Rouquidão, pigarro frequente e tosse seca persistente podem ser manifestações de refluxo mesmo sem azia. Otorrino e gastroenterologista explicam quando investigar e por que o diagnóstico nem sempre é simples
Tosse
crônica, pigarro constante, rouquidão ao longo do dia e sensação de “bolo” na
garganta são queixas cada vez mais comuns nos consultórios médicos e nem sempre
têm origem respiratória. Em muitos casos, esses sintomas estão relacionados ao
refluxo gastroesofágico, mesmo na ausência de azia ou queimação, o que
dificulta o reconhecimento do problema pelo paciente e, muitas vezes, atrasa o
diagnóstico.
Segundo
Dra. Roberta Pilla Otorrinolaringologista da Associação Brasileira de
Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF), o refluxo pode
atuar como gatilho importante da tosse crônica por diferentes mecanismos. “Há
situações em que o conteúdo gástrico provoca irritação direta da laringe,
microaspirações ou ativa reflexos nervosos que aumentam a sensibilidade das
vias aéreas. A suspeita cresce quando a tosse é seca, persistente, piora ao
deitar-se ou após as refeições, vem acompanhada de pigarro, rouquidão ou
sensação de irritação na garganta e quando causas mais comuns já foram
descartadas”, explica.
Do
ponto de vista digestivo, Dra. Patrícia Almeida Gastroenterologista e
Hepatologista, da Sociedade Brasileira de Hepatologia, reforça que o refluxo
nem sempre se manifesta como dor ou queimação no estômago. “O refluxo
gastroesofágico é o retorno recorrente do conteúdo ácido do estômago, mas
quando esse ácido alcança regiões mais altas, como a faringe e a laringe, ele
pode se expressar predominantemente por tosse crônica, pigarro e rouquidão.
Essas estruturas são muito sensíveis, e a irritação repetida pode gerar
sintomas respiratórios sem qualquer desconforto gástrico evidente”, afirma.
A
chamada forma “silenciosa” do refluxo, também conhecida como refluxo
extraesofágico ou laringofaríngeo costuma confundir pacientes e até
profissionais. De acordo com a Dra. Roberta Pilla, é importante diferenciar
sintomas de doença.
“Rouquidão,
pigarro e tosse seca podem estar associados ao refluxo, mas não significam
automaticamente que ele seja a causa principal. Consensos recentes mostram que
sintomas são inespecíficos e podem ter múltiplas origens. A laringoscopia ajuda
a excluir outras doenças, mas achados isolados não fecham diagnóstico. A
avaliação clínica criteriosa é fundamental”, ressalta.
O
estilo de vida atual também contribui para o aumento dos sintomas. Para a Dra.
Patrícia Almeida, hábitos comuns do dia a dia favorecem episódios de refluxo e
agravam manifestações na garganta. “Refeições rápidas, feitas com distração no
celular, longos períodos em jejum, estresse crônico e refeições volumosas
aumentam a pressão dentro do estômago e interferem nos mecanismos naturais que
impedem o refluxo. Com isso, os sintomas tendem a se tornar mais frequentes e
intensos”, explica.
Além
disso, comportamentos após as refeições podem piorar o quadro. “Deitar logo
depois de comer, beliscar ao longo do dia, consumir álcool, café, chocolate ou
alimentos muito gordurosos são fatores conhecidos que aumentam a exposição do
esôfago e da garganta ao ácido”, acrescenta a gastroenterologista.
Antes
mesmo do uso de medicamentos, mudanças simples de hábito podem ajudar no
controle dos sintomas, como evitar deitar nas duas a três horas após as
refeições, reduzir o volume do jantar, mastigar devagar, regular horários e
identificar gatilhos individuais. A perda de peso, quando indicada, também tem
impacto importante.
Para as especialistas, o alerta é claro: quando o refluxo
deixa de ser um desconforto ocasional e passa a comprometer a qualidade de
vida, é hora de investigar.
“Tosse crônica, rouquidão prolongada, dificuldade ou dor ao engolir, sensação
de engasgo, perda de peso sem explicação ou anemia são sinais que exigem
avaliação médica”, conclui a Dra. Patrícia Almeida.
Dra. Roberta Pilla - Otorrinolaringologia Geral Adulto e Infantil. Laringologia e Voz. Distúrbios da Deglutição; Via Aérea Pediátrica. Médica Graduada pela PUCRS- Porto Alegre/ Rio Grande do Sul (2003). Pesquisa Laboratorial em Cirurgia Cardíaca na Universidade da Pensilvania – Philadelphia/USA (2004). Título de Especialista em Otorrinolaringologia pela Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (2009). Mestrado em Cirurgia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS- Porto Alegre/RS) (2012-2016).
Dra. Patrícia Almeida CRM SP 159821 - Possui graduação em Medicina pela Universidade Federal do Ceará (2010). Residência Médica em Clínica Médica no Hospital Geral Dr César Cals em Fortaleza-CE- (2011-12). Residência em Gastroenterologia no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo-(USP RP) (2013/15). Aprimoramento em Hepatologia no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP RP)- (2016) . Aprimoramento em Transplante de fígado no Hospital das clínicas da Universidade de São Paulo (USP RP) (2017) . Observership no Jackson Memorial Hospital em Miami/EUA 2017. Doutorado em Hepatologia no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. Título de Especialista em Gastroenterologia pela FBG Título em Hepatologia pela SBH. Hepatologista do Hospital Israelita Albert Einstein
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