Pesquisar no Blog

sábado, 23 de maio de 2026

Mães que lideram: cresce a procura por mentorias que ajudam mulheres a vencerem a exaustão e o sentimento de culpa no comando de equipes

 

Entenda como o autoconhecimento e a neurociência auxiliam mães gestoras a construírem uma autoridade baseada na eficiência, sem abrir mão da saúde emocional.

 

Um levantamento realizado pela Kiddle Pass em parceria com a B2Mamy aponta que 90% das mães no Brasil apresentam sintomas de burnout materno  e quando esse recorte inclui mulheres em posição de liderança, o peso se multiplica. Reuniões, metas, demissões, conflitos de equipe e, ao mesmo tempo, a escola, a culpa da ausência e a pergunta silenciosa que não sai da cabeça: estou falhando em algum lugar? É nesse ponto de pressão que a demanda por mentorias voltadas à gestoras-mães disparou nos últimos anos, revelando um mercado que até pouco tempo ignorava essa intersecção entre maternidade e poder.  

"A maioria das mulheres que chegam até a gente não tem problema de competência. Elas já lideram bem. O que as paralisa é uma narrativa interna que diz que elas precisam provar o tempo todo que merecem estar ali, e que a qualquer hora tudo vai desabar", afirma Camila Macedo Dias, CEO da Sinapse Educação Corporativa. A empresa, especializada em desenvolvimento humano com base em neurociência aplicada, tem registrado aumento expressivo na busca por programas voltados a mulheres que acumulam a gestão de equipes e a criação de filhos, perfil que, segundo a executiva, chegava antes de forma isolada e hoje representa uma demanda estruturada dentro das organizações. 

A neurociência entra nesse processo como ferramenta de desconstrução. Compreender como o cérebro responde ao estresse crônico, ao julgamento social e à sobrecarga de papéis ajuda essas profissionais a saírem do ciclo de reatividade e agirem com mais intencionalidade. "Quando a líder entende o que está acontecendo com ela biologicamente, ela para de se julgar por estar exausta. E aí abre espaço para construir estratégias reais, não apenas empurrar o problema para debaixo do tapete", explica. 

Um dos padrões mais recorrentes observados nas mentorias é o que os profissionais do campo chamam de síndrome do perfeccionismo compensatório, a gestora que trabalha mais para justificar os momentos em que está com os filhos, e fica com os filhos sentindo que deveria estar trabalhando. O resultado é uma exaustão que não vem do excesso de tarefas, mas do excesso de julgamento de si mesma. "Ninguém aguenta liderar a longo prazo operando no modo culpa. A culpa consome energia cognitiva que deveria estar sendo usada em decisão, criatividade, presença. É um vazamento silencioso de performance", diz a CEO. 

A construção de autoridade sem rigidez é outro eixo central nesses processos. Mulheres com filhos costumam enfrentar uma armadilha dupla no ambiente corporativo: se forem firmes demais, são chamadas de frias; se demonstrarem afeto, têm a liderança questionada. A saída, segundo a abordagem desenvolvida pela Sinapse, passa pelo autoconhecimento, saber quais são os valores que sustentam as decisões e ter clareza suficiente para comunicá-los sem pedir desculpas. "Autoridade de verdade não é volume de voz. É consistência. E consistência se constrói quando a pessoa sabe quem ela é fora do cargo", define. 

O movimento que se desenha no mercado aponta para uma mudança de mentalidade nas próprias empresas. Organizações que antes tratavam a maternidade como uma questão privada e, muitas vezes, como um risco ao plano de carreira, começam a perceber que ignorar esse tema tem custo: turnover, afastamentos por burnout e perda de talentos em posições estratégicas. Investir no desenvolvimento de líderes que também são mães deixou de ser pauta de diversidade para se tornar inteligência de negócio.

 



Fonte: Camila Macedo Dias - CEO Sinapse Educação Corporativa

24/5, Dia do Vestibulando: educadores dão dicas para estudantes se darem bem em provas e no Enem

Planejamento estratégico, foco nos objetivos, equilíbrio emocional e rotina saudável são diferenciais para conquistar uma vaga no ensino superior  

 

Em 24 de maio é celebrado o Dia Nacional do Vestibulando, data que chama atenção para os desafios enfrentados por milhões de estudantes brasileiros na busca por uma vaga no ensino superior. Entre dúvidas sobre carreira, pressão por resultados, rotina intensa de estudos e ansiedade diante das provas, esse período costuma ser um dos mais decisivos da vida acadêmica dos jovens.

Para especialistas em educação, a aprovação não depende apenas de conhecimento técnico. Organização, disciplina, estratégia e saúde mental são pilares fundamentais para que o estudante mantenha um bom desempenho ao longo do ano e chegue confiante à reta final – a temporada de provas costuma ocorrer entre outubro e dezembro. Para a tão sonhada aprovação, educadores destacam que o vestibulando precisa enxergar a preparação como um projeto de médio e longo prazo, conciliando estudos, descanso e clareza de objetivos.
 

Uma escolha difícil 

Escolher qual curso seguir e qual universidade tentar é uma das primeiras grandes angústias de quem está se preparando para o vestibular. Em meio a expectativas pessoais, pressão familiar e comparações com colegas, muitos estudantes enfrentam insegurança e medo de errar. 

Henrique Barreto Andrade Dias, coordenador pedagógico do currículo brasileiro do Brazilian International School – BIS, de São Paulo (SP), destaca que a escolha profissional não deve ser baseada apenas em status ou retorno financeiro. “É importante que o estudante reflita sobre suas habilidades, interesses, valores e projetos de vida. A escolha da carreira não precisa ser definitiva, mas deve ser consciente. Nesse contexto, escola e família devem acolher, orientar e ajudar esse jovem a enxergar possibilidades, e não aumentar a pressão”, afirma. 

Na opinião de Dias, o acolhimento da escola e da família faz muita diferença. O diálogo aberto, a escuta ativa e o apoio emocional ajudam o jovem a amadurecer sua decisão com mais segurança. Além disso, iniciativas como orientação vocacional, feiras de profissões e conversas com profissionais de diferentes áreas podem ampliar horizontes e reduzir a ansiedade. 

“Muitos alunos acreditam que precisam ter todas as respostas imediatamente, e isso gera angústia. O autoconhecimento é uma ferramenta importante nessa fase. Pesquisar cursos, conversar com universitários e entender o mercado de trabalho ajuda a tornar a decisão mais racional”, acrescenta.
 

Importância do Enem 

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) é hoje a principal porta de entrada para o ensino superior no Brasil. A nota pode ser usada para ingresso em universidades públicas pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu), em instituições privadas com bolsas pelo Programa Universidade para Todos (ProUni), além de permitir o acesso a financiamentos estudantis pelo Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). Diversas universidades no exterior também aceitam o exame como critério de seleção. 

Por ser uma prova extensa e interdisciplinar, a preparação para o Enem exige constância e familiaridade com o estilo das questões, que valorizam interpretação de texto, contextualização e raciocínio aplicado. 

Fernanda Silveira, coordenadora pedagógica do Ensino Médio do colégio Progresso Bilíngue, de Campinas (SP), orienta os estudantes a estruturarem uma rotina. “O Enem é uma maratona intelectual de dois dias. Não basta estudar muito, é preciso estudar com estratégia. Criar um cronograma realista, revisar conteúdos periodicamente e fazer simulados ajuda o aluno a ganhar ritmo e confiança”, afirma. 

Para muitos estudantes, o desafio de se preparar para o Enem acontece ao mesmo tempo em que precisam acompanhar a rotina intensa do terceiro ano do Ensino Médio, período em que há provas escolares, trabalhos, revisões e fechamento de conteúdo. Segundo a docente do Progresso, o ‘terceirão’ funciona como um período de consolidação da aprendizagem, e a melhor estratégia é enxergar as aulas da escola como aliadas na preparação, já que grande parte do conteúdo cobrado no exame é revisado ou aprofundado nessa etapa. 

“O aluno pode aproveitar as explicações em sala para consolidar a base teórica e usar o contraturno para reforçar pontos de dificuldade, fazer exercícios no estilo Enem, revisar conteúdos e treinar a redação. Quando o estudante presta atenção às aulas, participa ativamente e organiza uma rotina complementar de estudos em casa, ele otimiza tempo e evita sobrecarga”, orienta Fernanda.
 

Entre as principais dicas para a preparação, a educadora destaca: 

- Criar um cronograma dividido por áreas do conhecimento;

- Resolver provas anteriores e simulados completos;

- Revisar os conteúdos de maior incidência na prova, as disciplinas e matérias que costumam aparecer com mais frequência no exame;

- Investir em leitura diversificada, como jornais, revistas, site de notícias e literatura, para melhorar interpretação e repertório de atualidades;

- Treinar redação semanalmente, corrigindo os textos e buscando aprimorar argumentos textuais.
 

Foco no Vestibular 

Embora o Enem seja a prova mais popular do país, instituições de ensino prestigiadas como a Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Estadual Paulista (Unesp) e Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) possuem vestibulares próprios, com formatos e exigências específicas. Por isso, candidatos que têm essas instituições como meta precisam de uma preparação direcionada. 

A Fuvest, vestibular da USP, é conhecida pelo alto nível de exigência em interpretação, repertório literário e domínio das obras obrigatórias, além de contar com uma segunda fase discursiva e, mais recentemente, com propostas de redação em diferentes gêneros textuais. 

A Unicamp se destaca pelo caráter interdisciplinar das questões, que exigem leitura crítica, argumentação e capacidade de relacionar diferentes áreas do conhecimento - por exemplo, é comum que uma questão de Biologia dialogue com História ou Sociologia - além de oferecer duas propostas de redação para escolha do candidato. 

Já a Unesp, organizada pela Vunesp, valoriza a interpretação de textos, gráficos e imagens, com foco na análise e aplicação prática dos conteúdos. O ITA, por sua vez, é um dos vestibulares mais difíceis do país e exige profundidade técnica, raciocínio lógico e domínio avançado de Matemática, Física e Química, especialmente em suas provas discursivas. 

“Cada banca tem um perfil. Entender o formato da prova, o peso das disciplinas e o estilo das questões permite estudar de forma mais inteligente e assertiva”, afirma o coordenador pedagógico da Escola Internacional de Alphaville - EIA, de Barueri (SP), Peter Rifaat. “Mais do que decorar conteúdos, o vestibulando que entende o perfil das provas e organiza sua rotina de forma inteligente transforma estudo em resultado, e ansiedade em confiança”. 

Para quem pretende conciliar o Enem com vestibulares específicos, ele recomenda trabalhar com a estratégia do “raio-X” das provas, identificando conteúdos em comum e tópicos exclusivos. “Grande parte dos exames compartilha uma base comum de competências, especialmente interpretação de texto e argumentação. O aluno pode fortalecer essa base e reservar momentos específicos da semana para estudar as particularidades de cada vestibular,” orienta. Para os vestibulandos que tem uma universidade específica como foco, Peter orienta a “dissecar” os editais, e elenca algumas dicas práticas: 

- Priorizar o estudo de conteúdos transversais, comuns a diferentes exames;

- Reservar dias de estudo específicos para disciplinas ou bancas;

- Alternar a realização de simulados do Enem com provas anteriores das universidades-alvo;

- Treinar redações em diferentes formatos;

- Fazer revisões frequentes com base nos erros.
 

Cuide da saúde física e mental
  
Em meio à pressão por aprovação, muitos vestibulandos acabam negligenciando aspectos essenciais da rotina, como sono, alimentação, lazer e atividade física, fatores diretamente ligados ao desempenho cognitivo. Estudos na área de neurociência indicam que a privação de sono compromete a consolidação da memória e reduz a capacidade de concentração, enquanto níveis elevados de estresse impactam negativamente funções executivas, como organização e tomada de decisão. 

“A ansiedade, inclusive, é uma queixa recorrente nesse período. Sintomas como insônia, irritabilidade, dificuldade de foco e esgotamento emocional são sinais claros de sobrecarga e podem prejudicar significativamente o rendimento nas provas”, diz Paulo Rogerio Rodrigues, coordenador pedagógico da Escola Bilíngue Aubrick, de São Paulo (SP). Em sua opinião, estudar mais horas não significa, necessariamente, estudar melhor. “O cérebro precisa de pausas para consolidar o aprendizado. Momentos de descompressão, atividade física, lazer e convívio social são fundamentais para reduzir o estresse e manter a clareza mental”, afirma. 

Nesse sentido, a construção de uma rotina equilibrada é um dos principais fatores de sucesso. Organizar o tempo de forma intencional, garantindo períodos de estudo com qualidade — foco, método e constância —, intercalados com momentos de descanso e ampliação de repertório cultural, contribui não apenas para a aprendizagem, mas também para o bem-estar emocional. 

“Mais do que uma corrida por aprovação, o vestibular é um processo de desenvolvimento de autonomia, disciplina e maturidade. Quando o estudante estrutura uma rotina sustentável, ele aumenta suas chances de sucesso sem comprometer a saúde”, acrescenta Rodrigues. 

O equilíbrio emocional também deve ser tratado como parte da estratégia. Emoções, quando não bem administradas, podem se tornar um obstáculo real para o desempenho, afetando memória, raciocínio e organização de ideias. Por outro lado, quando bem trabalhadas, tornam-se aliadas no processo. “Técnicas como respiração guiada, mindfulness, treinos cronometrados e uma rotina de sono adequada ajudam a manter o foco, a confiança e o controle durante a preparação e no momento da prova”.
 

Entre os cuidados recomendados por Rodrigues, estão: 

- Dormir bem e manter rotina de sono;

- Praticar atividade física regularmente;

- Fazer pausas estratégicas durante os estudos;

- Evitar comparações excessivas com outros candidatos;

- Manter alimentação equilibrada e hidratação;

- Reservar tempo para hobbies e descanso;

- Buscar ajuda psicológica se necessário.

  


Fernanda Silveira - pedagoga e psicopedagoga, com 10 anos de experiência na gestão pedagógica do Ensino Médio, com atuação voltada ao acompanhamento acadêmico dos estudantes e ao fortalecimento de suas trajetórias rumo ao vestibular e às suas escolhas para o futuro. Atua como coordenadora pedagógica do Ensino Médio das unidades do Progresso Bilíngue em Campinas (Cambuí e Taquaral).


Henrique Barreto Andrade Dias - licenciado em Geografia e Sociologia, possui especialização em projetos para o terceiro setor e pós-graduação em Psicologia Positiva, Neurociência, Mindfulness, Neuropsicopedagogia e Neurociência Aplicada à Aprendizagem. Atua na área da Educação há 18 anos e atualmente é coordenador pedagógico do currículo brasileiro do Brazilian International School.

Paulo Rogerio Rodrigues é psicólogo, licenciado em Letras (Português e Inglês) e coordenador pedagógico da Escola Bilíngue Aubrick. Possui ampla trajetória na Educação Básica, com atuação voltada à gestão pedagógica e educacional, da Educação Infantil aos anos finais do Ensino Fundamental II. É pós-graduado com MBA em Gestão Escolar e possui especializações em Educação Antirracista, Bilinguismo e Neuropsicologia, áreas que fundamentam sua prática na formação integral dos estudantes e no desenvolvimento de equipes educacionais.

Peter Rifaat - educador e líder escolar com mais de 20 anos de experiência em educação internacional e bilíngue, com estudos em Ciências Comportamentais, liderança e desenvolvimento humano. É formado em Pedagogia e possui certificações internacionais, incluindo DELTA e CELTA (Universidade de Cambridge), além de diversas certificações do International Baccalaureate (IB). Atua na Escola Internacional de Alphaville como Coordenador Pedagógico do Ensino Médio, Coordenador do Programa do Diploma IB, professor de IBDP Theory of Knowledge (TOK) e membro da equipe de Orientação Universitária e de Carreira (Future Pathways), com foco no desenvolvimento acadêmico, socioemocional e vocacional dos estudantes.


International Schools Partnership - ISP)
Para mais informações, acesse o site



Seu casamento caiu na rotina? Veja sinais de afastamento antes da crise

Freepik
Terapeuta familiar explica como celular, cansaço, falta de conversa e ausência de tempo de qualidade podem enfraquecer a relação 

 

Morar junto, dividir contas e dormir no mesmo quarto não significa, necessariamente, estar conectado. Em muitos casais, o afastamento começa de forma silenciosa, quando a rotina passa a ser ocupada por trabalho, filhos, telas, cansaço e conversas restritas aos problemas da casa. 

Os sinais desse desgaste aparecem também nas estatísticas. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil registrou 440.827 divórcios em 2023, alta de 4,9% em relação ao ano anterior. Quase metade dessas separações aconteceu antes de dez anos de casamento.

Para a terapeuta familiar Aline Cantarelli (@aline.cantarelli no Instagram), esse afastamento costuma surgir de forma silenciosa. O casal continua funcionando no aspecto prático, mas deixa de se encontrar emocionalmente. 

“Às vezes nem se falam. O casal passa o dia inteiro sem se falar, e depois reclama da libido lá na frente”, afirma Aline. Segundo ela, a vida no automático interfere na comunicação, na intimidade e na percepção de parceria dentro da relação. 

A especialista explica que muitos casais só procuram ajuda quando a crise já está instalada, geralmente diante da ameaça real de separação. Mas, na avaliação dela, o rompimento raramente aparece de repente. 

“‘Do nada’ não existe. Nenhum casamento entra em crise do nada”, diz. Para Aline, o que costuma acontecer é uma sequência de pequenos sinais ignorados ao longo do tempo.

 

A distância construída dentro de casa 

O tempo médio dos casamentos que terminam em divórcio caiu para 13,8 anos, segundo o IBGE: um retrato de vínculos que vêm se desgastando cada vez mais cedo.  

Um dos principais fatores de desgaste, segundo a terapeuta, é a falta de intencionalidade na vida a dois. O casal acorda correndo, trabalha o dia inteiro, resolve demandas da casa, cuida dos filhos, responde mensagens, se distrai com telas e chega ao fim do dia sem um momento real de presença. 

Esse padrão pode ser ainda mais comum entre pessoas que trabalham em horários diferentes, vivem sob pressão profissional ou mantêm uma rotina sem pausas de convivência. 

Aline cita casos de casais que, mesmo morando juntos, quase não se encontram por causa de plantões, jornadas extensas ou hábitos noturnos incompatíveis. “Eles não conseguem se encontrar. A dificuldade de um casal que dorme num horário diferente, acorda num horário diferente, é real”, explica. 

Para ela, o problema não está apenas na falta de tempo, mas na ausência de escolhas conscientes sobre como esse tempo será usado. 

 

Tela, cansaço e falta de presença 

O uso constante do celular também aparece como um fator importante de afastamento. O brasileiro passa em média mais de 9 horas diárias conectado a telas (celular, computador, TV), posicionando o país como o 2º no ranking mundial de uso, atrás apenas da África. E esse excesso de uso reflete diretamente na saúde dos relacionamentos. Aline observa que é cada vez mais comum ver casais e famílias fisicamente reunidos, mas emocionalmente dispersos, cada um preso à própria tela.  

Esse comportamento reduz as oportunidades de conversa, escuta e conexão. A pessoa está ao lado do parceiro, mas a atenção está em outro lugar. 

Para a terapeuta, esse é um dos grandes desafios das famílias atuais: aprender a lidar com a tecnologia sem perder a capacidade de presença. “A gente tem muita informação, mas não necessariamente muito conhecimento”, observa. 

Aline defende que a família moderna precisa reconstruir hábitos simples que antes faziam parte da convivência, como conversar ao chegar em casa, fazer uma refeição juntos ou reservar um momento do dia para olhar para o outro sem interrupções.

 

Os “15 minutos milagrosos”

Entre as estratégias que Aline costuma orientar está o que ela chama de “15 minutos milagrosos”. A proposta é que o casal reserve, todos os dias, um período curto, mas intencional, para ficar junto sem celular, trabalho ou distrações.

Não precisa ser uma grande conversa, nem um jantar elaborado. Pode ser um chá, alguns minutos antes de dormir, um momento no sofá ou uma pausa no fim do dia. O ponto principal é a atenção focada. 

“Eu só quero 15 minutos de concentração”, resume Aline. Segundo ela, esse tempo ajuda o casal a sair do modo automático e retomar a percepção de vínculo. 

A terapeuta reforça que a qualidade desse encontro importa mais do que a duração. Estar no mesmo ambiente enquanto um mexe no celular e o outro responde e-mails não produz o mesmo efeito. 

 

Sentar à mesa também é construir vínculo 

Outro hábito citado pela especialista é a refeição compartilhada. Para ela, sentar à mesa não diz respeito apenas à alimentação, mas à construção de contato dentro da casa. 

A refeição cria uma pausa concreta na rotina. É um momento em que o casal, ou a família inteira, pode conversar, fazer combinados, perceber como o outro está e recuperar uma dimensão básica da convivência. 

“Às vezes não dá para a família garantir todas as refeições. É muito difícil, de novo, no aspecto da vida moderna. Mas garantir pelo menos uma refeição faria muita diferença”, afirma. 

Para casais sem filhos, esse hábito também é importante. Aline lembra que a vida familiar começa antes da chegada das crianças, e que a construção de vínculos precisa ser cultivada desde a rotina do casal.

 

Intimidade começa antes do quarto 

A falta de presença também impacta a sexualidade. Segundo Aline, muitos casais tratam a intimidade como algo isolado do restante da relação, quando, na verdade, ela está ligada à comunicação, ao afeto, à gentileza e à forma como o casal se trata ao longo do dia. 

Para a especialista, a vida sexual não começa apenas no quarto. Ela é influenciada pelo modo como o casal se fala pela manhã, pela maneira como administra conflitos, pela disponibilidade emocional e pela sensação de cuidado construída na rotina. 

Quando não há conversa, afeto ou conexão, a intimidade pode passar a ser percebida como cobrança, obrigação ou distanciamento. “Sexualidade não é só o ato em si. Existe uma relação de afeto, comunicação e expressão”, explica.

 

Sinais de alerta 

A terapeuta orienta que alguns comportamentos podem indicar que o casal está se afastando: 

·         Passam o dia sem conversar de verdade;

·         Fazem refeições sempre separados ou diante de telas;

·         Dormem e acordam em horários totalmente desconectados;

·         Deixam de compartilhar preocupações e decisões;

·         Vivem irritados, cansados ou defensivos;

·         Não têm momentos de presença sem celular;

·         Tratam a intimidade como obrigação ou evitam qualquer aproximação;

·         Só conversam sobre problemas práticos da casa. 

Segundo ela, esses sinais não significam, necessariamente, que a relação acabou. Mas indicam que o casal precisa olhar com mais cuidado para a rotina que construiu.

 


Relação também exige escolha

 

Para Aline, uma relação saudável não se sustenta apenas pelo sentimento ou pela história em comum. Ela depende de hábitos, presença e escolhas repetidas.

“Não é a rotina. O problema são as escolhas que você fez e a rotina que você construiu”, afirma. 


A especialista defende que casais não esperem a crise se tornar insustentável para buscar ajuda. Pequenos ajustes, quando feitos com intenção, podem abrir espaço para mais diálogo, parceria e conexão 

 

Aline Cantarelli - terapeuta familiar com mais de uma década e meia de atuação, especializada em relacionamentos conjugais, comunicação afetiva e reconstrução de vínculos no ambiente familiar. É professora de pós-graduação em Saúde Mental, Ciências da Mente e Orientação Familiar. Também é palestrante e comunicadora com presença digital expressiva, onde compartilha reflexões e orientações sobre amor, rotina conjugal, maternidade, perdão e sexualidade com sensibilidade, profundidade e linguagem acessível. Ao longo da carreira, já acompanhou mais de 6 mil famílias, sempre com foco em acolhimento e construção de soluções reais para os desafios afetivos da vida moderna.


Semana Mundial do Brincar: em tempos de exposição às telas, brincadeira é essencial para o desenvolvimento infantil

Educadores explicam como o brincar estimula criatividade, autonomia,
linguagem e habilidades socioemocionais


Com o tema “A Potência dos Encontros”, a Semana Mundial do Brincar será realizada de 23 a 31 de maio, uma iniciativa global que mobiliza escolas, famílias, organizações sociais e espaços públicos em torno de atividades lúdicas e reflexões sobre a infância. Em um mundo cada vez mais acelerado, digital e repleto de estímulos, garantir tempo e espaço para que as crianças brinquem é essencial para o desenvolvimento do indivíduo. 

A semana é celebrada tradicionalmente no final do mês de maio, associada ao dia 28 de maio, data que marca o Dia Internacional do Brincar e é usada como marco para mobilizações em diversos países. A iniciativa foi criada em 1999 pela organização International Play Association (IPA), e é promovida no Brasil desde 2010 pela Aliança pela Infância. 

Mais do que uma forma de entretenimento, o brincar é reconhecido como um direito fundamental: está previsto no artigo 31 da Convenção sobre os Direitos da Criança, da Organização das Nações Unidas (ONU), que assegura à criança o direito ao descanso, ao lazer e às brincadeiras; e também no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) do Brasil, que garante o direito à liberdade, ao respeito e à convivência comunitária, incluindo o brincar como parte essencial do desenvolvimento saudável.
 

Por que brincar é importante? 

Mais do que entretenimento, brincar é uma ferramenta fundamental de aprendizagem. Segundo Jacqueline Cappellano, psicopedagoga e coordenadora da Educação Infantil da Escola Internacional de Alphaville – EIA, de Barueri (SP), é por meio das brincadeiras que a criança experimenta o mundo, desenvolve a imaginação, exercita a linguagem, aprende a lidar com regras, frustrações e desafios; além de fortalecer vínculos afetivos e competências socioemocionais como empatia, cooperação e resiliência. 

Segundo a educadora, o brincar promove engajamento ativo, e a atenção focada na brincadeira fixa o aprendizado na memória de longo prazo, permitindo que se crie um ambiente seguro para testar hipóteses e recalcular estratégias. “Ao brincar, a criança organiza o pensamento, cria hipóteses, testa soluções e desenvolve habilidades cognitivas importantes, como atenção, memória e raciocínio lógico. É uma forma natural e potente de aprender”, diz Jacqueline. 

Além disso, o brincar favorece a resolução de problemas, como, por exemplo, ao brincar com blocos ou criar regras; as tarefas dentro da brincadeira também exigem planejamento prático imediato, e os estímulos lúdicos aceleram a criação de novas conexões sinápticas. 

Cláudia Andreazza, coordenadora pedagógica do colégio Progresso Bilíngue, de Itu (SP), acrescenta que além dos impactos cognitivos, a brincadeira também é decisiva para a saúde emocional. Em jogos simbólicos, faz de conta ou brincadeiras coletivas, a criança expressa sentimentos, elabora experiências e aprende a conviver em grupo. É como se a brincadeira fosse a ‘linguagem da infância’. 

“É brincando que a criança comunica emoções, reproduz situações do cotidiano e encontra formas de compreender o mundo ao seu redor. Esse processo contribui diretamente para o desenvolvimento socioemocional”, afirma Cláudia.
 

Excesso de telas deve ser evitado 

Para Renata Alonso, coordenadora pedagógica da Escola Bilíngue Aubrick, de São Paulo (SP), em um cenário marcado pelo uso cada vez mais precoce e intenso de dispositivos eletrônicos, promover momentos de desconexão das telas é uma necessidade urgente para garantir o desenvolvimento saudável na infância. 

“Famílias e escolas já têm sentido, na prática, os impactos do excesso de exposição às telas no dia a dia das crianças. Entre os sinais mais percebidos estão a dificuldade de concentração, a irritabilidade, a menor tolerância à frustração, atrasos no desenvolvimento da linguagem, prejuízos na socialização e até mais resistência para participar de atividades que exigem interação, movimento ou criatividade”, afirma Renata. 

Segundo a educadora, embora a tecnologia possa ter seu espaço de forma equilibrada e mediada, o excesso de estímulos digitais pode limitar experiências fundamentais para a criança, como explorar o ambiente, interagir presencialmente e exercitar a criatividade. “Nesse contexto, resgatar o brincar livre é essencial. É a partir do faz de conta que a criança elabora sentimentos, expressa emoções e organiza sua compreensão sobre o mundo de forma simbólica e segura”, destaca a especialista.
 

Família e escolas devem estimular o brincar
 

Para Beatriz Martins, coordenadora pedagógica do Brazilian International School – BIS, de São Paulo (SP), garantir o direito de brincar passa pela participação ativa dos adultos e o compromisso das escolas em criar oportunidades reais para que a brincadeira faça parte da rotina infantil. 

“Em meio à correria do dia a dia e ao excesso de compromissos, as crianças têm pouco tempo para brincar livremente e menos momentos de conexão genuína com os adultos. Por isso, é fundamental que pais, responsáveis e educadores reconheçam o brincar como uma necessidade do desenvolvimento, e não como um passatempo ou atividade secundária”. 

É preciso separar um momento de qualidade para brincar com a criança, com presença e atenção reais. “Quando o adulto participa da brincadeira, ele estimula a linguagem, a criatividade, a segurança emocional e a socialização. Além disso, o ato de brincar com a criança fortalece vínculos afetivos, amplia a escuta e cria memórias importantes para a infância”, diz. 

Na escola, afirma a docente, o brincar deve ser valorizado como parte da proposta pedagógica, não apenas no recreio, mas como ferramenta de aprendizagem, descoberta e desenvolvimento socioemocional. “Quando família e escola caminham juntas nesse incentivo, contribuem para uma infância mais saudável, equilibrada e rica em experiências”, afirma Beatriz.
 


 



Beatriz Martins Perpetuo - educadora com mais de 30 anos de atuação na educação, sendo 18 deles em funções de liderança pedagógica, formando equipes, projetos e — principalmente — pessoas. Possui licenciatura plena pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduação pelo Instituto Singularidades. Atualmente atua como coordenadora pedagógica no Colégio BIS.

Claudia Andreazza - pedagoga, pós-graduada em docência da Língua Inglesa, com 16 anos de experiência em Educação, atuando dentro e fora da sala de aula. Atualmente é coordenadora bilíngue do Kindergarten e Elementary School no colégio Progresso Bilíngue Itu.

Jacqueline Cappellano - pedagoga, pós-graduada em Bilinguismo e Psicopedagogia coordenadora da Educação Infantil da Escola Internacional de Alphaville. É uma grande entusiasta da Educação Bilíngue e fascinada pelo universo da educação infantil. Enxerga no intercâmbio entre ideias e culturas, um caminho para a paz entre os povos.

Renata Alonso - formada em Pedagogia e pós-graduada em Psicomotricidade, com mais de 15 anos de experiência em educação bilíngue. Sua grande paixão são as crianças bem pequenas, e seus estudos são voltados à primeira infância, crianças de 0 a 3 anos. Com um olhar atento ao desenvolvimento integral dos pequenos, Renata acredita que essa fase da vida é crucial para a formação de indivíduos seguros, criativos e capazes de se expressar com confiança. Seu trabalho visa proporcionar um ambiente acolhedor e estimulante para o aprendizado, sempre com foco no cuidado e no afeto.

International Schools Partnership – ISP
Para mais informações, acesse o site.


Alfabetização infantil: cinco pequenas atitudes no dia a dia que podem acelerar o aprendizado das crianças

Magnific
Especialista da Ensina Mais Turma da Mônica reúne dicas práticas e lúdicas para estimular leitura, escrita e desenvolvimento infantil de forma mais leve e natural  

  

O processo de alfabetização infantil vai muito além de aprender letras e sílabas. Nos primeiros anos da infância, o contato com a leitura e a escrita também está diretamente ligado ao desenvolvimento da criatividade, da comunicação, da autonomia e da confiança. Em um cenário em que muitas famílias buscam formas de estimular o aprendizado de maneira leve e eficiente dentro e fora da sala de aula, pequenas estratégias no dia a dia podem fazer diferença no desenvolvimento dos pequenos. 

Segundo dados do Indicador Criança Alfabetizada, divulgados pelo Ministério da Educação (MEC), 56% das crianças brasileiras estavam alfabetizadas ao final do 2º ano do ensino fundamental em 2024. O índice reforça a importância do acompanhamento familiar e de estímulos contínuos fora do ambiente escolar para fortalecer o processo de aprendizagem e o desenvolvimento infantil. Pensando nisso, José Junior, diretor nacional da Ensina Mais Turma da Mônica, rede de apoio ao ensino escolar regular, reuniu cinco orientações práticas para auxiliar pais e responsáveis de aprendizado das crianças.

 

Transforme a leitura em um momento prazeroso 

Criar o hábito da leitura desde cedo ajuda a despertar o interesse pelas palavras e pela construção de frases. Ler histórias em voz alta, explorar livros ilustrados e incentivar a criança a contar o que entendeu da narrativa fortalece o vocabulário, a imaginação e a associação entre sons e letras.

 

Inclua letras e palavras na rotina da criança 

O aprendizado pode ocorrer em diferentes momentos do dia. Identificar placas na rua, nomes de produtos no supermercado, embalagens, músicas e até receitas ajuda a aproximar a alfabetização do cotidiano, tornando o processo mais natural e menos mecânico.

 

Use brincadeiras como ferramenta de aprendizado 

Jogos de memória com letras, caça-palavras, massinha para formar sílabas, músicas e atividades de desenho são exemplos de estímulos que ajudam no reconhecimento das palavras e no desenvolvimento da coordenação motora, passo importante para a escrita.

 

Evite comparações e respeite o tempo da criança 

Cada criança possui um ritmo próprio de aprendizagem. Comparações podem gerar insegurança e desmotivação. O ideal é acompanhar a evolução individual, valorizando pequenas conquistas e criando um ambiente acolhedor para o desenvolvimento.

 

Mantenha uma rotina equilibrada de estímulos 

A alfabetização é mais eficiente quando a criança possui uma rotina organizada, com momentos de descanso, brincadeiras, atividades físicas e contato com diferentes estímulos educativos. O excesso de cobranças pode gerar efeito contrário e dificultar o aprendizado. 

“Quando a alfabetização é estimulada de forma leve, lúdica e conectada ao cotidiano da criança, o aprendizado ocorre de maneira mais natural e consistente. Pequenos hábitos dentro de casa, como incentivar a leitura, explorar palavras no dia a dia e transformar o aprender em algo prazeroso, contribuem tanto para o desenvolvimento da escrita e da leitura, quanto para a autonomia, criatividade e confiança dos pequenos”, finaliza José Junior.

 

Ensina Mais Turma da Mônica


“Farmar aura”, “six seven” e o novo idioma da Geração Alpha: por que pais estão perdendo a comunicação com os filhos?

Especialistas alertam que redes sociais estão criando códigos próprios de comportamento, linguagem e pertencimento, e ampliando a distância emocional entre gerações

 

“Farmar aura”, “six seven”, “cringe”, “delulu”, “flopar”, “NPC”. Para muitos pais, essas expressões parecem apenas mais uma leva de gírias da internet mas, para especialistas em comportamento, elas representam algo maior: a criação de um novo código social entre jovens, moldado pelas redes sociais, pela hiperconectividade e pela necessidade constante de pertencimento digital.

Mais do que mudar a linguagem, a internet vem alterando a forma como adolescentes e jovens constroem identidade, validam emoções e se relacionam com o mundo. O problema é que boa parte dos adultos já não consegue acompanhar essa dinâmica e isso tem ampliado a sensação de distanciamento dentro de casa.

“O que estamos vendo não é apenas uma mudança de vocabulário. Existe uma reorganização completa da forma como os jovens se expressam, criam vínculos e constroem pertencimento. As redes sociais aceleraram isso de forma muito intensa”, explica Ticiana Paiva, doutora em psicologia e head de psicologia da Starbem.

Segundo a especialista, muitas dessas expressões funcionam como códigos de grupo. Entender as referências virou uma espécie de passaporte social para participar de determinadas comunidades digitais. “O jovem passa a se comunicar através de referências rápidas, memes, trends e códigos que fazem sentido dentro daquele ambiente online. Quando os pais não compreendem esse universo, surge uma sensação de desconexão dos dois lados”, afirma.

Nas redes sociais, não basta apenas existir, é preciso performar. Expressões como “farmar aura”, por exemplo, fazem referência à tentativa de construir uma imagem admirável, misteriosa ou socialmente valorizada na internet. Já termos como “six seven”, popularizados recentemente entre adolescentes, refletem códigos internos de comportamento e pertencimento digital.

Para Ticiana, essa lógica cria uma pressão emocional silenciosa: “Muitos jovens vivem hoje em estado constante de auto observação. Eles começam a pensar não apenas em quem são, mas em como estão sendo percebidos o tempo inteiro. Isso gera ansiedade, comparação e uma necessidade contínua de validação”, explica.

A especialista destaca que a adolescência sempre foi uma fase marcada pela busca de identidade, mas a internet amplificou esse processo em uma escala sem precedentes. “Antes, o julgamento social ficava restrito à escola, aos amigos próximos ou à convivência física. Hoje, existe uma audiência permanente. O jovem sente que está sendo observado o tempo inteiro, mesmo quando está sozinho”, afirma.

O impacto não está apenas na linguagem. Muitos pais relatam dificuldade crescente em conversar com os filhos, entender referências culturais ou perceber sinais emocionais importantes.

“O problema não é o jovem usar gírias. O problema é quando pais e filhos deixam de compartilhar repertório emocional. Em muitos casos, os adultos não conseguem mais interpretar comportamentos, ironias, memes ou até pedidos de ajuda que acontecem dentro da linguagem digital”, diz Ticiana.

A especialista explica que parte da comunicação da nova geração acontece de forma indireta, através de vídeos, trends, reposts e conteúdos aparentemente banais.

“Muitas vezes, o adolescente fala sobre tristeza, insegurança ou exaustão através do humor e da ironia. Se os pais não conhecem minimamente esse universo, acabam perdendo sinais importantes de sofrimento emocional”, alerta.

A hiperconectividade também reduziu espaços tradicionais de convivência familiar. Refeições silenciosas, excesso de telas e rotinas aceleradas diminuíram conversas profundas dentro de casa.

“Hoje, muitas famílias convivem fisicamente, mas emocionalmente estão desconectadas. Cada pessoa está no próprio universo digital, consumindo linguagens e estímulos completamente diferentes”, afirma.

A necessidade de pertencimento nunca foi tão alta, por trás das trends e gírias, especialistas apontam um fator central: pertencimento. Segundo Ticiana, a internet se tornou um espaço onde jovens buscam reconhecimento, pertencimento, validação e identidade.

“O medo de exclusão sempre existiu, mas as redes potencializaram isso. O jovem sente necessidade de acompanhar tendências, entender referências e participar de determinados códigos para não se sentir invisível socialmente”, explica.

O problema é que essa dinâmica também aumenta ansiedade e sensação de inadequação. “A lógica digital cria uma percepção de que todos estão vivendo melhor, performando mais ou sendo mais interessantes. Isso alimenta comparação constante e desgaste emocional”, diz.

Para a especialista, o caminho não está em demonizar a internet ou proibir redes sociais, mas em reconstruir espaços de diálogo. “Os pais não precisam falar igual aos filhos nem dominar todas as trends, mas precisam demonstrar curiosidade genuína pelo universo deles”, afirma Ticiana.

Entre as principais recomendações estão:

  • Evitar ridicularizar gírias, referências ou interesses dos jovens;
  • Criar momentos de conversa sem telas;
  • Perguntar sobre conteúdos, trends e influenciadores que os filhos acompanham;
  • Observar mudanças abruptas de comportamento e aparência;
  • Construir escuta sem julgamento imediato.

“O que mais afasta adolescentes hoje não é a diferença de idade, é a sensação de não serem compreendidos. Quando existe abertura real para conversa, a linguagem deixa de ser uma barreira e passa a ser uma ponte”, conclui Ticiana Paiva.


Posts mais acessados