Especialista explica como dificuldades pouco evidentes podem afetar a autoestima e o desenvolvimento infantil e alerta para os riscos de diagnósticos precipitados e da falta de acompanhamento adequado
A criança tira
boas notas, não atrapalha a aula e raramente recebe reclamações dos
professores. Ainda assim, leva horas para fazer uma tarefa simples, esquece o
que acabou de ouvir, perde objetos e precisa de ajuda constante para organizar
a rotina. Como não apresenta o comportamento agitado normalmente associado ao
transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), suas dificuldades
podem passar despercebidas por muito tempo.
Em outras
situações, acontece o contrário. Basta a criança ser inquieta, falar demais ou
ter dificuldade para obedecer a determinados combinados para que alguém sugira
que ela tem TDAH. Entre a suspeita precipitada e os sinais que ninguém percebe,
há crianças que acabam enfrentando dificuldades sem receber o apoio de que
precisam.
Para Marcela
Oliveira, fisioterapeuta, pesquisadora e especialista em Neuroreabilitação
Infantil, fundadora e diretora da Clínica Follow Kids, especializada em
neuroreabilitação infantil, é preciso olhar com mais cuidado para
comportamentos que muitas vezes são interpretados apenas como desobediência,
desinteresse ou falta de esforço.
“Existe uma imagem
muito forte de que a criança com TDAH é aquela que não para quieta, interrompe
todo mundo e não consegue prestar atenção em nada. Mas nem sempre é assim.
Algumas conseguem acompanhar as aulas, têm bom desempenho em determinadas
atividades e, mesmo assim, fazem um esforço enorme para dar conta da rotina. O
problema é que esse esforço nem sempre é percebido pelos adultos. A criança
começa a ouvir que é desorganizada, esquecida, que vive no mundo da lua ou que
precisa se dedicar mais, quando pode existir uma dificuldade real que ainda não
foi identificada”, explica.
Os sinais que
nem sempre chamam a atenção
O TDAH é uma
condição do neurodesenvolvimento que pode envolver dificuldades persistentes de
atenção, planejamento, hiperatividade e impulsividade, em diferentes
combinações. Embora alguns comportamentos sejam facilmente percebidos, outros
aparecem de maneira discreta no cotidiano.
Uma criança pode,
por exemplo, compreender perfeitamente o que o professor explicou, mas esquecer
parte das instruções quando precisa executar a atividade. Pode começar a
arrumar a mochila e se distrair várias vezes antes de terminar, precisar reler
o mesmo trecho repetidamente ou ter dificuldade para perceber quanto tempo uma
tarefa vai levar.
Também pode
apresentar grande interesse e concentração em determinadas atividades,
especialmente aquelas que considera estimulantes, e ter muita dificuldade para
manter o envolvimento em tarefas repetitivas ou que exigem esforço prolongado.
Essa diferença não significa, necessariamente, falta de vontade.
Outro sinal que
merece atenção é o desgaste provocado por situações aparentemente simples. Há
crianças que conseguem acompanhar as exigências da escola, mas chegam em casa
exaustas, irritadas ou emocionalmente sobrecarregadas depois de um dia tentando
controlar impulsos, acompanhar orientações e manter a organização.
“Às vezes, o
adulto olha apenas para o resultado. A criança fez a atividade, entregou o
trabalho, conseguiu passar de ano. Mas ninguém percebe quanto esforço aquilo
exigiu ou o quanto ela dependeu de ajuda para conseguir. Também precisamos
observar como ela se sente, se está constantemente frustrada, se evita
determinadas tarefas ou se começa a acreditar que não é capaz. O
desenvolvimento não pode ser avaliado apenas pelas notas ou pelo comportamento
em sala de aula”, afirma Marcela.
Essas
manifestações não confirmam, isoladamente, a presença de TDAH. São situações
que podem justificar uma investigação quando se tornam frequentes, persistentes
e, e principalmente, quando prejudicam a vida da criança.
O peso dos
rótulos na infância
As consequências
de uma dificuldade não compreendida podem ultrapassar o desempenho escolar. Uma
criança que escuta repetidamente que é preguiçosa, desobediente, desorganizada
ou incapaz de prestar atenção pode incorporar essas características à maneira
como se enxerga.
Por outro lado,
receber um diagnóstico não significa que todos os seus comportamentos devam ser
explicados por ele. Expressões como “ele faz isso porque tem TDAH” podem acabar
sendo utilizadas para justificar qualquer dificuldade, sem que os adultos
procurem compreender o que está acontecendo ou quais estratégias poderiam
ajudar.
“Um diagnóstico
bem feito pode ser libertador para uma família, porque ajuda a compreender
dificuldades que antes pareciam não ter explicação. Mas ele não pode virar uma
sentença sobre quem aquela criança é. Quando tudo passa a ser atribuído ao
TDAH, corremos o risco de deixar de perceber outras necessidades, emoções e até
habilidades. A criança continua sendo muito maior do que o diagnóstico. Ela
precisa de compreensão, mas também de oportunidades para aprender, desenvolver
habilidades e conquistar autonomia”, destaca a especialista.
Marcela ressalta
que tanto a ausência de identificação quanto uma conclusão precipitada podem
trazer prejuízos. Enquanto a falta de diagnóstico pode prolongar dificuldades e
comprometer a autoestima, uma identificação inadequada pode direcionar a
criança para intervenções que não correspondem às suas necessidades.
Por que uma
avaliação cuidadosa faz diferença?
Não existe um
exame isolado capaz de confirmar o TDAH. O diagnóstico é clínico e considera o
histórico do desenvolvimento, a persistência dos sintomas, sua presença em
diferentes contextos e os prejuízos provocados na vida cotidiana. Também é
necessário investigar outras condições que possam explicar ou contribuir para
as dificuldades observadas.
Alterações do
sono, ansiedade, dificuldades específicas de aprendizagem, problemas auditivos
e outras condições do neurodesenvolvimento podem apresentar manifestações
semelhantes ou coexistir com o TDAH. Por isso, uma avaliação responsável não
deve se limitar a uma lista de comportamentos ou à impressão de um único
adulto.
A investigação
diagnóstica deve ser conduzida por profissional de saúde habilitado, com
experiência em neurodesenvolvimento infantil. Conforme as necessidades
identificadas, a participação de profissionais de diferentes áreas, como
psicologia, neuropsicologia, fonoaudiologia e terapia ocupacional, pode
contribuir para compreender melhor o funcionamento da criança e orientar os
cuidados.
Na Clínica Follow
Kids, a abordagem de neuroreabilitação infantil considera não apenas as
dificuldades apresentadas, mas também a maneira como elas interferem na
participação da criança na escola, em casa e nas relações sociais. Esse olhar
para a funcionalidade ajuda a compreender quais habilidades precisam ser
desenvolvidas e quais adaptações podem facilitar o cotidiano.
“Não basta
identificar que uma criança tem dificuldade de atenção. Precisamos entender
como isso aparece na vida dela. É na hora de acompanhar uma explicação? De
organizar uma sequência de tarefas? De controlar uma reação impulsiva? De lidar
com frustrações? Cada situação exige uma compreensão diferente. O trabalho de
uma equipe multidisciplinar é importante justamente porque permite reunir
diferentes olhares e construir estratégias que façam sentido para aquela
criança, em vez de tentar encaixá-la em uma solução pronta”, explica Marcela.
O que fazer
quando surgem as primeiras suspeitas?
O primeiro passo é
observar os comportamentos sem transformar cada dificuldade em sintoma.
Conversar com os professores, identificar em quais situações os problemas
aparecem e perceber como a criança reage às exigências da rotina pode oferecer
informações importantes para uma avaliação.
Também é
fundamental escutar a própria criança. Perguntar o que ela considera difícil,
em quais momentos precisa de ajuda e como se sente diante das cobranças pode
revelar aspectos que não aparecem nas notas escolares ou nos relatos dos
adultos.
Enquanto a
investigação acontece, a família e a escola podem adotar medidas simples para
reduzir a sobrecarga, como oferecer orientações claras, dividir tarefas longas
em etapas menores, estabelecer rotinas previsíveis e ajudar na organização dos
materiais. Essas estratégias não substituem o acompanhamento profissional, mas
podem facilitar a participação da criança.
Quando o TDAH é
confirmado, o cuidado deve ser individualizado e pode envolver orientações à
família e à escola, intervenções comportamentais, acompanhamento de
profissionais de diferentes especialidades e, quando indicado pelo médico,
tratamento medicamentoso. A escolha depende da idade, das necessidades e dos
prejuízos apresentados.
Para Marcela, o
mais importante é que a busca por respostas não faça os adultos perderem de
vista a criança.
“Uma criança não deve
passar a infância inteira ouvindo que precisa se esforçar mais quando, na
verdade, precisa de ajuda. Da mesma forma, não podemos usar um diagnóstico para
definir tudo o que ela consegue ou não fazer. Identificar corretamente uma
dificuldade é importante porque permite oferecer o suporte adequado. O objetivo
não é fazer a criança caber em um rótulo, mas ajudá-la a participar das
experiências do dia a dia com mais autonomia, segurança e qualidade de vida”,
conclui.
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