Exaustão, caixa
imprevisível e falta de planejamento estratégico explicam por que muitas
empreendedoras seguem girando em falso mesmo em um mercado que continua em
expansão
O início de 2026 encontra o empreendedorismo
feminino em um paradoxo no Brasil. De um lado, o país já soma mais de 10,3
milhões de mulheres donas do próprio negócio, segundo dados do Sebrae e do
IBGE. De outro, uma parcela significativa dessas empresárias relata dificuldade
para crescer, manter previsibilidade de caixa e transformar esforço em
resultado consistente. O problema, apontam especialistas, não é falta de
trabalho, mas excesso de improviso.
Sabrina
Nunes, fundadora da Francisca
Joias, e especialista em vendas na internet, essa sensação de andar em
círculos é comum entre mulheres que acumulam múltiplas funções dentro do negócio.
“Muitas empreendedoras estão exaustas
porque tentam fazer tudo sozinhas, sem um plano claro. Elas trabalham muito,
mas sem direção estratégica, e as vendas acabam travadas”, afirma.
O contexto macro ajuda a explicar o cenário.
Levantamento do Sebrae mostra que pequenas empresas lideradas por mulheres são
as mais afetadas por oscilações de caixa e dificuldades de planejamento de
médio prazo. Já pesquisas da FGV indicam que a ausência de processos e metas
estruturadas está entre os principais fatores que limitam a escalabilidade de
negócios de pequeno e médio porte.
Com mais de 17 anos de atuação no comércio
eletrônico, a especialista em vendas afirma que improvisar pode até funcionar
no início, mas se torna um obstáculo à medida que a empresa cresce. “Improviso
é comum, mas não é normal para quem quer construir um negócio sustentável.
Chega um momento em que o crescimento exige método, processo e execução real”,
diz.
A empresária relata que viveu esse ciclo no início
da trajetória, quando acumulava ideias, iniciativas e tentativas sem clareza de
prioridade. “Eu estava sempre ocupada, mas sem previsibilidade. Quando entendi
que precisava de planejamento e rota definida, parei de atirar para todos os
lados e comecei a construir um processo”, afirma. Segundo ela, essa virada foi
decisiva para transformar a operação da Francisca Joias em um negócio com
faturamento recorrente e estrutura profissionalizada.
Dados do e-commerce reforçam a importância da
mudança de postura. O Webshoppers, da NielsenIQ Ebit, aponta que o comércio
eletrônico brasileiro segue crescendo em volume, mas com margens mais
apertadas, o que penaliza empresas sem estratégia clara de marketing e vendas.
“Hoje não é falta de oportunidade. É falta de organização. Quem não planeja
acaba reagindo o tempo todo e perde eficiência”, diz Sabrina.
Foi a partir dessa demanda recorrente de
empreendedoras em estágio intermediário de maturidade que surgiu o ELAB,
imersão presencial criada por Sabrina dentro da própria operação. O objetivo é
ajudar empresárias a desenhar um plano estratégico de marketing e vendas para
os próximos 12 meses, com foco em previsibilidade e execução. “Não é sobre
teoria ou atalhos milagrosos. É sobre sair com um plano real, aplicável e
alinhado ao estágio do negócio”, afirma.
Segundo a empresária, a busca por direção é comum
tanto entre quem está começando quanto entre donas de empresas já estruturadas,
inclusive com lojas físicas. “O erro custa caro no começo, mas também custa
caro para quem já fatura e não consegue escalar. Planejamento não é luxo, é
sobrevivência”, diz.
Para 2026, Sabrina avalia que o mercado tende a separar ainda mais negócios guiados por método daqueles que seguem no improviso. “Não existe crescimento consistente sem plano de ação. Quem quer resultado precisa tratar o negócio como o que ele é: um projeto de longo prazo, não um hobby”, afirma.
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