Um diagnóstico de
câncer vem acompanhado de inúmeras dúvidas e emoções, dando início a uma
jornada complexa de etapas de tratamento, mudanças na rotina e escolhas
importantes a serem feitas. Em meio a esse cenário desafiador, uma dimensão
importante do cuidado ainda costuma receber atenção insuficiente: a preservação
da fertilidade.
O tema,
entretanto, ainda é pouco conhecido pela população. Uma pesquisa do IPEC1
indica que 86% das mulheres desconhecem os métodos de preservação da
fertilidade durante o tratamento oncológico, o que alerta para a necessidade de
que profissionais de saúde da oncologia sejam preparados para abordar a
oncofertilidade com pacientes.
Isso porque essa
discussão deve acontecer logo nos primeiros dias após o diagnóstico, já que
terapias como quimioterapia, radioterapia e algumas cirurgias podem comprometer
de forma relevante o potencial reprodutivo de mulheres e homens2-3.
Para se ter uma ideia, uma mulher que realiza um ciclo quimioterápico por 12 a
16 semanas pode diminuir o potencial reprodutivo em até 10 anos. Isso significa
que essa mesma paciente, aos 30 anos, terá o equivalente a uma
idade ovariana de 40 anos ao término do tratamento4.
É importante lembrar que as chances de uma mulher engravidar naturalmente aos
30 anos são de 20% por ciclo menstrual; aos 40 anos, elas ficam menores - 5%5.
No caso dos homens, a espermatogênese (produção de espermatozoides) é a
grande prejudicada3.
Com o avanço da
conscientização sobre o câncer, do aumento de diagnósticos precoces e da
eficácia dos tratamentos, cresce também o número de sobreviventes que passam a
olhar para a vida após o câncer com mais perspectiva de longo prazo. No caso do
câncer de mama, por exemplo, as taxas de sobrevida em cinco anos, gerando uma
população crescente de sobreviventes de diversas faixas etárias4.
Esses resultados
promissores abrem espaço para que os pacientes olhem para o futuro com
otimismo, incluindo o planejamento familiar. Estima-se, por exemplo, que entre 40% e 50%
das mulheres que tiveram câncer mamário manifestam o desejo de vivenciar a
maternidade após superarem a doença4.
Foi a vontade de
Evelin Scarelli, fisioterapeuta e vice-presidente do Instituto Oncoguia.
Diagnosticada aos 23 anos com câncer de mama, Evelin deu à luz Bento em 2021,
pós-cura do câncer, por meio da técnica de Fertilização In Vitro (FIV).
"Receber o
diagnóstico de câncer é um momento de extrema vulnerabilidade. No meu caso, não
pude realizar o congelamento de óvulos na época do meu diagnóstico. Mas a
ciência permitiu que eu fizesse a FIV anos depois. Com isso, pude adentrar no
mundo da maternidade com todos os seus desafios, em particular os desafios de
uma mulher mastectomizada e o aleitamento. Mas isso não foi um problema para
nossa família. Por isso, se você, paciente oncológico deseja uma família, não
encare a doença como uma sentença. É possível continuar sonhando. Converse com
o(a) seu(sua) médico(a)", diz Evelin.
O planejamento
reprodutivo de pacientes oncológicos inicia-se com as estratégias de
preservação da fertilidade, que variam de acordo com o sexo biológico do
paciente. As opções incluem:
- o
congelamento de óvulos (oócitos), de embriões ou de tecido ovariano3;
- transposição
ovariana e cirurgias ginecológicas conservadoras3;
- congelamento
de espermatozoides (coletados via ejaculação) ou a Extração de
Espermatozoides Testiculares (TESE), que consiste na coleta cirúrgica para
pacientes que não conseguem fornecer a amostra espontaneamente3.
Após a fase de
preservação (ou mesmo de forma independente, dependendo do histórico clínico do
paciente), utilizam-se os tratamentos de reprodução assistida para viabilizar a
gestação, como a FIV e a Inseminação Intrauterina (IIU / IUI).
“Quando trazemos a
orientação sobre oncopreservação logo nos primeiros momentos do diagnóstico,
criamos uma janela de oportunidade para que o paciente possa considerar a
preservação do potencial reprodutivo antes do início do tratamento, e o tempo é
essencial para essa tomada de decisão. Além do benefício clínico, essa conversa
oferece um respiro emocional importante: a jornada deixa de ser focada apenas
na doença e passa a incluir também perspectivas de futuro, continuidade de
planos e realização de sonhos” complementa o oncoginecologista pélvico e
mastologista Dr. José Carlos Sadalla (CRM: CRM 97419-SP | RQE Ginecologia e
Obstetrícia: 42473 | RQE Mastologia: 63088).
Dr. José Carlos Sadalla (Oncoginecologista pélvico e mastologista) - Pode detalhar os impactos dos tratamentos no sistema reprodutivo e explicar como a orientação precoce traz um "respiro emocional" à paciente, transferindo o foco exclusivo da doença para uma perspectiva real de futuro.
Evelin Scarelli (VP do Instituto Oncoguia e paciente) - Diagnosticada com câncer de mama aos 23 anos, ela viveu os desafios de planejamento na pele. Anos após a cura, engravidou via Fertilização In Vitro (FIV) e hoje é mãe do Bento, trazendo o relato vivo de que a doença não precisa ser uma sentença sobre a formação de uma família.
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Referências
- IPEC.
Infertilidade e Ferramentas de Preservação da Fertilidade. 2024. Pesquisa
realizada entre 26 de agosto e 4 de setembro de 2024. Amostra: 550
entrevistas com mulheres internautas brasileiras de 25 a 45 anos,
pertencentes às classes ABC, distribuídas nas 5 regiões do Brasil. A
margem de erro máxima estimada é de 4 pontos percentuais para mais ou para
menos sobre os resultados encontrados no total da amostra.
- Di
Tucci C, Galati G, Mattei G, Chinè A, Fracassi A, Muzii L. Fertility after
Cancer: Risks and Successes. Cancers. 2022; 14(10):2500. https://doi.org/10.3390/cancers14102500
.
- Su
HI, Lacchetti C, Letourneau J, et al. Fertility Preservation in People
With Cancer: ASCO Guideline Update. J Clin Oncol. 2025. DOI: Link
- Zylbersztejn
DS, Chuery ACS. Preservação da fertilidade em pacientes com câncer de
mama. Femina. 2021;49(10):611-3
- American
Society for Reproductive Medicine. Age and Fertility – A guide for
patients [Internet]. Birmingham (AL): ASRM; 2012. Disponível em: https://www.reproductivefacts.org/globalassets/_rf/news-and-publications/bookletsfact-sheets/english-pdf/Age_and_Fertility.pdf







