Juros elevados acarretam crédito mais
restrito. Nesse cenário desafiador, podem se dar bem empresas que financiam
diretamente as compras de seus clientes
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Com a Selic mantida em patamar
elevado ao longo de 2026, o ambiente de negócios no Brasil segue desafiador —
mas não de forma uniforme. A taxa básica de juros deve permanecer entre 12% e
13% até o fim do ano, segundo projeções de Ricardo Rodil, economista e líder do
Mercado de Capitais da Crowe Macro Brasil. Esse patamar é influenciado pelas
condições macroeconômicas e pela perspectiva de gastos públicos elevados em ano
eleitoral.
Na prática, juros altos
significam crédito mais restrito e caro. Para Nelson Hervey Costa,
diretor-superintendente do Sebrae-SP, a Selic elevada desacelera a atividade
econômica ao reduzir consumo e investimentos, além de encarecer o capital de
giro. Nesse cenário, as micro e pequenas empresas sentem mais esse efeito
porque dependem mais de financiamento, têm menos garantias e pagam spreads mais
altos.
Ainda assim, o impacto da Selic
alta não é igual para todos. Enquanto alguns modelos de negócio ficam mais
pressionados, outros encontram espaço para crescer, seja oferecendo eficiência
financeira, seja reduzindo a necessidade de imobilização de capital.
Quem sofre
mais e quem atravessa melhor a Selic alta
Mais do que setores
específicos, os efeitos da Selic elevada recaem sobre tipos de empresas, pontua
Rodil. Negócios que vendem diretamente ao consumidor final (B2C) tendem a
sofrer menos, pois operam majoritariamente com vendas à vista ou via cartões,
embutindo o custo financeiro nos preços. Já pequenas e médias empresas que
atuam como fornecedoras de outras companhias costumam ter menos poder de
barganha e operar com prazos longos de recebimento, entre 30 e 90 dias, o que
as torna mais vulneráveis ao custo do capital.
Costa complementa que setores
intensivos em capital, com retorno mais lento — como construção, bens duráveis
e atividades que exigem grandes investimentos em máquinas e equipamentos —
tendem a sentir mais os efeitos do crédito caro. Modelos altamente alavancados,
com margens apertadas e payback longo, ou seja, com prazo
estendido para a recuperação do capital investido, ficam particularmente
expostos quando a demanda esfria e o custo financeiro sobe ao mesmo tempo.
Oportunidades
em um ambiente de juros altos
Apesar do aperto monetário, há
empresas que conseguem transformar o cenário em oportunidade. Para Rodil, do
ponto de vista financeiro, os principais beneficiados são os investidores em
renda fixa. No ambiente empresarial, ganham espaço companhias que financiam
diretamente as compras de seus clientes, inclusive com a retomada de modelos
como carnês, desde que consigam captar recursos a um custo menor do que o juro
cobrado no financiamento.
Altino Cristofoletti Junior,
sócio da rede Casa do Construtor, rede de aluguel de equipamentos e
ferramentas, destaca que ciclos de juros elevados favorecem modelos mais
flexíveis, com custos variáveis e menor imobilização de capital. Segundo ele,
quando o dinheiro “tem mais preço”, empresas passam a planejar com mais cuidado
consumo, investimentos e crescimento, o que torna a gestão eficiente um
diferencial competitivo real.
Nesse cenário, ele diz que o
aluguel, que é a sua área de atuação, responde exatamente ao que o cenário
pede. “Em vez de imobilizar recursos em ativos, empresas optam por acessar o
que precisam, pelo tempo necessário, com previsibilidade de custos. Na
construção civil, na indústria e em serviços, essa lógica traz eficiência,
preserva caixa e amplia a capacidade de execução dos projetos”, frisa o
empresário, que acrescenta: “esse modelo se mostra ainda mais relevante, pois
entrega produtividade, acesso à tecnologia e controle financeiro.”
Redução de
custos e gestão financeira ajudam PMEs
O aumento da demanda por
serviços ligados à gestão financeira é percebido no dia a dia das empresas.
Para Thamiris Abdala, CEO da Holding SM, especialista em gestão de negócio, cresce
a busca por parceiros com conhecimento assertivo para redução de custos e
organização financeira.
O crédito mais caro, segundo
ela, reduz a margem de erro e força as empresas a buscarem uma gestão mais
eficiente para economizar ao máximo seus recursos financeiros. “É um movimento
que se intensifica quando há incerteza na economia, juros altos e que deve
aumentar ainda mais quando entrarem em vigor as novas regras da reforma tributária.”
Por que a
Selic deve seguir alta e o que isso significa para o caixa
A manutenção da Selic em
patamar elevado ao longo de 2026 está diretamente ligada ao esforço de conter
pressões inflacionárias, segundo Costa. “Os juros altos são usados para
desacelerar a economia, reduzindo consumo e investimento. O efeito colateral é
um ambiente de crédito mais caro e restrito, que pressiona especialmente os
pequenos negócios dependentes de capital de giro financiado.”
Rodil acrescenta que, diante
desse cenário, o crédito bancário se torna pouco viável para muitas PMEs, já
que poucas apresentam rentabilidade suficiente para absorver encargos
financeiros elevados. Sem capital próprio ou acesso a fontes mais baratas de
recursos, o risco de estrangulamento do fluxo de caixa aumenta
significativamente.
Erros
comuns e como sobreviver ao ciclo de juros altos
Rodil e Costa destacam que os
erros mais comuns dos empresários em cenário de juros altos são:
- Descasamento entre prazos de
pagamento e recebimento;
- Financiar compras em prazos
curtos;
- Vender a prazo longo pode
rapidamente comprometer o fluxo de caixa, especialmente em empresas com margens
reduzidas;
- Uso do cartão de crédito como
principal forma de financiamento; e
- Misturar finanças pessoais e
empresariais, o que agrava ainda mais a fragilidade financeira.
E as dicas de sobrevivência
são:
- Acompanhamento frequente do
fluxo de caixa;
- Separação das contas pessoais
e da empresa;
- Revisão de estoques;
- Renegociação de dívidas
caras; e
- Avaliação criteriosa de
alternativas como BPO financeiro e economia do acesso, sempre considerando
custos, contratos e a possibilidade de mudanças futuras no cenário de juros.
Márcia Rodrigues
https://www.dcomercio.com.br/publicacao/s/selic-alta-em-2026-impactos-riscos-e-oportunidades
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