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segunda-feira, 15 de junho de 2026

Com 61% de ociosidade em salas cirúrgicas, Brasil deixa de realizar 2 milhões de procedimentos mensa

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Análise da Planisa detalha o impacto financeiro e clínico dessa problemática 

 

No ecossistema da saúde, a sustentabilidade financeira e a excelência clínica travam uma batalha diária por equilíbrio. Dentro da estrutura de um hospital geral, nenhum ambiente materializa esse desafio de forma tão intensa e dramática quanto o Bloco Cirúrgico. Conhecido tradicionalmente como a linha de frente do salvamento de vidas, o Centro Cirúrgico (CC) assume o papel de "coração econômico" da instituição. Sob a perspectiva de volume, as admissões cirúrgicas respondem por 60% das admissões hospitalares; sob a ótica financeira, no entanto, elas consomem ou direcionam mais de 40% de todos os custos com internações. Destes 40%, o centro cirúrgico sozinho responde a aproximadamente 15% de todo o custo hospitalar. 

Esse peso financeiro confere ao setor uma responsabilidade central na saúde financeira do negócio hospitalar: qualquer oscilação em sua produtividade impacta imediatamente na última linha do resultado econômico da instituição. O grande paradoxo reside no fato de que a mesma alta complexidade tecnológica e de recursos humanos que gera margem e prestígio institucional atua como um biombo que esconde "custos invisíveis" e desperdícios crônicos. Em cenários de inflação médica ascendente e transição de modelos de remuneração (do fee-for-service para modelos baseados em valor), a ineficiência no centro cirúrgico deixou de ser um problema puramente administrativo para se tornar uma ameaça à própria viabilidade da assistência ao paciente. 

Ao analisar o desempenho macro dos blocos cirúrgicos no Brasil com suporte nos dados consolidados do Boletim de Indicadores Planisa (1), constata-se uma métrica alarmante: uma taxa média de ociosidade que atinge 61%. Isso significa que, na maior parte do tempo disponível operacional, a estrutura física mais cara do hospital permanece vazia ou subutilizada. 

Para contextualizar a gravidade da situação, a Planisa observou a evolução histórica do indicador de número de cirurgias por sala por dia: em 2019, registravam-se 2,6 procedimentos/sala/dia e, após seis anos, em 2025, permanecem os mesmos 2,6 procedimentos/sala/dia. 

A retração na produtividade registrada no último ano para a média de 2,6 cirurgias diárias por sala acende um sinal de alerta máximo para os executivos da saúde. Este declínio torna-se ainda mais grave quando associado ao fato de que o custo da hora do centro cirúrgico sofreu um incremento superior a 50% no mesmo ciclo histórico (2019-2025). Ou, em termos práticos: manter uma sala cirúrgica aberta está significativamente mais caro, mas estamos realizando o mesmo volume de procedimentos dentro dela. 

“Como preconizava o guru da administração moderna, Peter Drucker: ‘A eficiência não é fazer as coisas mais rápido, mas fazer as coisas certas’. Trazer a filosofia de Drucker para o ambiente perioperatório exige que gestores e lideranças médicas abandonem o empirismo e passem a governar o centro cirúrgico com base em dados de alta acurácia, transformando a variabilidade descontrolada em previsibilidade operacional”, fala o diretor de Serviços da Planisa, Marcelo Carnielo.

 

A tradução monetária do tempo desperdiçado 

Para retirar o conceito de ociosidade do campo abstrato e inseri-lo na realidade orçamentária, a análise da Planisa detalha a estrutura de custos médios de uma única sala de cirurgia em hospitais avaliados: 

  • Custo Fixo Mensal de Operação (por Sala): R$ 202.377 (1)
  • Custo Direto da Ociosidade Mensal (por Sala): R$ 123.652 (1) 

“Quando expandimos essa ótica micro para a escala macroeconômica brasileira — considerando o censo de 25.293 (7) salas cirúrgicas ativas no país em 2024, excluindo salas cirúrgicas de pequenos procedimentos ambulatoriais, o impacto se mostra devastador: o custo acumulado da ociosidade nos blocos operatórios drena R$ 3,1 bilhões anuais do sistema de saúde. Esse montante bilionário se traduz no represamento de cirurgias eletivas, o que agrava o quadro clínico de milhares de pacientes nas filas de espera. Otimizar a atual ociosidade de 61% dessas salas permitiria injetar um potencial de 1,97 milhões por mês de novos procedimentos ao sistema”, explica Carnielo.

 

Custos invisíveis 

A ineficiência de um centro cirúrgico raramente se limita às barreiras físicas de suas salas; ela funciona como um epicentro que reverbera disfunções para os setores que estão antes e depois do ato cirúrgico (efeitos upstream e downstream). Dois exemplos clássicos de desperdício são gerados por comportamento médico defensivo e falha de planejamento que envolvem os leitos de Terapia Intensiva e a reserva de hemoderivados. 

De forma sistemática, as equipes cirúrgicas solicitam vagas de UTI no período pré-operatório como salvaguarda de segurança. No entanto, os indicadores revelam que 25,6% dos leitos de UTI reservados antecipadamente não chegam a ser utilizados pelo paciente, pois este apresenta evolução estável que permite o encaminhamento direto à enfermaria (2). Considerando que o custo de uma única diária de UTI adulto gira em torno de R$ 2.692 (1), manter um quarto de alta complexidade bloqueado sem necessidade real gera um prejuízo financeiro severo e impede a internação de pacientes críticos vindos do pronto-socorro, por exemplo. 

O comportamento preventivo repete-se na solicitação de bolsas de sangue. As equipes cirúrgicas demandam reservas em 5,0% dos casos, mas o uso real e efetivo ocorre em escassos 1,1% do total de procedimentos (2). Embora as bolsas não utilizadas retornem ao banco de sangue se mantidas sob refrigeração adequada, o processo de tipagem, transporte, testes de compatibilidade e bloqueio temporário gera custos invisíveis expressivos. Cada bolsa de sangue processada representa um custo estimado de R$ 431 (1) para a instituição, inflacionando o desperdício de processos.

 

O roteiro estratégico para a mudança cultural 

O diretor de Serviços da Planisa pontua que a jornada para a consolidação de um centro cirúrgico de alta performance exige resiliência das lideranças e a implementação de um ciclo estruturado de melhoria contínua baseado em quatro passos executivos fundamentais: analisar dados atuais; definir metas claras; priorizar iniciativas de alto impacto; monitorar e ajustar rotas. 

“A excelência operacional nasce do ponto de convergência entre a precisão milimétrica dos algoritmos preditivos e a coordenação relacional das equipes assistenciais. A implantação de ferramentas consagradas, como o uso sistemático e obrigatório do checklist de cirurgia segura da Organização Mundial da Saúde (OMS), melhora de forma documentada a consciência situacional da equipe, minimizando erros e mitigando atrasos de fluxo”, fala Carnielo. 

Ele ressalta ainda que, ao estruturar comitês formais de governança perioperatória e implementar políticas como os protocolos ERAS (Enhanced Recovery After Surgery), os hospitais rompem com a lógica do desperdício oculto. “O resultado desta transformação transcende a otimização de custos e a recuperação de margens financeiras: trata-se da construção de um sistema de saúde mais seguro, sustentável, eficiente e focado em seu propósito maior: salvar vidas com o máximo de dignidade e o menor desperdício de recursos”, conclui.

  

Referências Bibliográficas 

(1) Planisa. Indicadores por classificação – BIP Hospitais Ano 2025. Boletim Indicadores Planisa: Unidades hospitalares – indicadores econômicos e de produtividade. São Paulo: Planisa; 2025.

(2) Anestech. Observatório Anestesia de Valor 2024 / 2026. Florianópolis: Anestech; 2026. 


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