Saiba porque a OMS classifica o tabagismo como doença pediátrica
Especialistas do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo
Mineiro (HC-UFTM),
vinculado à Rede HU Brasil, fazem um alerta sobre o tabagismo na adolescência.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica o tabagismo como uma doença
pediátrica, já que cerca de 90% dos fumantes começam a consumir tabaco antes
dos 19 anos. O tabagismo é considerado a maior causa evitável isolada de
adoecimento e mortes precoces em todo o mundo.
“Quanto
mais cedo se começa, mais profunda a dependência e mais difícil parar. O
adolescente dependente aos 15 carrega isso por décadas, com toda a exposição
acumulada: câncer, doença cardiovascular e respiratória. É um produto que mata
um em cada dois usuários. E o tabagismo precoce caminha junto com saúde mental
ruim e prejuízo escolar”, aponta Marcelo Meirelles, médico hebiatra
(especialista em medicina do adolescente) no HC-UFTM.
No
evento do Dia Mundial sem Tabaco 2026, o Instituto Nacional de Câncer (INCA)
alertou sobre as tentativas da indústria do tabaco de liberar cigarros com
aditivos de sabor e aroma. “Se o jovem atravessa a adolescência sem nicotina, é
altíssima a chance de nunca se tornar dependente. A indústria sabe disso e
engenheira sabor, cor e design pensando em criança e adolescente, porque
precisa de uma geração de reposição. Os sabores banidos do cigarro reapareceram
dentro do vape. Por isso, essa briga do INCA não é detalhe técnico: é a mesma
proteção, num novo invólucro”, afirma o hebiatra.
A
RDC 14/2012, que proíbe o uso de aditivos de sabor e aroma em produtos de
tabaco, funcionou para o cigarro tradicional. Dados da Pesquisa Nacional de
Saúde do Escolar de 2024 (PeNSE)
mostram que a experimentação de cigarro entre os 13 e 17 anos caiu de 22,6% em
2019 para 18,5% em 2024, e o uso recuou de 6,8% para 5,6%. Já a experimentação
de cigarro eletrônico saltou de 16,8% para 29,6%. Ou seja, temos menos adolescentes
com o cigarro, mas não com a nicotina.
Nicotina é o vilão
Para
os especialistas, do ponto de vista do desenvolvimento, o vilão é a nicotina. O
cérebro do adolescente está em desenvolvimento até os 25 anos e é o circuito de
recompensa e controle de impulso que ainda amadurece. Jogar nicotina nessa
janela instala a dependência mais rápido e mais forte que no adulto, às vezes
em poucas semanas. A adolescência também é uma fase crítica para o
desenvolvimento pulmonar. A exposição precoce ao tabaco e à nicotina pode
comprometer o crescimento e a função dos pulmões, aumentando significativamente
o risco de doenças respiratórias crônicas ao longo da vida.
Atrativo
“O
que atrai os jovens que chegam ao consultório, na prática, é uma soma: o sabor
(morango, menta, doce — exatamente o que a proibição tenta barrar); o design
discreto e ‘tecnológico’, fácil de esconder de pais e professores; a propaganda
que migrou para as redes e os influenciadores; e o pertencimento ao grupo.
Acima de tudo, a falsa sensação de segurança: ‘não é cigarro, é só sabor’. O
cigarro tinha imagem suja, o vape foi reembalado como limpo e moderno. Muitos
nem se enxergam como fumantes”, alerta Meirelles.
Karoline
Bento Ribeiro, médica pneumologista no HC-UFTM concorda: “Os fatores que mais
atraem os jovens costumam estar relacionados à curiosidade, influência dos
amigos, busca por pertencimento social, facilidade de acesso, marketing
indireto nas redes sociais e à falsa percepção de que os dispositivos
eletrônicos são menos nocivos do que os cigarros convencionais”.
Impactos na saúde
“Os
sinais aparecem como irritabilidade, dificuldade de concentração, sono ruim e
ansiedade nos intervalos sem o aparelho. Os cigarros eletrônicos funcionam como
porta de entrada para o cigarro comum e outras substâncias. No caso do vape há
um agravante: é novo, ainda não conhecemos completamente o tamanho do estrago a
longo prazo. Vale ressaltar que o aerossol do vape não é ‘vaporzinho
inofensivo’: carrega nicotina, partículas ultrafinas e metais”, explica o
médico.
Entre
as principais consequências estão a doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC),
bronquite crônica, enfisema pulmonar e câncer de pulmão. Além disso, o
tabagismo está associado a doenças cardiovasculares, diversos tipos de câncer e
outras enfermidades crônicas que impactam a qualidade e a expectativa de vida.
“Além
disso, o uso de vapes está associado a irritação das vias aéreas, tosse, chiado
no peito, piora de doenças respiratórias pré-existentes, redução da capacidade
pulmonar e aumento do risco de lesões pulmonares graves. Há também evidências
de impactos cardiovasculares, alterações na atenção e na memória, além do risco
de exposição a substâncias tóxicas presentes nos aerossóis inalados”, aponta
Karoline.
Cigarro de palha não é mais “saudável”
Marcelo
também chama atenção para o cigarro de palha, popularmente conhecido como
“paiero”. “Ele se vende como ‘natural’ e, por isso, supostamente mais saudável:
mito perigoso, porque sem filtro entrega tanta ou mais nicotina e alcatrão que
o cigarro comum. É barato e escapa das advertências por ser vendido
livremente”, sinaliza.
Exemplo importa
“O
fumo passivo também adoece, mas o que mais me preocupa como hebiatra é a
modelagem: o adolescente que cresce vendo o pai ou a mãe fumar tem chance muito
maior de fumar também. O cigarro vira paisagem, deixa de ser tabu e o acesso
fica fácil”, adverte Marcelo. A pneumologista também argumenta que essa
exposição ao fumo passivo aumenta o risco de infecções respiratórias, crises de
asma, bronquite, redução da função pulmonar e outros problemas de saúde.
Tratamento
O
tabagismo é uma doença crônica causada pela dependência da nicotina e, como
qualquer outra condição de saúde, deve ser tratado com acompanhamento profissional.
O HC-UFTM conta com o Programa de Cessação do Tabagismo, alinhado com o Programa
Nacional de Controle do Tabagismo (PNCT), que articula a rede de tratamento
do tabagismo no Sistema Único de Saúde (SUS). O encaminhamento para atendimento
no Programa é feito por meio da fila eletrônica. Os pacientes são encaminhados
da Atenção Básica do município. A orientação é procurar a Unidade Básica de
Saúde mais próxima.
“O
tratamento de cessação do tabagismo envolve estratégias medicamentosas e não
medicamentosas, incluindo terapia de reposição de nicotina, medicamentos específicos
para controle da dependência, acompanhamento multiprofissional e abordagens
comportamentais. O suporte psicológico e a identificação dos gatilhos
associados ao hábito de fumar também são fundamentais para prevenir recaídas”,
explica a médica especialista do sistema respiratório.
Vínculo sim, sermão não
“Com
adolescente a regra número um é não moralizar, sermão afasta. Na consulta do
adolescente a gente constrói vínculo, usa abordagem motivacional e entende o
que aquela nicotina está ‘resolvendo’ (ansiedade, aceitação). O alicerce é comportamental
e psicossocial, com a família envolvida e atenção à ansiedade e à depressão,
que costumam andar junto. Quanto mais cedo se intervém, melhor o resultado”,
sinaliza Meirelles.
Impacto ambiental
Existe
uma importante dimensão ambiental. O descarte inadequado de “bitucas” de
cigarro polui praias, rios e oceanos, enquanto os dispositivos eletrônicos
geram resíduos plásticos e eletrônicos, incluindo baterias que podem contaminar
o meio ambiente. Portanto, proteger as novas gerações do tabagismo significa
investir simultaneamente em saúde, qualidade de vida, sustentabilidade e no
futuro da sociedade.
Prevenção
A prevenção da iniciação ao tabagismo entre crianças e adolescentes é uma das medidas mais eficazes para reduzir doenças e mortes relacionadas ao tabaco no futuro. “Proteger o adolescente é a prevenção mais barata e eficaz que existe contra câncer e doenças do coração e do pulmão. A boa notícia da PeNSE 2024 é que dá certo: o uso de cigarro, álcool e drogas ilícitas caiu entre 2019 e 2024. Quando a sociedade decide proteger, funciona. Falta vencer essa nova batalha, que agora tem sabor e bateria recarregável”, finaliza o hebiatra.

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