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segunda-feira, 15 de junho de 2026

O efeito colateral que a balança não mostra na era dos injetáveis

Enquanto medicamentos transformam o tratamento da obesidade, médicos alertam que a verdadeira saúde depende da restauração do metabolismo, e não apenas de menos quilos  

 

Os medicamentos para tratamento da obesidade transformaram uma das áreas mais desafiadoras da medicina. Ozempic, Wegovy e Mounjaro passaram a ocupar espaço frequente nos consultórios, nas redes sociais e até nas discussões sobre mercado farmacêutico. O avanço dessas terapias ajudou a consolidar uma nova visão sobre a obesidade como doença crônica, mas também trouxe uma questão que começa a preocupar médicos e pesquisadores: o que acontece com a saúde do paciente depois que o peso diminui?

A pergunta surge em meio ao crescimento contínuo da obesidade no Brasil e no mundo. Dados do Atlas Mundial da Obesidade, divulgados em 2025, mostram que 68% dos brasileiros vivem com excesso de peso e 31% já apresentam obesidade. Globalmente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a obesidade entre adultos mais do que dobrou desde 1990, tornando-se um dos principais fatores associados ao aumento de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, esteatose hepática e diversos tipos de câncer.

Para o médico, professor e pesquisador Alexandre Duarte, referência em fisiologia metabólica e hormonal, fundador do Instituto Avantgarde, a popularização dos medicamentos representa um avanço importante, mas também expõe uma interpretação simplificada sobre o que significa recuperar a saúde.

“Temos medicamentos capazes de produzir perdas de peso que antes eram observadas apenas em procedimentos mais invasivos. Isso é extremamente relevante. O problema começa quando a sociedade passa a acreditar que emagrecimento e saúde são exatamente a mesma coisa. Não são”, afirma.

Segundo ele, o excesso de peso é apenas uma das manifestações de um problema fisiológico mais amplo.

“A obesidade raramente surge isolada. Ela costuma vir acompanhada de resistência à insulina, alterações hormonais, inflamação crônica de baixo grau, perda de flexibilidade metabólica, distúrbios do sono e redução progressiva da capacidade energética das células. Quando olhamos apenas para a balança, enxergamos o resultado final de um processo que começou muito antes.”


O que a balança não mostra

Os estudos que levaram à aprovação da semaglutida e da tirzepatida demonstraram resultados expressivos na redução do peso corporal. Pesquisas publicadas no The New England Journal of Medicine registraram perdas médias que colocaram essas terapias entre os tratamentos mais eficazes já desenvolvidos para obesidade.

O sucesso dos medicamentos, porém, trouxe uma consequência inesperada. Muitas pessoas passaram a associar a perda de peso à resolução completa dos riscos relacionados à obesidade, embora a realidade clínica seja mais complexa. 


Na prática clínica, a situação costuma ser mais complexa

Duarte explica que dois pacientes com o mesmo peso podem apresentar realidades metabólicas completamente diferentes. Enquanto um possui boa sensibilidade à insulina, preservação muscular e marcadores inflamatórios adequados, outro pode apresentar alterações importantes mesmo após emagrecer.

“Existe uma diferença entre reduzir gordura corporal e restaurar a capacidade do organismo de produzir energia, responder adequadamente aos hormônios e manter estabilidade metabólica. Muitas pessoas ficam frustradas porque atingem a meta de peso e continuam sem disposição, com dificuldade de concentração, problemas de sono ou exames alterados. Isso acontece porque parte do processo ainda não foi resolvida.”

Ele observa que um dos principais riscos da discussão atual é transformar a saúde em uma questão exclusivamente estética.

“Vivemos um momento em que a balança e a aparência corporal ganharam protagonismo. Mas o corpo não funciona por aparência. O que determina saúde é a capacidade fisiológica de sustentar energia, movimento, recuperação, cognição e longevidade ao longo do tempo.”


O desafio da manutenção

Outra preocupação crescente entre especialistas está relacionada à manutenção dos resultados obtidos com os medicamentos.

As diretrizes da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO) reforçam que a obesidade deve ser encarada como uma doença crônica, exigindo acompanhamento contínuo. Isso significa que o tratamento não termina necessariamente quando o paciente alcança determinado peso.

Para o médico e pesquisador, a dificuldade está na expectativa criada em torno de soluções rápidas para um problema que se desenvolve ao longo de anos ou décadas.

“Boa parte dos pacientes chega ao consultório procurando uma estratégia para perder peso. Poucos entendem que o verdadeiro objetivo deveria ser recuperar função metabólica. Quando o foco permanece apenas no emagrecimento, existe uma tendência de repetir o mesmo ciclo: perde peso, recupera peso, perde novamente e segue acumulando desgaste fisiológico.”

Segundo ele, a manutenção dos resultados depende de fatores que vão além da medicação.

“Metabolismo não é uma conta matemática simples entre calorias consumidas e calorias gastas. Estamos falando de hormônios, sono, composição corporal, massa muscular, inflamação, alimentação, atividade física e capacidade adaptativa do organismo. Ignorar essas variáveis é reduzir um sistema extremamente complexo a uma única métrica.”


Uma nova fase da medicina metabólica

A expansão dos medicamentos para obesidade também está provocando mudanças dentro da própria comunidade médica. O debate começa a migrar da simples redução de peso para indicadores mais amplos de saúde metabólica, qualidade de vida e envelhecimento saudável.

Para Duarte, esse movimento tende a se intensificar nos próximos anos, à medida que mais pacientes alcançam resultados significativos de emagrecimento e passam a buscar respostas para questões que permanecem abertas.

“Estamos assistindo a uma mudança histórica. Durante décadas a medicina lutou para encontrar ferramentas eficazes contra a obesidade. Agora que essas ferramentas existem, surge uma nova pergunta: como transformar perda de peso em recuperação duradoura da saúde? Essa talvez seja a discussão mais importante da próxima década.”

Na avaliação do especialista, o futuro do tratamento da obesidade passará menos pela busca de números ideais na balança e mais pela compreensão de como restaurar os mecanismos fisiológicos que sustentam energia, autonomia e qualidade de vida ao longo do envelhecimento.

“Emagrecer pode ser o começo da jornada. O verdadeiro desafio é reconstruir saúde metabólica de forma que ela permaneça presente pelos próximos vinte ou trinta anos.” 

 



Dr. Alexandre Duarte - médico, professor e palestrante, referência em fisiologia metabólica e hormonal no Brasil. Graduado em Medicina pela Universidade Regional de Blumenau (FURB), aprofundou sua formação durante 12 anos nos Estados Unidos, onde concluiu o Fellowship in Metabolic and Nutritional Medicine pela MMI/USA. Fundador do Grupo Avantgarde, Alexandre Duarte acumula mais de duas décadas de atuação clínica e acadêmica. Ao longo de sua trajetória, contribuiu para a recuperação da saúde de aproximadamente 40 mil pacientes e para a formação de mais de 3 mil médicos em áreas ligadas à fisiologia metabólica, modulação hormonal e medicina personalizada. Defensor da chamada medicina da saúde, baseada na investigação das causas dos desequilíbrios metabólicos e hormonais, atua na difusão de uma abordagem voltada à prevenção, personalização do tratamento e reversão de doenças crônicas associadas ao metabolismo, consolidando-se como uma das principais vozes do segmento no país.
Para mais informações, acesse: site, Instagram, linkedin ou pelo youtube.

Instituto Avantgarde
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Fontes de pesquisa

Organização Mundial da Saúde (OMS)
https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/obesity-and-overweight

World Obesity Federation – World Obesity Atlas 2025
https://data.worldobesity.org/publications/?cat=19

Agência Brasil
https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2025-03/um-cada-tres-brasileiros-vive-com-obesidade-mostra-relatorio-global

Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO)
https://abeso.org.br

Mapa da Obesidade – ABESO
https://abeso.org.br/mapa-da-obesidade/

Ministério da Saúde
https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/svsa/promocao-da-saude/fact-sheet-obesidade

The New England Journal of Medicine (STEP 1 Trial – Semaglutida)
https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2032183

Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade – ABESO
https://abeso.org.br/diretrizes/obesidade/2026/01/Diretriz-Brasileira-de-Tratamento-Farmacologico-da-Obesidade-2026.pdf

 

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