Então o ideal seria termos zero de perdas de água? Apesar da resposta
ser sim, de acordo com a literatura sobre o tema, não ter perdas no sistema é
algo inviável por limites econômicos (em determinado ponto, o custo fica
superior ao do volume recuperado) e limites técnicos (existe um volume mínimo
de perdas dadas as tecnologias atuais de materiais, ferramentas e logística).
No Brasil, o Ministério das Cidades editou a Portaria MCID nº 788,
de 1º de agosto de 2024 (Portaria 788/2024), revogando e substituindo a
Portaria nº 490, de 22 de março de 2021 (Portaria 490/2021), anteriormente
editada pelo então Ministério do Desenvolvimento Regional. A Portaria 788/2024
passou a estabelecer metas para os indicadores de perdas na distribuição e
perdas por ligação. Segundo o normativo, os municípios beneficiados por
recursos públicos federais ou financiamentos com recursos da União deverão
apresentar indicadores iguais ou inferiores a:
- 35% e 303,0 L/ligação/dia até 2025;
- 30% e 263,0 L/ligação/dia entre 2026 e 2032;
- 25% e 216,0 L/ligação/dia a partir de 2033.
IMPACTO DAS PERDAS DE ÁGUA NO BRASIL
Para entender o impacto do controle de perdas, considerando-se
somente as perdas físicas (como, por exemplo, os vazamentos), o volume
(cerca de 4,4 bilhões de m³) seria suficiente para abastecer aproximadamente 77
milhões de brasileiros em um ano. Esta quantidade não somente
equivale a mais de um quarto da população do país em 2024, como também
corresponde a mais de duas vezes o número de habitantes sem acesso ao
abastecimento de água nesse ano, cuja grandeza situa-se em torno de 33 milhões.
Além disso, com esse mesmo volume, seria possível abastecer os
17,2 milhões de brasileiros que vivem em comunidades vulneráveis por dois anos.
Ao meio ambiente, a redução dessas perdas implicaria a disponibilidade de mais
recurso hídrico para a população sem a necessidade de captação de água em novos
mananciais.
Com o cenário de mudanças climáticas, os desafios para a
disponibilidade hídrica nos mananciais se tornam cada vez mais evidentes. As
perdas reais afetam diretamente os custos de produção e a demanda por água.
Neste sentido, um elevado nível destas perdas equivale a uma captação e a uma
produção superiores ao volume efetivamente demandado, gerando as seguintes
ineficiências:
Quadro 2 – Impactos na produção de água
e no meio ambiente das perdas de água
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Desequilíbrios na produção de água
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Desequilíbrios ambientais
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- Maior custo dos insumos
químicos, energia para bombeamento, entre outros fatores de produção
- Maior custo de manutenção da
rede e de equipamentos
- Uso excessivo da capacidade de
produção e de distribuição existente
- Maior custo oriundo da
possível utilização de fontes de abastecimento alternativas de menor
qualidade ou de difícil acesso
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- Pressão excessiva sobre as
fontes de abastecimento do recurso hídrico, uma vez que se capta mais
água do que efetivamente chega à população
- Maior custo posterior para
mitigação dos impactos negativos dessa atividade (externalidades)
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Fonte: Instituto Trata Brasil
BENEFÍCIOS SOCIAIS COM A REDUÇÃO DE PERDAS
O Quadro 3 a seguir aponta as principais estatísticas descritivas a
partir da redução de perdas, desagregadas por estado. Ao se admitir não uma
eliminação total das perdas, mas uma redução dos atuais 39,5% aos 25% previstos
pela Portaria 788/2024, o volume economizado seria da ordem de 2,8 bilhão de m3.
Isso equivale ao consumo médio de aproximadamente 48 milhões de brasileiros
em um ano.
Quadro 3 - Benefícios sociais da
redução de perdas por estado em 2024
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| Fonte: SINISA (2024). Elaboração: GO Associados. Nota: a população potencialmente atendida é calculada considerando-se somente as perdas físicas, e uma redução das perdas totais de água na distribuição (IAG2013) até a meta de 25% definida na Portaria 788/2024. |
CENÁRIO NACIONAL DE PERDAS NOS ÚLTIMOS CINCO ANOS
O indicador mais comumente utilizado para a análise geral de
perdas no país é o Índice de Perdas na Distribuição, que busca estabelecer uma
relação entre a água produzida e a água efetivamente consumida nas residências.
Considerando os últimos cinco anos, o valor de 2024, de 39,53%, é ligeiramente
menor que o de 2020, de 40,14%, ambos significativamente superior à meta de
25%.
Quadro 4 – Evolução das Perdas na
Distribuição no Brasil, 2020–2024
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 | | Fontes: SNIS (2020-2022); SINISA (2023-2024). Elaboração: GO Associados. |
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RECORTE POR REGIÃO
A situação de perdas no Brasil apresenta significativas diferenças
quando se comparam suas diversas macrorregiões. É possível concluir que Norte e
Nordeste são as mais carentes e que devem enfrentar os maiores desafios para
reduzirem seus índices de perdas. Além disso, essas regiões também são aquelas
que possuem os piores indicadores de atendimento de água, de coleta e de
tratamento de esgotos.
Quadro 5 – Perdas na Distribuição por
Macrorregião Brasileira, 2024
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 | Fontes: SINISA 2024. Elaboração: GO Associados. |
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De 2020 a 2024, a macrorregião que mais apresentou piora foi a
Nordeste, com aumento de 0,46 ponto percentual. Por outro lado, observa-se
melhora na macrorregião Norte, com redução de 1,79 pontos percentuais no mesmo
período.
Quadro 6 – Evolução das Perdas na
Distribuição por Macrorregião
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| Fontes: SNIS (2020-2022); SINISA (2023-2024). Elaboração: GO Associados. |
RECORTE DE INDICADORES POR ESTADO
A análise comparativa dos indicadores estaduais de perdas na
distribuição evidencia a variação do desempenho entre as unidades federativas,
identificando padrões regionais, diferenças estruturais entre os sistemas de
abastecimento e potenciais implicações para a eficiência operacional dos
prestadores. A leitura do indicador permite uma compreensão mais abrangente do
estágio de controle de perdas no país.
Quadro 7 – Perdas na Distribuição por
estado, 2024
Fonte: SINISA (2024). Elaboração: GO Associados.
A análise evidencia um padrão de maior ineficiência concentrado
principalmente nas regiões Norte e Nordeste do país. Estados como Alagoas
(66,90%), Roraima (65,97%), Pará (57,33%), Maranhão (56,68%), Acre (56,48%) e
Sergipe (55,10%), apresentam níveis de perdas superiores a 55% do volume
distribuído, significativamente acima da média nacional (39,53%).
Por outro lado, estados das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do
país, como Goiás (27,61%), Mato Grosso do Sul (30,60%), Distrito Federal
(31,55%), São Paulo (32,15%), e Paraná (33,11%) registram indicadores
inferiores a 35%. Neste indicador, merece destaque o estado do Piauí, que
possui a menor média entre os estados (24,61%), e Tocantins, com a quinta menor
média entre as unidades da federação para este indicador (31,58%).
RECORTE PARA OS 100 MAIORES MUNICÍPIOS BRASILEIROS
O indicador médio computado na amostra foi de 35,56% em 2024, o que
representa uma piora em relação aos 31,09% computados em 2023. Dos 99
municípios considerados, apenas 20 possuem níveis de perdas na distribuição
menores que 25%. Os dados mostram ainda que 14 municípios têm perdas na
distribuição superiores a 50%.
É possível observar uma forte concentração dos melhores
desempenhos nos estados do Sudeste, que concentram 12 dos 20 municípios com
menores índices de perdas na distribuição. Municípios como Suzano (1,27%) e
Santos (5,35%), apresentam níveis significativamente inferiores à média
nacional.
Quadro 8 – Melhores municipios em
perdas de água
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| Fonte: SINISA (2024). Elaboração: GO Associados. |
Por outro lado, os municípios com piores resultados estão
majoritariamente localizados nas regiões Norte e Nordeste, com destaque para
Parauapebas (PA), com 70,68%, e Maceió, com 64,05%. Além disso, outras cidades
de diferentes regiões também apresentam perdas significativas, com destaque
para Belo Horizonte, com 68,29% e Várzea Grande (MT), com 59,03%.
Quadro 9 – Destaques negativos no
Índice de Perdas na Distribuição
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| Fonte: SINISA (2024). Elaboração: GO Associados. |
MUNICÍPIOS
NOS PADRÕES DE EXCELÊNCIA
Conforme
a já mencionada Portaria 788/2024, são considerados excelentes os municípios
que contam com até 25% em perdas na distribuição e de 216 L/ligação/dia em
perdas por ligação.
Quadro 10 – Municípios com Padrões de
Excelência em Perdas de Água
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 | | Fonte: SINISA (2024). Elaboração: GO Associados. |
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Somente doze dentre os 100 municípios mais populosos do Brasil
atendiam às metas da Portaria 788/2024 simultaneamente em 2024, indicando haver
um longo caminho a ser percorrido na busca pela redução das perdas de água.
RECORTE PARA AS CAPITAIS BRASILEIRAS
Apenas quatro das 27 capitais, Goiânia, São Paulo, Campo Grande e
Teresina, apresentaram valores inferiores à meta de 25% estabelecida pela
Portaria 788/2024. A média das capitais foi de 39,30%.
Quadro 11: Principais Indicadores de
Perdas de Água das Capitais Brasileiras
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| Fonte: SINISA (2024). Elaboração: GO Associados. Nota: a população potencialmente atendida é calculada considerando-se somente as perdas físicas, e uma redução das perdas totais de água na distribuição (IAG2013) até a meta de 25% definida na Portaria 788/2024. |
Estima-se que as capitais brasileiras percam anualmente cerca de
2,3 bilhões de m³ de água, dos quais aproximadamente 0,9 bilhão de m³ (40%)
correspondam a perdas aparentes (comerciais), enquanto 1,4 bilhão de m³ (60%)
refiram-se a perdas reais (físicas). Considerando-se apenas estas últimas, o volume
desperdiçado equivale a cerca de 1.517 piscinas olímpicas por dia, ou a mais de
cinco milhões de caixas d’água de 750 litros.
GANHOS
ECONÔMICOS COM A REDUÇÃO DAS PERDAS DE ÁGUA POTÁVEL
Para calcular os ganhos econômicos ao país pela redução de perdas,
o estudo apresentou uma análise de três cenários: o otimista, o realista e o
pessimista. Cada um deles responde à média nacional do nível de perdas a ser
alcançada em 2033: 15% (cenário otimista), 25% (cenário realista) e 35%
(cenário pessimista).
Quadro 12 – Sumário dos Impactos de
Redução das Perdas
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| Fonte: SINISA (2024). Elaboração: GO Associados |
Tomando como referência o Cenário Realista, é possível constatar que
existe um potencial de ganhos brutos com a redução de perdas de água de R$ 47,3
bilhões até 2033. Caso sejam considerados os investimentos
necessários para a redução de perdas, o benefício líquido gerado pela redução de perdas é
da ordem de R$ 23,6 bilhões em 10 anos.
CONCLUSÃO
A melhor gestão e eficiência nos sistemas de distribuição estão
diretamente ligadas à universalização do saneamento básico. Combater as perdas
é, antes de tudo, garantir o acesso pleno à água para todos os brasileiros,
proteger os mananciais e responder aos efeitos das mudanças climáticas com a
infraestrutura que o país já tem, mas ainda desperdiça.
O estudo evidencia que as perdas de água permanecem em níveis elevados
no país. Em 2024, as perdas na distribuição foram de 39,53%, enquanto as perdas
por ligação foram de 349,09 L/dia/ligação, valores significativamente
superiores aos parâmetros de eficiência estabelecidos pela Portaria 788/2024,
de 25% e 216 L/ligação/dia, respectivamente. As desigualdades regionais
permanecem como um dos principais desafios para a universalização dos serviços
de saneamento básico no Brasil, e as regiões Norte e Nordeste seguem
concentrando os indicadores mais elevados de perdas de água.
Em uma realidade que já se faz presente, os efeitos das mudanças
climáticas refletem em impactos diretos no acesso à água potável. A redução das
perdas contribui para mitigar a necessidade de expansão de mananciais e aumenta
a resiliência dos sistemas de abastecimento em um contexto de crescente pressão
sobre os recursos hídricos. Além disso, menores níveis de perdas tendem a
ampliar a sustentabilidade econômico-financeira dos prestadores, reduzindo
pressões sobre tarifas futuras e liberando recursos para investimentos em
expansão, manutenção e melhoria dos serviços.
Para tanto, é necessário priorizar essa agenda com a implementação
de programas que unam eficiência e inovação e, consequentemente, acelerar o
ritmo dos investimentos para que o Brasil atinja a meta de 25% em perdas na
distribuição até 2033, conforme previsto pela Portaria 788/2024.
"Seguimos perdendo, a cada ano, água suficiente para
abastecer populações inteiras, enquanto milhões de brasileiros ainda não têm
acesso a esse recurso básico e essencial para a vida. Estamos falando de um
volume capaz de atender 77 milhões de habitantes, número que representa mais de
duas vezes a quantidade de pessoas sem acesso ao abastecimento de água no país.
São casas que ficam sem abastecimento, rios que secam uma sobrecarga em todo o
sistema de distribuição que recai, inevitavelmente, sobre os habitantes.
Reduzir perdas de água é uma escolha de gestão que impacta diretamente a
qualidade de vida da população e a saúde dos nossos mananciais, especialmente
em um cenário em que as mudanças climáticas já pressionam a disponibilidade
hídrica e tornam a eficiência no uso da água ainda mais urgente. Em um ano
eleitoral, esse debate precisa chegar às propostas de saneamento integrado,
porque não há universalização possível sem eficiência na distribuição da água
que já produzimos."
– analisa Luana Pretto, Presidente-Executiva do Trata Brasil.
“A redução das perdas de água deixou de ser apenas uma agenda de
eficiência operacional no setor de saneamento básico e passou a ocupar um papel
estratégico na adaptação climática dos municípios. Em um contexto internacional
em que parte do setor privado e de governos tem abandonado compromissos
ambientais, torna-se ainda mais importante fortalecer políticas públicas capazes
de conciliar a expansão do atendimento às populações ainda sem acesso ao
abastecimento de água e aos serviços de coleta e tratamento de esgotos com
segurança hídrica e preservação ambiental. Nesse sentido, reduzir perdas
significa utilizar de forma mais racional a água já captada e tratada,
diminuindo a pressão sobre os mananciais, reduzindo custos operacionais e
aumentando a resiliência dos sistemas de abastecimento frente a eventos
climáticos extremos.” –
declara Gesner Oliveira, Sócio Executivo da GO Associados.
Instituto Trata Brasil - ITB