além dos exames de rotina. Quando há sinais de comprometimento do fígado, ele faz uma biópsia durante a cirurgia, o único exame que mostra com precisão o grau de inflamação e de fibrose. “Já fiz diagnóstico de cirrose inicial no intraoperatório em paciente cujo exame de imagem prévio indicava apenas esteatose grau 3”, relata. 

Segundo De Fazzio, após a cirurgia a melhora acontece em dois tempos. Nas primeiras semanas, antes de uma perda de peso relevante, a gordura acumulada no fígado já diminui e o órgão responde melhor à insulina, pelo mesmo mecanismo hormonal que explica a remissão precoce do diabetes. A recuperação estrutural, porém, leva mais tempo. 

“O alívio metabólico sobre os dois órgãos começa antes da perda de peso expressiva, mas a reconstrução estrutural do tecido, que é o que de fato muda o prognóstico, depende do emagrecimento mantido e do tempo de acompanhamento. É exatamente por isso que operar mais cedo, antes que a fibrose se estabeleça, produz um resultado tão diferente de operar tarde”, esclarece.
 

O que as pesquisas revelam 

Um estudo francês publicado na Gastroenterology em 2020 acompanhou com biópsias pacientes operados. Após cinco anos, 84% tiveram resolução da esteato-hepatite sem piora da fibrose. A fibrose diminuiu em cerca de 70% deles e desapareceu em 56%. Em um ensaio clínico italiano publicado na The Lancet em 2023, com 288 pacientes, a resolução da esteato-hepatite em um ano ocorreu em 56% dos operados pela técnica de bypass gástrico e em 57% dos operados por gastrectomia vertical, contra 16% do grupo que recebeu tratamento clínico e orientação de estilo de vida. 

Nos rins, a obesidade impõe uma sobrecarga permanente de filtração, agravada pelo diabetes e pela hipertensão. Depois da cirurgia, a pressão dentro das unidades de filtração cai cedo e a perda de albumina na urina começa a diminuir nos primeiros meses. Um ensaio clínico brasileiro publicado na JAMA Surgery em 2020, com pacientes diabéticos de IMC entre 30 e 35 e doença renal inicial, registrou remissão da albuminúria em 82% dos operados, contra 55% do grupo de tratamento clínico, em 24 meses.
 

Diagnóstico e tratamento precoce 

O médico recomenda que pessoas com obesidade avaliem fígado e rins pelo menos uma vez por ano, com exames definidos em consulta. Para o fígado, ultrassom e exames de sangue, complementados pela elastografia quando há indicação. Para os rins, a creatinina sempre acompanhada da taxa de filtração estimada e da relação albumina/creatinina na urina, que detecta a lesão anos antes. 

“A janela é mais ampla do que a maioria imagina, mas não é eterna”, afirma De Fazzio. A esteatose e a esteato-hepatite são amplamente reversíveis e mesmo a fibrose avançada pode regredir com tratamento efetivo. O limite está na cirrose descompensada. No rim, a perda de albumina pode ser revertida quando tratada cedo, mas a unidade de filtração já cicatrizada não se recupera. 

“É esse o motivo pelo qual insisto em investigar fígado e rim no paciente com obesidade mesmo quando ele se sente perfeitamente bem”, justifica. Para o médico, entender a real extensão da doença muda a relação do paciente com o próprio tratamento. “Quando ele entende que a cirurgia está tratando fígado, rim, coração e pâncreas, e não apenas o peso na balança, a conversa muda completamente de patamar”, reflete. 

 

César De Fazzio - cirurgião bariátrico dedica-se à área do aparelho digestivo há mais de 15 anos. Fundador do ICD (Instituto de Cirurgia Digestiva), em Brasília-DF, é referência no tratamento cirúrgico e clínico da obesidade. Com um olhar sistêmico do paciente, o especialista coordena todas as etapas do emagrecimento, integrando medicina, nutrição e psicologia em um acompanhamento multidisciplinar. Sua prática é pautada em evidências científicas, pela ética e pelo uso de tecnologia de ponta com materiais de alta qualidade em intervenções minimamente invasivas, visando resultados de longo prazo. Prioriza a segurança e um atendimento transparente e individualizado.

 

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