Depois
de horas de bloco, festas e poucas horas de sono, muita gente acorda no dia
seguinte achando que a ressaca se resume à dor de cabeça. Mas o sistema
digestivo também paga a conta — e às vezes com juros: enjoo, diarreia, dor
abdominal, estufamento e queimação estão entre as queixas mais comuns no
pós-Carnaval.
Segundo
o cirurgião do aparelho digestivo Dr.
Rodrigo Barbosa, o mal-estar
gastrointestinal é parte frequente da ressaca, mas também pode ser sinal de
irritação importante do estômago e do intestino, ou até de infecção alimentar.
“Não
é só o cérebro que sofre com o excesso de álcool. O estômago produz mais ácido,
o intestino pode acelerar demais e a mucosa digestiva fica irritada. Por isso,
dor de barriga e diarreia são tão comuns depois da folia”, explica.
Entre
receitas caseiras, conselhos de amigos e remédios “milagrosos” divulgados nas
redes sociais, o especialista ajuda a separar mitos e verdades sobre como
evitar — ou pelo menos reduzir — o mal-estar digestivo.
Beber água entre as doses evita a ressaca?
VERDADE
(parcial)
Beber água ao longo da festa ajuda a reduzir a desidratação, que é um dos
fatores da dor de cabeça, tontura e fraqueza.
“Intercalar
bebida alcoólica com água é uma das atitudes mais eficazes para diminuir o
impacto geral da ressaca. Mas isso não impede a irritação do estômago nem os
efeitos tóxicos do álcool no organismo”, alerta o médico.
Comer antes de beber protege o estômago?
VERDADE
(com ressalvas)
Alimentar-se antes de consumir álcool ajuda a retardar a absorção da bebida,
reduzindo a agressão imediata ao estômago.
“O
problema é que muita gente exagera na fritura achando que está ‘forrando o
estômago’. Comida muito gordurosa pode piorar náusea, refluxo e sensação de
estufamento depois”, explica.
Diarreia no dia seguinte é normal?
VERDADE
(até certo ponto)
O álcool irrita o intestino e pode acelerar o trânsito intestinal, levando a
fezes mais amolecidas ou diarreia leve.
“Mas
se a diarreia for intensa, vier com sangue, febre ou durar mais de dois dias, é
sinal de alerta. Pode ser infecção e não apenas efeito da bebida”, diz.
Tomar remédio antes de beber evita a ressaca?
MITO
— e pode ser perigoso
Muita
gente recorre a medicamentos antes da festa na tentativa de “blindar” o corpo.
O especialista alerta:
- Antiácidos: podem aliviar azia, mas não evitam os efeitos do álcool
no fígado nem a ressaca.
- Protetores gástricos (como omeprazol): não funcionam como escudo contra
bebida e não devem ser usados sem indicação médica.
- Analgésicos antes de beber: podem sobrecarregar o fígado quando
combinados com álcool.
- Anti-inflamatórios: aumentam o risco de gastrite, úlcera e até
sangramento no estômago.
“Não
existe comprimido que anule os efeitos do álcool. Misturar bebida com certos
remédios, principalmente analgésicos e anti-inflamatórios, pode ser mais
perigoso do que a própria ressaca”, reforça.
Comer algo pesado no fim da festa “cura” a ressaca?
MITO
Aquela parada no fast food de madrugada pode até dar sensação momentânea de
conforto, mas não resolve o problema.
“Comida
gordurosa demora mais para ser digerida. Se a pessoa já está com o estômago
irritado pelo álcool, isso pode piorar a náusea, o refluxo e a dor abdominal”,
explica.
Dormir pouco piora o mal-estar digestivo?
VERDADE
Noites mal dormidas alteram hormônios e aumentam processos inflamatórios no
corpo, inclusive no sistema digestivo.
“Privação
de sono associada ao álcool é uma combinação que favorece azia, má digestão e
desconforto abdominal”, diz o médico.
Quando a “ressaca” deixa de ser normal?
O
especialista orienta procurar avaliação médica se houver:
- Dor abdominal forte e localizada
- Vômitos persistentes ou com sangue
- Diarreia intensa ou com sangue
- Febre
- Sinais de desidratação (boca muito seca, tontura ao levantar, pouca
urina)
“No
Carnaval, o problema raramente é um único fator. É o combo de álcool, pouca
água, comida pesada, calor e sono irregular que sobrecarrega o sistema
digestivo. Pequenos cuidados já fazem grande diferença”, conclui o cirurgião do
aparelho digestivo.
Dr Rodrigo Barbosa - cirurgião digestivo sub-especializado em cirurgia bariátrica e coloproctologia do corpo clínico dos hospitais Sírio Libanês e Nove de Julho. CEO do Instituto Medicina em Foco
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