Com menos filhos, famílias espalhadas
pelo mundo e uma população cada vez mais idosa, Brasil entra na era do cuidado,
e a tecnologia pode auxiliarUnsplash
Há uma cena que se repete em milhões de famílias brasileiras. Em casa, alguém procura um exame antigo no fundo de uma gaveta enquanto tenta lembrar qual médico receitou determinado medicamento. Da rua, um filho liga apressado para saber como foi a consulta da mãe idosa, enquanto o cuidador tenta reconstruir informações espalhadas entre papéis e mensagens de WhatsApp. O cenário do envelhecimento no Brasil começa exatamente aí, na dificuldade de organizar o cuidado. Nesse ponto, novas tecnologias, como a MYME, fundada em 2025, podem ajudar.
O país está envelhecendo em uma velocidade histórica. Só entre 2016 e 2019, o número de familiares dedicados ao cuidado de pessoas com 60 anos ou mais saltou de 3,7 milhões para 5,1 milhões, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O Censo 2022 identificou um crescimento de 57,4% no número de pessoas idosas ao longo de 12 anos, e as projeções indicam que essa transformação demográfica está apenas começando. O país tem aproximadamente 214 milhões de habitantes em 2026, com expectativa média de vida de 77 anos. Já em 2070, a população deve cair para cerca de 199 milhões de pessoas, mesmo com a taxa de mortalidade infantil caindo de 11,8% para 5,8%, enquanto a expectativa média de vida saltará para 83,9 anos. Traduzindo esses números: haverá menos jovens, menos pessoas economicamente ativas e muito mais idosos vivendo por mais tempo.
Isso mostra como a lógica social está mudando. As famílias estão menores, há mais pessoas sem filhos e o mercado de trabalho permite (às vezes, exige) mobilidade. Profissionais trocam de cidade, estado e até país com mais frequência do que suas gerações anteriores. Pais envelhecem enquanto filhos vivem a milhares de quilômetros de distância. Ao mesmo tempo, de acordo com o IBGE, as principais atividades requeridas pelos idosos são monitorar ou fazer companhia dentro do domicílio (83,4%), auxiliar nos cuidados pessoais (74,1%) e acompanhar consultas médicas, exames e atividades sociais, culturais e religiosas (61,1%). Ou seja, tudo que demanda presença e tempo.
Essa tendência já chamou a atenção do mercado de saúde e do cuidado. É o caso da MYME, plataforma gratuita que centraliza o histórico médico de usuários e seus dependentes, e qualquer informação do histórico pode ser enviada a terceiros, via link, quando necessário. “O cuidado com o idoso não acontece só na emergência. Acontece todos os dias, na rotina. Quando o histórico médico está organizado e atualizado, o acompanhamento fica mais fácil e mais seguro”, diz Lucas Santiago, cofundador da MYME, que é estruturada como uma Sociedade de Benefício Público (PBC), combinando modelo de negócio com propósito social.
A plataforma da MYME permite registrar sintomas, exames,
consultas, prescrições médicas, medicação, vacinação, além de prontuários de hospitais,
clínicas e outras unidades de saúde, do usuário ou de seu dependente, seja
criança, doente ou idoso. “Às vezes, o filho está em outra cidade, enquanto
o cuidador acompanha a rotina do idoso presencialmente. A plataforma cria uma
ponte para a troca de informações sem que elas fiquem dispersas e fragmentadas.
O mesmo vale para equipes de cuidadores que se revezam em uma mesma casa. É uma
forma de cuidar melhor e dar mais tranquilidade para todos os envolvidos”,
afirma Gabriel Barros, cofundador da MYME.
Como a MYME funciona
Ao criar uma conta na MYME, o usuário pode inserir informações em
categorias sugeridas – Sintomas, Exames, Visita Médica, Medicação, Vacina e
“Outros” – ou criar suas categorias (por exemplo, controle de glicemia,
controle de pressão arterial e ciclo menstrual). A plataforma aceita arquivos
em PDF, imagem e texto e tudo é inserido em uma linha do tempo do paciente.
Qualquer dado ou categoria pode ser compartilhado via link.
“A plataforma também é pensada para o cuidado com o outro,
lembrando que vivemos em comunidade e dependemos uns dos outros”, destaca Lucas Santiago. Por isso, a
MYME permite que o usuário crie perfis de dependentes e divida sua gestão com
outros responsáveis (familiares e cuidadores de um idoso, por exemplo).
Segurança de dados
A proteção de dados é um dos principais pontos de atenção do setor
de saúde diante dos episódios recentes de vazamento de informações
confidenciais. A segurança é o ponto focal da MYME. O desenvolvedor da
plataforma, Gabriel Barros, é engenheiro de software com experiência de 15 anos
no Yahoo Internacional e liderança em um projeto de isolamento de dados
sensíveis com Google e Microsoft. Ele garante que “a construção da
infraestrutura da MYME parte do princípio de que dados de saúde exigem um nível
máximo de proteção e controle pelo usuário.”
Complementar ao Meu SUS Digital
A MYME não disputa espaço com o Meu SUS Digital, plataforma do Ministério da Saúde que funciona como prontuário eletrônico do Serviço Único de Saúde (SUS). “O Meu SUS traz informações da rede pública e agora também permite o agendamento de consultas [inicialmente para 500 municípios brasileiros]. A MYME agrega o que o paciente tem em papéis, imagens e outros arquivos guardados consigo, além de dados do cotidiano que o SUS não registra”, diferencia Gabriel.
MYME
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