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quarta-feira, 4 de novembro de 2026

TDAH além da agitação: os sinais silenciosos que podem passar despercebidos na infância

Especialista explica como dificuldades pouco evidentes podem afetar a autoestima e o desenvolvimento infantil e alerta para os riscos de diagnósticos precipitados e da falta de acompanhamento adequado

 

A criança tira boas notas, não atrapalha a aula e raramente recebe reclamações dos professores. Ainda assim, leva horas para fazer uma tarefa simples, esquece o que acabou de ouvir, perde objetos e precisa de ajuda constante para organizar a rotina. Como não apresenta o comportamento agitado normalmente associado ao transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), suas dificuldades podem passar despercebidas por muito tempo.

Em outras situações, acontece o contrário. Basta a criança ser inquieta, falar demais ou ter dificuldade para obedecer a determinados combinados para que alguém sugira que ela tem TDAH. Entre a suspeita precipitada e os sinais que ninguém percebe, há crianças que acabam enfrentando dificuldades sem receber o apoio de que precisam.

Para Marcela Oliveira, fisioterapeuta, pesquisadora e especialista em Neuroreabilitação Infantil, fundadora e diretora da Clínica Follow Kids, especializada em neuroreabilitação infantil, é preciso olhar com mais cuidado para comportamentos que muitas vezes são interpretados apenas como desobediência, desinteresse ou falta de esforço.

“Existe uma imagem muito forte de que a criança com TDAH é aquela que não para quieta, interrompe todo mundo e não consegue prestar atenção em nada. Mas nem sempre é assim. Algumas conseguem acompanhar as aulas, têm bom desempenho em determinadas atividades e, mesmo assim, fazem um esforço enorme para dar conta da rotina. O problema é que esse esforço nem sempre é percebido pelos adultos. A criança começa a ouvir que é desorganizada, esquecida, que vive no mundo da lua ou que precisa se dedicar mais, quando pode existir uma dificuldade real que ainda não foi identificada”, explica.

 

Os sinais que nem sempre chamam a atenção

O TDAH é uma condição do neurodesenvolvimento que pode envolver dificuldades persistentes de atenção, planejamento, hiperatividade e impulsividade, em diferentes combinações. Embora alguns comportamentos sejam facilmente percebidos, outros aparecem de maneira discreta no cotidiano.

Uma criança pode, por exemplo, compreender perfeitamente o que o professor explicou, mas esquecer parte das instruções quando precisa executar a atividade. Pode começar a arrumar a mochila e se distrair várias vezes antes de terminar, precisar reler o mesmo trecho repetidamente ou ter dificuldade para perceber quanto tempo uma tarefa vai levar.

Também pode apresentar grande interesse e concentração em determinadas atividades, especialmente aquelas que considera estimulantes, e ter muita dificuldade para manter o envolvimento em tarefas repetitivas ou que exigem esforço prolongado. Essa diferença não significa, necessariamente, falta de vontade.

Outro sinal que merece atenção é o desgaste provocado por situações aparentemente simples. Há crianças que conseguem acompanhar as exigências da escola, mas chegam em casa exaustas, irritadas ou emocionalmente sobrecarregadas depois de um dia tentando controlar impulsos, acompanhar orientações e manter a organização.

“Às vezes, o adulto olha apenas para o resultado. A criança fez a atividade, entregou o trabalho, conseguiu passar de ano. Mas ninguém percebe quanto esforço aquilo exigiu ou o quanto ela dependeu de ajuda para conseguir. Também precisamos observar como ela se sente, se está constantemente frustrada, se evita determinadas tarefas ou se começa a acreditar que não é capaz. O desenvolvimento não pode ser avaliado apenas pelas notas ou pelo comportamento em sala de aula”, afirma Marcela.

Essas manifestações não confirmam, isoladamente, a presença de TDAH. São situações que podem justificar uma investigação quando se tornam frequentes, persistentes e, e principalmente, quando prejudicam a vida da criança.

 

O peso dos rótulos na infância

As consequências de uma dificuldade não compreendida podem ultrapassar o desempenho escolar. Uma criança que escuta repetidamente que é preguiçosa, desobediente, desorganizada ou incapaz de prestar atenção pode incorporar essas características à maneira como se enxerga.

Por outro lado, receber um diagnóstico não significa que todos os seus comportamentos devam ser explicados por ele. Expressões como “ele faz isso porque tem TDAH” podem acabar sendo utilizadas para justificar qualquer dificuldade, sem que os adultos procurem compreender o que está acontecendo ou quais estratégias poderiam ajudar.

“Um diagnóstico bem feito pode ser libertador para uma família, porque ajuda a compreender dificuldades que antes pareciam não ter explicação. Mas ele não pode virar uma sentença sobre quem aquela criança é. Quando tudo passa a ser atribuído ao TDAH, corremos o risco de deixar de perceber outras necessidades, emoções e até habilidades. A criança continua sendo muito maior do que o diagnóstico. Ela precisa de compreensão, mas também de oportunidades para aprender, desenvolver habilidades e conquistar autonomia”, destaca a especialista.

Marcela ressalta que tanto a ausência de identificação quanto uma conclusão precipitada podem trazer prejuízos. Enquanto a falta de diagnóstico pode prolongar dificuldades e comprometer a autoestima, uma identificação inadequada pode direcionar a criança para intervenções que não correspondem às suas necessidades.

 

Por que uma avaliação cuidadosa faz diferença?

Não existe um exame isolado capaz de confirmar o TDAH. O diagnóstico é clínico e considera o histórico do desenvolvimento, a persistência dos sintomas, sua presença em diferentes contextos e os prejuízos provocados na vida cotidiana. Também é necessário investigar outras condições que possam explicar ou contribuir para as dificuldades observadas.

Alterações do sono, ansiedade, dificuldades específicas de aprendizagem, problemas auditivos e outras condições do neurodesenvolvimento podem apresentar manifestações semelhantes ou coexistir com o TDAH. Por isso, uma avaliação responsável não deve se limitar a uma lista de comportamentos ou à impressão de um único adulto.

A investigação diagnóstica deve ser conduzida por profissional de saúde habilitado, com experiência em neurodesenvolvimento infantil. Conforme as necessidades identificadas, a participação de profissionais de diferentes áreas, como psicologia, neuropsicologia, fonoaudiologia e terapia ocupacional, pode contribuir para compreender melhor o funcionamento da criança e orientar os cuidados.

Na Clínica Follow Kids, a abordagem de neuroreabilitação infantil considera não apenas as dificuldades apresentadas, mas também a maneira como elas interferem na participação da criança na escola, em casa e nas relações sociais. Esse olhar para a funcionalidade ajuda a compreender quais habilidades precisam ser desenvolvidas e quais adaptações podem facilitar o cotidiano.

“Não basta identificar que uma criança tem dificuldade de atenção. Precisamos entender como isso aparece na vida dela. É na hora de acompanhar uma explicação? De organizar uma sequência de tarefas? De controlar uma reação impulsiva? De lidar com frustrações? Cada situação exige uma compreensão diferente. O trabalho de uma equipe multidisciplinar é importante justamente porque permite reunir diferentes olhares e construir estratégias que façam sentido para aquela criança, em vez de tentar encaixá-la em uma solução pronta”, explica Marcela.

 

O que fazer quando surgem as primeiras suspeitas?

O primeiro passo é observar os comportamentos sem transformar cada dificuldade em sintoma. Conversar com os professores, identificar em quais situações os problemas aparecem e perceber como a criança reage às exigências da rotina pode oferecer informações importantes para uma avaliação.

Também é fundamental escutar a própria criança. Perguntar o que ela considera difícil, em quais momentos precisa de ajuda e como se sente diante das cobranças pode revelar aspectos que não aparecem nas notas escolares ou nos relatos dos adultos.

Enquanto a investigação acontece, a família e a escola podem adotar medidas simples para reduzir a sobrecarga, como oferecer orientações claras, dividir tarefas longas em etapas menores, estabelecer rotinas previsíveis e ajudar na organização dos materiais. Essas estratégias não substituem o acompanhamento profissional, mas podem facilitar a participação da criança.

Quando o TDAH é confirmado, o cuidado deve ser individualizado e pode envolver orientações à família e à escola, intervenções comportamentais, acompanhamento de profissionais de diferentes especialidades e, quando indicado pelo médico, tratamento medicamentoso. A escolha depende da idade, das necessidades e dos prejuízos apresentados.

Para Marcela, o mais importante é que a busca por respostas não faça os adultos perderem de vista a criança.

“Uma criança não deve passar a infância inteira ouvindo que precisa se esforçar mais quando, na verdade, precisa de ajuda. Da mesma forma, não podemos usar um diagnóstico para definir tudo o que ela consegue ou não fazer. Identificar corretamente uma dificuldade é importante porque permite oferecer o suporte adequado. O objetivo não é fazer a criança caber em um rótulo, mas ajudá-la a participar das experiências do dia a dia com mais autonomia, segurança e qualidade de vida”, conclui.

 

Marcela Oliveira - fisioterapeuta, pesquisadora e especialista em Neuroreabilitação Infantil, fundadora e diretora da Clínica Follow Kids, especializada em neuroreabilitação infantil. Com mais de 20 anos de experiência, atua no desenvolvimento de crianças com diferentes condições neurológicas e do neurodesenvolvimento, com foco na funcionalidade, autonomia, participação social e qualidade de vida.


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