Levantamento
aponta que traumas dentais e falta de higiene oral impactam força, concentração
e podem causar lesões musculares em esportistas profissionais e amadores.
Em meio ao clima
da Copa do Mundo, quando todas as atenções se voltam para a preparação física e
o desempenho dos atletas de elite, um fator crucial costuma passar
despercebido: a saúde bucal. Longe de ser apenas uma questão estética, ela dita
o ritmo do rendimento esportivo, atuando como um diferencial competitivo ou
como um obstáculo silencioso. Estudos recentes publicados na Brazilian
Journal of Implantology and Health Sciences revelam que problemas
odontológicos negligenciados funcionam como um "inimigo invisível",
capaz de comprometer a força, a resistência, a concentração e até a longevidade
da carreira dos jogadores.
A pesquisa aponta
que a consciência dos atletas sobre o tema é elevada, com 66,13% dos
participantes afirmando que o desempenho físico é afetado pelas condições
bucais. A vulnerabilidade durante as competições também é um ponto de destaque,
já que 87,10% dos esportistas concordam que traumas bucais e dentais durante
uma partida prejudicam drasticamente a performance, resultando em dor e perda
de concentração.
O dentista e
professor do curso de Odontologia da Afya São João del Rei, Dr Breno Chêrfen Peixoto,
explica que praticantes de atividades físicas, sejam amadores ou atletas de
alto rendimento, podem apresentar alterações na cavidade oral devido a fatores
de risco como dieta, metodologia de treinamento, resposta sistêmica ao esforço
intenso e exposição a condições ambientais extremas.
“Uma adaptação
comum na dieta de atletas é a ingestão frequente de carboidratos fermentáveis,
presentes em géis e barras energéticas, além do consumo contínuo de bebidas
isotônicas com pH ácido. Esses fatores podem aumentar o risco de cáries
dentárias, já que pequenas variações no pH da boca afetam significativamente a
velocidade dos processos biológicos que ocorrem nesse meio. Em termos gerais,
soluções com pH menor que 7 são ácidas, enquanto aquelas com pH maior que 7 são
alcalinas ou básicas”.
Além disso, de
acordo com o especialista, a prática intensa de atividade física aumenta a
necessidade de hidratação, o que pode levar à hipossalivação, ou seja, à
diminuição do fluxo salivar. A saliva desempenha um papel importante na
proteção oral, pois contém substâncias como a sialina, que estimulam a produção
de bases pelas bactérias orais, elevando rapidamente o pH e ajudando a
neutralizar ácidos.
“A dieta rica em
carboidratos também pode favorecer o desenvolvimento de doenças periodontais em
atletas. A periodontite, além de comprometer a saúde oral, pode interferir na
adaptação ao treinamento, aumentando a liberação de mediadores inflamatórios
sistêmicos, como IL-1, IL-6, TNF-α e PCR. Esses mediadores podem reduzir a eficiência
metabólica muscular, levando à fadiga, e também dificultar a reparação
tecidual, tornando a recuperação pós-treino mais lenta. Portanto, a saúde bucal
é um fator crucial para o desempenho e a recuperação de atletas, sendo
essencial associar cuidados odontológicos à rotina de treinamento e
alimentação”.
Impacto
além do esporte e busca por especialistas
Os efeitos também
impactam à saúde geral dos atletas, que associam a higiene bucal precária a
condições graves, com 30,65% apontando relação com doenças respiratórias e
16,94% conectando o problema diretamente a lesões musculares. Quase metade dos
entrevistados (48,39%) compreende que uma infecção na boca tem o potencial de
causar danos em outras partes do corpo.
Dr Breno Chêrfen
Peixoto informa que a má oclusão pode desencadear alterações como respiração
bucal crônica, redução do espaço orofaríngeo funcional e modificações no
posicionamento mandibular e da língua.
“Indivíduos com
respiração bucal apresentam menor capacidade de filtração e umidificação do ar,
maior tendência à desidratação e redução da eficiência ventilatória, o que pode
levar à fadiga respiratória. No que se refere a lesões musculares, a má oclusão
pode promover reprogramação muscular na região cervical, resultando em tensão
nos músculos esternocleidomastoideo e trapézio superior, bem como alterações no
eixo cabeça-pescoço. Alterações oclusais também podem causar aumento da
oscilação postural e mudanças na estabilidade podal e na distribuição plantar.
Esses efeitos, em conjunto, podem impactar negativamente o desempenho físico,
especialmente em atletas de alto nível”.
Diante desse
cenário, a busca por profissionais para integrar as comissões técnicas torna-se
uma exigência do mercado. O estudo revelou que 67,74% dos atletas consideram
necessária a presença de um dentista no dia a dia dos clubes para diagnósticos
preventivos e pronto atendimento em casos de urgência. Essa abordagem
multidisciplinar é vista como essencial não apenas para otimizar o rendimento
atual, mas para garantir a qualidade de vida e a longevidade da carreira dos
profissionais do esporte.
“Os atletas
assistidos pelo cirurgião-dentista teriam garantidos benefícios como: ausência
de focos infecciosos ativos, saúde periodontal efetiva, ausência de lesões de
mucosa oral, acesso a protetores bucais individualizados e manutenção das
funções mastigatória e respiratória adequadas. Dessa forma seriam minimizados
os riscos de eventuais interrupções das práticas esportivas, com melhora na
performance e maior longevidade da carreira esportiva”, conclui o especialista
da Afya São João del Rei.
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