No mês
de conscientização sobre a diálise, especialista explica por que o tratamento é
essencial para milhares de brasileiros com doença renal crônica e em quais
casos o transplante pode representar uma nova chance de autonomia, qualidade de
vida e futuro fora da máquina
A diálise é um dos tratamentos mais importantes da medicina
moderna. Para pacientes com doença renal crônica avançada, ela assume uma
função vital: substituir parte do trabalho que os rins já não conseguem
realizar, filtrando toxinas, retirando excesso de líquido do organismo e
ajudando a manter o equilíbrio do corpo.
Mas, apesar de salvar vidas todos os dias, a diálise também
impõe uma rotina intensa. Sessões frequentes, deslocamentos, restrições
alimentares, controle rigoroso de líquidos, impacto no trabalho, no sono, na
vida social e na saúde emocional. Para muitos pacientes, ela não é apenas um
tratamento. É uma reorganização completa da vida.
Com a chegada do mês de conscientização sobre a diálise, a
discussão precisa ir além da importância do acesso ao tratamento. É hora de
falar também sobre o caminho depois dele: quando o transplante renal pode ser
indicado, quem pode se beneficiar, quais são os principais medos dos pacientes
e de suas famílias e como a evolução da cirurgia vem transformando esse
cenário.
Segundo o urologista e professor da Faculdade de Medicina da
Universidade de São Paulo (USP) Dr. Alexandre Sallum Bull, a diálise deve ser
compreendida como um tratamento indispensável, mas não necessariamente como
destino definitivo para todos os pacientes.
“A diálise é uma ponte de vida para milhares de pessoas. Ela
mantém o paciente vivo e clinicamente acompanhado. Mas, quando há indicação e
condições adequadas, o transplante renal pode oferecer uma melhora importante
de qualidade de vida, autonomia e sobrevida”, explica o especialista.
Por que a diálise é
tão importante
Quando os rins deixam de funcionar adequadamente, o
organismo passa a acumular substâncias tóxicas e excesso de líquido. Isso pode
causar cansaço intenso, inchaço, falta de ar, alterações de pressão, anemia,
perda de apetite, náuseas e risco de complicações graves.
A diálise entra justamente para substituir parte dessa
função renal. Existem diferentes modalidades, como a hemodiálise, geralmente
realizada em clínicas especializadas algumas vezes por semana, e a diálise
peritoneal, que pode ser feita em casa em pacientes selecionados.
O objetivo é manter o organismo em equilíbrio e permitir que
o paciente continue vivendo enquanto aguarda a recuperação de alguma função
renal, quando isso é possível, ou enquanto é avaliado para outras alternativas,
como o transplante.
O problema é que muita gente ainda enxerga a diálise como um
ponto final. E essa visão pode limitar o acesso à informação.
O transplante renal
não substitui a importância da diálise, ele amplia as possibilidades
O transplante renal é considerado, para muitos pacientes com
doença renal crônica terminal, a melhor opção terapêutica quando há indicação
clínica. Ele não é possível para todos, nem deve ser tratado como uma solução
simples. Mas, em pacientes bem avaliados, pode oferecer benefícios importantes.
Diferente da diálise, que substitui parcialmente a função
dos rins, o transplante oferece ao paciente um novo rim funcional. Isso pode
reduzir a dependência de sessões frequentes, melhorar disposição, ampliar
liberdade alimentar e favorecer uma rotina mais próxima da vida habitual.
“Transplante não é apenas trocar um rim. É devolver função
renal, reduzir limitações impostas pela doença e permitir que o paciente
recupere projetos que muitas vezes ficaram suspensos pela rotina da diálise”,
afirma Dr. Alexandre Sallum Bull.
Essa mudança tem impacto físico, mas também emocional.
Muitos pacientes relatam que a doença renal crônica não limita apenas o corpo,
mas também os planos: viagens, trabalho, convívio familiar, vida afetiva e
sensação de independência.
Quem pode ser candidato
ao transplante renal
A indicação do transplante depende de avaliação médica
detalhada. O paciente precisa passar por exames clínicos, laboratoriais,
cardiológicos, infecciosos e imunológicos para verificar se tem condições de
receber o órgão com segurança.
Também é preciso avaliar doenças associadas, risco
cirúrgico, possibilidade de rejeição, compatibilidade e capacidade de seguir o
tratamento após o transplante, já que o uso de medicações imunossupressoras
será necessário para evitar que o organismo rejeite o novo rim.
O transplante pode ocorrer por meio de doador falecido,
seguindo critérios de fila e compatibilidade, ou por doador vivo, geralmente
familiar ou pessoa próxima, desde que haja avaliação rigorosa e segurança para
quem doa.
No caso do doador vivo, o cuidado é ainda mais delicado.
Trata-se de uma pessoa saudável que passará por uma cirurgia para beneficiar
outra. Por isso, reduzir riscos, dor, tempo de internação e impacto físico é
uma prioridade.
O medo da doação em
vida ainda afasta muitas famílias
Mesmo quando existe a possibilidade de doador vivo, o medo é
um dos principais obstáculos. Muitas famílias têm dúvidas sobre a segurança da
cirurgia, a vida com apenas um rim, a recuperação e os possíveis impactos no
futuro.
Essas preocupações são legítimas. A decisão de doar um rim
exige avaliação profunda, consentimento esclarecido e acompanhamento
especializado. Mas também é importante informar que pessoas saudáveis, bem
selecionadas e acompanhadas podem viver normalmente com apenas um rim.
A avaliação do doador é uma das etapas mais rigorosas do
processo. O objetivo é garantir que a doação não coloque a saúde dessa pessoa
em risco desnecessário.
“Cuidar do doador é tão importante quanto cuidar do receptor.
A doação em vida só deve acontecer quando há segurança médica, avaliação
criteriosa e plena compreensão do processo”, explica o urologista.
Cirurgia robótica:
uma nova fronteira no transplante renal
Nos últimos anos, a cirurgia robótica vem ganhando espaço em
procedimentos urológicos complexos. Mais recentemente, passou também a ser
aplicada no transplante renal em centros especializados.
A tecnologia permite que o cirurgião opere por pequenas
incisões, com visão tridimensional ampliada e instrumentos articulados de alta
precisão. Em um procedimento tão delicado quanto o transplante de rim, isso
pode contribuir para menor trauma cirúrgico, menos dor, menor sangramento e
recuperação potencialmente mais rápida.
A cirurgia robótica não significa que o robô opera sozinho.
Todos os movimentos são comandados pelo cirurgião. A plataforma funciona como
uma extensão altamente precisa das mãos do médico.
Esse ponto é essencial para evitar uma leitura equivocada da
tecnologia. O robô não substitui a equipe médica. Ele exige ainda mais treinamento,
planejamento e domínio técnico.
Segundo Dr. Alexandre Sallum Bull, a robótica deve ser vista
como ferramenta, não como espetáculo.
“A cirurgia robótica não transforma uma cirurgia complexa em
simples. Ela oferece ao cirurgião melhores recursos de visão, precisão e
controle. Quando bem indicada e realizada por equipe experiente, pode
beneficiar tanto o receptor quanto o doador”, destaca.
Falar sobre diálise é falar sobre vida. É reconhecer um
tratamento que permite que milhares de pessoas continuem vivendo apesar da
falência renal. Mas também é importante garantir que esses pacientes tenham
acesso à informação sobre todas as alternativas possíveis.
A campanha de conscientização não deve apenas explicar a
importância da diálise. Deve também estimular diagnóstico precoce da doença
renal, prevenção, acompanhamento especializado e avaliação para transplante
quando houver indicação.
Muitos pacientes chegam tardiamente ao nefrologista. Outros
permanecem anos em diálise sem compreender claramente se são ou não candidatos
ao transplante. Há ainda quem tenha medo da cirurgia por falta de informação
adequada.
Nesse cenário, a informação médica clara pode mudar
trajetórias.
A diálise não é fracasso. É tratamento. É suporte. É vida em
continuidade. Mas, para muitos pacientes, ela pode ser também uma etapa até uma
possibilidade maior: o transplante renal.
No mês de conscientização sobre a diálise, a discussão mais
importante talvez seja justamente essa: garantir que cada paciente renal seja
visto de forma individualizada, com acesso ao tratamento adequado, orientação
sobre transplante e conhecimento sobre os avanços que vêm transformando a
cirurgia.
“O paciente em diálise precisa saber que existem caminhos.
Nem todos serão candidatos ao transplante, mas todos merecem ser avaliados,
orientados e acompanhados com clareza. A informação é parte fundamental do
cuidado”, conclui o urologista Dr. Alexandre Sallum Bull.
Dr. Alexandre Sallum Bull CRM 129592 - Médico Urologista.
Professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP)