Com 77.920 novos
casos estimados por ano no Brasil, o câncer de próstata é o tumor mais
frequente entre os homens, excluindo o câncer de pele não melanoma. A Sociedade
Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) reúne dez informações sobre fatores de
risco, exames, diagnóstico e possibilidades de tratamento
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O câncer de próstata deverá atingir 77.920 homens
por ano no Brasil entre 2026 e 2028, segundo estimativas do Instituto Nacional
de Câncer (INCA). Isso representa aproximadamente 233,8 mil novos casos no
triênio. Durante o Novembro Azul, campanha dedicada à conscientização sobre a
saúde masculina, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) reúne dez
informações que todo homem precisa conhecer sobre a doença, desde os fatores de
risco e os exames utilizados na investigação até as diferentes possibilidades
de tratamento, incluindo situações em que a intervenção imediata não é
necessária.
De acordo com o cirurgião oncológico Paulo Henrique
Fernandes, presidente da SBCO, o câncer de próstata apresenta elevadas taxas de
sobrevida quando identificado antes de se espalhar para outros órgãos. Dados do programa norte-americano SEER, do National Cancer Institute,
mostram que a sobrevida relativa em cinco anos chega a 100% entre pacientes com
doença localizada, enquanto cai para 40,1% quando há metástases. “Ainda há um grande tabu sobre o autocuidado masculino, especialmente
quando os homens não apresentam sintomas. No entanto, a ausência de sinais não
significa que a doença não possa estar presente. Por isso, é importante
conversar com o médico sobre os fatores de risco, o histórico familiar e a
necessidade de investigação individualizada. Quanto mais informação os homens
tiverem sobre a doença, maiores serão as possibilidades de identificá-la
oportunamente e escolher a melhor abordagem”, afirma.
Confira as dez informações sobre o câncer de
próstata que merecem a atenção dos homens.
1 - O risco de câncer de
próstata aumenta com a idade
O envelhecimento é um dos principais fatores de
risco para o câncer de próstata. A tem maior ocorrência após os 50 anos e tanto
a incidência quanto a mortalidade aumentam com o avanço da idade. Segundo o
Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deverá registrar 77.920 novos
casos anuais entre 2026 e 2028, o equivalente a aproximadamente 233.760
diagnósticos no período. O câncer de próstata representa 30,5% dos novos casos
de câncer estimados entre os homens brasileiros, quando excluídos os tumores de
pele não melanoma.
Além da idade, o histórico familiar também deve
servir de alerta. Homens cujo pai ou irmão recebeu diagnóstico de câncer de
próstata, especialmente antes dos 60 anos, podem apresentar maior risco de
desenvolver a doença. Alterações genéticas hereditárias, como mutações nos
genes BRCA1 e BRCA2, também podem aumentar essa predisposição. Famílias com
histórico de câncer de mama, ovário, pâncreas e próstata podem compartilhar
alterações genéticas associadas ao desenvolvimento desses tumores.
“Outro fator importante é a maior incidência da
doença entre homens negros, que também apresentam maior mortalidade por câncer
de próstata. O tabagismo merece atenção por sua associação com piores desfechos
após o diagnóstico. Já o sedentarismo e o consumo de bebidas alcoólicas não são
considerados fatores de risco estabelecidos para o desenvolvimento desse tumor,
embora manter hábitos saudáveis seja importante para a saúde geral”, explica
Jayme Quirino Caon Nobre, coordenador da Comissão de Neoplasias do Trato
Urinário da SBCO.
2 - Quando começar a conversar
com o médico sobre o câncer de próstata?
A decisão de realizar exames para investigar o
câncer de próstata deve considerar a idade, o histórico familiar, as condições
de saúde e os fatores individuais de risco. Há diferenças entre as
recomendações das sociedades médicas e as diretrizes do Ministério da Saúde e
do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Enquanto sociedades médicas recomendam
discutir a realização dos exames, em geral, a partir dos 50 anos para homens
com risco habitual, podendo antecipar essa avaliação para os 45 ou 40 anos em
situações de maior risco, o Ministério da Saúde e o INCA não recomendam o
rastreamento populacional de rotina em homens sem sintomas, considerando as
incertezas sobre os benefícios e os possíveis danos associados à investigação.
Homens negros e aqueles com histórico familiar de
câncer de próstata, especialmente em parentes de primeiro grau, merecem atenção
particular. Nesses casos, a discussão sobre os exames pode começar mais cedo,
conforme avaliação médica individualizada. Entre os exames que podem ser
considerados estão a dosagem do PSA (antígeno prostático específico), realizada
por meio de coleta de sangue, e o toque retal. A decisão deve ser compartilhada
entre médico e paciente, levando em conta os possíveis benefícios da detecção
precoce e os riscos de resultados falso-positivos, exames invasivos,
identificação de tumores que não causariam problemas ao longo da vida e
tratamentos desnecessários.
“Os homens precisam incorporar o acompanhamento
médico à rotina de cuidados com a saúde, mesmo quando não apresentam sintomas.
A decisão sobre quando iniciar os exames e com que frequência os realizar deve
ser individualizada e compartilhada com o médico, considerando os benefícios e
os possíveis riscos da investigação”, explica Fernandes
3 - PSA e toque retal avaliam
características diferentes da próstata
O PSA é uma proteína produzida pela próstata e medida
por exame de sangue. Sua concentração pode aumentar na presença de câncer, mas
também em situações benignas, como o crescimento da glândula, conhecido como
hiperplasia prostática benigna, ou processos inflamatórios. Por isso, um
resultado elevado não confirma, isoladamente, o diagnóstico de câncer.
O toque retal, por sua vez, é realizado pelo médico
durante a consulta e permite avaliar características da próstata, como tamanho,
consistência e presença de nódulos ou áreas endurecidas. Os dois exames fornecem
informações diferentes e podem ser utilizados de forma complementar, conforme a
avaliação clínica.
Quando os resultados levantam suspeitas, o médico
pode solicitar exames adicionais, como a ressonância magnética multiparamétrica
da próstata. A confirmação do câncer geralmente depende da biópsia,
procedimento que permite coletar pequenos fragmentos do tecido prostático para
análise.
“A frequência dos exames depende dos resultados
anteriores, do histórico familiar e das características clínicas de cada
paciente. Tanto o PSA quanto o toque retal são procedimentos rápidos. O
importante é que o receio dos exames não impeça o homem de procurar orientação
médica”, acrescenta Fernandes.
4 - Alterações urinárias devem
ser investigadas, mesmo quando parecem benignas
O câncer de próstata geralmente não provoca
sintomas em suas fases iniciais. À medida que a doença evolui, alguns pacientes
podem apresentar dificuldade para começar a urinar, enfraquecimento do jato
urinário, sensação de esvaziamento incompleto da bexiga ou necessidade de
urinar com maior frequência, inclusive durante a noite.
Essas manifestações, entretanto, são muito mais
frequentemente associadas a condições benignas, como o aumento da próstata, e
não significam necessariamente a presença de câncer. Ainda assim, merecem
avaliação médica, especialmente quando persistem ou se intensificam. A presença
de sangue na urina também exige investigação, pois pode estar relacionada a
outras doenças do sistema urinário, incluindo tumores de bexiga.
Em situações mais avançadas, o câncer de próstata
pode provocar dor óssea persistente, principalmente quando há disseminação para
os ossos. A ausência de sintomas, por outro lado, não exclui a possibilidade da
doença. Por isso, a investigação não deve depender exclusivamente do
aparecimento de alterações urinárias.
5 - O câncer de próstata
também pode atingir homens com menos de 50 anos
Embora seja mais frequente em homens mais velhos, o
câncer de próstata também pode surgir antes dos 50 anos. Um levantamento da
Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), realizado com base em dados
do Painel Oncologia do DataSUS, identificou 9.352 diagnósticos em homens com
menos de 60 anos registrados no Sistema Único de Saúde (SUS) em 2024 e 2025.
Desse total, 940 ocorreram antes dos 50 anos.
A análise também identificou uma proporção
expressiva de doença metastática entre os pacientes mais jovens que tinham
informações disponíveis sobre o estágio do tumor. Na faixa de 40 a 44 anos, 30
dos 55 homens com estadiamento conhecido (54,5%) apresentavam metástases no
momento do diagnóstico. Entre aqueles de 45 a 49 anos, a doença já havia se
espalhado para outros órgãos em 114 dos 259 casos com essa informação
disponível (44%).
Os resultados mostram que, embora menos comum entre
adultos jovens, a doença também pode apresentar comportamento avançado nessa
população. Os percentuais, entretanto, referem-se apenas aos pacientes com
estadiamento informado no sistema e não representam necessariamente todos os
homens diagnosticados nessas faixas etárias.
6 - O diagnóstico em fases
iniciais amplia as possibilidades de tratamento curativo
Identificar o câncer de próstata antes de sua
disseminação para outros órgãos amplia as possibilidades de tratamento com
intenção curativa. Dependendo das características do tumor, também pode
permitir abordagens menos intensivas ou o acompanhamento sem intervenção
imediata, reduzindo o risco de efeitos adversos desnecessários.
Dados do programa SEER, vinculado ao National
Cancer Institute dos Estados Unidos, mostram que 69% dos casos de câncer de
próstata são diagnosticados quando a doença ainda está localizada. Nesse grupo,
a sobrevida relativa em cinco anos é de 100%. Quando o câncer apresenta
metástases à distância, esse percentual cai para 40,1%.
A sobrevida relativa compara a sobrevivência dos
pacientes com câncer à esperada para pessoas da população geral com
características semelhantes. Portanto, o percentual de 100% não significa
garantia individual de cura, mas demonstra o prognóstico favorável observado
entre os pacientes com doença localizada. A diferença entre os resultados
reforça a importância de avaliar os fatores de risco e discutir com o médico os
benefícios e as limitações dos exames de detecção precoce.
7 - Cirurgia, radioterapia e
tratamentos medicamentosos podem ser utilizados isoladamente ou em combinação
O tratamento do câncer de próstata depende de
fatores como a extensão da doença, a agressividade do tumor, os níveis de PSA,
a idade, as condições clínicas e as preferências do paciente. Entre as
principais opções estão a cirurgia, a radioterapia, a terapia hormonal e os
medicamentos utilizados nos casos mais avançados.
A cirurgia, chamada prostatectomia radical,
consiste na retirada da próstata e, em determinadas situações, de estruturas próximas
e linfonodos. Pode ser realizada por técnica aberta, laparoscópica ou assistida
por robô. A radioterapia utiliza radiação para destruir as células tumorais e
pode ser indicada como tratamento principal, após a cirurgia ou em situações de
recorrência da doença.
Nos tumores localizados, cirurgia e radioterapia
são alternativas com intenção curativa, enquanto alguns pacientes com doença de
baixo risco podem ser acompanhados por vigilância ativa. Nos casos de maior
risco ou localmente avançados, a radioterapia frequentemente é associada à
terapia hormonal, que reduz a ação da testosterona sobre as células cancerígenas.
A cirurgia também pode integrar estratégias de tratamento selecionadas,
eventualmente acompanhada de terapias adicionais.
Quando o câncer já apresenta metástases, o
tratamento costuma ser sistêmico, ou seja, utiliza medicamentos que atuam em
diferentes regiões do organismo. A terapia de privação androgênica, que reduz
os níveis ou a ação dos hormônios masculinos, constitui uma das bases do tratamento
e geralmente é combinada com medicamentos hormonais de nova geração e, em
situações específicas, quimioterapia. A radioterapia também pode ser utilizada
para controlar sintomas ou tratar determinados focos da doença.
8 - Cirurgia robótica para câncer
de próstata foi incorporada ao SUS
A prostatectomia radical assistida por robô foi
incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS) por meio da Portaria SECTICS/MS nº
72/2025, publicada em outubro de 2025. A decisão contempla pacientes com câncer
de próstata clinicamente localizado ou localmente avançado e representa um
avanço na ampliação das opções de tratamento cirúrgico na rede pública. A
Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) apoiou a incorporação dessa
tecnologia, reconhecendo sua importância para a modernização da assistência
oncológica no país.
Na cirurgia robótica, o médico controla instrumentos
articulados por meio de um console, com visualização ampliada e tridimensional
do campo operatório. A tecnologia permite movimentos precisos e a realização do
procedimento por pequenas incisões, características que podem favorecer a
recuperação pós-operatória.
Em comparação com a cirurgia aberta, a abordagem
robótica pode proporcionar menor perda de sangue, menor tempo de internação e
recuperação mais rápida. Os resultados relacionados à continência urinária e à
função sexual, entretanto, dependem de diversos fatores, incluindo as
características do paciente, a extensão do tumor e a experiência da equipe
cirúrgica. Não há garantia de superioridade da técnica robótica em todos esses
desfechos.
A incorporação ao SUS não significa disponibilidade
imediata em todas as unidades. A oferta depende da organização dos serviços, da
existência de equipamentos e da capacitação das equipes responsáveis pelos procedimentos.
9 - Nem todo câncer de
próstata precisa de tratamento imediato
Receber o diagnóstico de câncer de próstata não
significa, necessariamente, que o paciente precisará passar imediatamente por
cirurgia ou radioterapia. Em determinadas situações, especialmente quando o
tumor apresenta baixo risco de progressão, a vigilância ativa pode ser a opção
mais adequada.
Essa estratégia consiste em acompanhar a evolução
do câncer por meio de consultas periódicas, exames de PSA, ressonância
magnética e, quando necessário, novas biópsias. O objetivo é identificar
eventuais sinais de progressão e iniciar o tratamento curativo no momento
apropriado, evitando intervenções que poderiam ser desnecessárias em tumores de
crescimento lento.
A vigilância ativa não significa abandonar o
tratamento ou simplesmente esperar pelo aparecimento de sintomas. Trata-se de
uma conduta médica estruturada, com critérios definidos e acompanhamento
regular. A indicação considera fatores como a agressividade das células
tumorais identificadas na biópsia, a quantidade de tecido comprometido, o PSA e
os resultados dos exames de imagem.
Essa abordagem também é diferente da observação
clínica, ou espera vigilante, geralmente adotada em pacientes com expectativa
de vida limitada ou outras condições de saúde importantes, quando o objetivo
principal é controlar sintomas caso eles apareçam. A principal vantagem da
vigilância ativa é evitar ou adiar possíveis efeitos adversos da cirurgia e da
radioterapia, como incontinência urinária e disfunção erétil, sem comprometer
desnecessariamente as possibilidades de tratamento curativo nos pacientes
adequadamente selecionados.
10 - Preservar a função
urinária e sexual também faz parte do tratamento
Além de controlar o câncer, o planejamento
terapêutico deve considerar possíveis repercussões sobre a qualidade de vida. A
próstata está localizada próxima a estruturas envolvidas no controle da urina e
na função sexual, o que explica por que alguns tratamentos podem provocar
alterações nessas áreas.
Após a prostatectomia radical, alguns pacientes
podem apresentar perda involuntária de urina, especialmente nos primeiros meses
de recuperação, ou dificuldade para obter e manter a ereção. A intensidade e a
duração dessas alterações variam conforme a idade, as condições de saúde
anteriores, a extensão da cirurgia e a possibilidade de preservação dos nervos
responsáveis pela ereção.
A radioterapia também pode provocar efeitos
urinários, intestinais e sexuais, que podem surgir durante o tratamento ou
posteriormente. Já a terapia hormonal pode causar redução da libido, alterações
da função erétil, ondas de calor, perda de massa muscular e mudanças
metabólicas.
Existem estratégias para prevenir, reduzir ou
tratar parte dessas complicações, incluindo reabilitação do assoalho pélvico,
medicamentos e acompanhamento especializado. Por isso, a discussão sobre os
possíveis efeitos adversos deve ocorrer antes da definição da conduta.
A escolha do tratamento precisa equilibrar as
possibilidades de controle da doença com seus impactos sobre a rotina, a
sexualidade e a qualidade de vida. O paciente deve participar dessa decisão,
compreendendo os benefícios e as limitações de cada alternativa.
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