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terça-feira, 3 de novembro de 2026

Com 79% das crianças buscando recomendações de cosméticos na web, especialistas alertam para riscos

 

Magnific
Pesquisas apontam que um terço dos tutoriais de pele no TikTok é gravado por menores de 13 anos, profissionais destacam a importância de orientar as crianças.

 

O interesse pelo universo da beleza tem surgido cada vez mais cedo entre crianças, impulsionado pela popularidade dos conteúdos digitais, pela exposição a influenciadores e pela facilidade de acesso a tendências de maquiagem e cuidados com a pele. Dados da The Benchmarking Company, empresa de pesquisa de mercado especializada no setor de beleza e cuidados pessoais, mostram que 69% das meninas e 50% dos meninos manifestaram forte interesse por produtos de cuidados pessoais aos 10 anos de idade ou antes. 

 

A influência das redes sociais aparece como um dos fatores centrais, 84% das crianças e adolescentes assistem a vídeos de influenciadores, enquanto 79% procuram conteúdos com recomendações e avaliações de produtos. A psicóloga e professora da Afya Sete Lagoas, Dra Rachel Soares, comenta que quando os conteúdos de beleza passam a ocupar um espaço muito central e significativo na experiência cotidiana da criança, ela pode começar a compreender que a aparência física é mais importante do que outras características e qualidades, como suas habilidades cognitivas, sua identidade, seu senso de responsabilidade, sua criatividade e sua perseverança. 

 

“O problema não está na maquiagem ou no interesse pela estética em si, mas no momento em que a criança começa a acreditar que seu valor depende de sua capacidade de se aproximar de um determinado padrão de beleza. A exposição frequente a imagens idealizadas pode intensificar os processos de comparação social, levando a uma menor satisfação com o próprio corpo e à redução da autoestima. Em outras palavras, não é o produto em si que compromete a autoestima, mas a mensagem implícita de que a aparência física é o principal caminho para obter reconhecimento, admiração e pertencimento”.

 

Além disso, a pesquisa destaca que 75% assistem a tutoriais de cuidados com a pele e os cabelos. O fenômeno também desperta preocupação entre os responsáveis. No mesmo estudo, 56% dos pais demonstraram receio de que os ingredientes presentes nos cosméticos sejam fortes demais para a pele dos filhos, enquanto 35% temem que esses produtos possam causar danos.

 

A psicóloga informa que o primeiro passo é entender que os comportamentos da criança devem ser mediados, e não censurados. É importante evitar tanto a proibição quanto o incentivo excessivo, buscando uma postura de equilíbrio.

 

“Os pais não precisam demonizar a maquiagem, os cosméticos ou a vaidade, mas também devem evitar valorizar excessivamente a aparência, para não reforçar a ideia de que ela é a principal forma de reconhecimento. Outro ponto fundamental é diversificar os elogios. Além de dizer que a criança está bonita, é importante reconhecer seu esforço, criatividade, coragem, empatia e capacidade de aprender. Afinal, uma autoestima sólida não depende de corresponder a um padrão de beleza, mas de compreender que se tem valor independentemente da aparência”, complementa.


 

Impactos na pele da criança 

 

Um estudo publicado em 2025 na revista Pediatrics, da Academia Americana de Pediatria, analisou 100 vídeos de rotinas de cuidados com a pele publicados no TikTok e identificou que aproximadamente um terço dos conteúdos era produzido por crianças de até 13 anos.

 

As rotinas apresentavam, em média, cerca de seis produtos e podiam expor o público jovem a combinações desnecessárias de cosméticos. A dermatologista e professora da Afya Itajubá, Dra Chan I Thien, informa que entre os cosméticos desnecessários para crianças estão maquiagens, batons, esmaltes, perfumes, tinturas e descolorantes capilares, produtos alisantes com formol ou liberadores de formaldeído e tatuagens de henna.

 

“Também é importante ter cautela com produtos potencialmente prejudiciais à pele, especialmente os sem enxágue, como loções, cremes e lenços umedecidos, que permanecem em contato prolongado com a pele e podem favorecer a absorção de ingredientes nocivos. Além disso, cosméticos infantis com óleos essenciais podem conter substâncias alergênicas, como limoneno, linalol e acetato de linalila. Como não há regulamentação específica da Anvisa para esses ingredientes na faixa pediátrica, seu uso deve ser cauteloso”.

 

Em relação à idade de uso, sabonetes infantis neutros, xampus, condicionadores e cremes para assaduras específicos para bebês podem ser utilizados desde o nascimento, de acordo com a especialista. O protetor solar infantil é indicado a partir dos 6 meses, desodorantes sem ação antitranspirante a partir dos 8 anos e desodorantes antitranspirantes com alumínio a partir dos 12 anos. 

Já as maquiagens infantis podem ser utilizadas a partir dos 3 anos, enquanto os esmaltes à base de água são indicados a partir dos 5 anos. Unhas de gel ou fibra devem ser reservadas para maiores de 16 anos. Para os cabelos, tinturas temporárias e tonalizantes sem amônia, chumbo ou água oxigenada são indicados a partir dos 12 anos, enquanto colorações permanentes e alisamentos devem ser evitados antes dos 15 anos. 

 

Dra Chan I Thien, destaca que alguns ingredientes presentes em cosméticos merecem atenção por seu potencial de causar alergias, irritações cutâneas e, em determinados casos, possíveis efeitos sistêmicos decorrentes da absorção pela pele, como disrupção endócrina e potencial carcinogênico. Entre eles estão: alumínio, BHT, fenoxietanol, filtros solares químicos (oxibenzona, octinoxato e octocrileno), formaldeído e seus liberadores, ftalatos, lauril sulfato de sódio, metilisotiazolinona, metilcloroisotiazolinona, parabenos, fragrâncias e triclosan. 


 

Rotina adequada de cuidados 

 

Os cuidados com a higiene da pele, unhas, cavidade oral, genitália e orelhas são responsabilidade dos pais ou cuidadores, que devem orientar e supervisionar as crianças até que tenham autonomia suficiente para realizá-los. 

 

“A rotina de cuidados com a pele deve considerar a frequência dos banhos e da lavagem dos cabelos, levando em conta o clima, as atividades da criança e as características da pele e dos cabelos. Podem ser utilizados sabonetes ou syndets (limpadores com surfactantes sintéticos) no banho e produtos infantis específicos para a higiene do couro cabeludo. Hidratantes são indicados para peles secas ou atópicas. Em relação à fotoproteção, crianças de 6 meses a 2 anos devem utilizar filtros solares inorgânicos. A partir dos 2 anos, podem ser utilizados filtros orgânicos ou inorgânicos.

Já os adolescentes podem optar por filtros mistos, com veículos mais adequados à pele com tendência à oleosidade”, conclui a docente da Afya.


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