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sábado, 9 de maio de 2026

Maternidade idealizada x maternidade real: expectativas irreais impactam a saúde emocional das mulheres

 

Pressão por um ideal inatingível de “mãe perfeita” amplia culpa, ansiedade e esgotamento emocional, enquanto especialistas defendem uma vivência mais realista e acolhedora da maternidade 


Com a proximidade do Dia das Mães, cresce também a circulação de discursos que reforçam uma imagem idealizada da maternidade: um lugar de plenitude constante, amor inesgotável e felicidade espontânea. No entanto, a realidade vivida por muitas mulheres é mais complexa e, frequentemente, marcada por sentimentos ambivalentes que nem sempre encontram espaço de acolhimento. 

Dados reforçam esse cenário. Segundo a Fiocruz, cerca de 25% das mulheres apresentam sintomas de depressão no período pós-parto no Brasil. Já a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 1 em cada 5 mulheres enfrentará algum transtorno mental durante a gestação ou no primeiro ano após o parto. Esses números indicam que a experiência materna está longe de ser homogênea e que o sofrimento emocional é mais comum do que se costuma admitir socialmente. 

Na prática clínica, essa discrepância entre expectativa e realidade aparece de forma recorrente. “A maternidade costuma ser apresentada, socialmente, como um lugar de plenitude constante, amor inesgotável e felicidade espontânea. Mas, na clínica, a realidade costuma aparecer de forma bem mais complexa: junto do amor, podem surgir cansaço, ambivalência, irritação, medo, solidão e culpa”, explica a psicóloga Dra. Andrea Beltran. 

Segundo a especialista, a psicologia junguiana ajuda a compreender esse fenômeno ao considerar que toda experiência humana carrega aspectos de luz e sombra. “Quando a mulher sente que precisa corresponder ao arquétipo da ‘mãe perfeita’, sempre paciente, disponível, bonita, produtiva e emocionalmente equilibrada, ela pode acabar se afastando da própria verdade psíquica. E quanto mais tenta sustentar essa imagem idealizada, maior pode ser o sofrimento interno”, afirma. 

No dia a dia, essa pressão se traduz em situações comuns: mães que se culpam por perder a paciência após noites mal dormidas, que se sentem inadequadas por não vivenciar a maternidade com alegria constante ou que se comparam com padrões irreais das redes sociais. Esse processo cria um parâmetro simbólico rígido, no qual o valor pessoal passa a ser medido por um modelo inalcançável. 

“A idealização social cria um padrão quase impossível de alcançar, e a mulher passa a medir seu valor não pelo que vive de forma real, mas por um modelo simbólico rígido. Em vez de acolher seus limites, ela começa a lutar contra eles, como se sentir exausta ou frustrada fosse sinal de fracasso, e não parte da experiência humana”, pontua Dra. Andrea. 

Do ponto de vista clínico, esse conflito pode ser entendido como um distanciamento entre o eu real e a imagem de mãe esperada socialmente. Quando sentimentos difíceis são negados, eles tendem a se intensificar. “Quando não há espaço para reconhecer a sombra, isto é, os sentimentos difíceis e contraditórios, eles não desaparecem; apenas se tornam mais pesados, muitas vezes se manifestando em ansiedade, culpa excessiva, sensação de insuficiência e até esgotamento emocional”, explica. 

Esse cenário também se conecta a um fenômeno crescente: o chamado burnout materno. Um estudo publicado pela Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, aponta que a exaustão extrema relacionada à parentalidade tem aumentado, especialmente em contextos de alta cobrança social e falta de rede de apoio. 

Diante disso, especialistas defendem a importância de ampliar o olhar sobre a maternidade, especialmente em datas simbólicas como o Dia das Mães. “A maternidade real pede menos perfeição e mais consciência. Reconhecer que amar um filho não impede momentos de raiva, cansaço ou desejo de estar só é um passo importante para uma vivência mais íntegra e menos adoecedora”, diz a psicóloga. 

Mais do que sustentar uma imagem idealizada, o caminho passa por construir uma relação mais honesta com a própria experiência. “À medida que o Dia das Mães se aproxima, talvez seja importante ampliar o olhar sobre essa data e lembrar que maternar não é encenar perfeição, mas sustentar vínculos possíveis dentro da realidade. A terapia pode ajudar a mulher a desmontar idealizações cruéis, elaborar culpas e construir uma relação mais humana consigo mesma. Quando a mãe deixa de perseguir uma imagem inalcançável e passa a se escutar com mais honestidade, ela não se torna menos mãe, ela se torna mais inteira”, conclui.

 

Dra. Andrea Beltran - psicóloga analítica junguiana, formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo. Atua no acompanhamento de processos individuais com foco em autoconhecimento, vínculo e desenvolvimento emocional. Seu trabalho valoriza narrativas pessoais e vínculos profundos, buscando acolhimento genuíno em cada jornada.


Transtornos psicológicos e maternidade: os impactos no cuidado e no bem-estar

Freepik
 Especialistas do CEJAM alertam para a sobrecarga emocional e reforçam a importância de uma rede de apoio

 

A maternidade é uma experiência de intensa transformação e, quando atravessada por questões relacionadas à saúde mental, pode tornar os desafios do dia a dia ainda mais complexos. A rotina com um bebê, marcada por mudanças constantes e excesso de estímulos, tende a impactar especialmente pessoas com maior sensibilidade sensorial ou necessidade de organização.

De acordo com o Dr. Rodrigo Lancelote, psiquiatra e diretor do Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental de Franco da Rocha (CAISM), unidade da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES-SP) e gerenciada pelo CEJAM - Centro de Estudos e Pesquisas "Dr. João Amorim", as oscilações hormonais, a privação de sono e a carga emocional do período perinatal podem agravar sintomas preexistentes.

"A imprevisibilidade das demandas, o alto volume de estímulos e a intensa carga mental podem gerar sobrecarga significativa, esgotamento e comprometer a regulação emocional. Quando sinais como irritabilidade intensa, dificuldade de organização ou isolamento começam a interferir no autocuidado ou no cuidado com o bebê, é fundamental procurar uma avaliação psiquiátrica", orienta o especialista.

Muitas mães, no entanto, enfrentam dificuldades para buscar ajuda, seja pelo estigma em torno da saúde mental ou pela sobrecarga vivida nesse período. Esse esforço para se adequar a um ideal social é o que a psicóloga Ana Paula Hirakawa, do Centro Especializado em Reabilitação IV CER M’Boi Mirim, unidade gerenciada pelo CEJAM em parceria com a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo (SMS-SP), descreve como um fator de exaustão.

"A mãe com um transtorno mental esgota sua energia tentando performar a ‘maternidade padrão’ esperada pela sociedade. Não é um mero cansaço, mas um esgotamento real, que pode levar a apagões emocionais ou reatividade extrema", afirma.

Nesse cenário, a culpa pode se tornar um elemento recorrente. "O diagnóstico pode dar um contorno a essa experiência, ajudando a reduzir leituras cruéis sobre si mesma e a diferenciar o que é parte de sua condição e o que resulta de exigências externas", explica Hirakawa.

Dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) corroboram essa realidade, indicando que cerca de 25% das mães no Brasil apresentam sofrimento psíquico no pós-parto, com a sobrecarga e a baixa rede de apoio como fatores de risco.


Quando o cuidado inclui quem cuida 

Nas unidades gerenciadas pelo CEJAM, a Linha de Cuidado Materno Infantil propõe um olhar que integra a saúde mental ao acompanhamento físico desde o pré-natal. Segundo Edcley Soncin, gerente da UBS Horizonte Azul, também administrada pela OSS em parceria com a SMS-SP, "a assistência materno-infantil não deve ser focada apenas na saúde física da mãe e do bebê, mas também no bem-estar emocional e social".

Ele explica que as equipes são orientadas a realizar uma escuta qualificada para identificar sinais de sobrecarga e, quando necessário, encaminhar a paciente para apoio psicológico, garantindo a continuidade do cuidado sem estigmatização.

Para mães com transtornos neuropsiquiátricos, essa abordagem é especialmente relevante, pois reconhece as especificidades de sua vivência e amplia a capacidade de oferecer um cuidado mais sensível e efetivo.

 

CEJAM - Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim”
@cejamoficial

 

Ninho vazio sem romantização: o fim do controle e o início de uma outra mulher

Branca Barão fala da sua experiência entre a dor de deixar ir e a descoberta de que o amadurecimento de ambos também é parte dessa vivência 

 

Quando o filho de Branca Barão, palestrante, autora best-seller e referência em felicidade prática, propósito e autenticidade feminina, embarcou para o Japão, depois de 26 anos morando com ela, o que ficou não foi apenas uma cadeira vazia na mesa do almoço. Ficou algo menos visível e mais difícil de nomear: a perda de um propósito simbólico de quem se sente necessária para manter alguém seguro. “Chamam de ninho vazio como se fosse uma fase bonita, quase libertadora. Mas, para muitas mulheres, é uma perda real. O que está em jogo não é só a ausência do filho, mas a culpa silenciosa de precisar conter o medo do mundo e confiar que aquilo que foi construído ao longo dos anos sustenta a autonomia dele agora”, explica. 

A experiência pessoal da palestrante dialoga com um fenômeno cada vez mais discutido por pesquisadores da psicologia e do comportamento: a da ambivalência emocional na maternidade. Estudos internacionais apontam que o chamado empty nest não se resume à tristeza pela saída dos filhos, mas envolve reorganização profunda de identidade, especialmente em mulheres cuja função materna ocupou o centro da vida adulta. Ao contrário da narrativa romantizada, pesquisas mostram que sentimentos contraditórios, tais como dor, alívio, culpa, medo e sensação de inutilidade, são comuns e não indicam falha materna. Pelo contrário: indicam transição de papéis, algo comparável a outros grandes lutos da vida adulta. 

Branca descreve esse momento como o choque de atualizar a imagem mental do filho. “Existe um instante em que você percebe que aquele ser não é mais uma extensão sua. É um adulto. E isso muda tudo, a relação, o cuidado e até o silêncio que fica quando eles saem de casa”, comenta. Para ela, esse deslocamento também escancara um tema pouco dito, o do medo feminino de deixar de ser necessária. “Muitas vezes, o que a gente chama de cuidado também é controle. Não por maldade, mas porque foi assim que aprendemos a existir”, afirma. 

A discussão ganhou novas camadas recentemente na cultura pop com o filme Robô Selvagem, que retrata uma figura cuidadora programada para proteger e que precisa aprender, dolorosamente, que amar também é soltar. Para Branca, essa metáfora ecoa a vivência de muitas mães contemporâneas “quando a função que organizava tudo deixa de ser central, quem é essa mulher que fica?”, questiona. E continua: “E é aí que nos damos conta de que o ninho vazio não marca o fim da maternidade, mas uma mudança radical na forma como agimos. A maternidade não acaba. Ela apenas perde o controle. E isso obriga a mulher a se reencontrar fora do papel que a definiu por décadas”, lembra. 

Falar sobre isso sem romantização, especialmente às vésperas do Dia das Mães, é, segundo Branca, um exercício de honestidade social. “Essa fase não é apenas de perda, mas de redescoberta. Mães e filhos precisam aprender a se relacionar a partir de um novo lugar, menos pautado pelo controle e mais pela confiança, autonomia e principalmente respeito. É uma transição difícil, mas que pode abrir espaço para vínculos mais adultos e saudáveis”, afirma.

 

Branca Barão - Palestrante, autora best-seller e professora de pós-graduação em Estudos da Felicidade, Branca Barão atua há mais de 25 anos no desenvolvimento humano, traduzindo temas profundos em uma linguagem simples, prática e conectada à vida real. Ao longo dessa trajetória, já soma mais de 20 mil horas de palco e impactou cerca de 400 mil pessoas em palestras, treinamentos e eventos corporativos no Brasil e Estados Unidos. Seu trabalho nasce do princípio central de que valores importam. A partir dessa base, Branca desenvolveu métodos e programas que integram felicidade, propósito e autenticidade para apoiar pessoas e organizações a ampliarem consciência, performance e resultados sem abrir mão do bem-estar. Para ela, quando alguém aprende a reconhecer seus valores e a fazer escolhas intencionais, a autonomia deixa de ser discurso e passa a ser uma construção diária, consistente e sustentável. Formada em Programação Neurolinguística (PNL´.



Inteligência artificial impulsiona nova visão sobre trabalho e bem-estar

Inovação surge como aliada para aumentar produtividade, reduzir jornadas e manter competitividade das empresas

 

A discussão sobre o aumento da produtividade tem sido recorrente, especialmente agora em razão da tramitação do projeto de lei (PL 1838/2026), que busca reduzir a jornada de trabalho de 44 horas semanais para 40 horas.  Estudos recentes apontam que a adoção de soluções baseadas em IA pode elevar a produtividade em até 40% em determinadas atividades operacionais e administrativas.

Segundo levantamento da consultoria McKinsey, cerca de 60% das tarefas realizadas atualmente poderiam ser parcialmente automatizadas com tecnologias já disponíveis.

No Brasil, onde setores como comércio e serviços ainda dependem fortemente de mão de obra intensiva, a IA pode atuar otimizando processos, automatizando tarefas repetitivas e apoiando a tomada de decisões. Com isso, profissionais passam a focar em atividades estratégicas, criativas e de maior valor agregado.

 

Tecnologia como ponte entre produtividade e bem-estar

Para o coordenador do curso de Análise e Desenvolvimento de Sistemas da Afya Centro Universitário de Pato Branco, Cézar Augusto Mezzalira, o avanço da IA pode contribuir para os debates no Brasil.

“A Inteligência Artificial permite que empresas façam mais com menos tempo e menos esforço humano em tarefas repetitivas. Quando bem aplicada, ela não substitui o trabalhador, mas potencializa sua capacidade. Isso cria um cenário favorável para a produtividade no ambiente de trabalho”, explica Cézar, da Afya de Pato Branco.

Cézar ressalta que ferramentas de automação, análise preditiva e atendimento digital já são realidade em muitos negócios. “Hoje, um sistema inteligente consegue organizar estoques, prever demanda, automatizar atendimentos e até sugerir estratégias comerciais. Isso reduz gargalos operacionais e libera tempo das equipes”, acrescenta o coordenador do curso de ADS.

Ainda segundo o especialista, a IA é pode ser uma ferramenta estratégica nesse processo, porque permite redesenhar operações inteiras. “Com o avanço das discussões no país, a tendência é que tecnologia e novas formas de organização caminhem juntas, abrindo espaço para modelos mais sustentáveis tanto para empresas quanto para trabalhadores”, finalizada Cezar, coordenador do curso de ADS da Afya de Pato Branco.


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Por que trocar o prazer das telas de celular pelo prazer da leitura?


Minha desconfiança com o entretenimento instantâneo começou numa manhã de sexta, a caminho do trabalho. A situação trivial, naquele vagão de metrô, teria sido há muito esquecida, salvo por um detalhe curioso: todas as pessoas sentadas, dentro do meu campo visual, tinham a cabeça inclinada e os olhos pregados em seus respectivos celulares. Havia, entre elas, rostos curiosos e concentrados; alguns pareciam divertidos; outros, tristes. O único traço comum a todos era o isolamento social.

Vivenciamos, com o advento dos modernos aparelhos celulares, uma era de conforto, comunicação e acesso à informação sem precedentes. Informação no sentido mais amplo possível: da singela música infantil ao esquema de funcionamento de um artefato bélico nuclear, passando por toda a sorte de conteúdo pensado para capturar a atenção do usuário pelo maior período de tempo possível. Onipresentes na rede, algoritmos eficientes identificam preferências individuais, realimentando o usuário em um interminável carrossel de novidades afins.

É sabido que o cérebro humano tende a repetir ações que ativem o sistema de recompensa baseado nos chamados “hormônios do prazer”, cuja finalidade é o reforço de comportamentos favoráveis à sobrevivência do indivíduo, como o estresse da caça, a concentração do aprendizado ou o esforço físico produtivo. Como não há dilemas de sobrevivência envolvidos na interminável rolagem da telinha, temos, nesse caso, o reforço de um hábito que leva o usuário a consumir horas do seu tempo numa atividade absolutamente estéril, tudo pelas endorfinas “baratas” e instantâneas proporcionadas pelo celular.

Este apego moderno tem substituído hábitos antigos mais saudáveis, como o da leitura. Ler exige, contrariamente ao entretenimento instantâneo, investimento de longo prazo. Adiando a recompensa, comunicamos ao nosso cérebro que coisas boas exigem esforço, investimento e participação. Ler demanda esforço intelectual, disciplina e comprometimento. É treino mental. Treino que abre portas para a satisfação da tarefa cumprida, do trabalho bem-feito, do aprendizado e da realização pessoal.

Se o usuário compulsivo das telas tende à preguiça e à procrastinação – pois está viciado em recompensas imediatas –, o leitor assíduo treina sua mente para as demandas da vida e para a ação.

E aí, de qual lado você quer ficar? 

 

Marcel Bennet - escritor e autor do livro “Pássaro de Fogo – O Talismã de Yelnya”

 

Revolver a terra da memória: quando a literatura desorganiza o arquivo da História

A partir da ideia de anarquivamento, a escritora e crítica literária Myriam Scotti analisa como a literatura aparece como prática de deslocamento, alteridade e insurgência contra o apagamento histórico.

 

Nos últimos anos, a literatura contemporânea tem procurado recontar a História ao se insurgir contra os discursos oficiais que, por anos, moldaram nossa imaginação e criaram a impressão de haver uma história única, o que é um erro e um perigo, como já expôs a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Penso que escrever ficção abre a possibilidade de se reinventar o passado, revelando perspectivas deixadas de lado pelo olhar de quem não tinha a intenção (ou o interesse) de contar uma história completa. Escrever pode se tornar, assim, um gesto de anarquivamento, no sentido de se rebelar contra o que por anos foi tido como a única verdade possível.

 

Nesse movimento, Eliane Marques, no premiado Louças de família, revisita as heranças familiares para tensionar as camadas de silêncio que atravessam a memória e a formação social brasileira, revelando como a violência colonial permanece inscrita nas relações mais íntimas. Ao deslocar o olhar para aquilo que foi naturalizado, a autora expõe fissuras na narrativa histórica e nos convida a perceber o passado como uma matéria ainda em disputa. Já Geni Núñez, em Descolonizando afetos, propõe uma reflexão contundente sobre as formas pelas quais o colonialismo também organizou nossas maneiras de sentir, desejar e nos relacionar. Ao questionar afetos moldados pela lógica da dominação, a autora abre caminho para imaginar outras possibilidades de existência, baseadas na reciprocidade, no cuidado e na escuta. Ao desmontarem versões cristalizadas da História, ambas não apenas recuperam perspectivas silenciadas, mas também nos convocam a repensar o presente. 

 

À vista disso, minha escrita tenta, igualmente, abrir brechas para outras sensibilidades, isto é, para afetos que escapam às normas coloniais e patriarcais e afirmar a potência da narrativa como espaço de reinvenção do passado e, sobretudo, do futuro. Em minha mais recente obra, Sol abrasador prepara solo fértil – contos, não escrevo para repetir fatos, mas como tentativa de dar voz a quem deixamos de escutar ao longo da História, ou seja, para escutar silêncios: da terra, dos corpos, das histórias que insistem em permanecer soterradas. O passado, nas minhas narrativas, não é um arquivo morto; ele é terreno fértil. De modo que penso a escrita como deslocamento. Aliás, não só a escrita, mas sobretudo, a leitura. Afinal, me desloco do meu lugar enquanto escrevo, bem como os leitores se deslocam no momento em que mergulham na história e se permitem a fruição, aquela sensação incrível de quando nos sentimos parte da história, do texto, quando esquecemos o tempo e o espaço presente. 

 

Na verdade, trata-se de um processo de alteridade e compartilhamento que ocorre entre escritor e leitor, mas principalmente um gesto de alteridade com o mundo ao redor, pois depois de uma extenuante escrita ou de uma leitura exigente, já não voltamos os mesmos para o mundo nem para as pessoas com quem convivemos. Reinventar o passado, portanto, não é repetir o que já está nos registros oficiais, mas reescrevê-lo a partir de outras perspectivas. Pois o passado, como nos é contado, nunca nos chega inteiro: é fragmentado, é falho e a literatura está aí para quem se dispuser a reinventá-lo.

 

Escrever não é arquivar o passado, mas desorganizá-lo

 

Essa reflexão se conecta ao conceito de anarquivamento, do crítico literário Márcio Seligmann-Silva. Ele fala em recolecionar as ruínas dos arquivos e reconstruí-las de forma crítica. Para ele, os artistas (ainda que seu artigo se referisse à arte visual) abrem esses arquivos à anarquização, possibilitando que nos apropriemos deles de modo criativo. Pensando isso na literatura, percebo que escrever é também um gesto de anarquivar: não apenas resgatar memórias, mas desorganizá-las, inscrevendo-as de novo para que falem de outro modo. É nesse ponto que a metáfora da terra, tão presente na minha obra, se ilumina. Revolver a terra é revolver o arquivo: abrir camadas, deixar escapar cheiros, lembranças, vozes. É um gesto ao mesmo tempo violento, porque abre feridas; e vital, porque desse mesmo chão germina a possibilidade de vida nova, de se contar outras histórias.

 

Nos contos de Sol abrasador prepara solo fértil, esse gesto aparece como fragmentos de arquivo: pequenas histórias individuais e coletivas, restos de experiências que, ao serem recolhidos, se insurgem contra o apagamento. Escrever, assim, é anarquivar e reinventar; é insurgir contra os discursos oficiais que pretendem encerrar o passado em uma versão única. Minha escrita busca abrir brechas para outras sensibilidades, para afetos que escapam às normas coloniais e patriarcais. Nesse sentido, reinvento o passado porque a vida contemporânea exige outras narrativas. É esse gesto que me move: revolver a terra da memória para que dela brotem vozes, afetos e histórias capazes de reconfigurar o presente. Como Roland Barthes dizia, a língua precisa deixar de estar a serviço de um poder para, acima de tudo, estar a serviço da humanidade. Penso que sou uma escritora teimosa porque tento, por meio da escrita literária, me deslocar dos discursos que me cercam.

 

Myriam Scotti - escritora, crítica literária e mestre em Literatura pela PUC-SP. Seu romance “Terra Úmida” foi vencedor do Prêmio Literário de Manaus 2020. Em 2021, seu romance juvenil “Quem chamarei de lar?” (editora Pantograf) foi aprovado no PNLD literário e escolhido pelo edital Biblioteca de São Paulo. Em 2023, lançou o livro de poemas “Receita para explodir bolos” (editora Patuá). Foi finalista do prêmio Pena de Ouro 2021 na categoria Conto. Em 2024, ficou em segundo lugar na categoria conto do prêmio Off Flip. Myriam é autora de  “Sol abrasador prepara solo fértil“ (editora orlando, 2025, 136 págs.)


Desenhos animados para crianças: veja lista de indicações por faixa etária

Crédito: Magnific
 Educadores apontam produções adequadas para cada idade e explicam a importância das obras audiovisuais para o desenvolvimento dos pequenos

 

Os desenhos animados fazem parte do cotidiano de muitas famílias e podem ter um papel relevante no desenvolvimento infantil quando escolhidos com critério e consumidos de forma equilibrada. Além de oferecer entretenimento, as produções audiovisuais podem estimular a linguagem, criatividade, empatia e o aprendizado de conceitos básicos, sendo frequentemente utilizadas também como apoio em atividades pedagógicas na educação infantil e nos primeiros anos escolares. 

Contudo, a relação das crianças com telas exige atenção dos adultos. Bebês de até dois anos de idade não devem ter acesso a telas. Para crianças a partir dessa idade, o conteúdo dos desenhos precisa ser adequado à faixa etária, e o tempo de exposição deve ser limitado para evitar impactos negativos na concentração, no sono e no desenvolvimento cognitivo. 

“Nesse período, o desenvolvimento do indivíduo ocorre principalmente por meio da interação direta com pessoas, objetos e ambientes. Dessa forma, os pais não devem deixar a criança assistindo desenhos livremente, como se esse recurso fosse uma espécie de babá eletrônica”, explica Thaís Cadorin, coordenadora pedagógica do colégio Progresso Bilíngue de Vinhedo (SP). Além disso, programas com ritmo muito acelerado ou estímulos excessivos podem dificultar a capacidade de foco das crianças mais novas. “A exposição precoce a telas pode substituir experiências fundamentais para o desenvolvimento sensorial e social”, diz. 

Thaís ressalta que a presença dos pais durante o consumo de desenhos animados pode transformar o momento de entretenimento em uma oportunidade de aprendizado. “A mediação do adulto é fundamental. Quando os pais assistem junto com a criança e conversam sobre a história, o desenho deixa de ser apenas um passatempo e passa a ter um propósito educativo. Vale perguntar, por exemplo, por que determinado personagem tomou certa decisão, se a atitude dele foi correta ou como a criança se sentiria naquela situação”, explica. 

Segundo a docente, esse diálogo ajuda a desenvolver senso crítico, empatia e compreensão emocional. “Também é interessante relacionar o que aparece na tela com situações do dia a dia, estimulando a criança a refletir sobre valores, convivência e consequências das escolhas”, completa Thaís.
 

CONTEÚDOS INDICADOS PARA CADA FAIXA ETÁRIA
 

Primeira infância: de 2 a 6 anos 

A partir dos dois anos, o contato com desenhos animados pode ser introduzido gradualmente, sempre com supervisão e preferencialmente com a presença de um adulto. Para essa faixa etária, o consumo de desenhos deve ser de até uma hora por dia, intercalada com brincadeiras, leitura e atividades físicas. A recomendação é por conteúdos com ritmo mais calmo, narrativas simples e propostas educativas, que estimulem a linguagem, a curiosidade e habilidades socioemocionais. 

Segundo Jacqueline Cappellano, psicopedagoga e coordenadora da Educação Infantil da Escola Internacional de Alphaville – EIA, de Barueri (SP), o ideal é priorizar produções que valorizem a descoberta e a imaginação. “Desenhos com histórias simples, personagens empáticos e situações do cotidiano ajudam a criança a compreender emoções, regras de convivência e a ampliar o vocabulário”, afirma. “A presença de músicas, cores e histórias curtas facilita o aprendizado nessa idade, mas o conteúdo precisa ser equilibrado. Estímulos exagerados podem deixar a criança mais agitada ou dificultar a concentração”, explica. 

Entre os desenhos indicados pela docente da EIA para crianças pequenas, estão:
 

A Turma da Mônica: clássico brasileiro sobre amizade, imaginação e convivência entre crianças. Disponível no YouTube;
 

Caillou: mostra o cotidiano de um menino curioso que aprende sobre emoções, convivência e pequenas descobertas do dia a dia. Disponível no YouTube;
 

Charlie e Lola: a série acompanha o relacionamento entre dois irmãos e mostra, com humor e sensibilidade, situações comuns da infância, como dividir brinquedos e lidar com frustrações. Disponível no Prime Video;
 

Dora, a Aventureira: a personagem Dora vive aventuras interativas nas quais convida o público a ajudar a resolver desafios, estimulando o raciocínio e o aprendizado de palavras em inglês. Disponível no Paramount+;
 

Masha e o Urso: série russa sobre a relação divertida entre uma menina muito curiosa e um urso paciente. Disponível na Netflix;
 

Meu Amigãozão: produção brasileira em que três crianças vivem aventuras com amigos imaginários que ajudam a lidar com as emoções. Disponível no Globoplay;
 

Mundo Bita: produção musical brasileira que utiliza canções e personagens coloridos para ensinar valores, curiosidades e conceitos básicos às crianças. Disponível no YouTube;
 

O Show da Luna: a curiosa Luna transforma perguntas do cotidiano em aventuras científicas, estimulando o interesse por ciência e investigação nas crianças. Disponível no YouTube;
 

Os Backyardigans: cinco amigos vivem aventuras imaginárias cheias de música e criatividade no próprio quintal. Disponível no Prime Video;
 

Os Octonautas: equipe de exploradores marinhos vivem aventuras científicas enquanto aprendem sobre os animais do oceano. Disponível na HBO Max;
 

Peppa Pig: a série acompanha o cotidiano da porquinha Peppa, sua família e amigos, em histórias simples sobre brincadeiras, convivência e descobertas do dia a dia. Disponível na HBO Max;
 

Pocoyo: um menino curioso explora o mundo ao seu redor ao lado dos amigos. Com cenários simples e narrativa interativa, estimula a imaginação e o aprendizado de conceitos básicos. Disponível na Netflix;
 

Sid, o Cientista: série educativa em que um garoto faz perguntas e investiga fenômenos simples, estimulando a curiosidade científica. Disponível no Prime Video;
 

Tainá eos Guardiões da Amazônia: animação brasileira que apresenta aventuras na floresta e ensina sobre a natureza e a preservação ambiental. Disponível no Globoplay.
 

Idade escolar: de 6 a 12 anos
 

Com o início da vida escolar, a criança amplia sua capacidade de compreender narrativas mais estruturadas, acompanhando histórias com maior desenvolvimento de personagens e de temas diversos. Nesse contexto, os desenhos animados podem desempenhar um papel relevante no processo de aprendizagem, contribuindo para o desenvolvimento do pensamento crítico, da criatividade e da resolução de problemas, desde que haja intencionalidade na escolha dos conteúdos. 

“Sabemos que o tempo de exposição às telas ainda é um tema em discussão, mas as recomendações apontam para um limite entre uma e duas horas diárias, considerando todos os dispositivos. Do ponto de vista pedagógico, buscamos nos aproximar do tempo mínimo, priorizando a qualidade em vez da quantidade”, destaca Beatriz Martins, coordenadora pedagógica do Brazilian International School (BIS)

Segundo a educadora, mais do que restringir, é essencial orientar as crianças, pois as telas fazem parte da rotina. “Não se trata de proibir, mas de ensinar a criança a fazer boas escolhas e a refletir sobre o que consome.” Nesse sentido, conteúdos que exploram a ciência, a cooperação, a diversidade e os valores sociais tendem a ser especialmente ricos nessa fase do desenvolvimento. “Muitos desenhos conseguem traduzir conceitos complexos em narrativas acessíveis, ampliando o repertório cultural e despertando a curiosidade das crianças. Quando há acompanhamento e diálogo, o que elas assistem deixa de ser apenas entretenimento e se transforma em uma oportunidade significativa de aprendizagem”, acrescenta. 

Entre os desenhos indicados pela docente do Colégio BIS, para crianças maiores, estão:
 

Ask the StoryBots: pequenos personagens ajudam a responder perguntas das crianças sobre o mundo, explorando temas como corpo humano, espaço e tecnologia de forma acessível e divertida. Indicado a partir de 6 anos. Disponível na Netflix;
 

Avatar, A Lenda de Aang: acompanha um jovem responsável por restaurar o equilíbrio entre nações, abordando ética, responsabilidade e amizade. Indicado a partir de 8 anos. Disponível na Netflix;
 

Ben 10: um garoto se transforma em diferentes criaturas para enfrentar desafios, com foco em ação e estratégia. Indicado a partir dos 7 anos, com equilíbrio. Disponível no YouTube;
 

Carmen Sandiego: série investigativa que explora a geografia, a cultura e a história do mundo. Indicado a partir de 8 anos. Disponível na Netflix;
 

DuckTales: aventuras leves com foco em família, curiosidade e descobertas pelo mundo. Indicado a partir de 6 anos. Disponível no Disney+;
 

Hilda: acompanha uma menina que explora um mundo repleto de criaturas e descobertas, trabalhando a coragem, a empatia e a abertura ao diferente. Indicado a partir de 7/8 anos. Disponível na Netflix;
 

Jimmy Neutron: um menino cientista resolve problemas com suas invenções, estimulando o raciocínio lógico e a curiosidade. Indicado a partir de 6 anos. Disponível no Paramount+;
 

O Laboratório de Dexter: um garoto-gênio cria invenções em seu laboratório secreto, em histórias que unem humor e ciência. Indicado a partir de 6 anos. Disponível na HBO Max;
 

O Príncipe Dragão: aborda conflitos entre reinos, empatia e convivência entre culturas. Narrativa mais complexa. Indicado a partir de 9 anos. Disponível na Netflix;
 

Phineas e Ferb: dois irmãos criam projetos criativos durante as férias, estimulando imaginação, curiosidade e resolução de problemas. Indicado a partir de 6 anos. Disponível no Disney+;
 

Pokémon: aventuras com batalhas entre criaturas, destacando amizade, estratégia e perseverança. Indicado a partir dos 6 anos, com mediação. Disponível na Netflix;
 

Scooby-Doo: um grupo de amigos resolve mistérios, incentivando curiosidade, investigação e trabalho em equipe. Indicado a partir de 6 anos. Disponível no YouTube;
 

Wild Kratts: dois irmãos exploram o mundo animal em aventuras baseadas na ciência, promovendo a consciência ambiental. Indicado a partir de 6/7 anos. Disponível na Prime Video.
 

Proibidos para crianças 

Nem todo desenho animado é apropriado para o público infantil. Algumas produções apresentam violência excessiva, linguagem inadequada, humor adulto ou temas complexos, como sexualidade ou conflitos psicológicos intensos, que podem gerar confusão ou medo nas crianças. Por abordarem assuntos que exigem maior maturidade emocional e senso crítico, devem ser consumidos apenas por adolescentes mais velhos e adultos. 

Além disso, Renata Alonso, coordenadora pedagógica da Escola Bilíngue Aubrick, de São Paulo (SP), alerta para o crescimento de conteúdos falsos ou inadequados disfarçados de produções infantis, especialmente em plataformas abertas da internet. “Os adultos precisam supervisionar o que as crianças assistem, principalmente na internet. Nem tudo que parece infantil realmente é apropriado”, diz. 

Entre os títulos que devem ser evitados por menores de 12 anos, a educadora cita:
 

Big Mouth: animação voltada para adolescentes mais velhos e adultos que aborda puberdade e sexualidade de forma explícita;
 

Family Guy: comédia animada que utiliza humor politicamente incorreto, referências sexuais e piadas voltadas para adultos;
 

Rick and Morty: a série acompanha aventuras de ficção científica com humor ácido, violência e temas existenciais complexos;
 

South Park: série satírica conhecida por humor extremamente ácido, linguagem ofensiva e críticas sociais direcionadas ao público adulto.
 

“A curadoria dos pais continua sendo essencial. O desenho animado pode ser um aliado no desenvolvimento infantil, mas apenas quando o conteúdo e o tempo de consumo são adequados”, conclui Renata.
  


Beatriz Martins Perpetuo - educadora com mais de 30 anos de atuação na educação, sendo 18 deles em funções de liderança pedagógica, formando equipes, projetos e — principalmente — pessoas. Possui licenciatura plena pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduação pelo Instituto Singularidades. Atualmente atua como coordenadora pedagógica no Colégio BIS.

Jacqueline Cappellano - pedagoga, pós-graduada em Bilinguismo e Psicopedagogia coordenadora da Educação Infantil da Escola Internacional de Alphaville. É uma grande entusiasta da Educação Bilíngue e fascinada pelo universo da educação infantil. Enxerga no intercâmbio entre ideias e culturas, um caminho para a paz entre os povos.

Renata Alonso - formada em Pedagogia e pós-graduada em Psicomotricidade, com mais de 15 anos de experiência em educação bilíngue. Sua grande paixão são as crianças bem pequenas, e seus estudos são voltados à primeira infância, crianças de 0 a 3 anos. Com um olhar atento ao desenvolvimento integral dos pequenos, Renata acredita que essa fase da vida é crucial para a formação de indivíduos seguros, criativos e capazes de se expressar com confiança. Seu trabalho visa proporcionar um ambiente acolhedor e estimulante para o aprendizado, sempre com foco no cuidado e no afeto.

Thaís Cadorin - possui mais de 25 anos de experiência na área educacional, com sólida atuação na Educação Infantil e nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental. Graduada em Pedagogia e pós-graduada em Educação Infantil e Alfabetização, construiu sua trajetória profissional pautada no compromisso com a excelência no ensino e no desenvolvimento integral dos alunos. Integra a equipe do Colégio Progresso Vinhedo há 15 anos, onde, desde 2019, exerce a função de coordenadora dos anos iniciais do Ensino Fundamental, atuando no acompanhamento pedagógico, na orientação docente e na implementação de práticas educacionais alinhadas à aprendizagem dos alunos.
  


International Schools Partnership - ISP
Para mais informações, acesse o site.

 


A pressão social sobre mulheres que não querem ser mães e seus impactos na saúde mental

 

A decisão de não ter filhos ainda provoca estranhamento em muitos contextos sociais, especialmente quando essa decisão parte de mulheres. Em uma sociedade que historicamente associa a maternidade à identidade feminina, escolher um caminho diferente pode significar enfrentar julgamentos, questionamentos e até tentativas de invalidação dessa escolha. Mais do que uma decisão individual, o tema revela padrões culturais profundamente enraizados sobre o que significa ser mulher. 

A maternidade, por muito tempo, foi tratada como um destino natural e quase obrigatório, sustentado por fatores históricos, religiosos e sociais que valorizam o papel feminino como cuidadora. Quando uma mulher opta por não seguir esse caminho, ela desafia esse modelo estabelecido, o que frequentemente gera reações negativas. Em muitos casos, a ausência do desejo de ser mãe é interpretada como egoísmo, imaturidade ou até falha emocional, evidenciando mais sobre os valores da sociedade do que sobre a escolha em si. 

Esse cenário pode trazer impactos significativos para a saúde mental. A pressão constante leva, muitas vezes, a sentimentos de inadequação, culpa e isolamento. Não é incomum que mulheres se vejam obrigadas a justificar repetidamente uma decisão que deveria ser íntima. Em situações mais intensas, esse desgaste emocional pode evoluir para quadros de ansiedade, estresse crônico e baixa autoestima. Há ainda o risco de internalização desse julgamento, gerando dúvidas persistentes sobre uma escolha que, em essência, é pessoal. 

As expectativas de gênero reforçam esse processo ao longo da vida. Desde a infância, muitas mulheres são expostas a discursos e representações que colocam a maternidade como um marco central da vida adulta. Esse “roteiro” social se intensifica com o tempo, especialmente em fases em que surgem cobranças relacionadas a casamento e filhos. Quando esse caminho não é seguido, a decisão tende a ser questionada ou desvalorizada, criando um ambiente de pressão contínua. 

Diferenciar um desejo genuíno de não ser mãe de uma decisão influenciada por medo ou contexto externo exige reflexão. Em geral, escolhas alinhadas aos próprios valores tendem a se manter consistentes ao longo do tempo. Já decisões baseadas em insegurança podem vir acompanhadas de ambivalência e sofrimento. O ponto central não está em rotular a escolha, mas em compreender sua origem e garantir que ela seja feita com autonomia e consciência. 

Diante desse cenário, algumas estratégias podem ajudar a preservar o bem-estar emocional. Estabelecer limites claros, especialmente em relação a conversas invasivas, é um passo importante. Construir uma rede de apoio também funciona como fator de proteção, assim como a psicoterapia, que pode auxiliar no fortalecimento da autonomia e na elaboração dos sentimentos gerados pela pressão social. Trabalhar a validação interna, reconhecendo a legitimidade da própria decisão independentemente da aprovação externa, é um dos pilares para uma relação mais saudável consigo mesma. 

É fundamental compreender que não querer ser mãe não é um problema a ser corrigido, mas uma possibilidade legítima de trajetória de vida. A saúde mental está menos relacionada ao cumprimento de expectativas sociais e mais à capacidade de viver de forma coerente com os próprios valores. Ampliar a forma como entendemos o papel da mulher na sociedade é um passo essencial para reduzir estigmas e garantir que escolhas individuais sejam respeitadas. No fim, o debate sobre maternidade não deve ser sobre imposição, mas sobre liberdade. E promover essa liberdade é também uma forma de cuidar da saúde mental coletiva, criando espaços mais diversos, acolhedores e compatíveis com a pluralidade das experiências humanas. 

 

Guido Boabaid May - Médico psiquiatra há mais de 32 anos, com mais de 110 mil consultas realizadas, mais de 1.100 pacientes em tratamento guiado com teste farmacogenético e pioneiro da farmacogenética no Brasil. Guido também é fundador e CEO da GnTech, empresa de biotecnologia pioneira e líder em farmacogenética no Brasil, com mais de 25 mil testes farmacogenéticos realizados sob sua liderança, a empresa é detentora do maior banco de dados de farmacogenética sobre a população brasileira. Boabaid também atua como médico do Corpo Clínico do Hospital Israelita Albert Einstein e é autor do livro "Onde Foi Parar Minha Alegria?”, publicado em 2025.


Quando o dinheiro vira ansiedade: o custo invisível da desorganização financeira


A relação dos brasileiros com o dinheiro está longe de ser apenas matemática. Ela é emocional, comportamental e, muitas vezes, silenciosa. Não por acaso, a desorganização da vida financeira tem se consolidado como uma das principais fontes de ansiedade - um problema que começa nas planilhas, mas rapidamente atravessa a saúde mental. 

Dados recentes levantados pelo Velotax mostram que o medo mais recorrente quando o assunto é dinheiro não está necessariamente ligado ao quanto se ganha, mas à sensação de falta de controle: não ter ou não saber administrar. Isso ajuda a explicar por que tantos brasileiros convivem com dívidas que são “empurradas com a barriga” - sejam contas básicas, aluguel, parcelas de cartão ou financiamentos. 

O retrato é ainda mais delicado quando olhamos para o tempo de sustentação desse cenário: enquanto 35,8% das pessoas conseguem permanecer nessa situação por mais de três meses, 35,6% não conseguem passar sequer um mês. Ou seja, há uma tensão constante, que oscila entre o limite e o colapso. 

Essa pressão contínua não é neutra. Pelo contrário, ela se acumula e se transforma. 

Do ponto de vista da psicologia, um dos mecanismos que mantém as pessoas presas nesse ciclo de ansiedade financeira é a construção de uma narrativa interna de incapacidade. Quando alguém passa a acreditar que “não sabe lidar com dinheiro”, que “sempre erra” ou que “não tem saída”, cria-se um terreno fértil para a paralisia. A preocupação deixa de ser pontual e passa a ser estrutural. 

E há um ponto de virada importante: quando essa preocupação começa a gerar prejuízos reais na vida da pessoa. Isso pode aparecer no afastamento de amigos e da família, na perda de interesse em resolver o problema, na sensação de que não há solução possível. Nesse estágio, não estamos mais falando apenas de finanças, mas também de saúde mental. 

Os dados reforçam essa dimensão emocional. Na pesquisa do Velotax, entre os mais de 3000 entrevistados, 32,2% apontam que o maior peso da situação financeira vem de decisões erradas no passado, enquanto 25,2% relacionam ao alto custo de vida. Independentemente da origem, o impacto é profundo: 97,6% afirmam que só se sentirão aliviados quando quitarem suas dívidas. 

O pensamento de que “só vou ficar bem quando tudo estiver resolvido” pode ser perigoso. Ele desloca o bem-estar para um futuro incerto e, ao mesmo tempo, intensifica a sensação de aprisionamento no presente. 

Outro dado que chama atenção é o fato de que 56,9% das pessoas lidam com seus problemas financeiros de forma velada. Ou seja, não compartilham, não pedem ajuda, não dividem a carga. O silêncio, nesse contexto, não protege - ele isola. 

Paradoxalmente, há um esforço de mudança: a maioria dos entrevistados consome conteúdos de educação financeira, seja com frequência (26,8%) ou ocasionalmente (39,7%), principalmente no YouTube e no Instagram. Isso indica que existe interesse e disposição para aprender, mas muitas vezes, falta suporte prático e emocional para transformar conhecimento em ação.
 

É aqui que a conversa precisa amadurecer. 

Organizar a vida financeira não é apenas uma questão de disciplina ou informação. É também sobre lidar com emoções como culpa, vergonha e medo. É sobre reconhecer que o dinheiro ocupa um papel importante na nossa sensação de segurança, mas não pode ser o único pilar que sustenta o bem-estar. 

Na prática, isso passa também por criar caminhos possíveis de recomeço. Durante a estruturação do Velotax, uma das preocupações foi justamente ampliar o acesso a soluções para quem, muitas vezes, é deixado de fora do sistema tradicional — inclusive pessoas negativadas, que encontram mais barreiras do que alternativas. Iniciativas que permitem renegociação de dívidas com descontos relevantes, que podem chegar a até 90%, ou que oferecem formas mais acessíveis de crédito, ajudam a transformar um cenário de bloqueio em possibilidade de retomada. Plataformas como o próprio Serasa também cumprem um papel importante ao ampliar essas alternativas no mercado. 

Mais do que resolver tudo de uma vez, é fundamental começar de algum lugar. Pequenos avanços já são capazes de reduzir a sensação de descontrole e devolver ao indivíduo uma percepção de autonomia sobre a própria vida financeira. 

Em momentos de instabilidade financeira, fortalecer outros aspectos da vida é essencial. Manter vínculos sociais, cultivar uma rede de apoio e encontrar formas acessíveis de lazer ajudam a evitar que o problema financeiro se torne o centro absoluto da existência. Afinal, ele é um problema, não a definição de uma vida. 

Isso não significa ignorar a realidade. Pelo contrário: enfrentar a situação financeira é necessário e, muitas vezes, desconfortável. Mas esse enfrentamento precisa vir acompanhado de estratégia e, sobretudo, de humanidade. A vida financeira, assim como a própria vida, é cíclica. Haverá momentos de aperto e de alívio. O que não pode acontecer é transformar uma fase difícil em uma sentença permanente. 

No fim das contas, organizar o dinheiro é também reorganizar a forma como nos relacionamos com ele - e com nós mesmos. Porque, quando a conta não fecha, não é só o saldo que fica negativo. A saúde mental também entra no vermelho.

 

Victor Savioli - Cofundador do Velotax. Especialista em crédito e tecnologia com anos de experiência na área de risco de crédito do Banco de Investimento J.P. Morgan. 

Carol Melhem - psicóloga clínica. Formada em psicologia em 2002 pela UNIP e pós-graduada em Terapia Cognitiva Comportamental pelo CTC Veda, atende adultos e adolescentes. Também é especialista também em ACT (Terapia de Aceitação e Compromisso) pelo Hospital das Clínicas.

 

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