Para o advogado especialista em Direito Penal Juarez Da Silva, a internet não é uma "terra sem lei" e publicações ofensivas, falsas ou criminosas podem gerar responsabilização civil e penal, mesmo quando são apagadas.
As redes sociais transformaram a forma
como as pessoas se comunicam, debatem temas de interesse público e manifestam
opiniões. No entanto, o aumento da polarização, das discussões acaloradas e a
proximidade do período eleitoral também têm ampliado o número de investigações
e ações judiciais envolvendo publicações feitas no ambiente digital. Embora a
liberdade de expressão seja um direito garantido pela Constituição Federal, ela
não é absoluta e encontra limites quando viola direitos de terceiros ou configura
condutas previstas na legislação penal.
Segundo o advogado especialista em
Direito Penal Juarez Da Silva, um dos maiores equívocos cometidos pelos
usuários é acreditar que o ambiente virtual oferece anonimato ou imunidade
jurídica.
"Muitas pessoas ainda tratam a
internet como se fosse uma terra sem lei, onde qualquer comentário pode ser
feito sem consequências. Isso não corresponde à realidade. A legislação que
protege a honra, a imagem, a integridade física e psicológica das pessoas
também se aplica ao ambiente digital. A diferença é que hoje uma publicação
pode alcançar milhares de pessoas em poucos minutos, aumentando
significativamente o potencial de dano e, consequentemente, a responsabilidade
de quem a produz ou divulga."
Opinião é diferente de ofensa
A legislação brasileira assegura o direito de criticar
autoridades, empresas, instituições e pessoas. Entretanto, quando uma
manifestação deixa de discutir ideias para atacar a honra de alguém, pode
configurar crime. Entre os delitos mais comuns estão a injúria, quando
há ofensa à dignidade ou ao decoro da vítima; a difamação, que consiste
em atribuir a alguém um fato ofensivo à sua reputação; e a calúnia,
caracterizada pela falsa imputação de um crime.
"Discordar
faz parte da democracia. O cidadão pode criticar decisões políticas, opiniões,
comportamentos e atos públicos. O limite é ultrapassado quando a manifestação
passa a ofender gratuitamente, inventar fatos, atribuir crimes sem provas ou
atacar a dignidade da pessoa. Liberdade de expressão não pode ser confundida
com autorização para cometer crimes contra a honra.", destaca.
Apagar a publicação não elimina as consequências
Uma das dúvidas mais frequentes entre
usuários das redes sociais é se excluir uma publicação impede eventual
responsabilização. Na prática, especialistas alertam que apagar um conteúdo
pode interromper sua circulação, mas não apaga os efeitos jurídicos da conduta,
principalmente quando a postagem já foi visualizada, compartilhada ou registrada
por outras pessoas.
Os chamados prints de tela
também podem ter papel importante na apuração dos fatos. Quando acompanhados de
outros elementos que comprovem autoria, data e contexto da publicação, eles
podem reforçar o conjunto de provas em processos judiciais, podendo ainda ser
complementados por atas notariais, perícias técnicas e informações fornecidas
pelas próprias plataformas digitais.
"Excluir uma
publicação não significa apagar as consequências que ela produziu. Se o
conteúdo foi visualizado, compartilhado ou registrado por terceiros, ele poderá
ser utilizado como prova em uma investigação ou processo judicial. Além disso,
plataformas digitais mantêm registros que podem ser requisitados pelas
autoridades, dependendo do caso. A ideia de que basta apagar uma postagem para
evitar responsabilização é um dos equívocos mais comuns entre os usuários das
redes sociais.", explica Juarez da Silva.
Compartilhar também pode gerar responsabilização
Outro comportamento comum nas redes
sociais é compartilhar conteúdos sem verificar sua origem ou veracidade.
Dependendo da situação, essa conduta também pode gerar consequências jurídicas.
Além dos crimes contra a honra, determinadas postagens podem configurar ameaça,
perseguição (stalking), incitação ao crime, apologia ao crime, divulgação
indevida de dados pessoais ou outras infrações previstas na legislação.
"Muita gente acredita que apenas
quem cria um conteúdo ofensivo ou falso pode ser responsabilizado, mas isso não
é verdade. Quem compartilha uma publicação sabendo que ela contém informações
falsas, ofensas ou conteúdo criminoso também pode responder por sua
participação na divulgação. O ambiente digital não está fora do alcance da lei,
e condutas como ameaças, perseguição virtual, exposição de dados pessoais e
incitação ao crime têm sido cada vez mais objeto de investigações e
responsabilização criminal. Antes de compartilhar qualquer conteúdo, é
essencial verificar sua origem e pensar nas consequências desse ato.",
conclui Juarez Da Silva.
Serviço
5 atitudes que podem evitar problemas nas redes sociais
- Verifique a
veracidade das informações antes de compartilhar qualquer conteúdo;
- Evite ataques pessoais, ofensas e acusações
sem provas;
- Não divulgue dados pessoais, imagens ou
informações privadas de terceiros sem autorização;
- Desconfie de conteúdos manipulados, montagens,
vídeos alterados ou produzidos por inteligência artificial;
- Lembre-se de que tudo o que é publicado na
internet pode ser registrado, compartilhado e utilizado como prova em
eventual investigação ou processo judicial.




