Tomar decisões baseadas apenas em achismos e no que dizem as Inteligências Artificiais, sem análise técnica e método bem definido, pode prejudicar a assertividade nas empresas
Com a adoção crescente de ferramentas de
inteligência artificial nas rotinas empresariais, muitos negócios passaram a
usar a tecnologia para ganhar velocidade em atividades de análise, marketing e
gestão. As IAs podem organizar grandes volumes de informação, identificar
padrões, cruzar dados, resumir conteúdos, monitorar tendências e apoiar a
estruturação de relatórios e dashboards. No entanto, especialistas alertam que,
em muitos casos, a automação não elimina as opiniões e achismos de quem
pergunta, nem garante assertividade na tomada de decisão.
Em diversas situações, a ferramenta induz
empresas a tomar decisões precipitadas, principalmente quando usada sem método
específico, pesquisa de validação e interpretação estratégica de contexto do
negócio e do público. Para doutora em Administração e cofundadora da Palco
Inteligência de Negócios, Mariana da Rosa, as IAs até podem ser aliadas
importantes das pesquisas e dos processos de análise, desde que tenham um papel
compreendido com clareza pelos envolvidos.
“As inteligências artificiais têm enorme
capacidade de acelerar etapas operacionais e analíticas dentro das pesquisas.
Elas conseguem organizar grandes volumes de informação, identificar padrões,
cruzar dados, resumir conteúdos, monitorar tendências e apoiar análises com
muito mais velocidade do que processos tradicionais. Mas os limites começam
quando a decisão exige interpretação contextual, leitura comportamental e
cultural, sensibilidade estratégica e validação metodológica”, alerta.
O risco aparece quando empresas passam a
tratar respostas automatizadas como evidências suficientes para decisões de
mercado, marketing, posicionamento ou produto. De acordo com Mariana,
ferramentas de IA podem gerar respostas plausíveis, mas não necessariamente
verdadeiras ou representativas do público real. Como operam, em muitos casos,
com informações públicas e médias estatísticas, podem ter dificuldade para
captar especificidades regionais, mudanças recentes de comportamento, contextos
culturais e sinais emergentes de mercado.
Na prática, isso pode levar a um efeito de
padronização nas estratégias. Ao invés de ampliar a qualidade da decisão, o uso
inadequado das IAs pode reforçar leituras genéricas, discursos parecidos e
conclusões pouco diferenciadas das empresas concorrentes. “Por isso, uma
informação gerada por IA pode servir como ponto de partida, mas precisa ser
verificada, contextualizada e confrontada com pesquisa, dados confiáveis e
escuta qualificada do mercado”, ressalta a doutora em Administração.
Gestão
sem contexto
Na gestão dos negócios, segundo a mestre em
Administração e cofundadora da Palco Inteligência de Negócios, Juliana Saboia,
o maior risco do uso de IAs durante a definição de estratégias está nas
decisões tomadas com falta de clareza sobre o problema a ser resolvido.
“A IA consegue organizar dados, cruzar
informações e gerar análises muito rapidamente. Mas, se a empresa não definiu
claramente qual problema está tentando resolver, a ferramenta só será útil para
agilizar o processo. Isso acontece principalmente em decisões de expansão,
lançamento de produtos, investimentos em marketing e mudanças de
posicionamento, que dependem de entendimento do mercado, dos clientes e do
contexto do negócio”, analisa Juliana.
Outro ponto de atenção destacado pela
profissional é a falsa sensação de segurança. Como as respostas produzidas por
IA costumam ser bem estruturadas, lideranças podem interpretar organização como
confiabilidade. “Só que uma resposta clara ou bem escrita não garante que a
pergunta feita tenha sido adequada, que os dados sejam completos ou que a
conclusão esteja conectada à realidade do negócio”, ressalta a cofundadora da
Palco.
Neste cenário, conforme Juliana, esse uso se
torna ainda mais frágil quando a tecnologia é acionada apenas para confirmar
uma decisão que a liderança já queria tomar. “Quando a pergunta já nasce
direcionada, a IA pode funcionar como validação de uma crença interna ao invés
de ajudar a avaliar riscos, hipóteses contrárias e cenários alternativos”,
completa.
Problema
real, hipóteses e dados
Antes de apoiar uma decisão em inteligência
artificial, as empresas precisam definir o problema real, levantar hipóteses,
analisar dados disponíveis, compreender o mercado, ouvir clientes e avaliar
cenários. “A IA pode contribuir nessas etapas, especialmente na organização de
informações e no processamento de grandes volumes de dados, mas, ainda assim, o
diagnóstico e a interpretação continuam dependendo de um método consolidado e
visão de negócio”, destaca Mariana.
Por isso, na avaliação das cofundadoras da
Palco, o futuro da tomada de decisão nas empresas não está na substituição da
pesquisa pela inteligência artificial, mas na integração entre tecnologia,
processos e interpretação estratégica. “Em um ambiente de excesso de informação
e busca por respostas rápidas, o diferencial de uma empresa está na capacidade
de formular boas perguntas, validar hipóteses e transformar informação em visão
estratégia”, finaliza Juliana.
Texto:
Shaiane Corrêa/

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