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quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Setembro Amarelo: suicídio entre jovens cresce 38% nas Américas em duas décadas, aponta estudo

Especialistas chamam atenção para sinais de alerta e fatores associados ao comportamento suicida entre adolescentes e jovens. 

 



 

   

 

O Setembro Amarelo, movimento dedicado à conscientização e à prevenção do suicídio, ganha neste ano um alerta especialmente importante para a população jovem. Um estudo publicado na revista The Lancet Regional Health Americas, com base nas Estimativas Globais de Saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS), identificou um crescimento significativo da mortalidade por suicídio entre adolescentes e jovens de 10 a 24 anos nas Américas ao longo de duas décadas. 

 

Em 2021, foram estimadas 18.157 mortes por suicídio nessa faixa etária nos 35 países analisados. A taxa passou de 5,70 mortes por 100 mil habitantes, em 2000, para 7,84 em 2021,  aumento acumulado de aproximadamente 38% no período. O especialista em neurociência e professor da Afya Educação Médica Belo Horizonte e Montes Claros, Dr Albert Nilo Costa, comenta que os sinais de alerta de que um jovem pode estar em risco incluem a presença de algum transtorno mental, que pode se manifestar por meio de irritabilidade, alterações de comportamento na escola e em casa e mudanças na forma como ele se relaciona com os pares. 

 

“Esses sinais exigem um olhar mais atento para esse jovem. Além de um adoecimento mental, geralmente prévio, existem fatores de risco como o bullying tradicional e o cyberbullying, que ocorre por meio das telas e das redes sociais. As alterações no sono também podem desencadear uma série de consequências, como utilizar smartphone ao deitar pode levar ao sono ruim, uma pior regulação emocional e consequentemente maior vulnerabilidade psicológica. Somam-se a esses fatores a violência e a negligência. Segundo a OMS, experiências adversas em casa, violência e pobreza são fatores importantes para o comprometimento da saúde mental de crianças e adolescentes”. 

 

Ainda de acordo com o estudo publicado pela The Lancet, três em cada quatro mortes por suicídio entre pessoas de 10 a 24 anos em 2021 ocorreram entre homens. A taxa masculina foi quase três vezes superior à feminina. Ao mesmo tempo, porém, o ritmo de crescimento foi maior entre as mulheres, sinalizando que a prevenção precisa considerar diferentes fatores de vulnerabilidade de acordo com idade e gênero.  

 

Dr Albert Nilo destaca que 96,8% dos casos têm relação com algum transtorno mental.“Os homens realmente cometem mais suicídios, enquanto as mulheres fazem mais tentativas. Entre as situações apontadas como mais importantes no comportamento suicida estão o aumento da prevalência de depressão, o uso abusivo de drogas, mudanças psicobiológicas, como a diminuição da idade de início da puberdade, o estresse e o comportamento ou modelo suicida. Já entre os eventos precipitadores mais comuns do comportamento suicida estão também os graves conflitos relacionais e as perdas interpessoais significativas”, complementa.

 

A pesquisa aponta ainda que o suicídio foi responsável por 9,7% de todas as mortes registradas entre pessoas de 10 a 24 anos nas Américas em 2021, permanecendo como a terceira principal causa de morte nessa população, atrás apenas da violência interpessoal e dos acidentes de trânsito.


 

Realidade brasileira 

 

No Brasil, registros do Ministério da Saúde de 2021, contabiliza 15.507 casos anuais, o equivalente a uma média estarrecedora de 42 mortes diárias, sendo que, para cada ato consumado, calcula-se que cerca de 25 pessoas tentem tirar a própria vida e muitas outras convivam em silêncio com ideações suicidas. 

 

A coordenadora de Psicologia da Afya Sete Lagoas, Dra Sabrina Magalhães Teixeira, explica que muitos jovens não procuram ajuda por medo de serem considerados fracos, loucos ou dramáticos. “O sentimento de considerar um fardo para os outros e acreditar que, ao não falar, estão poupando as pessoas ao redor é outro fator. Existe ainda o medo da reação dos pais, de serem punidos, perderem autonomia ou passarem a ser vigiados”.

 

A psicóloga ainda destaca que existe uma dificuldade cultural de lidar com as emoções e com temas relacionados à saúde mental, e muitas vezes, o jovem tem dificuldade até de nomear, expressar e comunicar o que está sentindo. Experiências anteriores também podem pesar. Se já tentou conversar e não foi levado a sério, foi ridicularizado ou punido, pode ter ainda mais dificuldade para pedir ajuda. 

 

“Por isso, a presença de um adulto que ofereça segurança e apoio sem julgamentos é tão importante. Para os pais, pode ser difícil não reagir emocionalmente ao perceber um sofrimento tão intenso. Mas é importante procurar se tranquilizar e não se culpabilizar naquele momento, porque uma reação muito intensa pode fechar a comunicação e fazer o jovem evitar novas conversas. É fundamental não minimizar o sofrimento. Comportamentos autolesivos, por exemplo, não devem ser tratados como “apenas uma forma de chamar atenção”. Existe um sofrimento que precisa ser compreendido e abordado. Em vez de julgar ou culpabilizar o jovem pela falta de recursos para lidar com a dor, precisamos acionar recursos internos, familiares, sociais e profissionais para ajudá-lo”, conclui a coordenadora.

 

Décadas de pesquisa mudam o que a medicina sabe sobre o Alzheimer

 No mês de conscientização sobre a doença, avanços em biomarcadores, diagnóstico e tratamento mostram como a ciência transformou a compreensão do Alzheimer e quais perguntas ainda precisam ser respondidas

 

Identificada há mais de um século, a doença de Alzheimer ainda não tem cura, mas a forma como a medicina consegue compreendê-la e investigá-la mudou significativamente. Se antes a atenção estava concentrada principalmente nos sintomas, como perda de memória e alterações cognitivas, hoje a ciência consegue identificar processos biológicos relacionados à doença que podem começar muitos anos antes das primeiras manifestações. 

Setembro, Mês Mundial do Alzheimer, coloca novamente em evidência uma doença que ainda desafia pesquisadores em diferentes partes do mundo. Os avanços conquistados até aqui permitiram entender melhor o que acontece no cérebro, desenvolver novos tratamentos e identificar biomarcadores associados à doença, ampliando as possibilidades de investigação. 

“Hoje conseguimos enxergar aspectos do Alzheimer que há algumas décadas não eram acessíveis da mesma maneira. Sabemos que alterações biológicas relacionadas à doença podem começar muito antes dos primeiros sintomas, e esse conhecimento mudou tanto a forma como estudamos o Alzheimer quanto as possibilidades que temos para investigá-lo”, explica Maria Gabriela de Lucca, médica patologista do Grupo DB. 

Entre os avanços está a compreensão do papel de proteínas como beta-amiloide e tau, cujas alterações estão associadas à doença. Durante anos, a investigação desses processos dependeu principalmente de exames de imagem e da análise do líquido cefalorraquidiano. Mais recentemente, o desenvolvimento dos biomarcadores sanguíneos tornou possível obter informações relacionadas a esses processos a partir de uma coleta de sangue, um método menos invasivo e potencialmente mais acessível. 

Estudos indicam que alterações biológicas relacionadas ao Alzheimer podem surgir até duas décadas antes dos sintomas. Em determinados grupos estudados, biomarcadores sanguíneos já permitiram detectar mudanças associadas à doença cerca de 20 anos antes do surgimento esperado das manifestações clínicas. Isso não significa prever, por meio de um exame isolado, quem desenvolverá Alzheimer, mas mostra o quanto a capacidade de investigar a doença avançou. 

“Conseguir acessar essas informações por meio de uma amostra de sangue é um avanço importante. Além de ser uma coleta simples, abre novas possibilidades para a investigação dos biomarcadores. O resultado, no entanto, precisa ser interpretado dentro do contexto clínico do paciente e não substitui a avaliação médica”, ressalta Dra. Gabriela. 

Esse avanço exige investimento contínuo. Somente nos Estados Unidos, o National Institutes of Health (NIH) estimou cerca de US$ 3,86 bilhões destinados à pesquisa sobre Alzheimer e demências relacionadas em 2025. Os estudos abrangem desde a compreensão dos mecanismos da doença até biomarcadores, diagnóstico, prevenção e desenvolvimento de tratamentos. 

Os resultados desse esforço já começam a aparecer também na terapêutica. Nos últimos anos, medicamentos direcionados a mecanismos específicos da doença inauguraram novas possibilidades para determinados pacientes em estágios iniciais. Embora ainda não exista cura, o cenário mostra como descobertas feitas ao longo do tempo podem se transformar em ferramentas concretas para a prática clínica. 

“Ainda temos muitas perguntas a responder, mas os avanços mostram por que a continuidade da pesquisa é fundamental. O que conseguimos investigar e tratar hoje é resultado do conhecimento acumulado ao longo de muitos anos, e as pesquisas atuais podem definir como enfrentaremos o Alzheimer no futuro”, completa Maria Gabriela de Lucca.
 

Grupo DB


Credibilidade se tornou um dos principais ativos na carreira de profissionais da saúde

A experiência vivida pelo paciente também contribui para a
construção da credibilidade do profissional de saúde
Magnific
Antes de escolher um médico, paciente pode pesquisar, ouvir recomendações e formar uma percepção sobre o profissional; experiência no atendimento é o que sustenta ou compromete essa confiança 

 

A relação entre paciente e profissional da saúde começa antes da consulta. Pesquisas, recomendações e informações disponíveis sobre o médico podem influenciar a decisão de buscar atendimento, mas é na experiência vivida ao longo do acompanhamento que a percepção sobre aquele profissional tende a se consolidar. Para além da qualidade técnica, fatores como transparência, coerência e cumprimento de compromissos passam a fazer parte da construção da credibilidade. 

Para quem trabalha na área da saúde, essa relação pode ir além do atendimento. A confiança construída com o paciente pode se refletir em indicações, relacionamento e novas oportunidades profissionais. Nesse contexto, a credibilidade também ganha espaço na forma como o profissional conduz sua carreira e seu negócio. 

“Credibilidade não é simplesmente sobre como os outros nos veem, mas também sobre como nos apresentamos, agimos e honramos nossos compromissos”, afirma o cirurgião plástico e empreendedor Dr. Vinicius Julio Camargo. 

A construção dessa percepção envolve fatores que não dependem apenas da exposição. Coerência entre discurso e prática, cumprimento de compromissos, honestidade, clareza e qualidade na entrega fazem parte da relação que se estabelece entre profissional e paciente.

 

O que acontece no atendimento também comunica

Na saúde, a reputação é construída em situações que nem sempre chegam às redes sociais. 

Uma explicação dada durante uma consulta, a maneira de apresentar as possibilidades de um tratamento, a transparência sobre limitações e riscos e o acompanhamento depois de um procedimento são exemplos de situações que participam da experiência do paciente. 

O próprio especialista relata que procura explicar procedimentos e opções de tratamento de forma clara e transparente, para que seus pacientes tenham informações sobre possibilidades e limitações antes de tomar uma decisão. 

A mesma lógica aparece na forma de conduzir o atendimento. Segundo ele, a estrutura criada para oferecer suporte antes e depois dos procedimentos passou a ser percebida pelos pacientes e contribuiu para a experiência oferecida. 

Não se trata apenas de oferecer mais serviços. O ponto está na consistência da experiência. 

“Obter credibilidade profissional significa ser visto como alguém confiável, coerente e competente. É ser reconhecido como alguém que não apenas fala, mas faz, não apenas promete, mas entrega”, diz o cirurgião plástico.

 

Credibilidade é construída no cotidiano

Não existe uma ação isolada capaz de produzir uma reputação sólida. Ela resulta de comportamentos repetidos ao longo do tempo. 

Honrar compromissos, comunicar-se com clareza, agir com honestidade e manter uma postura coerente são aspectos destacados pelo especialista como parte dessa construção. No caso dos profissionais da saúde, a honestidade também está relacionada à maneira de lidar com informações, tratamentos, riscos e eventuais erros. 

Essa construção exige tempo. A perda de confiança, por outro lado, pode acontecer diante de uma experiência que contradiga aquilo que o profissional vinha demonstrando. 

“A credibilidade é um ativo inestimável. Ela é construída ao longo do tempo, mas pode ser destruída rapidamente”, conclui Dr. Vinicius. 

 

Dr. Vinicius Julio Camargo - médico cirurgião plástico, empreendedor e escritor. Atua como Diretor Técnico do Alda Instituto de Saúde. É sócio-fundador da Oxyneo® (primeira clínica de medicina hiperbárica do sudoeste do Paraná) e idealizador da plataforma Átrio, voltada à gestão de rotinas de atendimento e administrativas para clínicas multidisciplinares. É autor de dois livros e defensor da integração entre ética, gestão e excelência médica.

 

Anvisa aprova primeira terapia de reposição hormonal para adultos com hipoparatireoidismo crônico no Brasil

Yorvipath® (palopegteriparatida) inaugura uma nova era no tratamento da doença ao repor o hormônio ausente, abordagem inédita para pacientes brasileiros e recentemente incorporada às diretrizes europeias para o manejo do hipoparatireoidismo crônico.

 

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) acaba de aprovar o medicamento Yorvipath® (palopegteriparatida) para o tratamento de adultos com hipoparatireoidismo crônico, tornando disponível no Brasil a primeira terapia de reposição do hormônio da paratireoide (PTH) para essa doença rara.¹ 

O hipoparatireoidismo crônico é uma doença endócrina crônica caracterizada pela produção insuficiente ou ausência do hormônio da paratireoide (PTH), fundamental para o equilíbrio do cálcio e fósforo no organismo. Sem esse hormônio, pacientes convivem com alterações persistentes do metabolismo ósseo-mineral, que podem causar sintomas neuromusculares, prejuízo cognitivo, redução da qualidade de vida e complicações renais ao longo do tempo.²⁻⁴ 

O hipoparatireoidismo crônico era a única deficiência hormonal clássica tratada sem reposição do hormônio ausente⁷. Enquanto outras endocrinopatias contam há décadas com terapias de reposição hormonal, pacientes com hipoparatireoidismo crônico permaneciam dependentes de estratégias voltadas apenas ao controle dos níveis séricos de cálcio². 

A doença pode estar associada a eventos potencialmente fatais decorrentes das alterações no metabolismo do cálcio, mesmo em pacientes que recebem o tratamento convencional.³⁻⁵ No estudo pivotal, 79% dos pacientes tratados com palopegteriparatida atingiram o desfecho primário, mantendo níveis normais de cálcio sérico sem necessidade de vitamina D ativa e utilizando doses reduzidas de cálcio (≤600 mg/dia), em comparação com 5% dos pacientes que receberam placebo após 26 semanas.⁶ 

Com 52 semanas, 95% dos pacientes atingiram independência da terapia convencional. Além do controle bioquímico, estudos demonstraram melhora de diversos parâmetros relacionados à doença, incluindo qualidade de vida e indicadores de função renal em parte dos pacientes.⁶⁻⁹ 

Yorvipath® (palopegteriparatida) utiliza a plataforma TransCon®, tecnologia desenvolvida para liberar continuamente o hormônio ativo ao longo de 24 horas, buscando reproduzir níveis fisiológicos de PTH. O medicamento é administrado por via subcutânea uma vez ao dia.¹ A terapia já havia recebido autorização regulatória na União Europeia e foi aprovada pela Food and Drug Administration (FDA), nos Estados Unidos, em 2024 como o primeiro tratamento indicado especificamente para adultos com hipoparatireoidismo crônico.¹¹⁻¹² 

 

Sobre o hipoparatireoidismo

O hipoparatireoidismo é uma doença endócrina rara causada pela produção insuficiente de hormônio da paratireoide (PTH)2. A causa mais frequente é a lesão ou remoção das paratireoides durante cirurgias da região cervical, embora também possa decorrer de doenças autoimunes, alterações genéticas ou outras condições menos comuns2-3. A deficiência de PTH compromete o equilíbrio do cálcio e do fósforo no organismo e pode provocar cãibras, formigamentos, espasmos musculares, fadiga, alterações cognitivas e complicações renais2-4.

 


Adium


Referências:


1. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução-RE nº 3.645, de 17 de setembro de 2026. Diário Oficial da União, nº 178, Seção 1, 21 set. 2026, p. 153-155. Disponível em: Link 
2.Bollerslev J, Rejnmark L, Marcocci C, et al. European Society of Endocrinology Clinical Guideline: Treatment of chronic hypoparathyroidism in adults. Eur J Endocrinol. 2022.
3.Brandi ML, Bilezikian JP, Shoback D, et al. Management of Hypoparathyroidism: Summary Statement and Guidelines. J Clin Endocrinol Metab. 2016.
4.Khan AA, Koch CA, Van Uum S, et al. Standards of care for hypoparathyroidism in adults. J Bone Miner Res. 2019.
5.Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Hipoparatireoidismo. Brasília:
6.Ministério da Saúde; 2016. Khan AA, Rubin MR, Schwarz P, Vokes T, Shoback DM, Gagnon C, et al. Efficacy and safety of parathyroid hormone replacement with TransCon PTH in hypoparathyroidism: 26-week results from the phase 3 PaTHway trial. J Bone Miner Res. 2023;38(9):1396-1406.
7. Clarke BL, Khan AA, Rubin MR, Schwarz P, Vokes T, Shoback DM, et al. Efficacy and safety of TransCon PTH in adults with hypoparathyroidism: 52-week results from the phase 3 PaTHway trial. J Clin Endocrinol Metab. 2024.
8.Bilezikian JP, Khan AA, Potts JT Jr, et al. Hypoparathyroidism in the adult: epidemiology, diagnosis, pathophysiology, target-organ involvement, treatment, and challenges for future research. J Bone Miner Res. 2011.
9.Underbjerg L, et al. Kidney outcomes and quality of life in chronic hypoparathyroidism treated with palopegteriparatide. JCEM. 2025.
10.Ascendis Pharma. Investigator's Brochure: TransCon PTH (Palopegteriparatide). Version current.European Medicines Agency (EMA). Yorvipath (palopegteriparatide): EPAR. 2024.
11. U.S. Food and Drug Administration (FDA). FDA approves Yorvipath (palopegteriparatide) for adults with chronic hypoparathyroidism. 2024.

 

Oscilações de temperatura: como proteger a saúde e a imunidade das crianças

Alimentação equilibrada, sono adequado, hidratação, atividade física, higiene e vacinação estão entre os principais cuidados para favorecer o funcionamento do sistema imunológico infantil

 

Dias de calor intenso seguidos por quedas bruscas de temperatura fazem parte da rotina em muitas regiões do Brasil. Para neonatos, bebês e crianças, essas oscilações podem representar um desafio adicional, especialmente nos primeiros anos de vida, quando o sistema imunológico ainda está em desenvolvimento. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), infecções respiratórias são frequentes nessa fase e podem ocorrer várias vezes ao ano, principalmente entre crianças que frequentam creches e escolas. 


Apesar da associação comum entre frio e doenças, a mudança de temperatura por si só não causa gripe ou resfriado. Essas doenças são provocadas por vírus e transmitidas de forma mais comum por gotículas respiratórias, contato próximo e superfícies contaminadas. As condições ambientais, no entanto, podem favorecer a circulação desses agentes e aumentar a exposição das crianças.


O Dr. Gustavo Pinato, médico e professor de pós-graduação em Pediatria da Afya Ribeirão Preto, explica que o sistema imunológico infantil amadurece progressivamente. Os bebês já nascem com a chamada imunidade inata, enquanto a imunidade adquirida, responsável por desenvolver respostas específicas contra vírus e bactérias, é construída ao longo da infância. 


“A imunidade adquirida vai se construindo aos poucos, principalmente, por meio das vacinas e também das experiências do organismo com diferentes agentes infecciosos. Isso ajuda a explicar por que os pequenos podem adoecer com mais frequência nos primeiros anos. É o sistema imunológico ainda treinando suas defesas, e não uma fragilidade permanente”, explica o especialista.


Temperatura: mais importante que evitar o frio é garantir adaptação


Não é necessário manter a criança completamente protegida do frio ou do calor. Segundo o pediatra, o mais importante é oferecer condições para que o organismo se adapte às variações ambientais. “Mais do que tentar evitar completamente a exposição ao frio ou ao calor, é preciso garantir condições para que o organismo da criança e do bebê consiga se adaptar adequadamente e manter seu funcionamento diante das variações de temperatura”, orienta Pinato.


Na prática, isso significa vestir a criança de maneira adequada ao ambiente, evitando tanto o excesso de agasalhos quanto a exposição prolongada a temperaturas extremas. Em dias quentes, a hidratação merece atenção especial, enquanto mudanças bruscas entre ambientes com temperaturas muito diferentes devem ser evitadas sempre que possível.


“Não existe uma temperatura perfeita que precise ser mantida o tempo todo. O Brasil tem dimensões continentais e uma grande variação térmica. O importante é vestir adequadamente, sem excesso de agasalho ou exposição extrema, manter a hidratação nos dias quentes e evitar mudanças bruscas de ambiente. O corpo da criança consegue regular sua temperatura quando recebe esse suporte básico”, afirma.


Rotina de cuidados é a principal aliada


O médico explica, ainda, que não existe alimento, vitamina ou medicamento capaz de “blindar” a imunidade de uma criança saudável. Na ausência de deficiência nutricional identificada, suplementos não devem ser utilizados com a expectativa de acelerar o amadurecimento do sistema imunológico. O fundamental é manter uma rotina equilibrada com alimentação adequada, hidratação, sono de qualidade, atividade física, higiene e vacinação, por exemplo.


O pediatra também destaca o contato com ambientes ao ar livre, quando as condições forem adequadas, e a atenção à saúde emocional da criança. O aleitamento materno, quando aplicável, também contribui para a proteção do bebê nos primeiros meses de vida. “Também é importante considerar a saúde emocional, porque o estresse crônico pode impactar negativamente a resposta imunológica”, complementa o médico da Afya.


Alimentação não precisa ser sofisticada


Uma alimentação variada com alimentos adequados à faixa etária fornece nutrientes importantes para o organismo. De acordo com o médico, o foco não deve ser cardápios complexos ou suplementação sem indicação profissional. “Uma rotina alimentar variada, com frutas, verduras, legumes, proteínas e grãos já garante nutrientes importantes para o funcionamento do sistema imunológico. O que realmente faz diferença é a regularidade e a variedade, e não a complexidade”, explica.


Higiene ajuda a reduzir a transmissão de infecções


Durante períodos de maior circulação de vírus respiratórios, medidas simples ajudam a reduzir a transmissão. Lavar as mãos com água e sabão ou utilizar álcool 70%, evitar compartilhar objetos pessoais e manter distância de pessoas doentes são algumas delas. Também é importante manter os ambientes ventilados, cuidar da higiene bucal, limpar brinquedos e superfícies muito manuseadas e ensinar a chamada etiqueta respiratória, orientando a criança a cobrir boca e nariz ao tossir ou espirrar, preferencialmente com o antebraço.


“Lavar as mãos com frequência é uma das principais medidas de prevenção. Também é importante não compartilhar objetos pessoais, como copos e talheres, e evitar contato próximo com pessoas doentes. Eu acrescentaria manter a higiene bucal em dia e ventilar bem os ambientes. Esses são alguns hábitos simples que ajudam a proteger a criança e as pessoas ao redor”, afirma.


Sono e vacinação também são fundamentais


Uma rotina regular de sono contribui para o desenvolvimento e para o funcionamento adequado do organismo. Por isso, mesmo em períodos de mudança de temperatura, é recomendável preservar horários regulares para dormir e acordar. A vacinação, por sua vez, é uma das principais estratégias para prevenir diferentes infecções e suas formas mais graves. Manter a caderneta atualizada, de acordo com as recomendações para cada faixa etária, é essencial. A vacinação contra a gripe, por exemplo, ajuda a reduzir o risco de influenza e suas complicações.


Quando procurar o pediatra?


É esperado que crianças, especialmente as menores, tenham episódios de infecção ao longo do ano, o que não significa que exista algum problema com a imunidade. A frequência e a intensidade dos quadros devem ser avaliadas considerando a idade, os sintomas e a recuperação da criança. No entanto, alguns sinais exigem atenção, como dificuldade para respirar, sonolência excessiva, apatia, recusa persistente de líquidos, sinais de desidratação, febre prolongada ou piora do estado geral. Diante das mudanças de temperatura, portanto, o foco não deve ser evitar completamente o frio ou o calor, mas oferecer condições para que a criança se adapte às variações ambientais e manter uma rotina de cuidados. 



A ilusão do check-up: mais exames não significam mais saúde

Um check-up produz uma fotografia daquele momento, mas prevenção exige contexto, continuidade e alguém capaz de acompanhar o filme inteiro

 

Um check-up avulso entrega uma fotografia da saúde — um retrato impessoal, tirado em um instante isolado. Mas saúde não é uma foto. É um filme.

A cada ano, milhões de pessoas agendam um check-up com a mesma expectativa: sair do consultório com a certeza de que está tudo bem. Em torno dessa promessa cresceu uma indústria inteira, sustentada por uma ideia sedutora: basta acumular exames para comprar tranquilidade.

Mas talvez a pergunta mais importante não seja “quantos exames você fez este ano?”. Seja: esses exames mudaram alguma coisa na sua saúde?

Porque um check-up mal feito não é apenas um gasto sem retorno. Para o paciente, ele pode ser uma tragédia silenciosa.
 

O preço do excesso

Todo exame tem uma margem de incerteza. Quanto maior o número de testes, maior a possibilidade de surgir um resultado inesperado que não represente uma doença.

É o chamado falso-positivo: um resultado que sugere um problema e que, depois de investigado, não se confirma. O impacto pode ser uma sequência de consultas e procedimentos, além de ansiedade e medo.

Seguindo as diretrizes de rastreamento, estudos estimam que a probabilidade de uma pessoa receber, ao longo da vida, pelo menos um resultado falso-positivo pode chegar a 85,5% entre as mulheres e 38,9% entre os homens.

E existe ainda um problema menos discutido: pedir um exame não significa necessariamente acompanhar seu resultado. Uma revisão sistemática de 19 estudos encontrou taxas relevantes de exames laboratoriais e de imagem sem seguimento adequado, chegando a 62% em alguns cenários.

É um paradoxo da medicina contemporânea: temos cada vez mais capacidade de produzir dados sobre o corpo, mas nem sempre conseguimos transformá-los em cuidado.

O excesso também tem uma dimensão coletiva. Cada exame desnecessário tem um custo e, na saúde suplementar, parte dessa conta acaba distribuída entre todos. Mais procedimentos significam mais despesas para o sistema, que podem contribuir para pressionar os custos dos planos de saúde.

Por isso, antes de perguntar “o que mais podemos investigar?”, deveríamos perguntar: por que este exame é necessário para este paciente e o que faremos se o resultado vier alterado?
 

Uma fotografia não conta a história inteira

De nada adianta uma fotografia se ninguém volta a olhar para ela. E menos ainda uma coleção de fotografias se não conseguimos colocá-las em sequência.

A resposta não está em pedir mais. Está em acompanhar melhor. É aí que o acompanhamento médico faz diferença.

Um profissional que acompanha o paciente ao longo do tempo consegue perceber mudanças que um exame isolado não mostra. Um colesterol que permanece dentro da faixa normal, mas sobe progressivamente, pode contar uma história diferente. Uma alteração aparentemente preocupante pode ganhar outro significado quando comparada aos resultados anteriores.

O acompanhamento também permite olhar para aquilo que dificilmente aparece em uma bateria de exames: atividade física, alimentação, sono, tabagismo, álcool, estresse e outros hábitos que influenciam o risco de adoecer.

É exatamente o que a Medicina do Estilo de Vida propõe: um cuidado integral, contínuo e ancorado na melhor ciência disponível.

A grande lição talvez seja essa: mais do que pedir exames novos, é preciso checar os que já existem.

Prevenção de verdade não se compra em pacotes nem se resume a uma bateria de exames. Ela se constrói na relação, na continuidade, no olhar de quem acompanha a mesma história ao longo dos anos.

Porque o melhor check-up não é o mais completo nem o mais caro. É aquele que, além de fotografar, ajuda a mudar o rumo do filme.


 

Dr. Ramon Marcelino - referência em endocrinologia e medicina do estilo de vida. Atua no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP) e integra o corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês. Em seu perfil no Instagram @dr.ramonmarcelino, compartilha conteúdos confiáveis sobre saúde, metabolismo e os avanços no tratamento da obesidade.

 

Álcool na adolescência afeta maturação do cérebro e deixa marcas até a vida adulta

Levantamento nacional indica que 5% dos adolescentes entre 12 e 17
anos tiveram pelo menos um episódio de consumo excessivo de álcool em 30 dias.
 Entre jovens adultos (18 a 24 anos), a porcentagem quadruplica para 20,5%
 Shutterstock

Estudo com camundongos sugere que episódios de bebedeira precoce prejudicam o sistema de controle de impulsos, resultando em maior propensão a comportamento de risco e vulnerabilidade ao vício

 

Testes realizados em camundongos que receberam altas doses de álcool durante a adolescência mostraram que o efeito da substância sobre o cérebro ainda em desenvolvimento gera impactos comportamentais que perduram até a vida adulta, como uma maior propensão a assumir riscos e o aumento no consumo da bebida. O estudo, conduzido na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp), recebeu apoio da FAPESP e originou dois artigos, publicados nas revistas Alcohol Clinical and Experimental Research e Physiology & Behavior.

Apesar de o Brasil proibir o consumo de álcool por menores de 18 anos, dados do 3º Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira mostram que 5% dos adolescentes entre 12 e 17 anos tiveram pelo menos um episódio de consumo excessivo de álcool em 30 dias. Entre jovens adultos – com idade entre 18 e 24 anos – a porcentagem sobe para 20,5%.

Nessas idades, o cérebro ainda não está totalmente desenvolvido, estando mais vulnerável ao efeito do álcool. “Embora a maior parte do nosso desenvolvimento como seres humanos ocorra dentro do útero, quando nascemos ainda não estamos completamente formados. E o cérebro é um dos últimos órgãos a finalizar essa formação”, explica Karina Possa Abrahão, professora adjunta no Departamento de Fisiologia da EPM-Unifesp. Ela acrescenta que uma das principais diferenças está na menor atividade de uma região chamada de córtex pré-frontal, importante para a tomada de decisões e o controle dos impulsos. Essa e outras regiões relacionadas à tomada de decisão só completam seu desenvolvimento em humanos por volta dos 25 anos de idade.

Para entender como o consumo de bebida alcoólica nessa fase da vida pode afetar o desenvolvimento do cérebro, o grupo de Abrahão aplicou injeções de álcool em camundongos simulando eventos de consumo excessivo da substância (binge drinking). “O intuito do protocolo era o de mimetizar algumas intoxicações esporádicas muito fortes, que é o que tem acontecido em adolescentes e jovens adultos”, conta Abrahão. Nesses animais, a adolescência dura cerca de três a quatro semanas, começando logo após o desmame – entre o 21º e o 28º dia – e terminando por volta do 60º dia de vida. Cada animal recebeu quatro injeções durante sua adolescência, como uma forma de simular um consumo frequente. Essa quantidade, aparentemente pequena, foi calculada de forma proporcional. “Reduzimos o número de intoxicações considerando a duração da vida do animal. Em uma pessoa, seria o equivalente a, mais ou menos, umas duas intoxicações por mês durante toda a adolescência. É um consumo muito pesado”, ressalta.

Quando os camundongos receberam o álcool no início da adolescência, os machos passaram a demonstrar comportamentos de risco mais intensos, mesmo quando testados na vida adulta. O equivalente não foi observado nas fêmeas. Por outro lado, quando o álcool era disponibilizado para os camundongos na vida adulta, as fêmeas expostas ao álcool no início da adolescência beberam mais.

Já quando os animais receberam o álcool no final da adolescência, camundongos de ambos os sexos apresentaram maior comportamento de risco na vida adulta. Essas alterações comportamentais indicam um prejuízo no amadurecimento do cérebro. “O álcool pode causar um prejuízo da maturação final do cérebro, tornando aquele indivíduo adolescente por muito mais tempo, talvez a vida toda. Ele sempre vai ficar se colocando em risco. O adolescente se colocar em risco é normal, mas o adulto continuar fazendo isso é problemático”, comenta Abrahão.


Diferença entre os sexos

A origem da diferença observada no efeito do álcool entre machos e fêmeas no começo da adolescência ainda não foi encontrada. Em um primeiro momento, a equipe de Abrahão acreditou se tratar da diferença no ritmo do desenvolvimento do cérebro entre os sexos. “O que a gente sabe é que a maturação do cérebro das fêmeas acontece um pouco antes da dos machos”, explica Abrahão. Mas os resultados obtidos com animais intoxicados na fase final da adolescência contradizem essa hipótese. “Fomos pegos de surpresa, porque, quando a intoxicação é feita na segunda fase da adolescência, afeta tanto machos quanto fêmeas. Então, o que a gente achou que tinha protegido a fêmea na primeira fase da adolescência, por ela maturar mais cedo o cérebro, não é verdade. Porque houve o comprometimento da tomada de decisão quando a intoxicação foi feita na fase tardia”, detalha a pesquisadora.

Os efeitos deletérios do consumo excessivo de álcool no desenvolvimento do cérebro podem se estender até o início da vida adulta. O grupo de Abrahão já testou o efeito do uso excessivo de álcool em camundongos em idade equivalente a um humano de 20 anos no comportamento de risco e obteve resultados semelhantes aos obtidos com adolescentes.

Já em adultos mais velhos o impacto tende a ser mais brando. “A literatura mostra que os impactos existem, mas são menores. Não quer dizer que o indivíduo de 30 a 40 anos não vai ter alguns prejuízos cognitivos, mas esse impacto é bem menor do que quando essa intoxicação acontece durante a adolescência. Então, o que poderia ser dito é que a literatura indica que continua tendo impacto, mas vai diminuindo quanto mais amadurece o cérebro”, explica.

O artigo Alcohol or stress exposure during late adolescence impairs risk assessment later in life, disrupting the ethological structure of behavior in mice pode ser lido em: onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/acer.70328.

O artigo Repeated early-adolescent ethanol intoxication promotes riskier decision-making in adult male mice and increases drinking in adult female mice pode ser lido em: sciencedirect.com/science/article/pii/S0031938426000612.
  

Sophia La Banca
Agência FAPESP

https://agencia.fapesp.br/alcool-na-adolescencia-afeta-maturacao-do-cerebro-e-deixa-marcas-ate-a-vida-adulta/59248


Hormônio vilão? Por que tantas mulheres ainda têm medo dos contraceptivos hormonais?

Especialista da FEBRASGO explica o que considerar na escolha do método contraceptivo26 de setembro – Dia Mundial da Contracepção

 

Trombose, ganho de peso, câncer e infertilidade estão entre os principais receios relacionados aos anticoncepcionais hormonais. Com a grande quantidade de relatos e informações sobre o tema que circulam nas redes sociais, também aumentaram as dúvidas entre as mulheres sobre os efeitos desses métodos no organismo. Mas, afinal, onde termina o risco real e começa a desinformação?

 

No Dia Mundial da Contracepção, a Dra. Ilza Maria Urbano Monteiro, presidente da Comissão Nacional Especializada em Anticoncepção da FEBRASGO, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia,  chama atenção para a importância de uma escolha contraceptiva baseada em informação, acompanhamento médico e nas características de cada mulher. “O medo vem principalmente do desconhecido e da desinformação. Muitas vezes, a informação que mais chega é que o anticoncepcional causa trombose, aumenta o peso ou está associado ao câncer. Esses mitos são muito difíceis de derrubar. Métodos contraceptivos hormonais são considerados seguros e podem trazer benefícios que muitas vezes são esquecidos”, explica.

 

Porém, a trombose é um dos principais exemplos do medo sem informação. Alguns anticoncepcionais, os chamados combinados, reúnem estrogênio e progestagênio, versões de hormônios produzidos pelo organismo que, juntos, ajudam a evitar a ovulação e a gravidez. O estrogênio, porém, pode aumentar a tendência à formação de coágulos no sangue e, por isso, esses métodos estão associados a um maior risco de tromboembolismo. Ainda assim, trata-se de um evento raro e cada paciente deve ser avaliada individualmente.

 

Segundo a especialista, entre mulheres que não usam hormônios, cerca de 3 a 4 em cada 10 mil podem apresentar trombose ao longo de um ano. Entre usuárias de anticoncepcionais hormonais combinados, o número pode chegar a 16 casos em 10 mil mulheres por ano. Já na gravidez, o risco é maior e pode chegar a 25 a 30 casos em cada 10 mil mulheres por ano. No primeiro mês após o parto, a chance de trombose aumenta ainda mais. “Mas quando colocamos na balança o risco de tomar a pílula e o risco da gravidez, percebemos que o risco de trombose associado à pílula é imensamente menor”, afirma a médica. Vale ressaltar que o risco de trombose associado aos contraceptivos que contêm estrogênio natural é bem menor, e que existem contraceptivos hormonais orais sem estrogênio, que não aumentam o risco desse evento adverso.

 

O risco também varia conforme o método. DIUs hormonais e implantes contraceptivos não contêm estrogênio e, por isso, não apresentam o mesmo aumento do risco de tromboembolismo associado aos métodos combinados. Já em relação ao câncer de mama, alguns estudos, de acordo com a médica, apontaram para um pequeno aumento do risco com o uso de contraceptivos hormonais, mas não foram suficientes para estabelecer uma relação causal. O fato de uma mulher usar anticoncepcional não significa que ela terá câncer de mama, ressalta.

 

Ao mesmo tempo, a discussão sobre contracepção não deve se limitar aos possíveis riscos. Os métodos hormonais também podem reduzir sangramento uterino e cólicas menstruais e estão associados à redução do risco de câncer de ovário e de endométrio. Há ainda evidências de redução do risco de câncer colorretal em mulheres que usaram contraceptivos hormonais.

 

Além de conhecer os riscos, a mulher precisa saber o que esperar do método contraceptivo e ter espaço para falar sobre como seu corpo reage a ele durante a consulta. Nem todo efeito adverso significa um problema grave, mas toda queixa merece ser considerada pelo especialista. Alterações no padrão de sangramento estão entre as principais causas de insatisfação no início do uso de métodos que contêm apenas progestagênio, como alguns tipos de pílula, o implante e o anticoncepcional injetável trimestral, uma injeção aplicada a cada três meses que libera o hormônio gradualmente no organismo.

 

Nos primeiros meses de uso, esses métodos podem provocar sangramentos irregulares, em geral em pequena quantidade, por mais dias. Em muitas mulheres, esse padrão melhora com o tempo. Embora possa ser incômodo, a alteração não significa que o método esteja fazendo mal à saúde. Com o passar do tempo, esse transtorno se resolve espontaneamente e a redução do sangramento pode ser um grande benefício, principalmente para mulheres que apresentam fluxo menstrual intenso, cólicas importantes ou anemia.

 

O ganho de peso é outra questão que aparece com frequência entre as preocupações das pacientes. Por outro lado, segundo a ginecologista, os estudos não mostram aumento de peso associado à maioria dos métodos hormonais quando comparados ao DIU de cobre. Uma exceção é o anticoncepcional injetável trimestral, que pode provocar ganho de peso importante em parte das mulheres. “É preciso encorajar a paciente a falar sobre seus incômodos, como o ganho de peso, a perda de libido e as mudanças de humor”, afirma.

 

Para quem tem dificuldade de manter uma rotina de medicação, métodos de longa duração, como DIUs e implante contraceptivo, podem ser alternativas. A pílula, por exemplo, precisa ser tomada todos os dias, de preferência no mesmo horário, para ser eficaz. O aconselhamento contraceptivo, portanto, não deve se resumir à indicação de um método. A conversa precisa considerar o histórico de saúde, a rotina, as expectativas e as preferências da mulher, além dos benefícios, possíveis efeitos e riscos. “O mais importante é que a mulher tenha informação para sua escolha e seja acompanhada durante o uso”, conclui a médica.

 

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