Ardor,
ressecamento, dor durante a relação sexual, escapes e desconfortos na região
íntima. Durante décadas, esses sintomas foram tratados como consequências
inevitáveis da menopausa, algo que as mulheres simplesmente deveriam aceitar em
silêncio
Hoje, esse cenário começa a mudar. Com o avanço da medicina
e o acesso a tratamentos menos invasivos, cada vez mais mulheres procuram ajuda
especializada para recuperar o conforto íntimo, a função sexual e a qualidade
de vida após a queda hormonal.
A menopausa deixou de ser vista como o fim de uma fase ativa
do corpo feminino. Para muitas mulheres, ela passou a ser um momento de
transição que também pode, e deve, ser tratado.
O que acontece com a
região íntima após a menopausa
A menopausa é marcada pela redução significativa dos níveis
de estrogênio, hormônio responsável por manter a saúde dos tecidos vaginais e
do assoalho pélvico. Com essa queda hormonal, ocorrem alterações estruturais e
funcionais que podem afetar diretamente o conforto íntimo.
Entre as principais mudanças estão:
- afinamento
e ressecamento da mucosa vaginal
- perda
de elasticidade dos tecidos
- redução
da lubrificação natural
- maior
fragilidade da região íntima
- alterações
no assoalho pélvico e na função anorretal
Esse conjunto de sintomas é conhecido como síndrome
geniturinária da menopausa, condição que pode atingir mais da metade das
mulheres nessa fase da vida, segundo estudos clínicos internacionais.
Além do impacto físico, o quadro também pode afetar a
autoestima, a vida sexual e o convívio social.
“Muitas mulheres chegam ao consultório dizendo que deixaram
de ter relação ou passaram a evitar atividades simples por causa do desconforto
íntimo. O mais preocupante é que muitas acreditam que isso é normal e
inevitável”, explica a médica Amanda Vilas Calheiros, especialista em saúde
íntima feminina, com formação pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de
Medicina da USP.
Sintomas comuns e
frequentemente ignorados
Embora a menopausa seja um processo natural, os sintomas
associados a ela não precisam ser normalizados quando passam a interferir na
qualidade de vida.
Entre os sinais mais comuns estão:
- dor
durante a relação sexual
- ardor
ou coceira persistente
- sensação
de peso ou pressão íntima
- escapes
de gases ou fezes
“Muitas vezes, a
mulher procura ajuda apenas quando a dor se torna insuportável ou quando o
desconforto já afeta sua rotina. Mas o ideal é procurar avaliação logo nos
primeiros sinais”, orienta a especialista.
Região íntima,
intestino e assoalho pélvico: uma relação direta
Um dos aspectos menos discutidos sobre a menopausa é a
ligação entre a região íntima, o intestino e a musculatura do assoalho pélvico.
Com a queda hormonal, os tecidos perdem sustentação e elasticidade,
o que pode afetar funções essenciais como a evacuação, a continência e o
conforto durante a relação sexual.
“Muitos sintomas que parecem ginecológicos têm origem
funcional, envolvendo musculatura, nervos e a coordenação do assoalho pélvico.
Quando tratamos apenas a superfície, sem avaliar a função, o problema tende a
persistir”, explica a Dra. Amanda.
Essa abordagem integrada é uma das razões pelas quais
especialistas em coloproctologia e fisiologia anorretal têm ganhado espaço no
cuidado da saúde íntima feminina.
O avanço dos
procedimentos íntimos na menopausa
Nos últimos anos, a medicina passou a oferecer tratamentos
menos agressivos para sintomas íntimos relacionados à menopausa. Entre eles, o
uso terapêutico do laser CO₂ vem ganhando destaque.
Estudos clínicos mostram que esse tipo de tecnologia pode
ajudar a estimular a produção de colágeno, melhorar a vascularização local e
reduzir sintomas como ressecamento e dor durante a relação sexual. Pesquisas
comparativas indicam que, em alguns casos, os resultados podem se aproximar dos
obtidos com terapias hormonais, especialmente em mulheres que não podem
utilizar reposição hormonal.
No entanto, especialistas reforçam que o procedimento não
deve ser encarado como solução estética simples.
“O laser é uma ferramenta médica, não um tratamento de moda.
Ele deve ser indicado após avaliação completa, considerando os sintomas, a
história clínica e as necessidades de cada paciente”, afirma a médica.
Além do laser vaginal, tecnologias minimamente invasivas
também têm sido utilizadas no tratamento de hemorroidas e outras condições
anorretais comuns após a menopausa, com menor dor e recuperação mais rápida.
Procedimentos
íntimos não são apenas estéticos
A procura por procedimentos íntimos ainda carrega o estigma
da estética, como se fosse apenas uma busca por aparência. Na prática, a
maioria das mulheres procura tratamento por causa de sintomas físicos e
funcionais.
“O erro é achar que o objetivo é apenas estético. Na
menopausa, muitas mulheres querem voltar a sentar sem dor, ter relação sem
desconforto ou simplesmente se sentir bem no próprio corpo”, explica Amanda.
Segundo a especialista, a estética íntima saudável é
consequência de tecidos bem irrigados, funcionais e sem dor. Quando a função
está comprometida, tratar só a aparência não resolve o problema. O foco deve
ser sempre a saúde e o conforto da mulher.
Quando procurar
ajuda
A recomendação médica é buscar avaliação sempre que surgirem
sintomas persistentes, especialmente:
- ressecamento
que não melhora
- escapes
de gases ou fezes
“Menopausa não deveria significar dor. Quando a mulher
começa a mudar seus hábitos para evitar desconfortos íntimos, o corpo está
pedindo atenção”, alerta a especialista.
Uma nova visão sobre
o envelhecimento feminino
Com o aumento da expectativa de vida, muitas mulheres passam
décadas na fase pós-menopausa. Diferentemente das gerações anteriores, elas
seguem ativas, trabalham, viajam, praticam exercícios e mantêm vida sexual.
Nesse contexto, aceitar dor ou desconforto íntimo como algo
natural deixa de fazer sentido.
“A mulher não
precisa aceitar o sofrimento como parte do envelhecimento. Hoje, temos recursos
para tratar esses sintomas e devolver qualidade de vida”, conclui a Dra. Amanda
Vilas Calheiros.
Amanda Vilas Calheiros - médica especialista em cirurgia do aparelho digestivo e coloproctologia, com formação em fisiologia anorretal pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atua no cuidado da saúde íntima feminina, integrando abordagem funcional, tratamentos modernos com laser e cirurgia minimamente invasiva para condições anorretais e alterações que impactam diretamente o conforto e a qualidade de vida da mulher.