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segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Hiperconectividade afeta o sono e pode comprometer a rotina de trabalho; 12% têm fadiga diurna, mostra estudo com mais de 60 mil brasileiros

Uso constante de telas, redes sociais e notificações pode prejudicar o descanso e repercutir na concentração, no humor e no desempenho durante o dia


Estar conectado se tornou parte da rotina. O celular acompanha as pessoas ao longo do dia, as redes sociais ocupam momentos de pausa e notificações interrompem atividades. Essa hiperconectividade, porém, pode ter um efeito que vai muito além do tempo passado diante das telas: ela também pode afetar o sono e, consequentemente, a forma como as pessoas funcionam no dia seguinte, inclusive no trabalho, alerta a Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV).

Dados do estudo ELSA-Brasil ajudam a dimensionar esse cenário. Entre 2.064 participantes avaliados por actigrafia e avaliação clínica, 27,2% apresentaram duração média de sono inferior a seis horas. Nesse grupo, houve 45% maior chance de sonolência diurna excessiva.

“A sonolência diurna não deve ser tratada apenas como desconforto ou cansaço. Ela pode reduzir a atenção sustentada, aumentar o tempo de reação e comprometer a tomada de decisão. Em atividades que envolvem condução de veículos, máquinas, trabalho em altura ou outras tarefas críticas, isso também pode representar um fator relevante para a segurança no trabalho”, alerta Ana Carolina Peuker, psicóloga e diretora de Mercado e Expansão da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV).
 

Uma conexão que não termina quando o dia acaba 

A influência da hiperconectividade sobre o sono não acontece de uma única maneira. O uso de dispositivos pode simplesmente ocupar o tempo que seria destinado ao descanso. Ao mesmo tempo, conteúdos, jogos, redes sociais, mensagens e notificações podem manter a pessoa cognitivamente e emocionalmente estimulada justamente no período em que deveria começar a desacelerar. A exposição à luz durante a noite também pode interferir nos sinais biológicos que organizam o ciclo sono-vigília. Por isso, não é apenas a quantidade de tempo diante da tela que importa, mas também o horário e a forma como os dispositivos são utilizados. Um estudo realizado com dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) brasileira, cuja base foi composta por 60.202 adultos, mostrou que 14% das pessoas possuem distúrbios do sono e aproximadamente 12% apresentam fadiga diurna. Entre 5% e 8% possuem ambos os sintomas.
 

O impacto da noite pode aparecer durante o dia

É durante o dia, portanto, que parte da conta da hiperconectividade pode aparecer. A pessoa dorme menos, acorda cansada e precisa lidar com uma rotina que exige concentração, tomada de decisões, interação com outras pessoas e capacidade de responder a diferentes demandas.

“No trabalho, sono insuficiente e fadiga podem repercutir em processos cognitivos essenciais, como concentração, memória, regulação emocional e capacidade de lidar com situações complexas. Quando isso se torna recorrente, deixa de ser apenas uma questão de bem-estar individual e passa a exigir atenção também sob a perspectiva da organização do trabalho, da saúde e da prevenção de riscos”, destaca Ana Carolina Peuker.
 

Uma questão individual e também organizacional

Cuidar do sono é uma responsabilidade individual, mas a discussão também pode ser ampliada para os ambientes e as relações de trabalho. Se a conectividade faz parte da forma como as pessoas trabalham, estratégias de promoção da saúde precisam considerar também os períodos de descanso e desconexão.

Isso pode envolver desde hábitos individuais, como estabelecer limites para o uso de dispositivos à noite, até práticas organizacionais que respeitem os períodos de descanso e evitem transformar a disponibilidade permanente em expectativa cotidiana. 

“A tecnologia pode ampliar produtividade, flexibilidade e acesso, mas precisa vir acompanhada de limites claros. Uma cultura em que mensagens fora do horário, respostas imediatas e disponibilidade contínua se tornam regra pode dificultar a recuperação necessária entre uma jornada e outra. Organizações maduras precisam olhar para a hiperconectividade também como uma dimensão da gestão do trabalho e criar condições reais para que os períodos de descanso sejam respeitados”, completa Ana Carolina Peuker.


Fones de Ouvido

 

Não é só o volume: tempo de exposição também aumenta risco de perda auditiva entre jovens 

Otorrino do Hospital Paulista explica como o uso frequente de fones, shows, festas e outros ambientes com som elevado podem afetar a audição

 


Fones de ouvido fazem parte da rotina de muitos jovens, seja para ouvir música, acompanhar vídeos, jogar ou estudar. O problema não está necessariamente no uso do acessório, mas na combinação entre intensidade do som e tempo de exposição. Quanto mais alto o volume, menor deve ser o período de contato com o ruído.

A exposição repetida a sons em intensidade elevada pode provocar a chamada perda auditiva induzida por ruído (PAIR), que ocorre principalmente por danos às células sensoriais da cóclea, estruturas delicadas do ouvido interno que não se regeneram. 

“Os danos ocorrem principalmente nas células sensoriais da cóclea, que são estruturas muito delicadas e que praticamente não se regeneram. Com exposições repetidas e intensas, esse dano pode se tornar permanente e progressivo”, explica a otorrinolaringologista Dra. Bruna Assis, do Hospital Paulista, referência nacional em ouvido, nariz e garganta. 

Segundo a especialista, alguns sinais podem aparecer antes mesmo de uma perda auditiva mais evidente, como zumbido após ouvir música, sensação de ouvido tampado ou abafado, dificuldade para entender a fala em ambientes ruidosos e dificuldade para perceber sons mais agudos. O zumbido também pode persistir mesmo depois que a exposição ao som termina.
 

Quanto mais alto, menor deve ser o tempo de exposição 

Volume e duração da exposição estão diretamente relacionados. Como referência, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que uma exposição média a 80 decibéis (dB) corresponda a aproximadamente 40 horas por semana. A 90 dB, esse período cai para cerca de quatro horas semanais. 

Na prática, isso significa que não existe apenas um “volume perigoso”: é preciso considerar por quanto tempo a pessoa permanece exposta ao som. “É a combinação dos dois. Quanto maior o volume, menor deve ser o tempo de exposição. E quanto mais tempo a pessoa permanece exposta, menor deveria ser a intensidade”, orienta a médica. 

Por isso, a recomendação é manter o volume em níveis moderados, abaixo de aproximadamente 60% da capacidade do aparelho, e fazer pausas durante o uso. Ainda assim, não existe um limite absolutamente seguro que possa ser aplicado da mesma forma a todas as pessoas.
 

Fone intra-auricular não é necessariamente mais prejudicial à audição 

Apesar da percepção comum de que os modelos intra-auriculares seriam necessariamente mais nocivos, o tipo de fone não é o principal fator relacionado à perda auditiva por ruído. Nesse caso, o que mais importa é a intensidade do som e o tempo de exposição. 

Os modelos que ficam dentro do ouvido, porém, podem estar associados a outros problemas. Segundo a Dra. Bruna, o uso de fones intra-auriculares pode aumentar o risco de infecções da orelha externa, impactação de cerume e eczemas, especialmente em pessoas que já apresentam predisposição a essas condições. 

“Pacientes com maior predisposição a essas patologias podem dar preferência ao uso de fones do tipo concha para evitar esses tipos de complicações”, explica.


O risco não está apenas nos fones 

Mesmo quem controla o volume dos fones pode estar submetido a níveis elevados de ruído em outras situações do cotidiano. Shows, festas, baladas, festivais, academias, eventos esportivos e outros ambientes com música ou som amplificado também podem representar uma exposição excessiva. 

A proximidade das caixas de som e o tempo de permanência nesses locais aumentam ainda mais a exposição. Por isso, os cuidados com a audição precisam considerar o conjunto de hábitos e ambientes frequentados ao longo da semana. 

Em locais com som elevado, uma das medidas de proteção é utilizar protetores auriculares adequados, especialmente quando não é possível reduzir a intensidade do ruído ou se afastar da fonte sonora. O uso do protetor, no entanto, não elimina a necessidade de limitar o tempo de exposição. Sempre que possível, também é recomendável fazer pausas e permanecer em áreas mais afastadas das caixas de som.


Nível de ruído x tempo de exposição 

Como referência, a Organização Mundial da Saúde (OMS) relaciona a intensidade do som ao tempo recomendado de exposição. Alguns exemplos são: 

• 80 dB: até 40 horas por semana

• 85 dB: até 12 horas e 30 minutos por semana

• 90 dB: até 4 horas por semana

• 95 dB: até 1 hora e 15 minutos por semana

• 100 dB: até 20 minutos por semana

• 105 dB: até 8 minutos por semana

• 110 dB: até 2 minutos e 30 segundos por semana

Quanto maior a intensidade do som, portanto, menor deve ser o tempo de exposição. Esses valores são referências e não representam um limite de segurança absoluto, já que o risco pode variar conforme as características individuais e a frequência das exposições. 

Para a especialista, atenção aos primeiros sinais é importante para evitar que uma exposição repetida e intensa resulte em danos permanentes. Zumbido recorrente após exposição sonora, sensação de ouvido abafado ou dificuldade para compreender conversas em ambientes barulhentos são motivos para buscar avaliação profissional.

 

Hospital Paulista de Otorrinolaringologia


Cirurgia refrativa restaura a visão e promove qualidade de vida

Magnific
Realizado com técnicas modernas e avançadas, o procedimento é rápido e seguro, sem a necessidade de internação. O resultado é mais autonomia e uma nova perspectiva para enxergar o mundo.

 

Quem depende de óculos de grau está sujeito a diversos desafios: lentes que embaçam quando a temperatura muda ou ao praticar atividades físicas, o desconforto de uma armação pesada ou mal ajustada, a dificuldade para enxergar o relógio ao acordar e a necessidade de limpar as lentes constantemente, entre outros contratempos que podem surgir no dia a dia. Além disso, é preciso manter o grau sempre atualizado para garantir a nitidez da visão. 

A estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, é de que cerca de 40% dos brasileiros usam óculos ou lentes de contato para correção de miopia, hipermetropia, astigmatismo ou presbiopia. “Boa parte dessas pessoas desconhece que é elegível para cirurgia de correção do erro refrativo, podendo eliminar ou reduzir drasticamente a dependência do dispositivo”, afirma o Dr. Edmundo Martinelli, oftalmologista que encabeça o projeto de modernização tecnológica das cirurgias refrativas do H.Olhos no ABC paulista. 

O médico diz que “os erros de refração ocorrem quando há variações no formato do olho ou na curvatura da córnea - camada transparente que recobre a frente do globo ocular, fazendo com que a luz seja focada fora do ponto ideal. Na visão considerada ideal, ela é focalizada diretamente sobre a retina - camada fina de tecido nervoso localizada no fundo do olho, responsável por transformar a luz em impulsos elétricos que o cérebro converte em imagens. No caso da presbiopia, o próprio envelhecimento provoca perda da elasticidade do cristalino, a lente natural do olho”.
 

Principais tipos de erros refrativos 

Dr. Martinelli explica cada um dos erros refrativos:

  • Miopia: Ocorre quando o olho é mais longo do que o normal ou a córnea (camada transparente que recobre a frente do olho) é muito curva. A imagem se forma antes da retina, tornando objetos distantes embaçados.
  • Hipermetropia: Ocorre quando o olho é mais curto do que o normal ou a córnea é plana demais. A imagem se foca atrás da retina, dificultando principalmente a visão de perto (e exigindo esforço visual para longe).
  • Astigmatismo: Causado por uma irregularidade na curvatura da córnea (que assume um formato parecido com uma bola de futebol americano em vez de uma bola de basquete). A luz se espalha em múltiplos pontos, gerando visão distorcida ou com sombras, tanto para perto quanto para longe.
  • Presbiopia ("Vista Cansada"): Perda natural da elasticidade do cristalino associada ao envelhecimento (geralmente após os 40 anos), dificultando o foco para leitura e tarefas de perto.

Os avanços na medicina oftalmológica tornaram as cirurgias refrativas procedimentos rápidos, seguros e altamente eficazes para corrigir imperfeições na focalização da luz nos olhos. De acordo com o oftalmologista, “enquanto armações de óculos limitam a visão lateral e lentes de contato podem ressecar os olhos, a cirurgia devolve a amplitude do campo de visão sem obstruções físicas. Também afasta o risco de dores de cabeça e cansaço visual provocados pelo esforço constante de acomodação do olho”.
 

Tipos de cirurgia refrativa 

Atualmente, os procedimentos se dividem entre técnicas a laser de alta precisão para remodelar a curvatura da córnea e o implante de lentes intraoculares. “Para fazer a cirurgia de correção do erro refrativo é fundamental a avaliação de um oftalmologista, com base em exames detalhados. Os principais requisitos são: ser maior de idade, estar com o grau estabilizado há pelo menos um ano, ausência de doenças oculares como ceratocone e glaucoma, córnea com espessura adequada e formato regular”, esclarece o Dr. Martinelli. 

O oftalmologista cita as principais técnicas cirúrgicas:

  • LASIK: o cirurgião cria um pequeno e fino "flap" (lamela) na camada superficial da córnea, levanta essa camada, aplica o Excimer Laser para remodelar o tecido interno e reposicionar o flap. Indicada para tratar presbiopia, miopia, hipermetropia e astigmatismo moderados a altos, em pacientes com espessura corneana adequada.
  • PRK: diferente do LASIK, a camada mais externa da córnea (o epitélio) é suavemente removida para a aplicação direta do laser na superfície. Uma lente de contato terapêutica sem grau é colocada sobre o olho por alguns dias, até que o epitélio se regenere sozinho. Indicado para pacientes com córneas mais finas, assimetrias leves ou praticantes de esportes de contato (pois não há criação de flap).
  • SMILE: técnica minimamente invasiva realizada com um laser de femtossegundo. O laser desenha e esculpe um pequeno disco de tecido (lentícula) dentro da córnea, que é removido por uma microincisão de cerca de 2 a 4 milímetros. Indicado para miopia e astigmatismo.
  • Lentes Intraoculares Fácicas: indicadas quando a espessura da córnea não permite o uso de laser ou quando os graus são extremamente altos. Lentes de altíssima tecnologia são implantadas dentro do olho, na frente ou atrás da íris, para corrigir a refração sem alterar a estrutura da córnea.

No campo da inovação tecnológica, o Dr. Martinelli reforça a suíte Zeiss, equipamento de ponta para o tratamento da presbiopia, miopia, hipermetropia e astigmatismo. “A plataforma digital combina o laser de femtossegundo VisuMax 800 e o excimer laser MEL 90, possibilitando máxima eficiência, agilidade e segurança nas cirurgias refrativas. O procedimento é realizado somente com anestesia tópica, feita com colírios anestésicos, proporcionando um pós-operatório com recuperação muito rápida”, completa o médico do H.Olhos.

Com o avanço da tecnologia, as cirurgias refrativas se consolidaram como tratamentos seguros e eficazes. O procedimento demora de cinco a 15 minutos por olho e o paciente volta para casa no mesmo dia, sem a necessidade de internação. Em poucos dias é possível retomar as atividades habituais com o mínimo de desconforto, mais autonomia e uma nova perspectiva para enxergar o mundo. Se você possui algum erro refrativo e quer ficar livre dos óculos, converse com o oftalmologista para conferir se preenche os requisitos para a cirurgia.


Cirurgia no joelho é sempre necessária? Ortopedista esclarece quatro mitos sobre o procedimento

 Lesões no menisco, alterações na ressonância e medo de não voltar ao esporte estão entre as dúvidas mais comuns dos pacientes

 

Receber o diagnóstico de uma lesão no menisco, desgaste da cartilagem ou outra alteração no joelho costuma vir acompanhado de uma preocupação: será preciso operar? Embora a cirurgia seja necessária em determinados casos, a decisão não deve ser baseada apenas na presença de dor ou no resultado de um exame de imagem. 

Problemas nessa articulação são frequentes. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 365 milhões de pessoas no mundo convivem com osteoartrite do joelho, tornando-o a articulação mais afetada pela doença. 

“A indicação de cirurgia é individualizada. Precisamos considerar o diagnóstico, a intensidade dos sintomas, quanto o problema limita o paciente, sua rotina e atividade física e a resposta aos tratamentos já realizados. Nem toda alteração encontrada em um exame significa que será necessário operar”, explica o Prof. Dr. Ari Zekcer, ortopedista especialista em cirurgia do joelho e traumatologia esportiva. 

O especialista esclarece quatro mitos comuns sobre o assunto:
 

1. Lesão no menisco sempre precisa de cirurgia – MITO 

Nem toda lesão meniscal precisa ser operada. Um consenso internacional publicado em 2025 aponta o tratamento não cirúrgico, incluindo exercícios e fisioterapia, como primeira abordagem para lesões degenerativas do menisco e uma possibilidade em determinados tipos de lesões traumáticas. 

“Fisioterapia, fortalecimento muscular e adaptação das atividades podem trazer bons resultados em muitos casos. A cirurgia é avaliada conforme o tipo de lesão, os sintomas, as limitações e a evolução de cada paciente”, explica Zekcer.
 

2. Se a ressonância mostrou uma lesão, é preciso operar – MITO 

A ressonância magnética é uma ferramenta importante, mas não determina sozinha a necessidade de cirurgia. Os achados precisam ser relacionados aos sintomas e ao exame físico. 

“Podemos encontrar alterações estruturais em pacientes que apresentam poucos sintomas ou até nenhum. Por isso, tratamos o paciente e não apenas a imagem. A decisão cirúrgica precisa considerar todo o quadro clínico”, afirma.
 

3. Quem opera o joelho não consegue mais praticar esportes – MITO 

Dependendo da lesão e do procedimento realizado, voltar ao esporte pode fazer parte dos objetivos do tratamento. O momento do retorno varia conforme a recuperação da força, mobilidade, estabilidade e função do joelho. 

“A cirurgia, quando bem indicada, busca justamente recuperar a função. O retorno ao esporte precisa ser progressivo e acompanhado, respeitando o tipo de procedimento e a evolução individual”, orienta o ortopedista.
 

4. Toda cirurgia no joelho exige meses sem andar – MITO 

O tempo e as limitações durante a recuperação dependem do procedimento. Cirurgias artroscópicas, reparos de menisco, reconstruções ligamentares e próteses, por exemplo, possuem protocolos de reabilitação diferentes. 

“Não existe um único tempo de recuperação para todas as cirurgias do joelho. Em alguns procedimentos, a mobilização e o apoio são estimulados precocemente; em outros, são necessárias restrições específicas. O planejamento deve ser individualizado”, esclarece. 

Para Zekcer, informação é importante tanto para evitar cirurgias desnecessárias quanto para reduzir o receio quando o procedimento realmente é indicado. 

“O objetivo não é operar ou evitar a cirurgia a qualquer custo, mas escolher o tratamento que ofereça o melhor resultado para cada paciente. Em alguns casos, será possível seguir com tratamento conservador; em outros, a cirurgia será a alternativa mais adequada”, conclui.


 

 Prof. Dr. Ari Zekcer - referência nacional em cirurgia do joelho e traumatologia esportiva, com 35 anos de experiência no tratamento de lesões ortopédicas, especialmente relacionadas à prática esportiva. É um dos pioneiros no país em transplante de menisco, cultura de condrócitos e uso de células-tronco para lesões da cartilagem, além de transplantes osteocondrais com enxertos de doação. Também atua na formação de especialistas, recebendo médicos para estágios em cirurgia do joelho. Possui especializações pela UNIFESP em Ortopedia e Traumatologia, Medicina Esportiva e Cirurgia do Joelho, formação em artroscopia nos Estados Unidos, MBA em Gestão em Saúde, pós-graduação e doutorado pela Santa Casa de São Paulo. Integra as principais sociedades científicas da área no Brasil e no exterior e é membro do grupo de especialistas em joelho do Hospital Israelita Albert Einstein.


Obesidade infantil: mudança de hábitos e abordagem multidisciplinar ainda são os melhores caminhos

 

Magnific

Especialista do HUSE-Unirio recomenda rastreamento precoce e abordagem multidisciplinar para a obesidade infantil 

Brasil tem cerca de sete milhões de crianças com obesidade e ocupa a sexta posição mundial em crianças com excesso de peso

 

O Brasil ocupa a sexta posição no ranking mundial de obesidade infantil. O país tem cerca de 7 milhões de crianças com obesidade, entre um universo estimado de 17 milhões com sobrepeso ou obesidade, em 2025. Os dados são destacados pela endocrinologista pediátrica Renata Szundy, do Hospital Universitário dos Servidores do Estado, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (HUSE-Unirio). “Mundialmente o número de crianças com sobrepeso e obesidade superou o de crianças desnutridas. No Brasil, essa transição nutricional aconteceu de forma ainda mais acentuada”, alerta ela.

A obesidade é uma doença crônica multifatorial e o seu desenvolvimento resulta da combinação de fatores genéticos, biológicos, comportamentais, familiares e ambientais, explica a especialista. Entre os principais fatores associados ao aumento do risco estão o histórico familiar de sobrepeso ou obesidade, a maior disponibilidade e o consumo de alimentos ultraprocessados e bebidas açucaradas, refeições frequentes fora de casa ou em estabelecimentos de fast food, baixa atividade física e maior comportamento sedentário, especialmente relacionado ao tempo excessivo de tela e ao sono insuficiente.

A médica reforça a importância da identificação precoce e de uma abordagem multidisciplinar da doença. “Segundo recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (ABESO), o rastreamento do excesso de peso deve ser realizado em todas as consultas pediátricas de rotina, com mensuração de peso, estatura e cálculo do índice de massa corporal (IMC) anualmente, a partir dos 2 anos de idade”, adverte.

Cuidado começa na família

A orientação é que os pais acompanhem a trajetória de crescimento da criança e procurem atendimento diante de mudanças rápidas no peso ou no IMC. Pois a avaliação regular permite identificar alterações precocemente, antes da instalação ou agravamento da obesidade. “O papel da família consiste em buscar atendimento pediátrico de rotina e observar mudanças rápidas na trajetória de peso e índice de massa corporal, antes do desenvolvimento da obesidade”, orienta a médica.

O envolvimento de toda a família também é importante para a adoção de hábitos mais saudáveis. Entre as recomendações estão priorizar o consumo de alimentos in natura ou minimamente processados, evitar alimentos ultraprocessados e bebidas açucaradas e estimular o consumo de água como principal bebida. A médica também reforça a importância de manter horários e períodos adequados de sono.

“Sempre que possível, o ideal é fazer refeições em família, dando exemplo de hábitos saudáveis, promovendo um ambiente harmonioso, sem julgamentos ou comentários depreciativos”, aconselha Renata.

 

Abordagem ampla

A endocrinologista pediátrica destaca que o tratamento da obesidade deve ir além dos aspectos metabólicos e considerar também as condições sociais e psicológicas da criança e de sua família.

“A obesidade é entendida atualmente como uma doença crônica, multifatorial, recorrente. O acompanhamento, idealmente, deve ser multidisciplinar, acolhedor, focado na pessoa, entendendo os aspectos sociais e psicológicos, além dos metabólicos, nessa abordagem da família”, afirma.

Por isso, a abordagem deve incluir a adoção de um estilo de vida saudável, com alimentação equilibrada e sem dietas excessivamente restritivas, associada ao estímulo à atividade física, à redução do tempo de tela e à manutenção de um período adequado de sono.

Parcimônia com remédios

Para a endocrinopediatra, o uso de medicamentos é uma ferramenta importante e muito eficaz, que pode ser considerado como complemento às mudanças de estilo de vida: “O tratamento medicamentoso deve ser inserido em um programa estruturado e utilizado como complemento às medidas de mudança de estilo de vida para crianças com obesidade persistente”, avalia.

 

HU Brasil 

Canetas emagrecedoras e óvulos: o que já se sabe sobre os efeitos na fertilidade

Melhora metabólica pode favorecer a fertilidade, mas efeito direto nos óvulos ainda é incerto

 

A popularização das canetas emagrecedoras, como semaglutida e tirzepatida, trouxe uma nova discussão para os consultórios de reprodução assistida. Se a perda de peso e a melhora da saúde metabólica podem favorecer a fertilidade de algumas pacientes, uma pergunta ainda permanece sem resposta: o que acontece com os óvulos?

Os efeitos variam de acordo com o perfil da paciente e a indicação do tratamento. Por isso, é importante separar os possíveis benefícios relacionados à melhora metabólica de um efeito direto sobre a fertilidade. “Para alguns casais, as canetas emagrecedoras podem até favorecer o cenário reprodutivo, já que a perda de peso e o controle metabólico podem favorecer a ovulação nas mulheres e melhorar alguns parâmetros da fertilidade masculina. Mas isso não significa que essas medicações tratem a infertilidade”, explica Daiane Pagliarin, ginecologista especialista em reprodução assistida.

As pesquisas têm se debruçado cada vez mais sobre a relação entre os agonistas do receptor do GLP-1 e a saúde reprodutiva. Embora melhorias no peso e na saúde metabólica possam favorecer a fertilidade e os resultados da fertilização in vitro, os mecanismos por trás desses benefícios ainda não são totalmente compreendidos.

“Sabemos que o peso e a saúde metabólica podem influenciar os resultados reprodutivos, mas há uma oportunidade de aprender mais sobre quais fatores ao longo da jornada da fertilidade podem se beneficiar dos medicamentos à base de GLP-1. Também não está claro se quaisquer benefícios reprodutivos são decorrentes de melhorias na saúde metabólica ou de efeitos diretos dos medicamentos. Será que eles poderiam influenciar a qualidade dos óvulos ou do esperma e, consequentemente, o desenvolvimento embrionário? Será que elas poderiam melhorar o ambiente endometrial para a implantação do embrião? Ou seria uma combinação desses fatores? São necessárias mais pesquisas para compreender como esses medicamentos podem impactar os fatores individuais que contribuem para o sucesso da fertilidade”, afirma o Dr. Dan Nayot, endocrinologista reprodutivo, diretor médico e cofundador da Future Fertility.


O potencial de cada óvulo

Na reprodução assistida, idade e quantidade de óvulos são indicadores importantes, mas não fornecem todas as informações sobre o potencial reprodutivo dos óvulos de uma paciente. Duas pacientes da mesma idade, com um número semelhante de óvulos maduros, ainda podem apresentar resultados reprodutivos muito diferentes. Historicamente, isso também tem dificultado a avaliação objetiva de se as mudanças na saúde da paciente, no uso de medicamentos ou em outros fatores clínicos se refletem na qualidade dos próprios oócitos. Os parâmetros do sêmen, por exemplo, podem ser medidos e acompanhados ao longo do tempo, à medida que as variáveis da paciente mudam. A avaliação objetiva da qualidade dos oócitos tem sido muito mais limitada.

É nesse cenário que atua a Future Fertility, empresa canadense especializada em inteligência artificial aplicada à reprodução assistida. Sua tecnologia analisa imagens de cada óvulo e identifica padrões que não são visíveis a olho nu, gerando informações adicionais sobre seu potencial de desenvolvimento.

A empresa possui duas ferramentas. O VIOLET™ é voltado para pacientes que estão congelando óvulos, e a tecnologia analisa imagens dos óvulos maduros e gera uma avaliação personalizada. Já o MAGENTA™ é utilizado em ciclos de FIV/ICSI e avalia individualmente os óvulos maduros, atribuindo uma pontuação de qualidade correlacionada ao potencial de formação de blastocistos de alta qualidade.

Essas tecnologias ainda não permitem determinar se um medicamento para perda de peso provocou mudanças na qualidade de um óvulo específico. No entanto, podem contribuir para novas pesquisas sobre a relação entre saúde metabólica e fertilidade, oferecendo informações que antes não estavam disponíveis. Isso é importante porque uma melhora na saúde metabólica não significa, necessariamente, uma melhora na qualidade dos óvulos. Com avaliações mais objetivas, os pesquisadores podem investigar se os possíveis benefícios da perda de peso estão relacionados à qualidade dos óvulos, dos espermatozoides ou dos embriões, às condições do útero para receber o embrião ou a uma combinação desses fatores.


Planejamento reprodutivo

Para as mulheres que utilizam esses medicamentos e pretendem congelar seus óvulos ou iniciar uma fertilização in vitro, as decisões sobre quando interromper o tratamento devem ser tomadas em conjunto com a equipe médica responsável pelo tratamento de fertilidade. Isso é importante não apenas no que diz respeito ao planejamento do tratamento, mas também porque a retirada de óvulos geralmente envolve sedação, e os medicamentos à base de GLP-1 podem retardar o esvaziamento gástrico.

“Para quem pretende engravidar, no caso da semaglutida, a orientação é interromper o tratamento pelo menos dois meses antes de uma gravidez planejada, e na tirzepatida, um mês antes. Essas medicações devem ser suspensas antes da gestação e não são indicadas durante a gravidez, porque ainda não existem estudos que garantam sua segurança. Outro ponto de atenção é que a tirzepatida pode interferir na eficácia dos anticoncepcionais orais”, explica Daiane.

Com o avanço das pesquisas sobre os medicamentos à base de GLP-1 e seus possíveis efeitos na saúde reprodutiva, um dos desafios será entender não apenas se a perda de peso está associada a melhores resultados de fertilidade, mas também quais fatores podem explicar essa relação e como essas mudanças podem ser avaliadas.

Para as pacientes, essas questões reforçam a importância de um planejamento reprodutivo individualizado. Idade, peso, saúde metabólica e quantidade de óvulos são fatores que precisam ser considerados em conjunto, enquanto novas tecnologias podem acrescentar informações sobre a qualidade dos óvulos. Nenhum desses indicadores, isoladamente, é suficiente para determinar as chances de uma gravidez.

  

Future Fertility


Detecção precoce do câncer ganha novas possibilidades com avanços na medicina diagnóstica

Magnific
Novos exames e recursos tecnológicos ampliam as ferramentas utilizadas na investigação de diferentes tipos de câncer



O câncer é um dos principais desafios da saúde pública no país. Estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) apontam que o Brasil deve registrar 781 mil novos casos de câncer por ano no triênio de 2026 a 2028. O volume projetado reforça a importância de estratégias voltadas à prevenção, ao rastreamento e à identificação da doença em fases iniciais. 

O Outubro Rosa coloca o câncer de mama em evidência e amplia a discussão sobre a importância do diagnóstico precoce. Contudo, para além desse tipo de tumor, a medicina diagnóstica vem incorporando tecnologias capazes de analisar diferentes características do organismo e fornecer novas informações para a investigação de outras doenças. A evolução inclui desde exames de imagem e análises laboratoriais até recursos moleculares e ferramentas computacionais aplicadas à interpretação dos resultados. 

A identificação inicial pode contribuir para decisões mais direcionadas ao longo do cuidado. Novos métodos não substituem as estratégias já recomendadas para cada tipo de câncer, mas podem acrescentar informações à investigação, ampliando as possibilidades de análise conforme a indicação médica.

 

Diferentes tecnologias participam da investigação 

O diagnóstico precoce não depende de uma única tecnologia. A escolha dos exames considera fatores como o tipo de câncer investigado, os sinais apresentados pelo paciente, histórico familiar, idade e outras características clínicas. 

No câncer de mama, por exemplo, a mamografia permanece entre os principais métodos utilizados no rastreamento. Outros exames, como ultrassonografia e ressonância magnética, também podem ser indicados em situações específicas. Fora desse contexto, exames laboratoriais, testes genéticos, métodos de imagem e análises moleculares são utilizados de acordo com as características de cada doença. 

A inovação aparece justamente na ampliação das formas de obter e interpretar essas informações. Além de produzir imagens ou medir determinadas substâncias, algumas tecnologias analisam características moleculares das células e do material genético. Recursos computacionais também podem auxiliar na interpretação dos resultados. 

Esse processo permite explorar informações que, isoladamente, poderiam não estar disponíveis em métodos tradicionais de investigação.

 

Análises moleculares ampliam o alcance dos exames 

Um exemplo dessa abordagem é o Galleri, exame disponibilizado pelo Grupo Fleury que utiliza uma amostra de sangue para procurar sinais associados a mais de 50 tipos de câncer. O teste, desenvolvido pela Grail, e que chegou recentemente ao Brasil, analisa padrões de metilação do DNA livre de células presente na circulação sanguínea por meio de sequenciamento de nova geração. 

A análise também utiliza machine learning para identificar padrões relacionados à presença de câncer e estimar o tecido ou órgão de origem do sinal encontrado. Essa informação pode ajudar a direcionar a investigação médica para exames diagnósticos posteriores. 

Segundo informações do Fleury, em estudos clínicos relacionados ao teste, 53,5% dos cânceres detectados estavam nos estágios I e II. Entre os cânceres identificados nesses estágios, 74% pertenciam a tipos para os quais não há rastreamento recomendado para a população geral. 

O exame é um exemplo de como a medicina diagnóstica pode combinar biologia molecular e recursos computacionais para investigar diferentes tumores a partir de uma mesma amostra. Sua proposta é complementar, e não substituir, os métodos de rastreamento já recomendados para tipos específicos de câncer. Um resultado que indique um possível sinal também precisa ser investigado por outros exames e avaliação médica.

 

Inteligência artificial também entra na análise dos dados 

A incorporação de machine learning aos exames representa outra frente da evolução tecnológica na área. Algoritmos podem ser treinados para reconhecer determinados padrões em grandes conjuntos de informações, apoiando a interpretação de dados obtidos por exames de imagem ou análises moleculares. 

No caso de testes que avaliam o DNA circulante, por exemplo, a tecnologia pode auxiliar na identificação de padrões de metilação associados a diferentes tipos de tumores. Em exames de imagem, os recursos computacionais também podem ser utilizados para analisar características de lesões e apoiar o trabalho dos profissionais responsáveis pela interpretação. 

O uso dessas ferramentas não elimina a avaliação médica. Os resultados precisam ser considerados junto às informações clínicas do paciente e, quando necessário, complementados por outros procedimentos para confirmar ou descartar uma hipótese diagnóstica.

 

Novas ferramentas complementam o cuidado 

A evolução da medicina diagnóstica amplia o conjunto de recursos disponíveis para investigar doenças em estágios iniciais. Métodos já consolidados continuam fazendo parte das estratégias de rastreamento, enquanto novas tecnologias acrescentam outras formas de observar características biológicas e interpretar informações. 

Apesar do foco na importância sobre o diagnóstico do câncer de mama, o Outubro Rosa também abre espaço para discutir a importância do diagnóstico precoce em diferentes tipos de câncer. A combinação entre acompanhamento médico, exames indicados para cada situação e novas ferramentas de investigação amplia os recursos disponíveis para identificar alterações em fases iniciais. 

A incorporação de tecnologias à medicina diagnóstica, como análises moleculares e recursos de inteligência artificial, acrescenta novas possibilidades à investigação e pode contribuir para decisões mais direcionadas ao longo da jornada diagnóstica.


Dor na bexiga e vontade frequente de urinar nem sempre significam infecçã

Quando os sintomas persistem e os exames não confirmam infecção, outras causas precisam ser investigadas, incluindo a síndrome da bexiga dolorosa; fisioterapeuta explica como alterações da musculatura pélvica podem participar do quadro.

 

Ir ao banheiro várias vezes ao dia e sentir dor ou pressão na região da bexiga pode levar à suspeita de infecção urinária. Quando as queixas persistem e a investigação não identifica uma infecção, porém, é necessário avaliar outras possibilidades. Entre elas está a síndrome da bexiga dolorosa, também conhecida como cistite intersticial, cujo diagnóstico exige excluir condições que possam explicar os sintomas.

O quadro pode envolver desconforto no baixo ventre, urgência e aumento da frequência urinária. Em algumas pessoas, a dor piora conforme a bexiga se enche e melhora temporariamente depois de urinar. A apresentação varia, e esses sinais, isoladamente, não confirmam o diagnóstico.

Segundo Jullia Mello, fisioterapeuta pélvica, especialista em Uroginecologia e Obstetrícia e mentora do grupo Pelve Conecta, a persistência dos sintomas merece atenção mesmo quando os primeiros exames não mostram alterações. “Um resultado normal não significa que o desconforto não existe. Precisamos entender o padrão da dor, sua relação com a vontade de urinar e o impacto na rotina, em conjunto com a investigação médica”, explica.

Na consulta, informações como o início das queixas, a frequência das idas ao banheiro e a presença de dor antes ou depois de urinar ajudam a orientar a avaliação. Um diário miccional, com registro dos horários, volumes urinados e sintomas, pode complementar esse levantamento. Os exames são definidos conforme a história e os achados clínicos.

Além da bexiga, a musculatura do assoalho pélvico pode precisar de avaliação. Algumas pessoas apresentam sensibilidade dolorosa, tensão e dificuldade de relaxamento nessa região. Quando essas alterações estão presentes, a fisioterapia pélvica pode integrar o tratamento, conforme indicação individual. A diretriz da Associação Americana de Urologia recomenda técnicas manuais específicas para pacientes com sensibilidade dolorosa na musculatura pélvica.

“O assoalho pélvico participa das funções urinárias, e precisamos avaliar como essa musculatura está funcionando. Não podemos presumir que toda queixa exige fortalecimento. Quando há tensão e dor, o cuidado pode ter como foco o relaxamento e a coordenação”, afirma Jullia.

Exercícios de contração feitos por conta própria podem ser inadequados nesse contexto. A mesma diretriz orienta evitar exercícios de fortalecimento, como os chamados exercícios de Kegel, em pacientes com síndrome da bexiga dolorosa e sensibilidade dolorosa do assoalho pélvico, pois podem agravar os sintomas.

A fisioterapia deve ser planejada a partir dos achados da avaliação, com explicação dos recursos propostos e consentimento da paciente. O acompanhamento pode envolver técnicas manuais e estratégias para melhorar a percepção e o relaxamento muscular, sem substituir o cuidado médico ou atribuir todos os sintomas a uma causa muscular.

“Não existe uma sequência de exercícios que sirva para todas as pessoas com dor na bexiga. Precisamos identificar o que pode ser trabalhado na fisioterapia e acompanhar a resposta, respeitando os limites e o conforto da paciente”, orienta a especialista.

O impacto também precisa entrar na conversa. Interromper atividades para procurar um banheiro, evitar trajetos longos ou conviver com receio de sentir dor são informações relevantes para definir os objetivos do cuidado. A melhora deve ser acompanhada tanto pelos sintomas quanto pela possibilidade de retomar atividades importantes.

Para Jullia, investigar sem minimizar a queixa é o primeiro passo. “A pessoa não precisa se acostumar a organizar toda a vida em torno da dor e das idas ao banheiro. Um acompanhamento integrado permite compreender melhor o quadro e construir um tratamento adequado às suas necessidades”, conclui.

 

Fonte: Jullia Mello — fisioterapeuta pélvica, especialista em Uroginecologia e Obstetrícia e mentora do grupo Pelve Conecta.


Obesidade mais que triplica no Brasil em três décadas; especialista destaca papel da atividade física na prevenção

Estudo publicado na revista The Lancet reforça a necessidade de estratégias sustentáveis para combater a doença; profissional de Educação Física Jauan Anselmo alerta para os riscos de dietas restritivas e defende a preservação da massa muscular durante o emagrecimento.

 

A obesidade mais que triplicou no Brasil entre 1990 e 2023, passando de 7,8% para 27,7% da população com 25 anos ou mais. O crescimento, identificado por estudo da série Carga Global de Doenças (GBD), conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e publicado em setembro deste ano na revista científica The Lancet Regional Health – Americas, reforça a necessidade de ampliar as estratégias de prevenção e enfrentamento da doença.  

No contexto do Dia Nacional de Prevenção da Obesidade, celebrado no último domingo (11), a discussão também destaca o papel da atividade física na promoção da saúde e na prevenção de complicações associadas ao excesso de gordura corporal. 

Segundo o levantamento, entre os 17 países latino-americanos analisados, o Brasil apresentou o maior crescimento da prevalência de obesidade no período estudado. Dados do Ministério da Saúde, por meio do sistema Vigitel, também apontam a dimensão do problema: cerca de 25,7% dos adultos brasileiros vivem com obesidade, o equivalente a aproximadamente uma em cada quatro pessoas. Entre crianças e adolescentes, o cenário exige atenção igualmente urgente, já que 177 milhões de pessoas entre 5 e 19 anos vivam com a doença em 2025, segundo estimativa do Atlas Mundial da Obesidade. 

Para o profissional de Educação Física e especialista em fisiologia do exercício Jauan Anselmo, os números mostram que o enfrentamento da obesidade precisa ir além de medidas pontuais de emagrecimento. A prevenção passa pela incorporação de hábitos saudáveis desde a infância, pelo acesso à prática regular de exercícios e por estratégias individualizadas, que considerem as condições físicas, a rotina e as necessidades de cada pessoa. 

“Isso é uma questão de saúde que não pode ser tratada apenas pela aparência ou pelo número que aparece na balança, agora é preciso olhar para os hábitos alimentares, nível de atividade física, qualidade do sono e histórico de saúde. O exercício físico, especialmente quando bem orientado, é uma ferramenta importante tanto na prevenção quanto no tratamento, mas precisa fazer parte de uma estratégia consistente, possível de manter”, explica.

 

Exercício físico e preservação da massa muscular

Na avaliação do especialista, um dos erros mais comuns no processo de emagrecimento é priorizar a perda rápida de peso sem considerar o que está sendo eliminado. Dietas extremamente restritivas, especialmente quando não são acompanhadas de treinamento de força, podem levar à redução de massa muscular, além da perda de gordura. 

Um estudo sobre essa preservação durante o emagrecimento, publicado em 2017 no The American Journal of Clinical Nutrition (AJCN), destaca que a restrição calórica pode resultar em perda significativa de massa magra. Em determinados contextos de emagrecimento agressivo, essa parcela pode representar de 25% a 33% do peso perdido, embora o resultado varie conforme a estratégia adotada e as características individuais. 

“A pessoa pode até ver o peso baixar rapidamente, mas isso não significa necessariamente que esteja perdendo gordura na proporção desejada. Quando há perda excessiva de massa muscular, o organismo também perde força e capacidade funcional, por isso o objetivo deve ser melhorar a composição corporal, reduzindo a gordura e preservando a musculatura”, afirma Jauan. 

A massa muscular desempenha funções importantes na mobilidade, na força, na autonomia e no gasto energético do organismo. Sua preservação é, portanto, um componente relevante tanto para quem busca perder peso quanto para pessoas que precisam prevenir ou controlar a obesidade. 

Nesse contexto, o treinamento de força, como a musculação, combinado a uma alimentação adequada, contribui para preservar a massa magra durante a perda de gordura. A ingestão de proteínas deve ser ajustada às necessidades de cada indivíduo, considerando fatores como peso, idade, rotina de exercícios e condições de saúde, preferencialmente com orientação de um nutricionista. 

“Musculação não é apenas para quem quer ganhar músculos ou melhorar a estética. O treinamento de força é uma ferramenta de saúde e deve fazer parte das estratégias de prevenção e tratamento da obesidade, respeitando as condições de cada pessoa. O importante é construir um plano que combine exercícios, alimentação adequada e regularidade, em vez de apostar em soluções radicais que não se sustentam”, orienta o especialista.

 

Prevenção começa com hábitos sustentáveis

 A prevenção da obesidade exige atenção também aos fatores sociais e ambientais que influenciam os hábitos de vida. Entre crianças e adolescentes, estimular brincadeiras ativas, esportes, deslocamentos a pé quando possível e a redução do tempo sedentário são medidas que podem contribuir para uma rotina mais saudável. A participação da família, das escolas e das políticas públicas é fundamental para ampliar as oportunidades de movimento desde os primeiros anos. 

Para os adultos, o ponto de partida não precisa ser uma rotina intensa de exercícios. A frequência e a intensidade podem ser aumentadas gradualmente, de acordo com a capacidade física e as orientações profissionais. O mais importante é encontrar atividades possíveis de incorporar ao cotidiano e manter a regularidade. 

“Não existe uma fórmula única para todos. Uma pessoa sedentária precisa de um planejamento diferente daquele que já treina há anos. É possível começar com metas pequenas e evoluir progressivamente. O que faz diferença é a continuidade. A prevenção não depende de uma dieta milagrosa ou de semanas de esforço extremo, mas de mudanças que possam ser mantidas na vida real”, destaca Jauan Anselmo. 

O especialista ressalta que a obesidade é uma condição complexa, influenciada por fatores biológicos, comportamentais, ambientais e sociais, e que seu tratamento exige acompanhamento multiprofissional. A atividade física é uma parte importante desse cuidado, mas deve estar integrada às demais medidas de saúde, sendo um ‘freio’ diante do avanço dos índices no país.


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