TEA, TDAH, superdotação e dupla excepcionalidade concentram altos índices de ansiedade, depressão e ideação suicida, mas seguem invisibilizados nas campanhas oficiais de saúde mental.
Janeiro Branco é tradicionalmente um mês dedicado à conscientização sobre saúde mental. No entanto, em 2026, especialistas alertam para uma lacuna urgente nesse debate: a saúde mental das pessoas neurodivergentes. Grupos como pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), superdotação e dupla excepcionalidade apresentam índices mais elevados de ansiedade, depressão e ideação suicida. Ainda assim, suas vivências seguem pouco contempladas pelas políticas de saúde mental.
“As campanhas públicas de saúde mental ainda operam, majoritariamente, a partir de um modelo universalista e neurotípico. A neurodivergência costuma ser tratada de forma fragmentada, e não como uma condição que atravessa toda a vida emocional, social e identitária da pessoa.”, explicou o neuropsicólogo Damião Silva.
De
acordo com o especialista, falar de neurodivergência exige enfrentar temas
estruturais que vão além de ações pontuais.
“Discutir saúde mental de pessoas neurodivergentes implica a falar de inclusão real, adaptação de ambientes, capacitismo estrutural e falhas sistêmicas, assuntos que muitas instituições ainda evitam.”, falou o especialista.
No dia a dia, o sofrimento emocional dessas pessoas não está relacionado a neurodivergência em si, Mas a forma como a sociedade responde a ela. Ambientes pouco inclusivos, excesso de estímulos sensoriais, cobranças sociais e dificuldades de compreensão emocional contribuem para um quadro de sofrimento contínuo.
“A sobrecarga sensorial e emocional constante favorece sentimentos de inadequação, solidão e rejeição, mesmo em pessoas com boas competências cognitivas ou profissionais.”, destacou Damião Silva.
Outro ponto sensível é o silêncio em torno da ideação suicida entre pessoas neurodivergentes, apesar dos dados alarmantes. Para o especialista, esse apagamento tem raízes culturais e institucionais.
“Muitas vezes, sinais de sofrimento profundo são minimizados ou interpretados como traços do transtorno. Além disso, essas pessoas nem sempre expressam dor da forma esperada pelos serviços de saúde, o que leva à subidentificação do risco”, alertou o especialista.
Dados de estudos nacionais e internacionais indicam que pessoas neurodivergentes têm maior risco de desenvolver transtornos emocionais ao longo da vida, especialmente quando não recebem acompanhamento psicológico adequado ou quando passam por experiências recorrentes de invalidação e preconceito.
A pressão constante para se adequar a padrões considerados “normais” também exerce impacto direto na saúde mental, o chamado “masking”, esforço contínuo para esconder características neurodivergentes pode gerar exaustão emocional severa.
“Essa
tentativa de se encaixar está associada a ansiedade, depressão, perda de
identidade e internalização do estigma. O sofrimento, muitas vezes, vem muito
mais do preconceito do que da condição neurobiológica.”, afirmou Damião Silva.
A inclusão da neurodiversidade na agenda pública do Janeiro Branco significa reconhecer que saúde mental não é uma experiência única e que estratégias de prevenção, acolhimento e cuidado precisam ser adaptadas às diferentes realidades.
Damião Silva ressalta ainda a importância de atenção aos sinais de alerta, que nem sempre se manifestam de maneira clássica. Isolamento social, falas recorrentes de desvalorização pessoal, exaustão extrema após interações sociais e aumento de crises emocionais são alguns indícios que exigem escuta qualificada e intervenção precoce.
“Alguns sinais merecem atenção imediata como isolamento social progressivo ou abandono de atividades antes prazerosas, mudanças abruptas de humor irritabilidade intensa ou apatia persistente, falas recorrentes de desvalorização pessoal, inutilidade, desejo de desaparecer, aumento significativo de crises emocionais, colapsos ou comportamentos de fuga, exaustão extrema após interações sociais, ambientes escolares e profissionais, dificuldades crescente de comunicar sentimentos ou pedidos de ajuda.”, alertou o neuropsicólogo.
Damião Silva - psicólogo, neuropsicólogo e palestrante. Doutorando em Ciências, Tecnologias e Inclusão pela UFF, mestre em Psicologia com ênfase em Avaliação Psicológica e máster em Altas Capacidades y Desarrollo del Talento. Especialista em neuropsicologia, Psicologia Escolar e Educacional, Altas Habilidades/Superdotação e Autismo. Idealizador do Vivendo a Superdotação e CEO do Instituto UnicaMente, atua com foco em neurociência, cognição, emoções, neurodiversidade e inclusão educacional. Possui ampla experiência em avaliação psicológica e neuropsicológica, educação inclusiva, adaptação curricular e dupla excepcionalidade. É autor dos livros “Protagonismo Juvenil – Um Guia Prático” e “Transtorno do Espectro Autista: Caminhos e Contextos”, além de atuar como palestrante e formador nos setores educacional, corporativo e da saúde.

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