Ondas de calor não são o único sinal da
transição hormonal e reposição hormonal não é indicada para todas as mulheres;
ginecologista do Hospital e Maternidade Santa Joana explica o que é mito e o
que a ciência já sabe sobre essa fase
A menopausa deixou de ser um assunto restrito ao consultório
médico e passou a fazer parte das conversas nas redes sociais, no ambiente de
trabalho e até dentro de casa. O aumento do interesse das mulheres por
informações sobre a fase, no entanto, também trouxe à tona uma série de
dúvidas, informações incompletas e mitos que podem dificultar o reconhecimento
dos sintomas e atrasar a busca por acompanhamento adequado. Afinal, menopausa é
apenas uma fase marcada pelo fim da menstruação? Toda mulher terá ondas de
calor? Terapia hormonal faz mal? Ganhar peso é inevitável?
A resposta para essas perguntas é mais complexa do que muitos
conteúdos encontrados na internet fazem parecer. A menopausa é um processo
natural do envelhecimento feminino e corresponde ao momento em que a mulher
completa 12 meses consecutivos sem menstruar. Antes disso, existe a
perimenopausa, período de transição que pode durar alguns anos e no qual as
oscilações hormonais já podem provocar sintomas.
“Um dos principais problemas é que muitas mulheres ainda acreditam
que a menopausa começa quando a menstruação acaba. Na realidade, os sintomas
podem aparecer anos antes da última menstruação. É uma fase de transição e cada
mulher pode vivenciá-la de uma maneira diferente”, explica Dra. Aline Marques,
ginecologista do Hospital e Maternidade Santa Joana.
As ondas de calor e os suores noturnos são, de fato, manifestações
muito conhecidas, mas estão longe de serem as únicas. Alterações do sono,
mudanças de humor, irritabilidade, dificuldade de concentração, redução da
libido, ressecamento vaginal, desconforto nas relações sexuais e alterações no
ciclo menstrual também podem aparecer durante a transição. Nem todas as mulheres
terão os mesmos sintomas ou a mesma intensidade.
Mitos que ainda confundem as mulheres
“Menopausa é doença.” Mito. A menopausa é uma etapa natural da
vida e não uma doença. Isso, porém, não significa que os sintomas devam ser
ignorados. Quando interferem na qualidade de vida, existem opções de tratamento
que podem ser avaliadas individualmente.
“Toda mulher vai ter ondas de calor.” Mito. Os fogachos estão
entre os sintomas mais comuns, mas a experiência da menopausa varia bastante.
Algumas mulheres apresentam sintomas intensos, enquanto outras passam pela
transição com poucas manifestações.
“Se a menstruação ainda está acontecendo, não é menopausa.” Mito.
A mulher pode estar na perimenopausa e continuar menstruando. Nessa fase, os
ciclos podem ficar mais irregulares e os níveis hormonais podem oscilar,
provocando sintomas antes da última menstruação.
“Menopausa significa que a mulher não precisa mais se preocupar
com saúde ginecológica.” Mito. O fim da menstruação não elimina a necessidade de
acompanhamento médico. Pelo contrário: essa fase também exige atenção a fatores
de risco cardiovasculares, saúde óssea, sexualidade e outras condições que
podem ganhar relevância com o avanço da idade. A OMS destaca que, após a
menopausa, aumentam alguns riscos de saúde, incluindo osteoporose e doenças
cardiovasculares.
“Terapia hormonal é perigosa para todas as mulheres.” Mito. A
terapia hormonal pode ser uma opção eficaz para o controle de sintomas como
ondas de calor e sintomas geniturinários, mas não é indicada
indiscriminadamente. A decisão deve considerar idade, momento da transição,
histórico pessoal e familiar, fatores de risco e objetivos da paciente.
“Durante muito tempo, a terapia hormonal foi colocada de um lado
ou de outro: como solução para tudo ou como algo que deveria ser evitado.
Nenhuma dessas visões é adequada. Hoje sabemos que a indicação precisa ser
individualizada, considerando benefícios, riscos e o perfil de cada mulher”,
afirma Dra. Aline.
Outro mito frequente é acreditar que o ganho de peso durante a
menopausa seja inevitável e exclusivamente provocado pela queda hormonal. A
mudança na composição corporal pode acontecer nessa fase, mas envelhecimento,
redução da massa muscular, alimentação, nível de atividade física, sono e outros
fatores também participam desse processo. Por isso, o cuidado deve envolver
hábitos de vida e acompanhamento individualizado, e não apenas a tentativa de
controlar a balança.
Mais informação também significa mais cuidado
Para a especialista, o aumento da procura por informações sobre
menopausa representa uma oportunidade para mudar a forma como essa fase é encarada.
Em vez de normalizar todo e qualquer sintoma ou buscar soluções rápidas nas
redes sociais, a mulher deve ter espaço para entender o que está acontecendo
com o próprio corpo e decidir, junto ao médico, se há necessidade de
investigação ou tratamento.
“Não devemos tratar a menopausa como uma doença, mas também não
devemos dizer para a mulher simplesmente ‘aceitar’ sintomas que estão prejudicando
sua qualidade de vida. Existe um meio-termo: entender que é uma fase natural,
reconhecer os sintomas e oferecer cuidado quando necessário”, destaca a
ginecologista.
A consulta também é importante para diferenciar manifestações da
transição hormonal de sintomas que podem ter outras causas. Alterações
persistentes ou intensas no humor, sono, sangramento, sexualidade ou bem-estar
não devem ser automaticamente atribuídas à menopausa.
Outro ponto que merece atenção é o sangramento após a menopausa.
Depois de 12 meses sem menstruar, qualquer novo episódio de sangramento vaginal
deve ser investigado por um médico, mesmo quando ocorre uma única vez.
“A mulher não precisa esperar a última menstruação para começar a
cuidar dessa fase. Se surgiram alterações no ciclo, ondas de calor, insônia,
mudanças de humor ou outros sintomas, já é possível conversar com o ginecologista.
Quanto mais informação de qualidade ela tiver, menos espaço existe para medo e
para tratamentos baseados em mitos”, finaliza Dra. Aline Marques.
Mais do que uma fase marcada pelo fim da menstruação, a menopausa
representa uma importante transição na saúde feminina. Com informação adequada
e acompanhamento médico, é possível reconhecer os sintomas, avaliar riscos e
escolher estratégias de cuidado que façam sentido para cada mulher.
Hospital e Maternidade Santa Joana
www.santajoana.com.br