Frio, bebidas geladas, rouquidão e pigarro estão entre as dúvidas mais comuns desta época do ano. Otorrinolaringologista explica o que realmente prejudica a saúde vocal — e o que não passa de mito
Todo inverno é a
mesma história. Basta alguém pedir um copo de água gelada ou um sorvete para
surgir o alerta: "Cuidado, isso faz mal para a garganta!" Da mesma
forma, muitas pessoas acreditam que falar, cantar ou dar aulas em dias frios
pode provocar rouquidão. Mas será que essas recomendações têm fundamento
científico?
Segundo o
otorrinolaringologista Dr. Alexandre Y. Kumagai, do Hospital Paulista, muitas
dessas crenças atravessam gerações e acabam sendo confundidas com fatores que
realmente interferem na saúde vocal. "A água gelada costuma levar a culpa,
mas não é a verdadeira responsável pelos problemas de voz. A água gelada, por
si só, não faz mal para a garganta nem para as pregas vocais. O líquido
ingerido percorre o esôfago e não entra em contato direto com as estruturas
responsáveis pela produção da voz. Portanto, dizer que a água gelada 'estraga a
voz' não encontra respaldo nas evidências científicas."
Isso não
significa, porém, que algumas pessoas não possam sentir desconforto ao consumir
bebidas muito frias. Quem está com uma infecção viral, refluxo, garganta
irritada ou apresenta maior sensibilidade na região pode perceber uma sensação
temporária de contração, pigarro ou irritação. "Nesses casos, o frio não
provoca uma lesão. Ele apenas pode intensificar um desconforto que já
existia."
O frio é mesmo o vilão?
Outra dúvida muito
frequente é se falar, cantar ou dar aulas em ambientes frios pode causar
rouquidão. De acordo com Dr. Alexandre Y. Kumagai, a temperatura baixa,
isoladamente, não é a responsável pelo problema. "No inverno, o maior
inimigo da voz não é o frio, e sim a combinação entre ar seco, desidratação e
uso excessivo da voz. O frio, por si só, não é uma causa direta de rouquidão.
Durante o inverno, diversos fatores costumam atuar em conjunto, como a baixa
umidade do ar, o ressecamento das mucosas, as infecções respiratórias, a
congestão nasal, a menor ingestão de água e o maior esforço vocal em ambientes
fechados e barulhentos."
Por isso, muitas
pessoas associam a perda da voz ao frio quando, na realidade, o quadro pode
estar relacionado a uma virose, a uma crise de rinite, ao refluxo ou
simplesmente ao uso excessivo da voz.
Os verdadeiros inimigos da voz
Se o problema não está na água gelada nem na temperatura ambiente, quais hábitos realmente merecem atenção? Segundo o médico, os principais vilões da saúde vocal durante o inverno são o ressecamento das vias aéreas, a baixa umidade do ar, o uso frequente de aquecedores e aparelhos de ar-condicionado, a desidratação, as infecções respiratórias, as alergias, o refluxo gastroesofágico, o tabagismo, o consumo excessivo de bebidas alcoólicas e o abuso vocal.
Há ainda
comportamentos bastante comuns que acabam agravando o problema, como pigarrear
repetidamente, falar ou gritar para competir com o barulho e recorrer à
automedicação com descongestionantes nasais ou anti-histamínicos, medicamentos
que podem favorecer o ressecamento da mucosa.
Quem trabalha com a voz precisa redobrar os cuidados
Professores, jornalistas, advogados, operadores de telemarketing, locutores, cantores e outros profissionais que dependem da voz no dia a dia devem adotar alguns cuidados extras durante os meses mais frios.
Entre as principais recomendações estão manter uma boa hidratação ao longo do dia, umidificar os ambientes quando o ar estiver muito seco, fazer pequenas pausas vocais, evitar pigarrear e realizar um aquecimento vocal antes de períodos de uso mais intenso da voz.
"Também é importante tratar adequadamente condições como rinite, refluxo e
infecções respiratórias quando elas estiverem presentes. Sempre que possível,
vale utilizar microfone em ambientes amplos e evitar falar ou cantar
intensamente durante episódios de laringite."
Quando procurar um especialista?
"Rouquidão
persistente por mais de quatro semanas, dificuldade para respirar ou engolir,
dor intensa, presença de sangue na saliva, perda de peso sem explicação ou
aparecimento de nódulos no pescoço exigem avaliação por um
otorrinolaringologista."
Para Dr. Alexandre
Y. Kumagai, compreender a diferença entre mitos e evidências científicas ajuda
não apenas a preservar a voz, mas também a evitar preocupações desnecessárias.
"Cuidar da
voz é muito mais do que evitar uma bebida gelada: é manter bons hábitos de
hidratação, tratar corretamente as doenças respiratórias e respeitar os limites
do próprio organismo. Quando entendemos o que realmente faz diferença,
conseguimos proteger a voz durante todo o ano."
Hospital Paulista de Otorrinolaringologia





