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segunda-feira, 15 de junho de 2026

Dengue: projeto do Institut Pasteur de São Paulo usará inteligência artificial para identificar áreas de risco e antecipar surtos

Pesquisa combina dados climáticos, ambientais e comportamento da população para criar mapas de risco em alta resolução e apoiar ações mais precisas de saúde pública

 

A dengue continua sendo um dos maiores desafios de saúde pública do Brasil. Embora fatores climáticos como temperatura e umidade sejam reconhecidos há décadas como importantes determinantes da doença, pesquisadores do Institut Pasteur de São Paulo (IPSP) acreditam que parte da explicação para a ocorrência dos surtos ainda está escondida em escalas muito mais detalhadas do território urbano. 

Para investigar esse fenômeno, o IPSP trabalha em um novo projeto de pesquisa que pretende integrar inteligência artificial, dados climáticos, indicadores ambientais, infraestrutura urbana e percepção da população sobre vacinação para desenvolver um sistema capaz de identificar áreas de maior risco para a transmissão da dengue em São Paulo.

O objetivo é compreender de forma integrada como fatores climáticos, condições urbanas e a aceitação da vacina interagem entre si para influenciar os surtos de dengue. 

A iniciativa é coordenada pelo pesquisador Mauro César Cafundó de Morais, líder do Laboratório de Clima e Saúde do IPSP, e reúne parcefriros nacionais e internacionais, incluindo o Institut Pasteur de Paris. 

“O objetivo é compreender como diferentes fatores ambientais, sociais e climáticos interagem para favorecer a transmissão da dengue dentro da cidade. Hoje sabemos que o risco não é distribuído de forma homogênea. Existem áreas muito específicas onde diversos fatores se combinam e criam condições mais favoráveis para a proliferação do mosquito e para a ocorrência da doença”, explica Morais. 

Além das variáveis climáticas tradicionais, como temperatura e umidade, os pesquisadores pretendem analisar fatores ainda pouco explorados em estudos epidemiológicos, como ilhas de calor urbanas, acesso à água, coleta de esgoto e cobertura de serviços urbanos. 

A hipótese é que a convergência desses elementos possa ajudar a explicar por que determinadas regiões apresentam incidências mais elevadas de dengue mesmo quando comparadas a áreas vizinhas submetidas às mesmas condições sazonais.

 

 Um dos objetivos do projeto é analisar fatores pouco explorados em estudos epidemiológicos, como ilhas de calor.

Mapas de risco em escala de bairro – Uma das principais inovações do projeto é o desenvolvimento de modelos capazes de gerar mapas de risco em alta resolução espacial. Enquanto muitos sistemas atuais trabalham com dados agregados para cidades inteiras ou grandes regiões, a proposta do IPSP é identificar padrões em escalas muito menores, chegando ao nível de bairros e, futuramente, de quarteirões.

Segundo Morais, essa abordagem poderá contribuir para uma utilização mais eficiente dos recursos públicos destinados ao combate à dengue. “Se conseguirmos indicar com maior precisão onde o risco está aumentando, as equipes de vigilância poderão direcionar suas ações de forma mais estratégica, seja em campanhas de prevenção, visitas de agentes de saúde ou controle de criadouros”, afirma. 

A expectativa é que os modelos também permitam o desenvolvimento de sistemas de alerta precoce, auxiliando gestores públicos a antecipar medidas de prevenção antes que os surtos atinjam grandes proporções.
 

Escuta social e confiança na vacinação – Outro eixo do projeto envolve o monitoramento de redes sociais para compreender como a população percebe a nova vacina contra a dengue recentemente incorporada às estratégias de prevenção no país. 

A técnica, conhecida como escuta social, busca identificar dúvidas, preocupações e percepções dos cidadãos a partir de conteúdos publicados em plataformas digitais. O objetivo não é verificar informações individualmente, mas compreender tendências coletivas de comportamento e confiança relacionadas à vacinação. 

“O que queremos entender é como as pessoas percebem a vacina e quais fatores influenciam a adesão às campanhas de imunização. Essas informações podem ajudar a orientar estratégias de comunicação e fortalecer a confiança da população”, explica o pesquisador. 

O estudo também pretende analisar a percepção de profissionais de saúde, considerados atores fundamentais na recomendação de vacinas e na construção da confiança pública.
 

Abordagem One Health O projeto integra a estratégia One Health (Saúde Única) adotada pelo IPSP e pela Rede Pasteur, que reconhece a interdependência entre saúde humana, saúde animal e meio ambiente. 

A pesquisa surge em um contexto de crescente preocupação internacional com os impactos das mudanças climáticas sobre doenças transmitidas por vetores. Nos últimos anos, a dengue expandiu sua área de ocorrência para regiões antes consideradas de baixo risco, incluindo áreas do Sul da América do Sul e países europeus. 

Em abril deste ano, Morais participou do One Health Summit, realizado em Lyon, na França, onde apresentou iniciativas brasileiras voltadas ao monitoramento de doenças sensíveis às mudanças climáticas. O encontro reuniu cientistas, organismos internacionais e representantes governamentais para discutir estratégias globais de adaptação dos sistemas de saúde aos desafios climáticos. 

“Não existe vacina contra o aquecimento global. Mas podemos usar dados, ciência e tecnologia para antecipar riscos e apoiar decisões que reduzam o impacto dessas mudanças sobre a saúde das populações”, afirma. 

A expectativa é que os resultados do projeto possam contribuir para o desenvolvimento de novas ferramentas de vigilância epidemiológica e para a formulação de políticas públicas mais eficazes no enfrentamento da dengue e de outras doenças sensíveis ao clima.

 

Institut Pasteur de São Paulo - IPSP

 

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