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quarta-feira, 27 de maio de 2026

Pressão por metas e ambientes tóxicos entram no radar da fiscalização trabalhista

Atualização da NR-1 obriga empresas a incluir saúde mental na gestão de riscos ocupacionais


A partir de 26 de maio, empresas de todo o país passam a ser obrigadas a incluir riscos à saúde mental na gestão de segurança do trabalho. A atualização
da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) determina que fatores psicossociais, como estresse, assédio moral, pressão excessiva por metas e ambientes organizacionais tóxicos, passem a integrar oficialmente o gerenciamento de riscos ocupacionais. 

Na prática, a saúde mental deixa de ser tratada apenas como pauta de bem-estar corporativo e passa a compor as obrigações legais das empresas, assim como riscos físicos, químicos e ergonômicos. A mudança ocorre em meio ao aumento de casos de ansiedade, burnout e afastamentos relacionados ao trabalho no Brasil. 

Para a psicóloga organizacional e clínica Regina Vera Dias Sautchuck, a atualização da norma reflete uma mudança importante na forma como o adoecimento emocional vem sendo percebido dentro das organizações. 

“Durante muito tempo, jornadas exaustivas, ambientes tóxicos e cobranças abusivas foram naturalizados no ambiente corporativo. Hoje existe um entendimento mais claro de que o impacto emocional pode ser tão severo quanto um adoecimento físico”, afirma. 

Segundo a especialista, ambientes marcados por pressão constante mantêm o trabalhador em estado permanente de alerta, o que pode provocar sintomas como ansiedade, insônia, irritabilidade, fadiga emocional e dificuldade de concentração. 

“Quando a pessoa vive sob medo constante, excesso de cobrança ou insegurança psicológica, o organismo passa a operar em estado contínuo de sobrevivência. Isso compromete saúde mental, relações interpessoais e produtividade”, diz Regina. 

A nova regulamentação prevê que as empresas deverão mapear riscos psicossociais, implementar medidas preventivas, revisar práticas de liderança, criar canais de escuta e manter registros contínuos das ações realizadas. 

Para a advogada especialista em direito da saúde Carla Simas, a mudança representa também um avanço jurídico ao reconhecer oficialmente os impactos emocionais relacionados ao ambiente de trabalho.

“A saúde mental deixa de ser apenas uma recomendação ética e passa a ser uma obrigação legal objetiva. Isso altera significativamente a responsabilidade das empresas diante do tema”, afirma. 

Segundo Carla, a ausência de medidas preventivas poderá gerar consequências administrativas e judiciais, especialmente em situações envolvendo assédio moral ou adoecimento psicológico comprovado. 

“Empresas que negligenciarem riscos psicossociais poderão responder por omissão. A ausência de políticas internas e mecanismos de prevenção pode ser utilizada como elemento de prova em ações trabalhistas e indenizatórias”, explica. 

A advogada afirma ainda que a tendência é de aumento gradual das fiscalizações nos próximos meses, exigindo das empresas documentação, protocolos internos e evidências práticas de atuação. 

Especialistas avaliam que a atualização acompanha uma discussão global sobre saúde mental no ambiente corporativo e reforça a necessidade de modelos de gestão mais sustentáveis. 

“Não se trata apenas de evitar multas ou processos. Ambientes emocionalmente saudáveis tendem a gerar equipes mais engajadas, produtivas e com menor índice de adoecimento”, conclui Regina Vera Dias Sautchuck.


Maio Amarelo: mortes no trânsito voltam a crescer no Brasil e acende alerta para desafios estruturais e comportamentais

Freepik
 Dados do Atlas da Violência 2026 mostram alta na taxa de óbitos; especialistas apontam tolerância social a infrações e estresse emocional como combustíveis para a crise viária

 

Minas Gerais - O movimento Maio Amarelo, iniciativa internacional voltada à conscientização e à redução de sinistros e mortes no trânsito, reforça que a violência nas vias continua entre as principais causas de mortes violentas no Brasil. Dados do Atlas da Violência 2026, divulgados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), apontam que o número de vítimas fatais voltou a crescer.  

Em 2024, o país registrou cerca de 37.150  mil mortes no trânsito. Os acidentes envolvendo motocicletas representaram boa parte dos óbitos, cerca de 41,6%. As mortes relacionadas a sinistros com motocicletas cresceram 38%, passando de 11.182 para 15.459 óbitos, entre 2019 e 2024. 

A advogada e coordenadora do curso de Direito da Afya Itaperuna, Dra Rayla Santos, informa que o principal desafio brasileiro já não está apenas na existência das normas de trânsito, mas na efetividade de sua aplicação. “Persiste no país uma cultura de banalização das infrações de trânsito, em que comportamentos de alto risco, como exceder os limites de velocidade, utilizar o celular ao volante ou dirigir após o consumo de álcool, ainda são frequentemente encarados com tolerância social. Essa normalização contribui diretamente para a manutenção dos elevados índices de acidentes e mortes no trânsito”. 

No centro do enfrentamento a essa crise, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) divulgou o Anuário Estatístico de 2025. Os esforços de fiscalização alcançaram patamares expressivos, com mais de 10,2 milhões de pessoas e 9,8 milhões de veículos abordados para a verificação de itens de segurança, mandados judiciais e o combate à perigosa combinação de álcool e direção. 

Dra Rayla Santos comenta que existem lacunas importantes na efetividade das políticas de segurança viária no Brasil. Uma das principais dificuldades está na fiscalização contínua, especialmente em cidades de menor porte e em rodovias de grande extensão territorial. Soma-se a isso a morosidade processual em casos de acidentes fatais, fator que enfraquece a percepção de responsabilização perante a sociedade. 

“Outro desafio significativo é a ausência de uma política pública permanente e mais robusta de educação para o trânsito. A punição é indispensável, mas a prevenção exige investimentos contínuos em conscientização, engenharia de tráfego e sistemas de fiscalização mais inteligentes e eficientes. Um trânsito seguro depende da atuação conjunta de três pilares fundamentais: comportamento responsável dos condutores, fiscalização eficaz e infraestrutura viária adequada. Quando um desses elementos falha, toda a coletividade fica vulnerável”, complementa a advogada. 

Embora o trabalho preventivo focado das patrulhas tenha gerado uma redução nos índices gerais de sinistros, mortes e feridos nas rodovias federais, os números absolutos ainda são desafiadores. Foram registradas 6.043 vidas perdidas em 72.529 sinistros de trânsito.

 

Comportamentos no trânsito e como evitar o estresse   

O anuário divulgado pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) identificou um aumento significativo nos comportamentos de risco por parte dos motoristas. O número de autuações por infrações de trânsito saltou de 9,4 milhões para mais de 10,2 milhões de registros, representando crescimento de 7,6%. Entre as condutas mais recorrentes, o excesso de velocidade liderou o ranking de infrações, alcançando o recorde histórico de 7,2 milhões de multas aplicadas. 

A psicóloga da Afya Contagem, Dra Andréa Chicri Matiassi, esclarece que mesmo conhecendo os riscos e consequências dos acidentes, muitas pessoas ainda adotam comportamentos perigosos no trânsito, pois suas atitudes não dependem apenas da razão, mas também das emoções, impulsos e da forma como lidam com frustrações e limites.  

“O trânsito desperta sentimentos de pressa, competitividade e necessidade de controle. O carro, muitas vezes, deixa de ser apenas um meio de transporte e passa a representar autonomia, poder e identidade, fazendo com que situações como congestionamentos ou a lentidão de outros motoristas sejam percebidas como afrontas pessoais. Além disso, o trânsito funciona como um espaço de descarga das tensões do cotidiano. Sobrecarga de trabalho, pressão constante, excesso de compromissos, medo da violência urbana e cansaço fazem com que muitas pessoas já entrem no carro emocionalmente desgastadas, o que favorece reações diante da espera, dos limites e da perda de controle”.


Voo cancelado, mala extraviada e conexão perdida: o que o brasileiro precisa saber antes de embarcar para a Copa do Mundo

Imagem criada com IA
Com a Copa do Mundo de 2026 concentrando viagens em três países e buscas por destinos como Nova York e Miami mais que dobrando entre brasileiros, advogada especialista em Direito do Consumidor Aéreo alerta: a maioria dos passageiros desembarca sem saber quais são seus direitos quando algo dá errado


A Copa do Mundo de 2026 começa no dia 11 de junho e, com ela, uma onda de brasileiros se prepara para realizar o sonho de torcer pela seleção ao vivo. Nova York, palco da estreia do Brasil contra Marrocos, já lidera o ranking de destinos mais reservados por brasileiros nos Estados Unidos, segundo levantamento da Civitatis. Miami, onde o Brasil enfrenta a Escócia na fase de grupos, ocupa a quarta posição. Filadélfia, terceira cidade dos jogos da seleção, também figura entre os mais procurados. 

O movimento é expressivo. A Decolar registrou crescimento superior a 100% nas buscas por viagens para os países-sede do Mundial. O Kayak, buscador de viagens que pesquisa centenas de sites simultaneamente para encontrar e comparar preços de passagens aéreas, hotéis, aluguel de carros e pacotes, aponta que 97% dos viajantes das gerações Z e Millennials planejam viajar para um grande evento em 2026, com eventos esportivos sendo a preferência de 34% desse grupo. E o mercado de aviação já responde: em 2025, o Brasil registrou crescimento de 33,2% na entrada de visitantes internacionais por via aérea, segundo dados da Embratur. 

Mas, enquanto os planos de viagem avançam, a preparação jurídica fica para trás. "O brasileiro pesquisa hotel, ingresso, câmbio, roteiro. O que ele raramente pesquisa é o que fazer quando o voo é cancelado no exterior, a mala não aparece na esteira ou ele é impedido de embarcar por overbooking", observa Roberta Von Jelita, advogada especialista em Direito do Consumidor Aéreo e fundadora do RVJ Advocacia. "E são exatamente essas situações que acontecem com frequência em períodos de alta demanda, como grandes eventos esportivos." 

Segundo o anuário de reclamações da ANAC, foram registradas mais de 95 mil queixas de passageiros em 2025. Atraso de voo liderou com 31% das reclamações, seguido por cancelamento (24%) e problemas com bagagem (18%).
 

O que muda quando o voo é internacional

O primeiro ponto de atenção é entender que as regras aplicáveis mudam dependendo de onde o voo parte. A Resolução 400 da ANAC, que regula os direitos dos passageiros brasileiros, se aplica a voos domésticos e a voos internacionais que partem de aeroportos brasileiros. Para voos que partem do exterior com chegada ao Brasil, a resolução garante apenas os direitos relacionados à bagagem. Nos demais casos, vale a legislação do país de origem. 

"Isso significa que um brasileiro que embarca em Miami, Nova York ou Cidade do México está sujeito às regras de cada um desses países, e não necessariamente às mesmas proteções que ele teria aqui", explica Roberta Von Jelita. "É fundamental que o passageiro entenda esse cenário antes de viajar, não depois que o problema acontece." 

O primeiro ponto de atenção é compreender que os direitos do passageiro podem variar conforme a forma de contratação da viagem. No Brasil, a Resolução nº 400 da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) e o Código de Defesa do Consumidor são aplicáveis também aos voos internacionais que saem ou chegam ao Brasil e também às passagens adquiridas por meio de sites, plataformas ou empresas brasileiras, ainda que o embarque ocorra no exterior. 

“Isso significa que, em muitos casos, o consumidor brasileiro continua protegido pela legislação brasileira mesmo em viagens internacionais, especialmente quando a contratação é realizada no Brasil ou com empresas que atuam no mercado brasileiro”, explica Roberta Von Jelita. 

Os prazos para acionar a Justiça também diferem: em voos nacionais, o passageiro tem até cinco anos; em voos internacionais, o prazo cai para dois anos, com base na Convenção de Montreal.
 

Voo cancelado ou atrasado: saiba o que exigir

Quando o cancelamento ou a alteração parte da companhia aérea com menos de 72 horas de antecedência, o passageiro tem direito a escolher entre reacomodação em outro voo, reembolso integral da passagem ou remarcação sem custo. Se o atraso superar quatro horas, as mesmas opções se aplicam. 

Além disso, a companhia é obrigada a oferecer assistência material, que inclui comunicação, alimentação, hospedagem (quando necessário pernoite) e transporte. "O passageiro que fica desamparado no aeroporto, sem receber qualquer suporte, pode guardar todos os comprovantes de gastos com alimentação e transporte e cobrar judicialmente. Isso vale como dano material", orienta a advogada. 

Em casos de cancelamento sem aviso prévio adequado, é possível pleitear indenização por danos morais, que pode chegar a R$ 10 mil dependendo do caso concreto.
 

Overbooking: quando você tem assento, mas é impedido de embarcar

O overbooking acontece quando a companhia vende mais passagens do que lugares disponíveis na aeronave. Quando nenhum passageiro aceita ceder o assento voluntariamente e alguém é impedido de embarcar, a companhia deve pagar uma compensação financeira imediata: 250 DES (equivalente a aproximadamente R$ 1.975) para voos domésticos e 500 DES (cerca de R$ 3.950) para internacionais. Essa compensação é cumulável com eventual ação por danos morais. 

"Muita gente não sabe, mas esse valor precisa ser pago na hora, no aeroporto. Não é uma promessa, não é um voucher para uso futuro. É dinheiro imediato", destaca Roberta. "E o passageiro ainda mantém o direito de escolher entre reacomodação no próximo voo disponível ou reembolso integral da passagem."
 

Conexão perdida: responsabilidade é da companhia

Se o passageiro perder a conexão por conta de atraso no voo anterior operado pela mesma companhia, a empresa é responsável por reacomodá-lo e garantir toda a assistência material necessária. "O passageiro não pode ser tratado como se tivesse perdido o voo por descuido próprio quando o atraso veio da operação da própria companhia", diz a advogada. 

Situação diferente ocorre quando o passageiro comprou os trechos separadamente, em companhias distintas. Nesse caso, cada voo é tratado de forma independente, e a responsabilidade não se comunica automaticamente entre as empresas, apenas se comprovada que houve diligência na hora da compra e o espaçamento entre os voos seja significativo.
 

Mala extraviada ou danificada: o que fazer antes de sair do aeroporto

Bagagem extraviada ou avariada é um dos problemas mais frequentes e, também, um dos que mais exige agilidade do passageiro. "A primeira coisa que precisa ser feita ainda dentro do aeroporto é registrar o Registro de Irregularidade de Bagagem, o RIB, no balcão da companhia aérea. Sem esse registro, fica muito mais difícil provar o dano depois", orienta a advogada. 

Pela Resolução 400 da ANAC, a companhia tem até 21 dias para localizar a bagagem em voos internacionais. Se não localizar nesse prazo, é obrigada a indenizar o passageiro em até sete dias. O limite de indenização é de 1.131 DES, o que equivale a aproximadamente R$ 8.672. Valores acima disso precisam de uma declaração especial feita antes do embarque. 

Se a mala for danificada, o prazo para comunicar o problema é de sete dias após o recebimento. A companhia deve reparar o dano ou substituir a bagagem por uma equivalente. "Fotografar a mala antes de despachar, de todos os ângulos, é uma das dicas mais simples e mais eficazes para quem quer se proteger", recomenda a advogada. "Essa imagem é prova."
 

Pacotes de viagem e hospedagem: atenção ao contrato

Quem compra pacotes por agências ou plataformas digitais precisa entender que o contrato firmado com a operadora não elimina os direitos do consumidor previstos no Código de Defesa do Consumidor. "Se o hotel reservado não existe, se o serviço não foi entregue conforme o prometido ou se a agência cancela sem reembolso adequado, o consumidor tem respaldo legal para buscar reparação", explica Von Jelita. 

Uma atenção especial vale para compras realizadas em sites estrangeiros. Nesses casos, a relação de consumo pode ser regida pela legislação do país de origem da empresa, o que dificulta eventual reparação. "A dica é sempre verificar se a plataforma tem representação legal no Brasil ou se é possível acionar órgãos de defesa do consumidor locais antes de fechar o pagamento." 

Além disso, o consumidor deve ficar atento se comprou com agência de turismo o seu pacote de viagens, pois esta, também deve ser responsabilizada caso ocorra algum problema no seu voo ou na viagem em sua totalidade.


Seguro viagem: não é luxo, é proteção básica

Para viagens aos Estados Unidos e ao Canadá, países com sistema de saúde privado e custos altíssimos, o seguro viagem deixa de ser um item opcional. "Uma internação hospitalar nos Estados Unidos pode custar dezenas de milhares de dólares. Sem seguro, o passageiro arca com tudo do próprio bolso", alerta a advogada. 

Além das emergências médicas, o seguro pode cobrir cancelamentos de voo, extravio de bagagem, assistência jurídica no exterior e outros imprevistos. "O custo do seguro é irrisório perto do custo de um imprevisto sem cobertura. É uma proteção que o brasileiro ainda subestima muito."
 

Guarda de documentos: o hábito que pode definir uma indenização

Independentemente do problema enfrentado, o registro de tudo é o que sustenta qualquer direito. Fotografar o painel do aeroporto com o horário do voo, guardar o cartão de embarque, tirar foto da etiqueta de despacho da bagagem, anotar protocolos de atendimento e salvar qualquer comunicação com a companhia são práticas que, na hora de acionar a Justiça, fazem toda a diferença. 

"O que define muitos casos não é a intensidade do problema, mas a qualidade das provas. Passageiro com documentação completa tem muito mais chances de ser indenizado do que quem chega só com a memória do que viveu", conclui Roberta Von Jelita.


A empresa investe. O funcionário não sente. Por que o RH brasileiro gasta muito e engaja pouco

 Muitas empresas não têm um problema de engajamento. Têm um problema de autoengano.


Existe uma pergunta que faço com frequência a líderes de RH e CEOs: você sabe, com dado real e recente, o quanto seus funcionários estão engajados hoje? 

A resposta costuma vir acompanhada de indicadores parciais. Turnover (a taxa de rotatividade de funcionários) sob controle. Resultado da última pesquisa de clima dentro do esperado. Nenhuma demissão em massa nos últimos meses. São dados reais, mas medem o que é fácil medir, não o que mais importa. E é exatamente nesse espaço entre o dado disponível e o dado necessário que mora o problema. 

A pesquisa Tendências de Gestão de Pessoas 2026, do Great Place to Work Brasil, mostra que 69,3% das empresas afirmam ter equipes engajadas. No mesmo período, o Engaja S/A, estudo independente produzido pela Flash em parceria com a FGV EAESP com mais de 5 mil trabalhadores representativos do mercado formal, encontrou o menor nível de engajamento da série histórica: apenas 39% dos profissionais brasileiros se declaram engajados.

Empresa e funcionário olham para a mesma realidade e enxergam coisas completamente diferentes. Quando isso acontece de forma tão consistente, o problema raramente é só o funcionário. 

Esse abismo já tem impacto mensurável. Segundo o Engaja S/A, o Brasil perde cerca de R$ 77 bilhões por ano com turnover e presenteísmo, aquele funcionário que ocupa a cadeira, participa da reunião e entrega o mínimo, mas emocionalmente já foi embora faz tempo. Isso representa 0,66% do PIB. 

A Gallup aponta que o baixo engajamento custou à economia global cerca de US$ 10 trilhões em produtividade em 2025. O problema deixou de ser apenas humano. Virou econômico.

 

E o mais curioso é que não falta investimento. Falta direção. 

O mesmo estudo mapeou as 40 práticas de RH mais comuns nas empresas brasileiras e chegou, pelo segundo ano consecutivo, a uma conclusão desconfortável: as práticas mais adotadas pelas organizações não estão entre as que mais aumentam o engajamento. 

As empresas continuam investindo em avaliações de desempenho tradicionais, treinamentos genéricos e reuniões de acompanhamento. Os profissionais valorizam autonomia, flexibilidade, desenvolvimento e qualidade de vida.

 

A empresa investe. O funcionário não sente. 

E quase ninguém para para perguntar por quê. 

Existe uma contradição curiosa no mercado atual. 

As empresas cobram dos profissionais adaptabilidade, aprendizado contínuo e rapidez diante das mudanças. Essas competências aparecem em praticamente toda descrição de vaga, palestra de liderança ou evento corporativo. 

Mas quando olhamos para a forma como a gestão de pessoas opera dentro das próprias organizações, o ritmo costuma ser outro: política definida no final do ano até janeiro, aprovada até março, implementada no segundo semestre e revisada no fim do ano, quando o problema já mudou de forma ou já saiu pela porta junto com quem pediu demissão. 

O profissional que não se adapta rápido é chamado de resistente. A empresa que não se adapta rápido ainda se sente normal. 

A consequência é direta: a maioria das organizações não escuta seus funcionários em tempo real. 

A pesquisa anual de clima captura um retrato atrasado de uma realidade que já mudou. Quando o relatório chega à diretoria, o dado já envelheceu. A realidade de agosto raramente é a mesma de novembro. 

Escuta ativa não é aplicar um questionário uma vez por ano e transformar o resultado em slide. É monitorar continuamente, ajustar rápido e mostrar para quem respondeu que aquela resposta gerou alguma mudança concreta. É fazer gestão de engajamento a cada minuto. Uma responsabilidade não só do RH mas de cada gestor. 

Sem isso, a pesquisa vira ritual. E ritual sem ação produz exatamente o que as empresas dizem querer combater: distanciamento e descrença. 

Agora existe também uma pressão regulatória. 

Pela Portaria MTE nº 1.419/2024, que entra plenamente em vigor em 26 de maio de 2026, empresas com trabalhadores CLT passam a ser obrigadas a identificar e gerenciar riscos psicossociais, incluindo burnout, assédio, sobrecarga e ambientes tóxicos, com o mesmo rigor exigido para riscos físicos. 

O contexto ajuda a explicar a urgência. Segundo dados do Ministério da Previdência Social, o Brasil registrou 546.254 afastamentos por transtornos mentais em 2025, alta de 15,66% em relação ao ano anterior e o maior número da série histórica. 

Ansiedade e depressão já aparecem entre os principais motivos de afastamento do trabalho no país. 

A NR-1 não criou o problema. Ela chegou porque o problema ficou grande demais para continuar sendo tratado como tema secundário. 

Quem enxergar isso apenas como burocracia vai montar uma pasta, preencher um documento e continuar operando no escuro. Quem entender o tamanho da mudança vai finalmente tratar dado de gente com o mesmo rigor que trata dado de negócio.

 

O talento mudou. A gestão ainda não. 

Nos meus mais de 25 anos de carreira executiva olhando a inserção e formação de jovens, acompanho isso de perto. O jovem chega ao mercado com expectativas totalmente diferentes das gerações anteriores. E não estamos falando de capricho. 

A Geração Z busca saúde mental, aprendizado, crescimento, flexibilidade e autenticidade na hora de fazer a escolha de um empregador. Vejo isso todos os dias no CIEE, onde mais de 400 mil jovens passam pelo processo de inserção no mercado de trabalho por ano. 

Marca empregadora não se constrói em campanha de recrutamento. Ela é consequência da experiência real de quem trabalha ali dentro. 

Uma empresa que não escuta seus funcionários e não mede de forma consistente o que eles sentem não sabe o que está comunicando para o mercado. E normalmente descobre isso tarde demais, quando os melhores talentos simplesmente escolhem outro lugar. 

As organizações que avançaram em gestão de pessoas entenderam algo simples: dado de gente precisa ser tratado com o mesmo rigor que dado financeiro, que é medido diariamente. 

Medem com frequência, ajustam rápido e não dependem apenas da própria percepção para avaliar a própria cultura. Porque ninguém avalia bem aquilo que avalia sobre si mesmo. 

No fim, a pergunta não é filosófica. É de gestão: sua empresa tem uma opinião sobre o engajamento das pessoas, ou tem os dados precisos da semana passada sobre o tema?

 

Rodrigo Dib - superintendente Institucional do Centro de Integração Empresa-Escola - CIEE, especialista em Carreira, Mercado de Trabalho e educação, e autor do livro "O mundo é seu, mas calma lá"


IoT pode virar porta de entrada para ataques, alerta Eseye

 

Para a Eseye, que estará presente na Exposec 2026, a conectividade
deixou de ser apenas uma camada de transporte de dados e
 passou a integrar a própria arquitetura de segurança.
(créditos: Tasha Kostyuk)

 
Avanço de IoT em operações críticas amplia superfície de ataque e exige nova abordagem para conectividade, gestão de dispositivos e proteção da operação


O avanço acelerado de dispositivos conectados em operações críticas está transformando o parque de IoT em um novo ponto de vulnerabilidade para as empresas. O alerta é da Eseye, empresa global de conectividade IoT e orquestração de eSIM, que vê crescer a distância entre a expansão das aplicações conectadas e a maturidade com que muitas organizações ainda tratam a segurança desses ativos.

 

Sensores, câmeras, gateways, rastreadores, terminais e equipamentos de borda passaram a ocupar funções cada vez mais centrais em setores como logística, utilities, infraestrutura, varejo, indústria e mobilidade. Ao mesmo tempo em que ampliam visibilidade operacional, automação e capacidade de resposta, esses dispositivos também expandem a superfície de ataque e criam novos pontos de fragilidade entre dispositivo, rede, plataforma e operação.

 

Um estudo global divulgado pela Eseye em 2025 mostrou que 75% das empresas sofreram ao menos um incidente de segurança envolvendo IoT no último ano, ante 50% no levantamento anterior da companhia. Em paralelo, um estudo global de 2026 da Palo Alto Networks identificou um aumento de 332% nos dispositivos e serviços de OT expostos à internet, totalizando quase 20 milhões de ativos observáveis publicamente. Já o Global Cybersecurity Outlook 2026, do Fórum Econômico Mundial, aponta que 64% das organizações já consideram ataques cibernéticos motivados por geopolítica em suas estratégias de mitigação de risco. No mesmo relatório, a América Latina e o Caribe aparecem com apenas 13% de confiança na capacidade de resposta dos países da região a grandes incidentes contra infraestrutura crítica.

 

“O mercado avançou muito na adoção de dispositivos conectados, mas ainda existe uma assimetria importante entre a velocidade dessa expansão e a maturidade da proteção desses ativos. Em muitas operações, o dispositivo IoT continua sendo tratado apenas como ponto de coleta ou transmissão de dados, quando, na prática, ele já faz parte da superfície crítica da empresa. É aí que o risco aumenta”, afirma Ana Carolina Bussab, CEO da Eseye para a América Latina. Segundo a executiva, o problema não está apenas no hardware, mas em todo o conjunto de decisões que sustenta a operação conectada: autenticação, conectividade, segmentação, gerenciamento remoto, atualização de firmware, visibilidade sobre comportamento anômalo e governança da base instalada. Em ambientes distribuídos, fragilidades nessas camadas podem comprometer não só a segurança digital, mas a continuidade do negócio.

 

Para a Eseye, a conectividade deixou de ser apenas uma camada de transporte de dados e passou a integrar a própria arquitetura de segurança e resiliência operacional. Isso inclui visibilidade do parque instalado, inteligência para escolha e gestão de redes, proteção da comunicação, atualização remota, controle de comportamento e redução de exposição em ambientes distribuídos. “Segurança em IoT não pode mais ser tratada como um apêndice do projeto. Em operações críticas, ela precisa estar presente desde a arquitetura do dispositivo até a forma como a conectividade é gerenciada em campo. Quando isso não acontece, abre-se espaço para ataques, indisponibilidade, perda de dados e comprometimento da operação”, acrescenta Ana Carolina.

 

Nesse contexto, a Eseye defende uma abordagem que combina conectividade celular resiliente, orquestração de eSIM, gestão centralizada da base instalada e camadas de segurança para IoT celular, com foco em reduzir exposição, aumentar visibilidade e sustentar continuidade operacional em ambientes distribuídos. A proposta da empresa é permitir que organizações monitorem, protejam e gerenciem dispositivos conectados com mais controle sobre comportamento, conectividade e risco, do dispositivo à nuvem.

 

A expectativa é que esse debate tende a ganhar ainda mais relevância à medida que crescem AIoT, automação distribuída, videomonitoramento inteligente, telemetria em escala e sistemas conectados voltados a infraestrutura crítica. Nesses contextos, proteger o dispositivo conectado passa a significar proteger a própria operação. “Quanto mais inteligentes e distribuídas se tornam as operações, maior é o custo de tratar segurança e conectividade como camadas separadas. O mercado está entrando em uma fase em que proteger o IoT significa proteger a operação”, conclui Ana Carolina.

 

A Eseye e suas soluções voltadas à segurança de dispositivos conectados estarão presentes na Exposec 2026, que acontece de 1 a 3 de junho de 2026, estande E54, no São Paulo Expo Exhibition & Convention Center, em São Paulo. O evento deve reunir debates sobre segurança eletrônica, cibersegurança, IoT, infraestrutura crítica e tecnologias conectadas.

 

Eseye
www.eseye.com/pt-br


A maior revolução da IA não está na tecnologia, está nas pessoas


Vivemos um daqueles momentos raros da história em que a tecnologia deixa de ser apenas uma ferramenta de apoio para se tornar uma força capaz de reorganizar a sociedade, a economia e até a forma como pensamos. Foi assim com a eletricidade. Com a internet. Com o smartphone. E agora estamos entrando, definitivamente, na era da Inteligência Artificial.

 

Mas existe um erro muito comum quando falamos sobre IA: tratá-la apenas como uma evolução tecnológica. Não é. A Inteligência Artificial representa um salto civilizatório. Ela está mudando a maneira como trabalhamos, aprendemos, consumimos, nos relacionamos e tomamos decisões. Está alterando modelos de negócio, acelerando transformações geopolíticas e criando uma nova dinâmica entre seres humanos e máquinas.

 

No São Paulo Innovation Week, compartilhei uma reflexão que venho amadurecendo há algum tempo: em poucos anos será difícil imaginar a vida sem um agente pessoal de IA, da mesma forma que hoje é impossível imaginar o cotidiano sem um celular.

 

E talvez o ponto mais importante seja este: as pessoas começarão a ser percebidas de maneira diferente, dependendo da sua capacidade de trabalhar junto com agentes de IA, e isso muda tudo.

 

Ainda existe quem enxergue a IA apenas como um sistema de perguntas e respostas, mas as organizações que estão realmente avançando são aquelas que entenderam que a IA não serve apenas para automatizar tarefas; ela serve para redesenhar processos, redefinir funções e reinventar o próprio trabalho.

 

Eu mesmo já utilizo agentes que se encarregam de tarefas do meu dia a dia, com extrema eficiência, recuperando, por exemplo, informações discutidas anos atrás, identificando conexões improváveis e sugerindo caminhos que talvez eu não percebesse sozinho. Não se trata de substituir o pensamento humano, mas de ampliar nossa capacidade de análise, memória, criação e decisão.

 

É exatamente sobre isso que escrevo no livro "O mindset da IA: ela pensa, você decide". O ponto central não é a tecnologia em si, mas a mudança de mentalidade necessária para conviver com ela. Porque a grande transformação não acontecerá apenas nas máquinas. Ela acontecerá em nós.

 

Claro que existem receios legítimos. Toda grande transformação tecnológica gera medo. A história sempre foi assim. A chegada da eletricidade eliminou profissões. O computador também. A internet idem.

 

A pergunta não é mais se a IA fará parte da nossa vida. Ela já faz. A verdadeira pergunta é: quem aprenderá a evoluir junto com ela?

 

Porque o impacto da IA no mercado de trabalho provavelmente não será uma simples troca entre humanos e máquinas. O que veremos é uma substituição de tarefas específicas, ao mesmo tempo em que surgirão profissões inteiramente novas, muitas das quais ainda nem conseguimos nomear.

 

Já aconteceu antes com datilógrafos que desapareceram. Ascensoristas também. Telefonistas idem. Em compensação, nasceram desenvolvedores, designers digitais, especialistas em dados, criadores de conteúdo e inúmeras funções que seriam inimagináveis décadas atrás.

 

As máquinas continuarão evoluindo rapidamente, mas o verdadeiro diferencial competitivo do futuro será a nossa capacidade de evoluir junto com elas, sem abrir mão daquilo que nos torna humanos. 

 

Guilherme Horn - head do WhatsApp para Mercados Estratégicos (Brasil, Índia e Indonésia) e autor do livro O mindset da IA – ela pensa, você decide


Análise em rede: renda domiciliar complementa avaliação de crédito e está associada a até 31% de redução no percentual de inadimplência, aponta estudo da Serasa Experian

• Percentual de inadimplentes pode cair até 31% entre idosos e 24% entre jovens em domicílios de maior renda

• Mesmo entre consumidores de baixa renda, contexto domiciliar está associado a redução de 17% no percentual de inadimplentes

• Considerar o contexto domiciliar amplia a compreensão do comportamento financeiro do consumidor

 

A inclusão de novas variáveis na análise de crédito tem ampliado a capacidade de compreensão sobre o comportamento financeiro dos brasileiros. Um estudo inédito da Serasa Experian, primeira e maior datatech do país, mostra que considerar o contexto do domicílio, como a renda estimada das pessoas que moram na mesma casa, complementa a análise baseada no perfil individual e está associado a reduções relevantes nos níveis de inadimplência - definido pelo percentual CPFs com atrasos superiores a 60 dias após a concessão de um crédito - em diferentes perfis de consumidores.

 

Os dados indicam que consumidores inseridos em domicílios com maior renda apresentam menor probabilidade de inadimplência. Entre pessoas com 60 anos ou mais, o percentual de inadimplentes cai de 9,4% para 6,5% quando estão em domicílios com renda acima de cinco salários-mínimos, o que significa uma redução de aproximadamente 31%. Entre jovens de até 25 anos, a queda é de 24%, passando de 15,9% para 12,1% no mesmo cenário.

 

O comportamento também é observado em outras faixas. Mesmo em domicílios com renda intermediária (cerca de três salários-mínimos), o percentual de inadimplentes entre jovens já apresenta redução, indicando que o contexto contribui para uma leitura mais abrangente do perfil financeiro.

 


Ao combinar a renda individual estimada com a renda estimada do domicílio, é possível ampliar e complementar a leitura sobre a capacidade financeira. Entre pessoas com renda individual de até dois salários-mínimos, o percentual de inadimplentes é de 13%, mas cai para 10,8% quando essas pessoas estão inseridas em domicílios com renda mais elevada, ou seja, uma redução de cerca de 17%. 

No consolidado geral, o percentual de inadimplentes cai de 11,4% para 8,1% ao comparar domicílios de menor renda com aqueles de maior renda, uma redução de aproximadamente 29%.

 


“Os dados reforçam que a análise de crédito pode se beneficiar de uma visão cada vez mais completa do consumidor, composta por mais camada de informação. A renda  estimada individual segue sendo um indicador fundamental, mas, ao incorporar o contexto do domicílio, é possível enriquecer essa leitura e tornar as decisões ainda mais precisas e aderentes à realidade financeira. Com o uso de tecnologia avançada e dados cada vez mais atualizados, incluindo sinais de consumo em tempo real, os modelos se tornam mais acurados e sensíveis ao comportamento financeiro do consumidor. Com isso, os credores podem tomar decisões mais bem munidos de informações, o que contribui com ganhos de eficiência ao longo de toda a jornada de crédito”, afirma Eduardo Mônaco, vice-presidente de Crédito e Software Solutions da Serasa Experian.

 

Diferenças regionais seguem o mesmo padrão

 

O comportamento se repete em diferentes regiões do país. No Sudeste, o percentual de inadimplentes cai de 12,3% para 9,9% em domicílios de maior renda, uma redução de cerca de 20%. No Nordeste, a queda é de 14,2% para 11,5% (19%), enquanto no Norte o percentual recua de 14,7% para 11,9% em faixas intermediárias de renda domiciliar.

 

 

Tecnologia amplia a análise


Os dados fazem parte da solução Renda 360, da Serasa Experian, que amplia a análise tradicional ao incorporar o contexto financeiro do domicílio e da rede de relacionamentos do consumidor. A partir do cruzamento de informações como geolocalização e comportamento digital, o modelo estima a renda agregada e contribui para uma avaliação mais completa da capacidade financeira. Essa abordagem também vem sendo aplicada ao Score, com o Score 360, que incorpora a visão em rede para tornar a leitura de risco mais precisa.

 

“A utilização de dados comportamentais exclusivos tende a fortalecer os modelos de análise de risco, ampliando a capacidade de avaliação em diferentes perfis de consumidores, contribuindo para uma concessão de crédito mais alinhada ao contexto financeiro das pessoas”, completa Mônaco.

 

Metodologia


O estudo foi elaborado a partir da solução Renda 360 da Serasa Experian, que analisa o consumidor com base em sua rede de relacionamento, considerando a renda estimada individual e a renda agregada estimada do domicílio. A construção da base utiliza informações como geolocalização e comportamento digital e contempla indivíduos economicamente ativos, com 18 anos ou mais. Essas informações não impactam o cálculo individual da renda estimada e do Score do consumidor. 

O percentual de inadimplentes considera CPFs com atrasos superiores a 60 dias após a concessão de um crédito.


Experian
experianplc.com


Mais renda e menos desigualdade para os brasileiros

No último dia 8 de maio, o IBGE revelou ao país duas notícias contraditórias. A primeira: a renda média do brasileiro teve um significativo aumento, gerando entusiasmo e comemorações no alto escalão do governo e ganhando destaque na grande imprensa, sobretudo nas principais redes de TV. A segunda: a desigualdade voltou a crescer, evidenciando que as políticas públicas não tiveram êxito na distribuição de renda.   

De fato, a renda média domiciliar per capita em 2025 foi de R$ 2.264,06 (cerca de 1,5 salário-mínimo da época), representando um aumento real de 6,9% em relação ao ano anterior. Se considerada apenas a renda do trabalho, o crescimento foi de 5,5%, atingindo o valor de R$ 3.560,00/mês (cerca de 2,3 salários-mínimos).   

Isso seria motivo de comemoração real se tivesse vindo acompanhada de uma outra notícia anunciando melhor distribuição de renda. Foi, no entanto, justamente o contrário: o país registrou um decepcionante aumento da concentração de renda. Ou seja, as desigualdades sociais avançaram em ritmo mais acelerado do que o crescimento da renda média na nação. O contraste avançou e foi decorrente dos aumentos dos privilégios para os poderosos.    

O abismo da desigualdade, uma das maiores mazelas nacionais, está escancarada nos dados oficiais de 2025. Esses dados apontam que os 10% de brasileiros mais ricos tiveram crescimento de 8,7% em suas rendas, atingindo R$ 9.117,00/mês, o equivalente a 6 salários-mínimos, aproximadamente. Por outro lado, os 10% mais pobres tiveram um aumento diminuto, de 3,1%, com renda chegando a apenas R$ 268,00/mês. Triste realidade.   

Outro dado importante: os 40% mais pobres ficaram com a renda média per capita 13,8 vezes menor que a dos 10% mais ricos. Em valores nominais, a diferença é de R$ 661,00/mês para R$ 9.117,00/mês entre esses dois grupos.   

O reflexo imediato desses dados está no Coeficiente de Gini, indicador que reflete a desigualdade socioeconômica dos países, mensurando a distribuição de renda entre as populações. No Brasil, esse índice saltou de 0,504, em 2024, para 0,511 em 2025, evidenciando considerável aumento da concentração de renda. Mais uma evidência de que o governo fracassou.   

É importante também analisar o panorama internacional e histórico. Em maio de 2026, o Brasil — 10ª maior economia do mundo — ocupa a vergonhosa 5ª pior posição no ranking dos países mais desiguais do mundo, segundo o World Inequality Report 2026.   

O indicador de riqueza aponta que, no Brasil, pelos 10% mais ricos da população detêm 59,1% da renda nacional. Os 50% mais pobres detêm apenas 9,3%. Quando se trata da riqueza total (patrimônio/imóveis), a discrepância é ainda maior, pois os 10% mais ricos detêm 70% da fortuna da população nacional.  

Em termos de concentração de renda, o Brasil fica atrás apenas de nações com disparidades extremas, como África do Sul, Namíbia, Botsuana e Colômbia. Os indicadores revelam que os governos das últimas três décadas reeditaram as "Capitanias Hereditárias", criando uma divisão entre "donatários" (donos do poder e das riquezas) e "vassalos" (os 50% mais pobres, sem direitos, sobrevivendo com muito pouco).  Eis a prova de que as políticas econômicas das últimas três décadas fracassaram e os governantes – sem exceção – foram reprovados, merecendo cartão vermelho. 

O grande físico alemão Albert Einstein disse que “insanidade é fazer as mesmas coisas repetidamente e esperar resultados diferentes". Ele estava certo e sua teoria explica muito da situação vivida pelo Brasil.   

O desastre das últimas décadas é a consequência do gigantismo do Estado e da irresponsabilidade fiscal dos governantes, aprovada pelo Congresso e tolerada pelo Judiciário e pelo Tribunal de Contas da União, apesar da exclusão do arcabouço fiscal nos últimos 4,5 anos atingir R$ 170 bilhões. 

Os números não mentem. Os gastos primários da União representam 34% do Produto Interno Bruto (PIB). O déficit primário, permanente nos últimos três anos, chegou a r$ 61,7 bilhões no último ano e o déficit nominal já corresponde a quase 9% do PIB, superior a R$ 1,10 trilhão/ano. Além disso, o déficit previdenciário também é gigante e não para de subir.   

A consequência é o crescimento anual da dívida pública, já próxima de 80% do PIB, consumindo somente em juros (à taxa Selic de 14,5%) o equivalente ao montante superior a R$1,15 trilhão/ano. Este é o preço da irresponsabilidade fiscal.   

Com a máquina pública inchada – sem que isso corresponda à eficiência- os gastos com o funcionalismo equivalem a 13,5% do PIB (dado de 2025), muito acima da média da Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), cujos países integrantes gastam menos de 10% do PIB com esse setor.  Some-se a isso a gestão desastrosa das estatais, nas quais há muito tempo vigora o critério partidário vale muito mais que a competência e experiência para a ocupação dos cargos diretivos.

Há que se considerar ainda a má gestão. Os cargos comissionados custam R$ 41,60 bilhões por ano e o Brasil tem 53.500 servidores recebendo acima do teto constitucional, ao custo anual de R$ 11,20 bilhões no total. O desperdício é estimado em 3,5% do PIB, o correspondente a R$ 445 bilhões/ano. Esse valor equivale a 2,5 vezes o orçamento anual do Sistema Único de Saúde (SUS).

 O cenário também é agravado pela corrupção e pela certeza da impunidade. O Brasil ocupa a 108ª posição no Ranking de Percepção da Corrupção, elaborado pela Transparência Internacional. Significa dizer que, hoje, 107 países têm setor público mais honesto do que o do Brasil, que perde com essa prática criminosa e recorrente o correspondente a 2,5 A 3% do PIB. algo em torno de R$ 325 bilhões a R$ 400 bilhões por ano. (suficiente para construção de mais de 1,0 milhão de unidades habitacionais anualmente). 

Para melhorar a distribuição de renda e alcançar justiça social o Brasil precisa adotar medidas drásticas que não podem mais ser adiadas, tamanho o estrago que vêm produzindo. Uma delas é implantar mecanismos eficazes de combate à corrupção, incluindo alterações legislativas para classificar como hediondos os crimes de corrupção, sem direito à progressão de pena e com prisão imediata após condenação em segunda instância.   

É igualmente fundamental cumprir a Emenda Constitucional n°109/2021, de 15/03/2023, a qual determina a redução das renúncias fiscais, limitando-as a 2% do PIB (hoje ultrapassa 5% do PIB), ou seja, a diferença de 3% do PIB é da ordem de R$ 390 bilhões/ano. Mas não é só. Essa medida precisa ser acompanhada do enxugamento do Estado brasileiro, para que ele volte a “caber no PIB”. A economia possível somando-se o combate à corrupção e a redução de desperdícios e do gigantismo da máquina somaria R$ 1,20 trilhão anualmente, o equivalente a quase 30% da arrecadação tributária nacional (mostrando que a carga tributária se eliminados esses privilégios, poderia ser reduzida a 24% ao invés de 34% do PIB (2025). 

Impõe-se, ainda, a revisão do salário-mínimo com a alteração da fórmula de reajuste para evitar perdas reais. Estima-se que 63 milhões de pessoas (aposentados, cidadãos que dependem do Benefício de Prestação Continuada e trabalhadores) perderam renda devido às políticas atuais. Também é preciso corrigir o valor do Bolsa Família pelo índice da inflação, pois a perda do período sem reajuste já soma 12,38%.   

Se permanecer buscando as mesmas soluções para os velhos problemas, o Brasil continuará servindo o “banquete estatístico”, metáfora criada pelo economista, professor e ex-ministro da Fazenda Mário Henrique Simonsen (1935-1997). Dizia ele que se em um local há duas mesas gigantes, uma com 100 pessoas comendo caviar, escargot e filé mignon e bebendo vinho francês (tíquete de R$ 10.000,00) e outra com outras 100 pessoas comendo arroz com farinha (tíquete de R$ 10,00), a "média" indicará um belo banquete de R$ 5.005,00 para todos. Mas nessa situação hipotética, metade dos comensais sai da mesa com fome. 

  É uma bela lição para um país que, além de tudo, ainda tem 10 milhões de pessoas que não sabem ler nem escrever e 29% de analfabetos funcionais. São cidadãos que ninguém enxerga porque há outras preocupações maiores: a garantia de penduricalhos para engordar os holerites, driblando o teto constitucional, a farra das emendas parlamentares e a velha prática do tomalá-dá-cá para assegurar a reeleição. As narrativas cada vez mais se sobrepõem às verdades e a honestidade no poder passa ser raridade. 

A situação só se agrava porque o governo vem sistematicamente tirando renda da população, além de negar-lhe educação e segurança. O futuro é sombrio e a esperança vai-se esvaindo. Somente um estadista, com um novo olhar e um plano de metas equilibrado e viável, pode mudar o rumo desse país que, apesar do gigantesco potencial, continua patinando em velhas práticas, com resultados pífios para os cidadãos.    

 

Samuel Hanan - engenheiro com especialização nas áreas de macroeconomia, administração de empresas e finanças, empresário, e foi vice-governador do Amazonas (1999-2002). Autor dos livros “Brasil, um país à deriva” e “Caminhos para um país sem rumo”. Site: https://samuelhanan.com.br   

  

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