Levantamento do Projuris mostra que
fornecimento e aplicação de medicamentos representam 66,68% dos pedidos; quase
metade das ações tem o setor público como principal requerido
A análise de processos judiciais que envolvem doenças
oncológicas aponta que o câncer de mama (20,32%), sangue (11,12%) e próstata
(10,10%) são os mais recorrentes em ações movidas para pleitear medicamentos e
tratamentos. É o que mostra um estudo inédito conduzido pelo Projuris,
principal plataforma de Inteligência Legal do país, que analisou 9.599
processos entre 2023 e maio de 2025. A judicialização ocorre, majoritariamente,
para garantir a assistência que, em muitos casos, não é disponibilizada com a
agilidade ou regularidade necessárias.
O estudo revela ainda que 48,79% das ações foram
movidas contra o setor público, evidenciando dificuldades no acesso a terapias
oferecidas gratuitamente pelo SUS. Para o Diretor de Produto do Projuris,
Fernando Ribeiro, a concentração dos três tipos de câncer mais recorrentes pode
refletir tanto sua alta incidência quanto a complexidade ou custo elevado dos
tratamentos disponíveis. “Essas enfermidades podem exigir terapias mais
específicas ou de difícil acesso, o que leva muitos pacientes a recorrer à
Justiça”, afirma.
Além do alto percentual que envolve órgãos públicos,
o estudo também identificou que 37,28% dos processos são movidos contra planos
de saúde e 13,93% das ações envolvem demais empresas privadas, categoria que
engloba principalmente seguradoras, instituições financeiras (como bancos
acionistas ou proprietários de operadoras de saúde) e entidades de previdência
fechada. “Os dados indicam que o ente público ainda é o mais procurado em ações
judiciais, com quase metade dos processos, o que representa a relevância do SUS
nas demandas judiciais e aponta possível sobrecarga no atendimento de quem
busca pela gratuidade de medicamentos e terapias”, reforça.
Entre as motivações para judicialização, o
fornecimento e a aplicação de medicamentos aparecem com o percentual mais
expressivo (66,68%), seguido de tratamento e acompanhamento hospitalar (9,73%);
quimioterapia, imunoterapia e radioterapia (8,75%); exames (4,34%); e
procedimentos cirúrgicos (4,08%). “O alto volume de ações para obtenção de
medicamentos indica que, apesar das diretrizes nacionais, o fornecimento nem
sempre atende à demanda”.
Decisões judiciais e evolução dos processos
O levantamento também aponta que 86,3% dos pedidos de tutela de
urgência são deferidos, mostrando que a Justiça costuma reconhecer a relevância
e a urgência das solicitações. “Esse índice alto demonstra que o tempo é um
fator determinante nos tratamentos oncológicos”, destaca.
Na análise ano a ano, observa-se evolução gradual nos
deferimentos: 40,89% em 2023, 46,08% em 2024 e 13,01% em 2025 (até maio),
reforçando a tendência de crescimento da judicialização em busca de
medicamentos e procedimentos especializados.
Quanto às sentenças, 37,7% dos processos ainda aguardam
decisão; 32,4% foram julgados procedentes; 10,2% parcialmente procedentes;
10,1% extintos sem resolução; e 3,3% improcedentes. Um destaque é o baixo
índice de acordos, apenas 6,3%, o que evidencia a complexidade dos casos e a
dificuldade de negociação entre as partes.
Distribuição por estados
Na distribuição por estados brasileiros com maior número de ações,
destaque para São Paulo com 39,9% dos processos, seguido por Paraná (11%),
Pernambuco (7,2%), Ceará (7%) e Bahia (6,1%). “A predominância nas regiões Sul
e Sudeste, com forte participação do Nordeste, reflete tanto o peso
populacional quanto diferenças no acesso à Justiça e na estrutura de saúde”,
explica o diretor.
Principais medicamentos requisitados
Entre os processos que mencionam medicamentos específicos, os mais
solicitados são Bevacizumabe/Avastin (17,9%), seguido por Nivolumabe (16,1%) e
Abemaciclibe/Verzenios (15,8%), todos com média de valor por dose entre R$ 2
mil e R$ 10 mil. Também figuram na lista Olaparibe (8,1%), Abiraterona/Ytiga (7,9%)
e Daratumumabe/Lenalidomida (6,0%).
Apesar da gratuidade em tratamentos fornecidos pelo
SUS, muitos pacientes se deparam com a indisponibilidade de medicamentos ou
precisam de terapias recém-incorporadas ou ainda experimentais, sem registro na
Anvisa, cujo acesso tende a ser mais burocrático. “Para ingressar com ação
judicial, o paciente deve reunir a documentação obrigatória, solicitar o
medicamento pela via administrativa e, em caso de negativa, buscar o
Judiciário”, explica Fernando.
Ainda de acordo com o especialista, o estudo
evidencia como a judicialização permanece como um caminho essencial para
garantir o acesso a medicamentos e terapias oncológicas no Brasil, mostrando
também os desafios estruturais no SUS, nas operadoras de saúde e no fornecimento
de insumos, ao passo que revela a urgência e complexidade dos tratamentos
necessários para pacientes com câncer.
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Starian
starian@vcrp.com.br