O
ambiente corporativo costuma recorrer a narrativas de reconhecimento que
raramente avançam para decisões concretas de poder. No Brasil, apesar do amadurecimento
da agenda ESG, ainda persiste uma distorção relevante: a maternidade segue
sendo tratada como um risco individual, e não como expressão de uma
desigualdade estrutural do mercado de trabalho. Esse enquadramento equivocado
afeta trajetórias profissionais, limita a formação de lideranças e compromete a
qualidade da governança.
A
chamada penalidade da maternidade não é um conceito abstrato. Dados recentes do Ministério do Trabalho mostram que, nos últimos cinco anos, mais de 380 mil mulheres foram
demitidas em até dois anos após o retorno da licença-maternidade, enquanto
quase 400 mil pediram demissão no mesmo período. O que esses números evidenciam
é que o impacto não termina no afastamento. Ele se prolonga na forma de um
padrão silencioso de descontinuidade de carreira, que reduz a permanência e,
sobretudo, a progressão das mulheres.
Esse
cenário ganha contornos ainda mais claros quando se observa o comportamento das
empresas. O número de organizações que oferecem licença-maternidade estendida
encolheu de forma significativa nos últimos anos, reduzindo o alcance de uma
das principais ferramentas de retenção e suporte à parentalidade. A combinação
desses fatores revela um padrão que, na prática, associa maternidade à
fragilidade da trajetória profissional.
Nesse
contexto, a maternidade passa a operar menos como um evento pontual e mais como
um mecanismo recorrente de desigualdade. É nesse ponto que se estrutura um dos
maiores gargalos da liderança feminina. Muitas mulheres deixam de avançar
justamente na fase em que sua experiência começa a gerar maior retorno para as
organizações e o efeito acumulado é visível: menos mulheres em posições
executivas e, por consequência, menos mulheres chegando aos conselhos de
administração.
A
baixa diversidade nos conselhos não é apenas uma questão de representatividade.
Quando pouco mais de um quinto das cadeiras é ocupado por mulheres, o que se
perde não é somente equidade, mas qualidade de decisão. Há evidências
consistentes de que ambientes diversos reduzem vieses, ampliam repertórios e
fortalecem a capacidade de antecipar riscos. Em um contexto de maior pressão regulatória
e escrutínio por parte de investidores, esses atributos deixaram de ser
desejáveis e passaram a ser essenciais.
Ainda
assim, o mercado continua subestimando a maternidade como experiência formadora
de competências. A lógica predominante associa o tema a uma suposta redução de
disponibilidade, ignorando que o exercício da maternidade desenvolve
habilidades diretamente alinhadas às demandas da liderança contemporânea.
Gestão de crises, tomada de decisão sob pressão, negociação de interesses e priorização
de recursos são parte do cotidiano de quem concilia carreira e cuidado.
Esse
descompasso também se revela na cultura corporativa. Não são raros os relatos
de profissionais que enfrentam constrangimentos por exercer a parentalidade,
inclusive homens. Acompanhar o nascimento do filho, por exemplo, ainda é
frequentemente interpretado como ausência de comprometimento com o trabalho,
refletindo uma cultura que penaliza o cuidado e reforça estereótipos de gênero.
O resultado é a manutenção de um modelo que inibe a corresponsabilidade e
perpetua o desequilíbrio.
Por
isso, o debate sobre maternidade no trabalho precisa necessariamente incluir o
papel da liderança masculina. Hoje, são os homens que ocupam a maioria das
posições de decisão, e sem o engajamento ativo desse grupo não haverá mudança
de escala. Ampliar a licença-paternidade, normalizar o cuidado compartilhado e
adotar modelos de avaliação baseados em entregas não são medidas simbólicas.
São decisões que impactam diretamente a capacidade das empresas de atrair,
manter e desenvolver talentos.
Ao
tratar a maternidade como um problema individual, as empresas deixam de
reconhecer um ativo relevante e perpetuam um ciclo de perda de capital humano.
O custo disso não aparece imediatamente nos resultados, mas se manifesta ao
longo do tempo na forma de menor inovação, maior rotatividade e fragilidades de
governança.
O Brasil avança em marcos regulatórios e em expectativas de mercado, mas ainda carrega um ponto cego importante. Integrar a experiência da maternidade à lógica de liderança não é uma agenda identitária e sim uma decisão de negócio. Empresas que não fizerem esse movimento tendem a operar com uma visão incompleta de risco e oportunidade. É urgente reconhecer a maternidade como um ativo e, sobretudo, compreender que governança de qualidade exige diversidade real e uma leitura mais sofisticada do valor humano.
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