Uso constante de telas, redes sociais e notificações pode prejudicar o descanso e repercutir na concentração, no humor e no desempenho durante o dia
Estar conectado se tornou parte da rotina. O celular acompanha as pessoas ao
longo do dia, as redes sociais ocupam momentos de pausa e notificações
interrompem atividades. Essa hiperconectividade, porém, pode ter um efeito que
vai muito além do tempo passado diante das telas: ela também pode afetar o sono
e, consequentemente, a forma como as pessoas funcionam no dia seguinte,
inclusive no trabalho, alerta a Associação Brasileira de Qualidade de Vida
(ABQV).
Dados
do estudo ELSA-Brasil ajudam a dimensionar esse cenário. Entre 2.064
participantes avaliados por actigrafia e avaliação clínica, 27,2% apresentaram
duração média de sono inferior a seis horas. Nesse grupo, houve 45% maior
chance de sonolência diurna excessiva.
“A
sonolência diurna não deve ser tratada apenas como desconforto ou cansaço. Ela
pode reduzir a atenção sustentada, aumentar o tempo de reação e comprometer a
tomada de decisão. Em atividades que envolvem condução de veículos, máquinas,
trabalho em altura ou outras tarefas críticas, isso também pode representar um
fator relevante para a segurança no trabalho”, alerta Ana Carolina Peuker,
psicóloga e diretora de Mercado e Expansão da Associação Brasileira de
Qualidade de Vida (ABQV).
Uma conexão
que não termina quando o dia acaba
A
influência da hiperconectividade sobre o sono não acontece de uma única
maneira. O uso de dispositivos pode simplesmente ocupar o tempo que seria
destinado ao descanso. Ao mesmo tempo, conteúdos, jogos, redes sociais,
mensagens e notificações podem manter a pessoa cognitivamente e emocionalmente
estimulada justamente no período em que deveria começar a desacelerar. A
exposição à luz durante a noite também pode interferir nos sinais biológicos
que organizam o ciclo sono-vigília. Por isso, não é apenas a quantidade de
tempo diante da tela que importa, mas também o horário e a forma como os
dispositivos são utilizados. Um estudo realizado com dados da Pesquisa Nacional
de Saúde (PNS) brasileira, cuja base foi composta por 60.202 adultos, mostrou
que 14% das pessoas possuem distúrbios do sono e aproximadamente 12% apresentam
fadiga diurna. Entre 5% e 8% possuem ambos os sintomas.
O impacto da noite pode aparecer durante o dia
É durante o dia, portanto, que parte da conta da hiperconectividade pode
aparecer. A pessoa dorme menos, acorda cansada e precisa lidar com uma rotina
que exige concentração, tomada de decisões, interação com outras pessoas e
capacidade de responder a diferentes demandas.
“No
trabalho, sono insuficiente e fadiga podem repercutir em processos cognitivos
essenciais, como concentração, memória, regulação emocional e capacidade de lidar
com situações complexas. Quando isso se torna recorrente, deixa de ser apenas
uma questão de bem-estar individual e passa a exigir atenção também sob a
perspectiva da organização do trabalho, da saúde e da prevenção de riscos”,
destaca Ana Carolina Peuker.
Uma questão individual e também organizacional
Cuidar do sono é uma responsabilidade individual, mas a discussão também pode
ser ampliada para os ambientes e as relações de trabalho. Se a conectividade
faz parte da forma como as pessoas trabalham, estratégias de promoção da saúde
precisam considerar também os períodos de descanso e desconexão.
Isso pode envolver desde hábitos individuais, como estabelecer limites para o uso de dispositivos à noite, até práticas organizacionais que respeitem os períodos de descanso e evitem transformar a disponibilidade permanente em expectativa cotidiana.
“A
tecnologia pode ampliar produtividade, flexibilidade e acesso, mas precisa vir
acompanhada de limites claros. Uma cultura em que mensagens fora do horário,
respostas imediatas e disponibilidade contínua se tornam regra pode dificultar
a recuperação necessária entre uma jornada e outra. Organizações maduras
precisam olhar para a hiperconectividade também como uma dimensão da gestão do
trabalho e criar condições reais para que os períodos de descanso sejam
respeitados”, completa Ana Carolina Peuker.




