O mercado eletroeletrônico brasileiro tem passado
por transformações significativas nesta fase. Há diversas indústrias que têm
procurado novas alternativas para produzirem com boa qualidade e maior
produtividade. O problema, porém, é quando o interesse fica concentrado
demasiadamente no custeio e os compradores das concessionárias
de energia passam a comprar componentes notadamente do mercado chinês
e sem a conexão direta com
o nível de qualidade necessário.
Lamentavelmente, temos visto todos os dias nos
jornais várias notícias com reclamações sobre o desempenho de algumas
concessionárias distribuidoras de energia elétrica. Acreditamos que todos do
segmento energético podem dar sua própria contribuição pública citando os
problemas que nos deparamos em nosso dia a dia. Neste momento é preciso
ficarmos atentos principalmente sobre a extrema necessidade de preservar a
qualidade dos componentes usados nas concessionárias. O primeiro passo nesse
sentido está na qualificação dos fornecedores e exigir os atributos
especialmente aqueles previstos em como, por exemplo, o clássico padrão NBR.
O conjunto de normas do padrão NBR é um dos
principais marcos nesse cenário. As normas NBR (Normas Brasileiras) são
um conjunto de padrões técnicos elaborados pela Associação Brasileira de
Normas Técnicas (ABNT). Elas estabelecem requisitos,
procedimentos, especificações e diretrizes para garantir a qualidade, segurança
e eficiência de produtos, serviços e processos em diferentes áreas, como
energia elétrica, construção civil, saúde, meio ambiente, tecnologia, entre
outras.
Essas normas ajudam a padronizar e organizar
práticas no Brasil, promovendo a compatibilidade entre diferentes produtos e
serviços, facilitando o comércio e assegurando a conformidade com as exigências
legais, sendo um compromisso da empresa com processos padronizados, melhoria
contínua e rastreabilidade.
Em complemento temos a certificação ISO 9001. A
norma internacional que estabelece requisitos para o Sistema de Gestão da
Qualidade (SGQ) e que é um selo de qualidade na gestão dos processos internos.
E além da norma e certificação mencionadas, existem
outras imprescindíveis e que asseguram a qualidade do produto. A ISO 14001, que
estabelece requisitos para as empresas minimizarem os efeitos ambientais e
fomentarem a sustentabilidade.
As normas e certificações destacadas neste artigo
são só algumas dentre diversas certificações que asseguram a confiabilidade e
segurança da empresa, bem como de seus equipamentos e serviços fornecidos.
Paradoxalmente, não é raro um problema elétrico
atingir o próprio consumidor final com apagões ou quedas recorrentes de
energia, que é produto muitas vezes de componentes de apenas alguns
centímetros. Um pequeno item, por isso, pode gerar um grande problema.
No caso dos conectores elétricos sua baixa qualidade
se transforma naquele ‘elo da corrente’ rompido e resulta em
sérios problemas na distribuição da corrente elétrica. Quando um conector é
fabricado com material de baixa qualidade, geralmente não possui as dimensões
adequadas ou está sujeito mais à oxidação, o que gera uma alta resistência de
contato no dispositivo, ou seja, causa falta de fluidez no fluxo de corrente
elétrica que ocorre no ponto de união entre dois condutores (conectores,
disjuntores, interruptores ou relés).
O defeito mais comum e perigoso num conector ruim é
o aquecimento excessivo, também, conhecido como ‘efeito Joule’. Ele ocorre
quando a corrente elétrica passa por uma conexão de má qualidade, criando uma
resistência que gera intenso calor. O problema acaba provocando derretimento do
isolamento dos condutores e consequente danos as conexões da rede elétrica, e
pode até provocar, além do prejuízo da falta de energia, incêndios em casos
extremos.
Um mau contato gera calor que gera uma sobrecarga
na rede e por isso desarma o sistema, ainda que o consumo de energia pelos
aparelhos elétricos esteja normal. O desarme do sistema provoca quedas
frequentes de eletricidade que acabam irritando qualquer usuário de energia
elétrica, mesmo que seja até um monge tibetano.
Outro grande dissabor são as oscilações e a queda
de tensão, mais uma dificuldade característica provocada pelo conector
tecnicamente inadequado. Essa situação impede que a tensão correta chegue aos
aparelhos. No caso do consumidor final elas ficam evidentes quando as luzes ficam
piscando, os equipamentos funcionam vagarosamente ou até não ligam sem uma
razão clara. A pessoa vai notar essas falhas naquele instante em que o forno de
micro-ondas demora mais para esquentar ou quando um motor elétrico está com
ruído esquisito. Para o consumidor final o prejuízo ficará mais visível ao
perceber que os aparelhos eletrônicos mais sensíveis, como TV e computador,
apresentam uma menor vida útil.
E não é só isso. Conexões ruins aumentam a conta no
final do mês. O calor produzido por conectividade ruim é na verdade desperdício
de energia. O consumidor paga pelo calor dissipado via fiação e que nunca se
transformou em eletricidade ou força motriz de algum aparelho eletrodoméstico.
É uma perda tanto dentro de casa, como em escritórios, comércios ou outro lugar
consumidor de eletricidade.
A entrega da energia nas residências está associada
à maneira adequada da aplicação dos conectores na rede elétrica. Em outras
palavras, é preciso pensar na qualidade da aplicação e dos produtos conectados
à rede elétrica para não ‘tomar choque no bolso’. Naturalmente, não se pode
dissociar também a parte da responsabilidade do operador, mas a integridade do
dispositivo é essencial e indispensável. Não adianta ter um conector
admirável se o profissional não souber aplicá-lo. É um esforço de ponta a ponta:
qualidade de mão de obra e produto.
Lamentavelmente, hoje em dia, há uma forte sensação
de incentivo no mercado de energia elétrica apenas para a busca de materiais
baratos. Dentro do segmento, existem também questionamentos de players sobre
presença constante daqueles ‘clássicos’ fornecedores nos projetos. No entanto,
esses reclamantes, em geral, calouros no mercado, não prestam atenção ou não
observam as razões dessa ocorrência. Não fazem uma reflexão mais profunda sobre
os motivos dessa presença incômoda para eles.
Os rigores de qualificação nas concorrências exigem
que participem somente fornecedores que tenham alta qualidade no fornecimento.
Embora o Brasil tenha uma quantidade absurda de empresas, nem todas estão
preparadas ou qualificadas para o fornecimento, no grau de exigência da cadeia
de suprimentos do setor elétrico. Muitas vezes aqueles players
com acionistas externos não compreendem o panorama brasileiro, porque analisam
apenas outros mercados e observam atentamente apenas a situação em mercados
distantes por outro prisma, não enxergando qual é efetivamente a realidade
brasileira.
Por aqui, ainda há muitos fornecedores de baixa
categoria. Empresas que fabricam produtos sem compromisso com a qualidade, sem
controle de processos, sem certificação e, portanto, não estão à altura para
atender aos padrões exigidos pelo setor elétrico. Quando possuem controladores
estrangeiros enfrentam desafios para compreender os detalhes, características e
especificidades do mercado nacional porque só conseguem ver e entender a
situação de fora.
Na China, por exemplo, há fornecedores com os mais
diversos tipos de materiais. Há relatos, de dentro de distribuidoras, que ao se
pedir um certificado de origem, eles ignoram a solicitação. Quando se solicita
um certificado de rastreabilidade podem dizer que não têm num primeiro momento,
mas no outro dia curiosamente aparecem com um certificado que foi pedido. Esse
tipo de fornecedor concorre no mercado com várias empresas brasileiras que
realmente investiram, se prepararam e se qualificaram durante muito tempo.
Surgiu também um novo comportamento no mercado de
também tentar qualificar todo e qualquer fornecedor, porque há pressão do
controlador por novos entrantes, mesmo que não necessariamente estejam qualificados
para competir no processo de compras, especialmente naqueles segmentos com mais
concorrentes. Muitos desses novatos, na realidade, estão competindo de uma
forma desigual com os outros fornecedores brasileiros por causa das diferenças
nos direitos trabalhistas e alternativas de produção mais baratas e
descompromissadas.
A China, maior concorrente na produção de
conectores elétricos, reconhecidamente não tem sido um país que possui uma
legislação trabalhista nos mesmos moldes que existe no Brasil. Não apresenta o
mesmo nível de despesas e encargos similares no trabalho assalariado. Mesmo
entre aqueles fornecedores que são homologados, com capacidade técnica de
fornecimento, eles efetivamente concorrerem de uma forma desleal no Brasil.
Consequentemente, são inúmeras vertentes num só
grande problema para o mercado nacional. E o novo componente nessa disputa
assimétrica é essa pressão dos fornecedores entrantes, sem a mínima
qualificação para as necessidades locais. São concorrentes que atuam de maneira
desigual e desleal. De todo modo continuaremos lutando pela presença de
características essenciais no produto sem as quais não se poderia conceber a
sua existência num mercado de tanta responsabilidade.
Marcelo Mendes - gerente geral da KRJ Conexões. É economista e executivo de marketing e vendas do setor eletroeletrônico há mais de 15 anos, e com atuação em vários mercados internacionais. https://krj.com.br/