Com
pronto-socorros sob pressão em agosto, região italiana prepara apoio com visto,
documentação, moradia e integração profissional.
Agosto de 2026
voltou a expor a dimensão da falta de profissionais da saúde na Itália.
Nas semanas
centrais do mês, o déficit nos pronto-socorros chegou perto de 7 mil médicos,
justamente quando as unidades enfrentam aumento de atendimentos provocado pelo calor,
pelo turismo e pela redução de outros serviços durante as férias.
De acordo com dados da Sociedade Italiana de Medicina de
Emergência e Urgência, a Simeu, divulgados pela ANSA, principal agência de
notícias da Itália, apenas 31% das estruturas estavam com equipes adequadas. Em
cerca de 70% dos pronto-socorros, a falta de médicos variava entre 25% e 70% do
quadro previsto. Na enfermagem, o problema tem sido compensado com jornadas
dobradas, adiamento de férias e supressão de períodos de descanso.
Outro levantamento, divulgado pela rede formada pela
Associação de Médicos de Origem Estrangeira na Itália, União Médica
Euromediterrânea e movimento Uniti per Unire, estimou que 80% dos ambulatórios,
centros diurnos e serviços territoriais estavam fechados ou funcionando de
forma drasticamente reduzida durante o Ferragosto, feriado de 15 de agosto que
marca o auge das férias de verão na Itália. A pesquisa associativa projetou
aumento de 20% na procura pelos pronto-socorros e indicou que 83% dos
profissionais da saúde de origem estrangeira consultados não tirariam férias,
ajudando a manter aproximadamente um terço dos serviços de saúde e assistência.
É nesse cenário que o Vêneto prepara um projeto-piloto para
recrutar, formar e integrar enfermeiros estrangeiros, com atenção especial ao Sul
do Brasil e à Argentina.
“Os números de agosto mostram que a falta de profissionais
não é uma hipótese distante. É uma necessidade concreta, que afeta
pronto-socorros, hospitais e serviços territoriais. Ao mesmo tempo, o projeto
do Vêneto abre uma perspectiva promissora para enfermeiros brasileiros, porque
propõe um caminho organizado de contratação, preparação e integração”, afirma a
advogada Ana Carolina Campara Brittes, CEO da Campara Cidadania,
Vistos & Viagens, especialista em Direito Migratório e integrante da
Comissão de Cidadania Italiana da Associação Brasileira de Advogados, a ABA.
Déficit de enfermeiros continua estrutural
O Relatório OASI, Observatório sobre Empresas e o Sistema de
Saúde Italiano, da Universidade Bocconi, mostra que a Itália possui 6,5
enfermeiros para cada mil habitantes, abaixo da média de 8,4 da União Europeia.
Para o ano acadêmico de 2026/2027, as regiões italianas
estimaram a necessidade de formar 25.479 enfermeiros em todo o país. A
projeção, porém, é de que apenas 14.500 concluam a graduação em 2027, o que
deixaria um déficit de quase 11 mil profissionais. Essa lacuna ajuda a explicar
por que regiões como o Vêneto passaram a buscar enfermeiros no exterior,
inclusive no Brasil.
“Quando um país vai buscar enfermeiros do outro lado do
Atlântico, a mensagem é clara: essa profissão se tornou estratégica para a
sustentação do sistema de saúde. Para os brasileiros, é a chance de transformar
qualificação em uma carreira internacional”, afirma a Dra. Ana.
Vêneto tem carência estimada em 3,5 mil profissionais
Segundo números publicados pelo Corriere del Veneto, o
sistema de saúde do Vêneto necessita atualmente de cerca de 27 mil enfermeiros,
mas enfrenta uma carência estimada em 3,5 mil profissionais. A demanda total
poderá chegar a 36 mil enfermeiros em 2035.
Considerando aposentadorias, desligamentos e a entrada
insuficiente de novos trabalhadores, projeção da União Italiana do Trabalho, a
UIL, citada pela publicação, indica que o déficit poderá alcançar 20 mil
profissionais até 2035. Aproximadamente 25% das vagas do curso de Enfermagem da
Universidade de Pádua também permanecem sem preenchimento.
Na ULSS 1 Dolomiti, empresa pública responsável pelos
serviços de saúde da província de Belluno e escolhida para iniciar a experiência,
o saldo de renovação do quadro é negativo em 9%.
“Belluno reúne necessidade real de trabalhadores,
participação universitária, apoio habitacional e uma rede comunitária preparada
para receber os profissionais. Para o brasileiro, não é apenas a possibilidade
de encontrar trabalho, mas de ingressar em um projeto preocupado com adaptação
e permanência”, destaca a advogada.
Cronologia da iniciativa
- Agosto de 2024: o governo regional aprovou o Plano de Combate
à Carência de Pessoal do Serviço Sociossanitário do Vêneto. O documento
identificou problemas como aposentadorias, dificuldade para reter
trabalhadores e perda de atratividade da formação em enfermagem.
- Abril de 2026: foram aprovados os critérios experimentais
para recrutamento, inserção, integração e formação de enfermeiros com
qualificação obtida no exterior.
- Fim de julho e início de agosto de 2026: a proposta foi anunciada e
apresentada oficialmente em Belluno pelo assessor regional da Saúde, Gino
Gerosa, com os aspectos técnicos conduzidos pela Diretoria
de Recursos Humanos do sistema sanitário regional.
- Agosto de 2026: a Região do Vêneto e a ULSS 1 Dolomiti
divulgaram a estrutura do projeto. A ANSA, o Corriere del Veneto e o Mondo
Sanità repercutiram a iniciativa. Também foi informado um investimento
inicial de 200 mil euros e a intenção de começar com algumas dezenas de
enfermeiros.
Participam da construção do modelo a Região do Vêneto, a
ULSS 1 Dolomiti, a Universidade de Pádua, a Ordem das Profissões de Enfermagem,
instituições locais ligadas à moradia e a Associação Bellunesi nel Mondo. Se a
experiência funcionar, o modelo poderá ser levado a outras unidades de saúde do
Vêneto e, posteriormente, a outras categorias profissionais.
Quem avaliará e selecionará os candidatos
Pelo desenho apresentado, a ULSS 1 Dolomiti,
como empresa sanitária e futura empregadora, deverá ocupar papel central no
recrutamento e na escolha dos profissionais, em coordenação com a Região do
Vêneto e sua área de Recursos Humanos.
A avaliação deverá verificar a autenticidade e a coerência
dos diplomas e históricos acadêmicos, além da experiência profissional, das
competências clínicas e do conhecimento da língua italiana. A Universidade de
Pádua participará principalmente dos aspectos acadêmicos e formativos, enquanto
a Ordem das Profissões de Enfermagem e as equipes técnicas contribuirão para o
acompanhamento profissional, linguístico e clínico.
O documento final deverá estabelecer o número da primeira
turma, os critérios de classificação, as entrevistas e o canal de inscrição. A
previsão divulgada pela ULSS 1 Dolomiti é de que os primeiros profissionais
possam chegar em 2027.
Enquanto a seleção específica é estruturada, o Vêneto já
mantém, por meio da Azienda Zero, uma manifestação de interesse mais ampla para
enfermeiros e operadores sociossanitários formados no exterior. O novo
protocolo deverá esclarecer se os candidatos do Brasil serão direcionados a
esse cadastro ou a um procedimento próprio.
“Quem tiver interesse deve acompanhar exclusivamente os
canais oficiais. A seleção deverá partir do empregador e das instituições
participantes, com análise de documentos, currículo, experiência, competências
e idioma. Não existe espaço para promessa de vaga garantida feita por
intermediários”, ressalta a Dra. Ana.
Por que o Sul do Brasil foi escolhido
A escolha está diretamente ligada à presença histórica e
organizada de comunidades venetas e bellunesas nos estados do Sul. A região
italiana também considerou a existência de redes associativas e institucionais
capazes de aproximar os profissionais e facilitar sua integração em Belluno.
A Associação Bellunesi nel Mondo, participante do projeto,
mantém contatos com famílias, comunidades e instituições no Sul do Brasil e na
Argentina. De acordo com a série histórica Brasil: 500 anos de povoamento, do
IBGE, o Vêneto foi a principal região de origem dos italianos que emigraram
para o Brasil entre 1876 e 1920: foram 365.710 pessoas, cerca de 30% do total
apurado no período.
“Existe uma ligação histórica profunda entre o Sul do Brasil
e o Vêneto. Para muitos profissionais, os vínculos familiares e culturais podem
facilitar a adaptação. Essa prioridade geográfica, porém, não significa que
enfermeiros de outras regiões do país estejam excluídos, já que o próprio
projeto esclarece que o recorte inicial não é definitivo nem exclusivo. O Sul é
o ponto de partida, não um limite para a oportunidade”, observa a Dra. Ana.
Apesar da ligação com as comunidades de descendentes, a cidadania
italiana não é um requisito previsto na proposta divulgada até agora.
O projeto prevê apoio para obtenção do visto e da autorização de trabalho,
permitindo a participação de enfermeiros sem passaporte italiano, desde que
atendam aos critérios profissionais, documentais e linguísticos.
Dois caminhos para chegar ao sistema de saúde italiano
O projeto foi estruturado em dois canais complementares:
- Canal profissional: destinado a enfermeiros já formados no
exterior e interessados em ingressar no Serviço Sanitário Regional. O
caminho prevê conferência dos documentos, avaliação das competências
profissionais e linguísticas, preparação complementar, contratação e
acompanhamento inicial por tutores.
- Canal universitário-formativo: destinado a estudantes que
já iniciaram Enfermagem no país de origem. A Universidade de Pádua deverá
avaliar, juntamente com instituições estrangeiras, a criação de percursos
integrados para continuação dos estudos e eventual dupla titulação.
Para os profissionais selecionados, o território prevê:
- auxílio
na documentação necessária para visto, autorização de trabalho e análise
do diploma;
- solução
inicial de moradia;
- formação
em língua italiana;
- treinamento
sobre o funcionamento clínico e organizacional do sistema;
- acompanhamento
por tutor nos primeiros meses;
- informações
transparentes sobre remuneração, jornada e perspectivas de permanência;
- possibilidade
de medidas de apoio para a família;
- acompanhamento
da integração social na comunidade de Belluno.
“Esse conjunto de medidas é um dos pontos mais positivos. O
candidato não está sendo visto apenas como alguém que preencherá uma escala
hospitalar. O projeto considera língua, moradia, família, formação e
integração, fatores essenciais para uma experiência internacional segura e
duradoura”, avalia a especialista.
O que organizar até setembro
Embora a relação oficial de exigências dependa do protocolo,
os interessados já podem reunir:
- passaporte
válido e documentos civis atualizados;
- histórico
acadêmico completo;
- ementas
e carga horária do curso;
- comprovantes
de estágios e atividades práticas;
- registro
no Conselho Regional de Enfermagem;
- certidão
de regularidade profissional;
- documentos
que comprovem experiência de trabalho;
- certificados
de especialização;
- currículo
atualizado em português e italiano;
- certidões
que possam precisar de apostilamento;
- documentos
que eventualmente exijam tradução para o italiano;
·
comprovantes de conhecimento da língua
italiana, quando disponíveis.
“A preparação
documental leva tempo e precisa ser conduzida com atenção. Buscar uma
assessoria especializada pode ajudar o candidato a organizar o processo
conforme as exigências oficiais, evitar erros e estar mais bem preparado quando
a seleção começar”, conclui a Dra. Ana Carolina Campara Brittes.
Ana Carolina Campara Brittes - CEO e sócia-fundadora da
Campara Cidadania, Vistos & Viagens; Membro da Comissão de Cidadania
Italiana da Associação Brasileira de Advogados (ABA); Membro da ABRINTER
(Associação Brasileira de Advogados Internacionalistas); Membro do IBDESC (Instituto Brasileiro de Direito
Estrangeiro e Comparado); Advogada no
Brasil e em Portugal; Pós-graduada em
Direito Público pela FMP (Fundação Escola Superior do Ministério Público – RS);
MBA em Direito Migratório pela EBPÓS; MBA em Instrumentos Internacionais de
Planejamento Patrimonial e Sucessório pela EBPÓS (em andamento).