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segunda-feira, 15 de junho de 2026

Especialistas do HC-UFTM alertam sobre o tabagismo na adolescência

Saiba porque a OMS classifica o tabagismo como doença pediátrica 


Especialistas do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (HC-UFTM), vinculado à Rede HU Brasil, fazem um alerta sobre o tabagismo na adolescência. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica o tabagismo como uma doença pediátrica, já que cerca de 90% dos fumantes começam a consumir tabaco antes dos 19 anos. O tabagismo é considerado a maior causa evitável isolada de adoecimento e mortes precoces em todo o mundo. 

“Quanto mais cedo se começa, mais profunda a dependência e mais difícil parar. O adolescente dependente aos 15 carrega isso por décadas, com toda a exposição acumulada: câncer, doença cardiovascular e respiratória. É um produto que mata um em cada dois usuários. E o tabagismo precoce caminha junto com saúde mental ruim e prejuízo escolar”, aponta Marcelo Meirelles, médico hebiatra (especialista em medicina do adolescente) no HC-UFTM. 

No evento do Dia Mundial sem Tabaco 2026, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) alertou sobre as tentativas da indústria do tabaco de liberar cigarros com aditivos de sabor e aroma. “Se o jovem atravessa a adolescência sem nicotina, é altíssima a chance de nunca se tornar dependente. A indústria sabe disso e engenheira sabor, cor e design pensando em criança e adolescente, porque precisa de uma geração de reposição. Os sabores banidos do cigarro reapareceram dentro do vape. Por isso, essa briga do INCA não é detalhe técnico: é a mesma proteção, num novo invólucro”, afirma o hebiatra. 

A RDC 14/2012, que proíbe o uso de aditivos de sabor e aroma em produtos de tabaco, funcionou para o cigarro tradicional. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar de 2024 (PeNSE) mostram que a experimentação de cigarro entre os 13 e 17 anos caiu de 22,6% em 2019 para 18,5% em 2024, e o uso recuou de 6,8% para 5,6%. Já a experimentação de cigarro eletrônico saltou de 16,8% para 29,6%. Ou seja, temos menos adolescentes com o cigarro, mas não com a nicotina.
 

Nicotina é o vilão

Para os especialistas, do ponto de vista do desenvolvimento, o vilão é a nicotina. O cérebro do adolescente está em desenvolvimento até os 25 anos e é o circuito de recompensa e controle de impulso que ainda amadurece. Jogar nicotina nessa janela instala a dependência mais rápido e mais forte que no adulto, às vezes em poucas semanas. A adolescência também é uma fase crítica para o desenvolvimento pulmonar. A exposição precoce ao tabaco e à nicotina pode comprometer o crescimento e a função dos pulmões, aumentando significativamente o risco de doenças respiratórias crônicas ao longo da vida.
 

Atrativo

“O que atrai os jovens que chegam ao consultório, na prática, é uma soma: o sabor (morango, menta, doce — exatamente o que a proibição tenta barrar); o design discreto e ‘tecnológico’, fácil de esconder de pais e professores; a propaganda que migrou para as redes e os influenciadores; e o pertencimento ao grupo. Acima de tudo, a falsa sensação de segurança: ‘não é cigarro, é só sabor’. O cigarro tinha imagem suja, o vape foi reembalado como limpo e moderno. Muitos nem se enxergam como fumantes”, alerta Meirelles. 

Karoline Bento Ribeiro, médica pneumologista no HC-UFTM concorda: “Os fatores que mais atraem os jovens costumam estar relacionados à curiosidade, influência dos amigos, busca por pertencimento social, facilidade de acesso, marketing indireto nas redes sociais e à falsa percepção de que os dispositivos eletrônicos são menos nocivos do que os cigarros convencionais”.
 

Impactos na saúde

“Os sinais aparecem como irritabilidade, dificuldade de concentração, sono ruim e ansiedade nos intervalos sem o aparelho. Os cigarros eletrônicos funcionam como porta de entrada para o cigarro comum e outras substâncias. No caso do vape há um agravante: é novo, ainda não conhecemos completamente o tamanho do estrago a longo prazo. Vale ressaltar que o aerossol do vape não é ‘vaporzinho inofensivo’: carrega nicotina, partículas ultrafinas e metais”, explica o médico. 

Entre as principais consequências estão a doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), bronquite crônica, enfisema pulmonar e câncer de pulmão. Além disso, o tabagismo está associado a doenças cardiovasculares, diversos tipos de câncer e outras enfermidades crônicas que impactam a qualidade e a expectativa de vida. 

“Além disso, o uso de vapes está associado a irritação das vias aéreas, tosse, chiado no peito, piora de doenças respiratórias pré-existentes, redução da capacidade pulmonar e aumento do risco de lesões pulmonares graves. Há também evidências de impactos cardiovasculares, alterações na atenção e na memória, além do risco de exposição a substâncias tóxicas presentes nos aerossóis inalados”, aponta Karoline.
 

Cigarro de palha não é mais “saudável”

Marcelo também chama atenção para o cigarro de palha, popularmente conhecido como “paiero”. “Ele se vende como ‘natural’ e, por isso, supostamente mais saudável: mito perigoso, porque sem filtro entrega tanta ou mais nicotina e alcatrão que o cigarro comum. É barato e escapa das advertências por ser vendido livremente”, sinaliza.
 

Exemplo importa

“O fumo passivo também adoece, mas o que mais me preocupa como hebiatra é a modelagem: o adolescente que cresce vendo o pai ou a mãe fumar tem chance muito maior de fumar também. O cigarro vira paisagem, deixa de ser tabu e o acesso fica fácil”, adverte Marcelo. A pneumologista também argumenta que essa exposição ao fumo passivo aumenta o risco de infecções respiratórias, crises de asma, bronquite, redução da função pulmonar e outros problemas de saúde.
 

Tratamento

O tabagismo é uma doença crônica causada pela dependência da nicotina e, como qualquer outra condição de saúde, deve ser tratado com acompanhamento profissional. O HC-UFTM conta com o Programa de Cessação do Tabagismo, alinhado com o Programa Nacional de Controle do Tabagismo (PNCT), que articula a rede de tratamento do tabagismo no Sistema Único de Saúde (SUS). O encaminhamento para atendimento no Programa é feito por meio da fila eletrônica. Os pacientes são encaminhados da Atenção Básica do município. A orientação é procurar a Unidade Básica de Saúde mais próxima. 

“O tratamento de cessação do tabagismo envolve estratégias medicamentosas e não medicamentosas, incluindo terapia de reposição de nicotina, medicamentos específicos para controle da dependência, acompanhamento multiprofissional e abordagens comportamentais. O suporte psicológico e a identificação dos gatilhos associados ao hábito de fumar também são fundamentais para prevenir recaídas”, explica a médica especialista do sistema respiratório.
 

Vínculo sim, sermão não

“Com adolescente a regra número um é não moralizar, sermão afasta. Na consulta do adolescente a gente constrói vínculo, usa abordagem motivacional e entende o que aquela nicotina está ‘resolvendo’ (ansiedade, aceitação). O alicerce é comportamental e psicossocial, com a família envolvida e atenção à ansiedade e à depressão, que costumam andar junto. Quanto mais cedo se intervém, melhor o resultado”, sinaliza Meirelles.
 

Impacto ambiental

Existe uma importante dimensão ambiental. O descarte inadequado de “bitucas” de cigarro polui praias, rios e oceanos, enquanto os dispositivos eletrônicos geram resíduos plásticos e eletrônicos, incluindo baterias que podem contaminar o meio ambiente. Portanto, proteger as novas gerações do tabagismo significa investir simultaneamente em saúde, qualidade de vida, sustentabilidade e no futuro da sociedade.
 

Prevenção

A prevenção da iniciação ao tabagismo entre crianças e adolescentes é uma das medidas mais eficazes para reduzir doenças e mortes relacionadas ao tabaco no futuro. “Proteger o adolescente é a prevenção mais barata e eficaz que existe contra câncer e doenças do coração e do pulmão. A boa notícia da PeNSE 2024 é que dá certo: o uso de cigarro, álcool e drogas ilícitas caiu entre 2019 e 2024. Quando a sociedade decide proteger, funciona. Falta vencer essa nova batalha, que agora tem sabor e bateria recarregável”, finaliza o hebiatra.


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