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terça-feira, 16 de setembro de 2025

Sete em cada dez alunos do Ensino Médio usam IA generativa em pesquisas escolares, revela TIC Educação

Nova edição do estudo do Cetic.br mostra ainda dados sobre o uso de plataformas de vídeo como fontes de informação, e a utilização de dispositivos móveis nas escolas

 

Sete em cada dez estudantes brasileiros do Ensino Médio, usuários da Internet, já recorrem a ferramentas de inteligência artificial generativa — como ChatGPT, Copilot e Gemini — para realizar pesquisas escolares. No entanto, apenas 32% dizem ter recebido orientação nas escolas sobre como utilizar essas tecnologias. É o que mostra a 15ª edição da TIC Educação, pesquisa do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br). O levantamento foi lançado nesta terça-feira (16) pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br). 

Ainda que em menor escala, o uso de IA generativa também aparece entre alunos dos anos iniciais (15%) e finais (39%) do Ensino Fundamental. Considerando o conjunto de estudantes usuários de Internet dos ensinos Fundamental e Médio, a proporção atinge 37%. Entre eles, apenas 19% afirmam ter sido instruídos por professores sobre como aplicar a tecnologia em atividades de aprendizagem.

 

Canais e apps de vídeo como ferramentas de busca

Fora das salas de aula, grande parte dos alunos utiliza tecnologias digitais, como plataformas educacionais e sites na Internet, em tarefas solicitadas pelos professores ou para aprender algo que seja de seu interesse. Entre as atividades citadas com maior frequência estão: buscar informações sobre uma matéria ou exercício que não entendeu bem (86%), pesquisar para fazer trabalhos escolares (84%) e usar a Internet ou aplicações para praticar algo que está aprendendo (78%). 

Pela primeira vez, a pesquisa investigou os recursos adotados pelos estudantes na realização de pesquisas escolares. Embora 74% recorram a sites de busca, 72% mencionaram canais e aplicativos de vídeo como fontes de informação. 

"A edição 2024 da pesquisa revela um cenário de transformações aceleradas. Vemos que a IA generativa já é uma realidade para mais de dois terços dos alunos do Ensino Médio, mas essa adoção ainda carece de mediação pedagógica estruturada para o uso crítico. Ao mesmo tempo, os dados mostram uma mudança no comportamento de busca por informação para realizar trabalhos escolares, com as plataformas de vídeo se tornando fontes de pesquisa tão relevantes para os alunos quanto os buscadores tradicionais”, pondera Alexandre Barbosa, gerente do Cetic.br | NIC.br. 

Para a coordenadora do CGI.br, Renata Mielli, os indicadores sobre o uso de IA generativa pelos estudantes exigem atenção. “Precisamos compreender com maior profundidade de que forma está se dando este uso numa idade escolar que envolve processos de ensino e aprendizagem sobre contextos culturais, sociais e econômicos. Além de informações erradas que estas ferramentas podem oferecer, as respostas podem conter viéses de toda a ordem que, sem uma mediação adequada, podem interferir substancialmente no processo de formação de toda uma geração. Principalmente, se considerarmos, também, os limites que professores e o ambiente escolar como um todo ainda têm diante de uma tecnologia nova, e a ausência de orientações mais explicitas de como usar essas ferramentas, que ainda não contam com uma regulação.”

 

Formação docente

A TIC Educação 2024 aponta que 54% dos professores realizaram, nos 12 meses anteriores à pesquisa, atividades de desenvolvimento profissional contínuo voltadas ao uso de tecnologias digitais nos processos de ensino e de aprendizagem. Na rede municipal, entretanto, esse percentual passou de 62% em 2021 para 43% em 2024. 

Dentre os professores que participaram de iniciativas de atualização e formação, 82% fizeram cursos relacionados a plataformas, programas de computador ou aplicativos usados na criação de materiais didáticos. Além disso, 79% buscaram informações sobre como usar tecnologias digitais para adaptar as atividades aos ritmos de aprendizagem dos estudantes. 

Já a participação em iniciativas de formação sobre como orientar os alunos a respeito do uso seguro de tecnologias digitais (69%), sobre educação midiática e uso crítico das mídias em sala de aula (68%) e uso de IA em atividades educacionais (59%) foram citados em menores proporções.

 

Educação digital e midiática

Em relação à oferta de educação digital e midiática para os alunos, 89% dos coordenadores pedagógicos afirmam que a instituição onde atuam promoveu atividades sobre temas relacionados a cyberbullying, exposição na Internet, integridade da informação, privacidade e disseminação de recursos baseados em IA e algoritmos. Entretanto, o desafio está na inserção desses temas nos conteúdos escolares de forma contínua e sistemática. Segundo 30% dos coordenadores, tais temáticas são abordadas com os alunos apenas quando há necessidade ou quando os estudantes possuem alguma dúvida. Em 49% das instituições, atividades sobre esses temas são realizadas uma ou duas vezes ao ano. 

“O conjunto desses dados aponta para mudanças significativas no ecossistema educacional, reforçando a urgência de se discutir, não apenas o acesso, mas como promover o uso crítico, seguro e criativo das tecnologias digitais para a aprendizagem, de forma a garantir o bem-estar e os direitos de crianças e adolescentes”, avalia Barbosa.

 

Conectividade nas escolas

A TIC Educação 2024 aponta que 96% das escolas brasileiras possuem acesso à Internet, com destaque para o crescimento observado entre 2020 e 2024 nas instituições municipais (de 71% para 94%) e nas localizadas em áreas rurais (de 52% para 89%). Entre aquelas com conexão, 88% têm Internet na sala de aula, 20 pontos percentuais a mais do que o registrado na edição 2020 da pesquisa. 

A despeito dos avanços na conectividade dos estabelecimentos de ensino, as desigualdades no acesso dos estudantes a recursos digitais persistem. Se nas escolas estaduais, 67% dos alunos utilizam a Internet para fazer atividades solicitadas pelos professores, na rede municipal, a proporção é de apenas 27%. 

A disponibilidade de acesso à rede nos espaços escolares, e de dispositivos digitais para os alunos, ainda é um desafio para as escolas municipais, para aquelas de menor porte e para as localizadas em áreas rurais. No caso das instituições de educação básica municipais, 75% dispõem de, ao menos, um espaço com conexão à Internet para uso dos alunos, mas apenas 51% possuem computadores para atividades educacionais e 47% contam com acesso à Internet e dispositivos para os estudantes.

 

Uso de dispositivos móveis pessoais nas escolas

A coleta de dados da pesquisa TIC Educação ocorreu entre agosto de 2024 e março de 2025, abrangendo principalmente o período anterior à promulgação da Lei nº 15.100, ocorrida em janeiro deste ano, que restringe o uso de dispositivos móveis, como telefones celulares, em estabelecimentos de educação básica. 

A porcentagem de alunos que acessavam a Internet na escola por meio de telefone celular pessoal passou de 55% em 2022 para 45% em 2024. Nas escolas municipais, essa proporção diminuiu de 32% para 20% no mesmo período, e, nas escolas particulares, de 64% para 46%. 

As regras adotadas pelas escolas em relação ao uso de celulares também se alteraram no período. Em 2023, 28% proibiam o uso do telefone celular pelos alunos e 64% permitiam o uso apenas em alguns espaços e horários. Em 2024, a proporção de escolas que não permitem o uso do dispositivo aumentou para 39%, enquanto a permissão em alguns espaços e horários diminuiu para 56%. Naquelas instituições com turmas até os anos iniciais do Ensino Fundamental, a não permissão de uso passou de 43% para 61%, entre 2023 e 2024. 

"A edição 2024 da pesquisa reflete o período de transição e de adaptação das instituições à nova realidade de integração de tecnologias digitais às práticas educacionais, iniciada antes da Lei nº 15.100, que introduz novas regras para o uso de telefones celulares pelos alunos nas escolas. Os dados da pesquisa corroboram a centralidade das escolas no debate em curso na sociedade sobre os impactos do uso de telas e dispositivos digitais na preservação dos direitos e no desenvolvimento cognitivo e psicossocial de crianças e adolescentes”, explica a coordenadora da pesquisa TIC Educação, Daniela Costa.

 

Sobre a pesquisa  

Realizada desde 2010 pelo Cetic.br, a TIC Educação investiga o acesso, o uso e a apropriação das tecnologias de informação e comunicação (TIC) por alunos, professores, coordenadores pedagógicos e gestores de escolas de ensino Fundamental e Médio, em atividades de ensino e de aprendizagem e de gestão educacional. 

Desde 2020, a pesquisa adota uma amostra ampliada que permite a produção de dados sobre escolas localizadas em áreas rurais e urbanas de forma unificada. De acordo com o desenho amostral da pesquisa, nas edições realizadas em anos pares, os dados são coletados presencialmente, por meio de entrevistas com alunos, professores, coordenadores pedagógicos e gestores escolares e, nas edições realizadas em anos ímpares, são entrevistados somente os gestores escolares, por meio de abordagem telefônica. 

A edição 2024 da pesquisa TIC Educação foi realizada entre agosto de 2024 e março de 2025, em 1.023 escolas públicas (municipais, estaduais e federais) e particulares, localizadas em áreas urbanas e rurais, que possuíam turmas de Ensino Fundamental e Médio, com cobertura nacional. As entrevistas foram realizadas presencialmente nas escolas por meio de abordagem face a face CAPI (do inglês Computer-Assisted Personal Interviewing). 

Ao todo, foram realizadas 10.756 entrevistas, tendo sido coletados dados com 954 gestores escolares, 864 coordenadores pedagógicos, 1.462 professores e 7.476 alunos. Os resultados da TIC Educação, incluindo as tabelas de proporções, de totais e margens de erro, estão disponíveis em Link. 

Para rever o lançamento da pesquisa, acesse https://www.youtube.com/watch?v=kB8BNOANyMc.

 


Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), do NIC.br Mais informações em Link.

Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR — NIC.br (Link) Do NIC.br fazem parte: Registro.br (Link), CERT.br (Link), Ceptro.br (Link), Cetic.br (Link), IX.br (Link) e Ceweb.br (Link), além de projetos como Internetsegura.br (Link) e Portal de Boas Práticas para Internet no Brasil (Link). Abriga ainda o escritório do W3C Chapter São Paulo (Link

Comitê Gestor da Internet no Brasil – CGI.br

Uma de suas formulações são os 10 Princípios para a Governança e Uso da Internet (Link). Mais informações em Link


Produtos não madeireiros têm potencial para financiar projetos de reflorestamento

Exemplar de araucária (Araucaria angustifolia), árvore do pinhão:  espécie é uma da
s mais estudadas, segundo levantamento de pesquisadores. Por fornecer alimento,
pode ser uma opção para reflorestamento com aproveitamento econômico
 (foto: Paulo G. Molin/NewFor)
 Estudo identifica 167 espécies nativas da Mata Atlântica com aplicação bioeconômica: 58% na área médica, 12% em cosméticos e 5% no setor alimentício; 78 espécies (46,7%) têm patentes registradas em 61 países, apenas 8% delas no Brasil

 

Um obstáculo considerável para a restauração florestal é o custo, o que tem suscitado discussões nos últimos anos sobre como viabilizar economicamente sua execução. Como o manejo de madeira nativa, a obtenção de créditos de carbono e o pagamento por serviços ecossistêmicos são soluções de longo prazo – sendo as duas últimas com mercado ainda incipiente –, um grupo de pesquisadores propõe a exploração de produtos florestais não madeireiros com valor agregado como opção para obter renda das áreas de recomposição florestal.

Em artigo publicado na revista Ambio, o grupo liderado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) aponta que 59% das espécies de plantas amostradas na região do Vale do Paraíba do Sul têm algum potencial bioeconômico.

“A vantagem do manejo de produtos não madeireiros é que ele se baseia na coleta de folhas, galhos, sementes e frutos, constituindo um manejo não destrutivo, mantendo a floresta de pé e podendo trazer ganhos em médio prazo”, afirma Pedro Medrado Krainovic, primeiro autor do estudo realizado como parte de pós-doutorado no Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP com bolsa da FAPESP.

O trabalho também foi apoiado por meio de dois Centros de Ciência para o Desenvolvimento (CCDs), o BIOTA Síntese e o Estratégia Mata Atlântica (CCD-EMA), além do projeto NewFor, que integra o Programa BIOTA FAPESP.

Os pesquisadores analisaram parte do banco de dados do NewFor – 46 parcelas de 900 metros quadrados (m2) de floresta presentes no Vale do Paraíba do Sul, região entre os Estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Nessas áreas delimitadas, foram identificadas todas as árvores com diâmetro acima de 5 centímetros na altura do peito. A área total amostrada foi de 41.400 m2.

Entre as 329 espécies encontradas no levantamento, 283 eram nativas. Destas, 167 (59%) têm algum potencial bioeconômico, de acordo com uma busca que os pesquisadores realizaram de estudos sobre as plantas encontradas, como trabalhos de química analítica, estudos in vitro e in vivo, pré-clínicos e clínicos e de práticas de silvicultura. Das espécies com potencial, 58% têm potencial médico, 12% cosmético e 5% alimentício. Em apenas 13% dos estudos chegou-se ao estágio de produto final. A araucária (Araucaria angustifolia) e a juçara (Euterpe edulis), conhecidas por fornecerem alimentos, foram algumas das espécies que apareceram em mais estudos.

Os pesquisadores realizaram ainda uma estimativa do interesse mercadológico por meio da busca por patentes depositadas no mundo inteiro a partir das plantas encontradas. Nesse quesito, 78 espécies (46,7%) têm patentes registradas em 61 países, apenas 8% delas no Brasil.

“O número de patentes é uma evidência do potencial econômico dessas espécies. Ele nos dá uma dimensão do que já pode suscitar interesse e potencial comercial, enquanto as que não possuem patente demonstram quanto ainda pode ser encontrado por meio de pesquisa e desenvolvimento, como novas moléculas medicinais, cosméticas e mesmo alimentos”, explica Krainovic.


Opção econômica

Segundo os autores, a exploração de produtos não madeireiros constitui uma forma de amortizar os custos da restauração, mesmo quando outro objetivo econômico está definido, como a extração de madeira nativa. Uma vez que as espécies madeireiras mais valiosas têm longos ciclos de vida, a exploração de produtos não madeireiros pode ser uma fonte intermediária de receita enquanto a madeira não está pronta para ser extraída.

Além disso, a exploração de madeira, segundo o Código Florestal, é proibida em áreas de preservação permanente (APPs), como margens de rios, encostas íngremes e topos de montanhas. Em projetos de recuperação dessas áreas, em grande déficit no Brasil, o manejo sustentável de baixo impacto para a extração de produtos não madeireiros pode ser uma opção econômica para financiar o próprio reflorestamento, adicionando multifuncionalidade a florestas nativas que já cumprem importante função ecossistêmica, como provisão de água, proteção do solo, sequestro de carbono e polinização.

“É preciso considerar que o objetivo final da restauração de ecossistemas é o retorno da provisão de serviços ecossistêmicos, importantes inclusive para a atividade agropecuária. Buscar formas sustentáveis de viabilizar esses projetos, porém, é uma maneira de tornar a restauração mais atrativa para os produtores rurais”, pontua o pesquisador (leia mais em: agencia.fapesp.br/55340).


Qualificação do trabalho

Os projetos de reflorestamento com espécies nativas são conhecidos ainda por gerar um grande número de empregos que não demandam qualificação. Um estudo de 2022 publicado na revista People and Nature da British Ecological Society, que tem entre os autores alguns dos membros do trabalho atual, estimou que o Brasil pode gerar 2,5 milhões de empregos se atender à meta, estabelecida no Acordo de Paris, de restaurar 12 milhões de hectares até 2030.

No entanto, é preciso considerar que a exploração de ativos florestais precisa levar em conta planos de manejo e regulação do mercado que não levem à superexploração das espécies e que acabem incentivando o desmatamento em vez da recuperação. Um exemplo do passado é o do pau-rosa (Aniba rosaeodora), árvore amazônica valorizada por seu óleo essencial, utilizado na indústria de perfumaria fina, que teve seu pico de exploração nas décadas de 1940 e 1950. Hoje a espécie está ameaçada de extinção.

Os pesquisadores citam ainda medidas como compras públicas, certificações e outras políticas que poderiam contribuir para a abertura de mercados sustentáveis para os produtos não madeireiros.

O cruzamento das bases de dados utilizadas no estudo (abundância das espécies amostradas, potencial de uso relatado na literatura científica e patentes registradas) pode ser usado em outros biomas brasileiros a fim de orientar futuros projetos de restauração florestal.

“Espécies raras, pouco abundantes, mas com bastante potencial econômico, poderiam ser adicionadas a projetos de restauração ativa, com plantio de mudas. Por sua vez, espécies abundantes e de fácil manejo, que nascem naturalmente, podem ser mais bem estudadas para que se encontrem usos econômicos, empilhando valores tangíveis e intangíveis das florestas e das espécies nativas e criando a multifuncionalidade ecológica-econômica”, aponta Krainovic.

O artigo Bioeconomic opportunities in restored tropical forests pode ser lido em: https://link.springer.com/article/10.1007/s13280-025-02234-5.

 

André Julião
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/produtos-nao-madeireiros-tem-potencial-para-financiar-projetos-de-reflorestamento/55860

 

O erro estratégico do Brasil na Educação Infantil

OPINIÃO

 

Encher a despensa. Foi essa a expressão que ouvi recentemente para definir o que precisamos realizar durante os anos da Educação Infantil. A metáfora me marcou porque traduz com clareza a realidade que observo não apenas nas escolas com as quais atuo, mas também em experiências que acompanhei em diferentes sistemas educacionais ao redor do mundo.

Enquanto as crianças são pequenas e estão apenas iniciando sua trajetória escolar, cabe a nós abastecer suas despensas com a maior diversidade de ingredientes. É essa variedade que permitirá, mais adiante, preparar um cardápio rico no Ensino Fundamental e nas etapas seguintes. Não se faz brigadeiro só com farinha de trigo; é preciso ter leite condensado e chocolate, minimamente. Assim, também na Educação Infantil, desde cedo vamos construindo uma despensa simbólica da qual a criança poderá se servir no futuro, ampliando e aprofundando seus aprendizados.

Hoje já não resta dúvida de que investir na primeira infância potencializa todo o percurso educacional. Neurocientistas têm demonstrado como o cérebro humano apresenta enorme plasticidade nos primeiros anos de vida, respondendo de forma intensa as atividades propostas pelos professores. Por isso, em vários países, os profissionais mais preparados e com maior sofisticação acadêmica são designados justamente para atuar na Educação Infantil. Essa escolha não é aleatória: exige-se muito conhecimento, experiência e técnica para apoiar o desenvolvimento integral das crianças. É por isso que, em nações que avançaram nos resultados educacionais, a primeira infância ocupa lugar de protagonismo no sistema de ensino.

É justamente nesse ponto que reside o equívoco do Brasil. Em muitos contextos, ainda restringimos a Educação Infantil a uma função predominantemente assistencial. Garantir acolhimento e cuidado é, sim, fundamental — famílias precisam de escolas e creches seguras e acessíveis. No entanto, limitar essa etapa a esse papel é desperdiçar um potencial imenso. Uma criança que, desde cedo, experimenta o mundo mediada por professores qualificados terá sempre consigo um repertório amplo e diversificado que contribui para o desenvolvimento da autonomia, da criatividade, do pensamento crítico, da capacidade de expressão e da convivência.

É preciso lembrar que brincar, contar histórias, explorar a natureza, cantar, desenhar e interagir em grupo não são atividades secundárias: são experiências fundadoras de aprendizagens futuras. Quando negligenciamos essas vivências ou as tratamos como simples passatempo, retiramos das crianças a chance de desenvolver habilidades que serão essenciais para toda a vida escolar e social.

E, se ainda assim, todos esses argumentos não forem suficientes, há também o aspecto econômico. Investir na Educação Infantil traz retorno direto em cidadania, equidade e redução de desigualdades. Estudos de organismos internacionais, como a OCDE e o Banco Mundial, apontam que cada real investido nessa etapa gera benefícios multiplicados em saúde, renda e qualidade de vida. Quando essa fase não é tratada com a devida importância, o resultado é previsível: alunos chegam ao Ensino Fundamental com lacunas enormes, que exigem esforços custosos de tempo e recursos para serem superadas — muitas vezes sem pleno sucesso. A consequência é uma bola de neve: dificuldades acumuladas, baixo desempenho, desmotivação e evasão escolar.

Assim, defender a Educação Infantil não é apenas uma causa pedagógica ou social, mas também uma decisão estratégica para o futuro do país. Uma sociedade que compreende isso assume um compromisso com o desenvolvimento humano em sua forma mais completa.

É chegada a hora de reconhecer a Educação Infantil como uma estratégia nacional, não para antecipar o trabalho do Ensino Fundamental, mas para confirmar a sabedoria da expressão: “encher a despensa” e, com isso, cozinhar com fartura e consistência nas próximas etapas da escolaridade. Portanto, cada minuto dessa etapa conta. Conta para cada criança e conta para a sociedade inteira. É nesse início que se decide, em grande medida, a qualidade do futuro que construiremos.

 

Acedriana Vogel - diretora pedagógica da Aprende Brasil Educação.


4 habilidades que pessoas maduras podem oferecer ao mercado de trabalho

Profissionais com mais de 50 anos possuem competências estratégicas que aumentam produtividade, inovação e resiliência no ambiente de trabalho


O Brasil caminha para se tornar uma nação mais longeva: até 2040, um em cada três brasileiros terá mais de 50 anos, segundo o IBGE. Esse movimento demográfico amplia a participação de profissionais maduros no mercado de trabalho, grupo que reúne competências construídas ao longo de décadas de trajetória. 

“A longevidade ativa é uma realidade que não pode ser ignorada. Pessoas maduras carregam não apenas conhecimento técnico, mas também habilidades humanas e estratégicas que são essenciais para o desenvolvimento das organizações. Mais do que preencher vagas, trata-se de enriquecer a cultura corporativa com olhares plurais e trajetórias sólidas”, afirma Mórris Litvak, fundador e CEO da Maturi, principal empresa nacional especializada em empregabilidade, desenvolvimento e capacitação de profissionais com mais de 50 anos. “Em algumas empresas, por exemplo, os colaboradores maduros têm se destacado em programas de mentoria intergeracional”, completa. 

De acordo com esse cenário, Litvak cita 4 habilidades que profissionais maduros podem oferecer ao mercado de trabalho. Confira!
 

1 - Sabedoria

Fruto de anos de vivência profissional e pessoal, o repertório possibilita análises mais profundas e decisões mais assertivas, reduzindo riscos e fortalecendo a estratégia organizacional. A sabedoria também se traduz em mentorias e trocas intergeracionais, contribuindo para o desenvolvimento de equipes mais jovens.
 

2 - Organização

Muitos profissionais 50+ se destacam pela organização. Acostumados a lidar com rotinas complexas e processos estruturados, eles desenvolvem um senso de planejamento que favorece a produtividade e a eficiência dentro das empresas. Essa característica garante maior clareza na execução de tarefas e no cumprimento de prazos, fatores essenciais para ambientes de alta performance.
 

3 - Coragem

Ao longo da carreira, profissionais 50+ enfrentaram desafios diversos, de crises econômicas a mudanças tecnológicas significativas, tornando a coragem também um diferencial. Essa bagagem fortalece a resiliência e a disposição para lidar com cenários de incerteza, características muito valorizadas no mundo corporativo.
 

4 - Adaptabilidade

Por fim, a adaptabilidade mostra que idade não é sinônimo de resistência a mudanças. Muitos profissionais maduros buscam constantemente atualização, participando de cursos, treinamentos e imersões digitais. Essa flexibilidade demonstra que eles podem não apenas acompanhar, mas também liderar processos de inovação.

“O futuro do trabalho passa pela valorização da diversidade etária. Empresas que apostam em equipes diversas não apenas são mais competitivas, mas também cumprem um papel social essencial. A maturidade não é um obstáculo, mas sim uma grande aliada para quem deseja crescer de forma sustentável”, conclui Litvak.

 

Mórris Litvak - CEO e fundador da Maturi

 

Família: Guarda compartilhada dos filhos cresce no Brasil

Brasil registra aumento nos casos de
 guarda compartilhada dos filhos
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Especialista explica que disponibilidade, vínculo e real engajamento contam mais que estereótipos na decisão sobre a guarda das crianças

 

No Brasil, a figura da mãe ainda é vista como a guardiã natural dos filhos. Por isso, quando os pais não são casados ou ocorre o divórcio, o esperado é que a criança permaneça com a mulher. No entanto, aos poucos essa estrutura vem mudando. Nos últimos anos, especialmente por conta da implementação da Lei da Guarda Compartilhada, a participação paterna tem crescido. 

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no ano de 2014, em 85% dos divórcios a guarda dos filhos ficava com a mulher. Em 2022 a porcentagem caiu pela metade. Neste intervalo de oito anos, o índice de guarda compartilhada subiu de 7,5% para quase 38% dos casos.

  

Mudança de cenário

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O debate sobre o papel do pai e a guarda paterna tem ganhado cada vez mais espaço, impulsionado por decisões judiciais e casos de grande repercussão, como o do filho da cantora Marília Mendonça. 

Recentemente, o artista Murilo Huff, ganhou a guarda do menino de 5 anos, que até então estava sob os cuidados da avó materna. Essa situação levanta a questão: quando a Justiça determina que a criança fique com o pai, e não com a mãe, ou nesse caso específico, com a avó? 

Para entender essa realidade, a professora do curso de Direito e coordenadora do Núcleo de Prática Jurídica do Centro Universitário Integrado de Campo Mourão (PR), Ana Paula Nacke, advogada especialista em Direito de Família e Sucessões, explica que a mudança de cenário reflete não apenas uma evolução social, mas também uma interpretação mais moderna da legislação. 

“A prioridade é o bem-estar e a garantia dos interesses da criança, acima de qualquer preceito de gênero”.


O que diz a lei

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A Lei da Guarda Compartilhada determina que ambos os pais devem participar ativamente das decisões relacionadas à vida da criança, mesmo que um deles seja definido como lar de residência fixa. 

“A atribuição da guarda sempre deverá atender ao melhor interesse da criança ou adolescente, princípio presente na Constituição, no Código Civil e no Estatuto da Criança e do Adolescente. É esse critério que orienta os juízes na tomada de decisão”, explica a advogada Ana Paula Nacke. 

A guarda unilateral - quando apenas um dos genitores assume a responsabilidade legal - só ocorre em situações específicas como negligência, abandono ou risco de violência.

 

Quando a guarda fica com o pai

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Embora ainda seja menos comum, cada vez mais tribunais reconhecem o direito dos pais de exercerem a guarda plena ou de referência. Segundo a especialista, a Justiça pode determinar que a criança fique com o genitor paterno quando este demonstrar melhores condições de garantir afeto, segurança, saúde e educação. 

“Isso acontece, por exemplo, quando o pai apresenta maior disponibilidade de tempo, histórico de cuidados anteriores ou vínculos afetivos mais consistentes. Também pode ocorrer quando há inadequação da mãe para o exercício da guarda; seja por abandono, negligência, dependência química ou episódios de violência”, esclarece Ana Paula. 

A alternativa de transferência da guarda para avós é considerada apenas em casos excepcionais, quando nenhum dos pais pode ou deve assumir a responsabilidade.

 

Como são avaliados os critérios

Na análise judicial, não é somente a condição financeira que pesa. O fator decisivo é a presença e a capacidade de oferecer cuidado. Para isso, são considerados laudos psicossociais, depoimentos, rotinas de convivência e até a escuta da própria criança, quando compatível com sua idade e maturidade. 

“A opinião da criança pode ser ouvida diretamente ou por meio de equipe multidisciplinar. O relato não é definitivo, mas serve como elemento importante, especialmente quando coerente com o contexto”, explica a especialista.

 

O impacto do caso de Marília Mendonça

A decisão envolvendo o filho da cantora Marília Mendonça teve um efeito simbólico ao trazer visibilidade ao papel paterno na criação. Para Ana Paula Nacke, esse episódio ajuda a desconstruir a ideia de que a mãe - ou, na ausência dela, a avó - é a guardiã natural. 

“A cultura brasileira ainda carrega a visão da mãe como cuidadora e do pai como provedor, mas esses papéis vêm mudando. O cuidado da criança requer a presença afetiva de ambos. Quando o pai demonstra real engajamento, a Justiça pode e deve reconhecê-lo como referência de vida para o filho”, avalia.

 

Famílias em transformação

A advogada lembra que a legislação já avançou ao reconhecer a guarda compartilhada e a pluralidade de arranjos familiares, mas ainda há desafios. “A sociedade muda mais rápido do que a lei. Muitas vezes, cabe ao Judiciário atualizar a norma por meio da análise de casos concretos, como famílias mosaico, multiparentais ou homoafetivas”, afirma a advogada. 

Neste cenário, a reflexão que emerge é justamente sobre o papel da paternidade ativa. O exemplo de Murilo Huff, que assumiu os cuidados do filho, não deve ser visto como exceção, mas como uma possibilidade cada vez mais reconhecida pela Justiça brasileira. Afinal, como reforça a especialista: “O ponto central continua sendo o mesmo: garantir o melhor interesse da criança, independentemente de tradições ou estereótipos”.

  

Centro Universitário Integrado


Educação financeira nas escolas: por que é essencial e como ela deve ser aplicada de forma eficaz

 

Com as transformações no comportamento de consumo e o avanço acelerado da digitalização, cresce a urgência de preparar crianças e adolescentes para os desafios da vida econômica. A educação financeira nas escolas, mais do que uma tendência, tornou-se uma necessidade. Ela representa uma das formas mais diretas e eficazes de promover cidadania, autonomia e bem-estar financeiro desde cedo. 

Especialistas, educadores e entidades internacionais concordam: aprender a lidar com dinheiro é tão importante quanto aprender a ler e escrever. Mas não basta ensinar a fazer contas. O impacto real só acontece quando a abordagem é estruturada, contínua e adaptada à realidade dos alunos.

“Educação financeira é uma ciência humana que busca a autonomia financeira, fundamentada por uma metodologia baseada no comportamento”, afirma Reinaldo Domingos, presidente da DSOP Educação Financeira, uma das principais referências no país sobre o tema.

 

Muito além da matemática: o comportamento como base da aprendizagem

Quando se fala em educação financeira, é comum imaginar cálculos de juros ou aulas sobre orçamento doméstico. Mas especialistas defendem que essa visão é limitada. Para gerar resultados, é preciso ir além da técnica. 

“A educação financeira não pode ser tratada apenas como uma competência matemática. Ela precisa desenvolver o equilíbrio entre o ser, o fazer, o ter e o manter”, explica Domingos. “O foco deve ser em ajudar os alunos a criarem um modelo mental sustentável, que os permita realizar sonhos e viver de forma saudável com o dinheiro.” 

Na prática, isso significa estimular desde cedo a consciência sobre consumo, o planejamento de curto, médio e longo prazos, a relação emocional com o dinheiro e a importância da poupança como meio para a realização pessoal.

 

Soluções para uma demanda real

Atuando há mais de duas décadas no setor, a DSOP tem mostrado que é possível oferecer educação financeira de forma transversal e envolvente. Seus programas não se limitam a livros didáticos: a empresa desenvolveu um ecossistema completo de aprendizagem, que inclui ambientes gamificados, conteúdos em streaming (DFlix), brinquedos educativos (Loppi Toy) e obras literárias em português e inglês. 

“A DSOP se destaca por seu material educacional adaptado às exigências governamentais e projetado para envolver todos os stakeholders, incluindo alunos, pais, professores, funcionários escolares e a comunidade em geral”, afirma Gisele Michelin, Gerente Educacional da DSOP. 

Segundo ela, o crescimento da atuação em escolas privadas e públicas comprova a eficácia do modelo. Em 2024, mais de 45 mil alunos da rede privada participaram dos programas – um crescimento de 56,53% em relação ao ano anterior. Nas redes públicas, os materiais da DSOP já impactaram centenas de milhares de estudantes em diversos estados.

 

Integração com outras disciplinas e impacto além da sala de aula

A proposta da DSOP está alinhada às diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que desde 2020 reconhece a educação financeira como conteúdo essencial. A diferença é que a empresa aplica esse conhecimento de forma transversal, integrado às demais áreas do saber. 

“A educação financeira dialoga diretamente com outras disciplinas, como matemática, ciências humanas e sociais. Ela enriquece o aprendizado, promove o pensamento crítico e prepara o estudante para situações reais da vida”, pontua Michelin. 

Além disso, o impacto dos programas ultrapassa os muros da escola. Pais e responsáveis relatam mudanças positivas no comportamento financeiro da família, influenciados pelos filhos. 

“Quando o aluno aprende na escola, ele leva esse conhecimento para casa. Isso influencia a dinâmica familiar e pode até melhorar a saúde financeira do núcleo doméstico”, completa Gisele.

 

Mais do que diferencial pedagógico, um agente de transformação social

As instituições de ensino que adotam a educação financeira estruturada colhem benefícios institucionais significativos. Além do diferencial competitivo, que fortalece a marca da escola, os programas contribuem para reduzir a inadimplência, melhorar o clima escolar e engajar a comunidade. 

“Acreditamos que uma sociedade financeiramente educada contribui para o desenvolvimento social e econômico do país. Isso começa nas escolas”, afirma Reinaldo Domingos.

 

Apoio internacional e construção de uma nova cultura

A importância da educação financeira escolar é respaldada por instituições globais como a ONU, a UNESCO e a OCDE, que defendem a inserção do tema já nos primeiros anos da educação básica. O objetivo é claro: prevenir o consumo compulsivo, reduzir o endividamento precoce e formar cidadãos mais conscientes. 

“A missão da DSOP é transformar a relação das pessoas com o dinheiro desde cedo, para que possam sonhar, realizar e manter uma vida equilibrada”, resume Gisele Michelin. “Educação financeira não é algo acessório; precisa ser parte central da formação dos cidadãos do futuro.”

 

Cinco razões para inserir educação financeira nas escolas agora

  1. Formação cidadã e consciente
    Desenvolve autonomia, responsabilidade e planejamento desde a infância.
  2. Prevenção de crises financeiras futuras
    Reduz o risco de endividamento e promove o uso consciente do crédito.
  3. Conexão com a realidade dos alunos
    Permite trabalhar temas do cotidiano de forma prática e significativa.
  4. Fortalecimento das famílias e da comunidade
    Estimula mudanças de comportamento também nos lares dos alunos.
  5. Valorização da escola como agente transformador
    Gera diferencial competitivo e melhora os índices de desempenho institucional.

 

Uma nova geração preparada para o futuro

Incorporar a educação financeira ao currículo escolar é mais do que uma resposta a uma demanda educacional: é um investimento estratégico no futuro das próximas gerações. 

Com programas estruturados, atualizados e voltados à transformação de comportamento – como os oferecidos pela DSOP –, é possível formar indivíduos mais preparados para lidar com as complexidades da vida financeira moderna. 

“Educação financeira é um direito. Quando bem aplicada, ela constrói uma sociedade mais equilibrada, resiliente e capaz de transformar sonhos em realidade”, conclui Reinaldo Domingos.

 

Open Energy: como a governança alavanca esse movimento?

Como podemos construir um futuro energético que seja inovador, seguro, descentralizado e confiável? Essa é a questão central que o Open Energy busca responder. Com uma promessa de criar um ecossistema mais dinâmico e colaborativo, este movimento está sendo amplamente debatido globalmente, promovendo uma maior transparência e empoderamento do consumidor quanto ao compartilhamento de seus dados às empresas deste setor, visando o aprimoramento dessa rede. E é justamente aqui que a governança ganha poder, sendo a peça-chave para viabilizar este sistema mais seguro, justo e eficiente para todos.

Este conceito surgiu como uma evolução natural da digitalização do mercado e da necessidade de modernização do setor de energia, enxergando a necessidade destas organizações se tornarem mais ágeis, eficientes, flexíveis e, sobretudo, transparentes quanto a forma que gerenciam os dados de consumo dos consumidores.

Dessa forma, assim como o Open Finance, na área financeira, o Open Energy reconhece que essas informações são valiosas e pertencem aos clientes, os quais devem ter o poder de compartilhá-los para obter melhores serviços e tarifas, seguindo as diretrizes de leis de proteção de dados, como a LGPD no Brasil.

Com sua autorização, a empresa de energia pode acessar o histórico de consumo para oferecer a melhor proposta de instalação, ou uma plataforma de gerenciamento elétrico capaz de sugerir horários mais adequados para ligar eletrodomésticos, a fim de economizar na conta de luz – aprimorando essas redes de distribuição e as tornando mais inteligentes e eficientes.

Isso, sem falar no enorme fomento ao surgimento de novos negócios voltados, especificamente, a garantir essa transparência na gestão de dados, segurança, conformidade e eficiência em sua transformação para insights que gerem valor para as empresas e a própria população. Incluindo, ainda, a busca por novas fontes energéticas que assegurem essa eficácia e sustentabilidade ecológica.

Hoje, o Reino Unido é considerado referência mundial nesse movimento. Desde 2020, a organização Icebreaker One lidera um programa nesse sentido, o qual criou uma infraestrutura de compartilhamento seguro de dados energéticos que permite aos consumidores, reguladores e empresas a acessarem dados padronizados sobre consumo, geração renovável, redes e emissões, acelerando a descarbonização e integrando dados de renováveis, mobilidade elétrica e eficiência energética.

Mas, e no Brasil, como estamos? O conceito só começou a ser mais amplamente discutido em 2024. No começo deste ano, a ANEEL publicou uma Nota Técnica que trata da Resolução Normativa sobre Open Energy em conjunto com o Manual de Instruções com detalhamentos sobre o tema. Essa regulamentação trouxe as normas e infraestrutura necessária para dar prosseguimento a esse movimento nacionalmente – na expectativa de que, até 2030, tenhamos a integração setorial completa.

Mais recentemente, o tema também foi destaque no Rio Innovation Week, um dos maiores eventos de tecnologia e inovação da América Latina que contou com um painel específico sobre este assunto, abordando essas perspectivas nacionais e sua relevância diante de um mercado cada vez mais consciente sobre a importância em garantir a preservação ambiental através de fontes energéticas sustentáveis e renováveis.

Não há dúvidas quanto aos benefícios que esse movimento pode trazer para a sociedade global, afinal, nossas fontes energéticas não são infinitas e, sem o devido gerenciamento desses recursos, poderemos nos deparar, em breve, com uma escassez preocupante que impactará, drasticamente, toda a economia mundial. E, a melhor forma de tornar essa rede cada vez mais inteligente, conectada e rentável, é através de uma governança robusta por trás deste processo.

Ela é o pilar fundamental que garante que ele não se torne um ambiente caótico e inseguro, mas sim um ecossistema organizado e benéfico para todos, estabelecendo as normas técnicas para as APIs que garantam que os dados sejam transmitidos de forma criptografada e protegida contra acessos indevidos. Isso, além de determinar quem pode acessar esses dados e sob quais condições, seguindo padrões técnicos que favoreçam essa análise.

Todas as regras e decisões de governança são transparentes e públicas, permitindo que a comunidade e os participantes acompanhem o desenvolvimento do sistema e contribuam para sua evolução – o que pode ser favorecido através do apoio de normas internacionais de gestão como a ISO 27001, norma internacional que estabelece requisitos para a gestão da segurança da informação; e a ISO de Inovação, a qual orienta as empresas nas melhores estratégias e caminhos a serem seguidos nesse sentido.

A promessa do Open Energy de um futuro mais transparente e eficiente para a energia é real. Contudo, só será atingida com a implementação de uma governança robusta e bem elaborada que se preocupe não apenas em coletar esses dados, mas em tratá-los com estratégia e mantendo sua segurança, se traduzindo em um sistema energético mais robusto, competitivo e inovador.

 

Alexandre Pierro - mestre em gestão e engenharia da inovação, engenheiro mecânico, bacharel em física e especialista de gestão da PALAS, consultoria pioneira na implementação da ISO de inovação na América Latina.

 

Maioria das empresas paulistanas ainda não usa IA, mas está interessada em saber como adotá-la, mostra pesquisa

 Estudo da FecomercioSP aponta que falta de conhecimento é entrave; Loja do Futuro, projeto da Entidade em parceria com o Sebrae, avança nesse sentido


 

Mais da metade das empresas (58%) do varejo paulistano ainda não se vale de ferramentas de Inteligência Artificial (IA), tampouco tem planos para adotá-las nas operações a curto prazo. É o que revela um estudo com 300 negócios na capital paulista realizado pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP).
 
Isso acontece, sobretudo, porque o grosso desse ambiente empresarial ainda é formado por Micro, Pequenas e Médias Empresas (MPMEs), que, ao contrário dos negócios de maior porte, ainda estão incorporando essas tecnologias gradualmente.
 
Entre as MPMEs, por exemplo, o número daquelas que não utilizam a ferramenta sobe para 62,4% [tabela 1]. É por isso que, na leitura da FecomercioSP, é hora de disseminar mais informação e capacitação sobre as possibilidades que a tecnologia oferece. Em paralelo, é fundamental que haja uma regulação equilibrada que ofereça vantagens relevantes aos negócios.
 
Mas isso não significa falta de interesse: o estudo ainda revela que seis em cada dez empresas (57%) buscam informações recorrentes sobre a IA em vários canais — desde redes sociais (21%) até cursos online (13%), passando pelas consultorias (8,3%) [tabela 2]. Não é à toa, considerando que quase um terço (29,3%) dos ouvidos na pesquisa relata que o principal impasse na adoção dessas ferramentas é a falta de conhecimento [tabela 3].

 

[TABELA 1]
A sua empresa já utiliza alguma solução baseada em IA?
Fonte: FecomercioSP

 

PLN EM ALTA

Como não poderia deixar de ser, as tecnologias de IA mais utilizadas — ou ao menos consideradas — pelos varejistas paulistanos são as do modelo de Processamento de Linguagem Natural (PLN), que geram conteúdo rápido a partir de comandos, como o ChatGPT, da OpenAI, ou o Copilot, da Microsoft. As ferramentas de PLN são citadas por 39% dos entrevistados, seguidos pelos chatbots ou assistentes virtuais (33%).
 
Esse fato se explica, sobretudo, pela acessibilidade desses instrumentos, que contam com versões gratuitas e são facilmente utilizadas no cotidiano.

 

[TABELA 2]
Onde a sua empresa costuma buscar informações ou apoio sobre IA?
Fonte: FecomercioSP

 

PEQUENAS E GRANDES

Os dados da FecomercioSP também ressaltam comportamentos bastante distintos entre pequenas e médias e as grandes empresas no uso da ferramenta. De um lado, as MPMEs ainda estão buscando meios de incorporar a tecnologia nas operações, enquanto as maiores já contam com estruturas mais sólidas.
 
É por isso que, se os negócios menores recorrem a conteúdo online sobre como usar as IAs, as grandes tendem a buscar ajuda de fornecedores de tecnologia (18%) e de consultorias especializadas (12%) nesse processo.
 
Há, porém, elementos compartilhados entre as empresas de todos os portes, como os custos elevados para adotar a IA, citados por 11,2% das pequenas e médias e por 14% das grandes; e a falta de conhecimento interno para implementar e usar as ferramentas (29,2% e 30%, respectivamente). Em compensação, as grandes têm mais tempo disponível para avançar nessa direção do que as pequenas [tabela 3].

 

[TABELA 3]
Qual é o principal desafio, hoje, para adotar ou ampliar o uso de IA?
Fonte: FecomercioSP

 

IMPACTO SOBRE O MERCADO DE TRABALHO

Quatro em cada dez empresas esperam que a IA promova uma transformação nas funções do mercado de trabalho, sobretudo exigindo novas habilidades. Esse movimento é ainda mais evidente entre as empresas maiores: 46% delas acreditam nessa mudança [tabela 4], número que é de 38,8% entre as MPMEs.
 

[TABELA 4]
Como você acredita que a IA impactará os empregos nos próximos cinco anos?

Fonte: FecomercioSP


A visão geral sobre a tecnologia, no entanto, é positiva — 43% dos empresários dizem que ela trará mais oportunidades de crescimento para pequenos e médios. Mas há diferenças nos portes, com as grandes mais otimistas do que as menores.
 
A expectativa é que esse efeito seja observado especialmente em áreas como Marketing e Vendas (47%) e Atendimento ao Cliente (25%). Entre os negócios maiores, existe mais percepção dos efeitos sobre processos logísticos (16%) e desenvolvimento de produtos (10%).


 
IA NÃO PODE SER IGNORADA

A FecomercioSP percebe que a aplicação da ferramenta no varejo revela um cenário típico de tecnologias emergentes. Há uma percepção do impacto, mas existem barreiras concretas à implementação, como desconhecimento técnico, falta de profissionais qualificados e custos altos. Contudo, o poder da tecnologia é inegável, pois transforma processos, acelera decisões, personaliza atendimento e automatiza tarefas rotineiras com velocidade e precisão impensáveis até poucos anos atrás.
 
É por isso que adotar as IAs de forma apressada e desestruturada não é o caminho adequado. Segundo a FecomercioSP, às vezes, entrar tardiamente nessa corrida pode representar uma oportunidade de lidar melhor com seus desafios, além de aproveitar soluções mais maduras, com menor custo e menos riscos.
 
Todavia, essa realidade pode ser ainda pior se os negócios não avançarem nessa transformação. Empresas que resistem a novas tecnologias tendem a perder espaço, relevância e conexão com os clientes — principalmente em mercados cada vez mais exigentes, digitais e personalizados. É por isso que se torna cada vez mais mandatório capacitar equipes, redesenhar processos e investir em conhecimento sobre IA.


 
LOJA DO FUTURO

A FecomercioSP tem forte atuação nesse sentido. Em parceria com o Sebrae, o projeto Loja do Futuro leva ao empresariado paulista elementos para fortalecer a gestão dos negócios e promover a digitalização, a inovação e o melhor acesso a mercados consumidores.
 
De março a outubro de 2024, o programa envolveu a participação de um total de mais de 3,2 mil empresas em cerca de 80 eventos de lançamento, realizados em parceria com os Sindicatos do Comércio Varejista locais. Desse total, mais de 1,8 mil empresas aderiram ao Loja do Futuro, com a previsão de obtenção de um aumento médio de 12,2% no faturamento.
 
O programa, inspirado em tendências das últimas edições de feiras como a NRF, em Nova York (EUA), e Euroshop, em Düsseldorf (Alemanha), prepara todos os varejistas para os desafios e as oportunidades do mercado atual. A iniciativa tem como foco a integração entre os canais físicos e digitais. Todo esse trabalho fica acessível em um material digital de apoio para o mundo virtual.


 
Nota metodológica

A pesquisa Inteligência Artificial no Varejo foi realizada com 300 empresas na Cidade de São Paulo, sendo 250 com menos de 50 funcionários e 50 com mais de 50 funcionários. O estudo busca traçar um panorama sobre familiaridade, uso atual, perspectivas e desafios relacionados à adoção da Inteligência Artificial (IA) no setor.


 

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