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O interesse pelo universo da beleza tem
surgido cada vez mais cedo entre crianças, impulsionado pela popularidade dos
conteúdos digitais, pela exposição a influenciadores e pela facilidade de
acesso a tendências de maquiagem e cuidados com a pele. Dados da The
Benchmarking Company, empresa de pesquisa de mercado especializada no setor de
beleza e cuidados pessoais, mostram que 69% das meninas e 50% dos meninos
manifestaram forte interesse por produtos de cuidados pessoais aos 10 anos de
idade ou antes.
A influência das redes sociais aparece como
um dos fatores centrais, 84% das crianças e adolescentes assistem a vídeos de
influenciadores, enquanto 79% procuram conteúdos com recomendações e avaliações
de produtos. A psicóloga e professora da Afya Sete Lagoas, Dra
Rachel Soares, comenta que quando os conteúdos de
beleza passam a ocupar um espaço muito central e significativo na experiência
cotidiana da criança, ela pode começar a compreender que a aparência física é
mais importante do que outras características e qualidades, como suas
habilidades cognitivas, sua identidade, seu senso de responsabilidade, sua
criatividade e sua perseverança.
“O problema não está na
maquiagem ou no interesse pela estética em si, mas no momento em que a criança
começa a acreditar que seu valor depende de sua capacidade de se aproximar de
um determinado padrão de beleza. A exposição frequente a imagens idealizadas
pode intensificar os processos de comparação social, levando a uma menor
satisfação com o próprio corpo e à redução da autoestima. Em outras palavras,
não é o produto em si que compromete a autoestima, mas a mensagem implícita de
que a aparência física é o principal caminho para obter reconhecimento,
admiração e pertencimento”.
Além disso, a pesquisa destaca que 75%
assistem a tutoriais de cuidados com a pele e os cabelos. O fenômeno também
desperta preocupação entre os responsáveis. No mesmo estudo, 56% dos pais
demonstraram receio de que os ingredientes presentes nos cosméticos sejam
fortes demais para a pele dos filhos, enquanto 35% temem que esses produtos possam
causar danos.
A psicóloga informa que o primeiro passo é
entender que os comportamentos da criança devem ser mediados, e não censurados.
É importante evitar tanto a proibição quanto o incentivo excessivo, buscando
uma postura de equilíbrio.
“Os pais não precisam demonizar a
maquiagem, os cosméticos ou a vaidade, mas também devem evitar valorizar
excessivamente a aparência, para não reforçar a ideia de que ela é a principal
forma de reconhecimento. Outro ponto fundamental é diversificar os elogios. Além
de dizer que a criança está bonita, é importante reconhecer seu esforço,
criatividade, coragem, empatia e capacidade de aprender. Afinal, uma autoestima
sólida não depende de corresponder a um padrão de beleza, mas de compreender
que se tem valor independentemente da aparência”, complementa.
Impactos
na pele da criança
Um estudo publicado em 2025 na revista Pediatrics,
da Academia Americana de Pediatria, analisou 100 vídeos de rotinas de cuidados
com a pele publicados no TikTok e identificou que aproximadamente um terço dos
conteúdos era produzido por crianças de até 13 anos.
As rotinas apresentavam, em média, cerca de
seis produtos e podiam expor o público jovem a combinações desnecessárias de
cosméticos. A dermatologista e professora da Afya Itajubá, Dra Chan I Thien,
informa que entre os cosméticos desnecessários para crianças estão maquiagens,
batons, esmaltes, perfumes, tinturas e descolorantes capilares, produtos
alisantes com formol ou liberadores de formaldeído e tatuagens de henna.
“Também é importante ter cautela com
produtos potencialmente prejudiciais à pele, especialmente os sem enxágue, como
loções, cremes e lenços umedecidos, que permanecem em contato prolongado com a
pele e podem favorecer a absorção de ingredientes nocivos. Além disso,
cosméticos infantis com óleos essenciais podem conter substâncias alergênicas,
como limoneno, linalol e acetato de linalila. Como não há regulamentação
específica da Anvisa para esses ingredientes na faixa pediátrica, seu uso deve
ser cauteloso”.
Em relação à idade de uso, sabonetes
infantis neutros, xampus, condicionadores e cremes para assaduras específicos
para bebês podem ser utilizados desde o nascimento, de acordo com a
especialista. O protetor solar infantil é indicado a partir dos 6 meses, desodorantes
sem ação antitranspirante a partir dos 8 anos e desodorantes antitranspirantes
com alumínio a partir dos 12 anos.
Já as maquiagens infantis podem ser
utilizadas a partir dos 3 anos, enquanto os esmaltes à base de água são
indicados a partir dos 5 anos. Unhas de gel ou fibra devem ser reservadas para
maiores de 16 anos. Para os cabelos, tinturas temporárias e tonalizantes sem
amônia, chumbo ou água oxigenada são indicados a partir dos 12 anos, enquanto
colorações permanentes e alisamentos devem ser evitados antes dos 15
anos.
Dra Chan I Thien, destaca que alguns
ingredientes presentes em cosméticos merecem atenção por seu potencial de
causar alergias, irritações cutâneas e, em determinados casos, possíveis
efeitos sistêmicos decorrentes da absorção pela pele, como disrupção endócrina
e potencial carcinogênico. Entre eles estão: alumínio, BHT, fenoxietanol,
filtros solares químicos (oxibenzona, octinoxato e octocrileno), formaldeído e
seus liberadores, ftalatos, lauril sulfato de sódio, metilisotiazolinona,
metilcloroisotiazolinona, parabenos, fragrâncias e triclosan.
Rotina
adequada de cuidados
Os cuidados com a higiene da pele, unhas,
cavidade oral, genitália e orelhas são responsabilidade dos pais ou cuidadores,
que devem orientar e supervisionar as crianças até que tenham autonomia
suficiente para realizá-los.
“A rotina de cuidados com a pele deve
considerar a frequência dos banhos e da lavagem dos cabelos, levando em conta o
clima, as atividades da criança e as características da pele e dos cabelos.
Podem ser utilizados sabonetes ou syndets (limpadores com surfactantes
sintéticos) no banho e produtos infantis específicos para a higiene do couro
cabeludo. Hidratantes são indicados para peles secas ou atópicas. Em relação à
fotoproteção, crianças de 6 meses a 2 anos devem utilizar filtros solares
inorgânicos. A partir dos 2 anos, podem ser utilizados filtros orgânicos ou
inorgânicos.
Já os
adolescentes podem optar por filtros mistos, com veículos mais adequados à pele
com tendência à oleosidade”, conclui a docente da Afya.

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