No Novembro Azul, especialista explica como avanços
no diagnóstico permitem identificar diferentes perfis da doença e definir
tratamentos que consideram também a manutenção da qualidade de vida dos
pacientes
O
câncer de próstata é o tipo de tumor mais frequente entre os homens
brasileiros, desconsiderando os de pele não melanoma. Segundo o Instituto Nacional
de Câncer (INCA), são estimados 77.920 novos casos por ano no Brasil entre 2026
e 20281. Em 2024, a doença provocou 17.826 mortes no país2.
Apesar
dos números expressivos, nem todos os tumores apresentam o mesmo comportamento:
enquanto alguns crescem lentamente e podem permanecer restritos à próstata
durante anos, outros são mais agressivos e apresentam maior risco de atingir
diferentes partes do organismo.
Neste
Novembro Azul, mês dedicado ao combate do câncer de próstata, o urologista Dr.
Carlo Passerotti, head do Centro Especializado em Urologia do Hospital Alemão
Oswaldo Cruz, destaca que identificar essas diferenças é fundamental para
definir o tratamento mais adequado para cada paciente.
Com
os avanços dos métodos de diagnóstico, tornou-se possível avaliar com maior
precisão a agressividade da doença e, em situações específicas, acompanhar
determinados tumores antes de iniciar uma intervenção. A decisão, entretanto,
depende de uma avaliação médica criteriosa, já que adiar o tratamento sem
indicação adequada pode comprometer as chances de controle do câncer.
Exames mais precisos ajudam a orientar o diagnóstico
A
próstata é uma glândula localizada abaixo da bexiga, responsável pela produção
de parte do líquido que compõe o sêmen. O câncer ocorre quando células dessa
região passam a se multiplicar de maneira descontrolada, formando um tumor que
pode permanecer localizado ou avançar para outros tecidos.
A
investigação da doença evoluiu com a incorporação de exames capazes de
identificar alterações suspeitas com maior precisão. Embora o PSA, exame de
sangue que mede uma proteína produzida pela próstata, e o toque retal continuem
importantes na avaliação clínica, nenhum deles, isoladamente, é suficiente para
confirmar um diagnóstico de câncer. O PSA também pode apresentar alterações
provocadas por condições benignas, como o aumento da próstata e processos
inflamatórios3.
“A
investigação do câncer de próstata deixou de depender apenas do PSA e do toque
retal. Hoje, a ressonância magnética permite identificar regiões suspeitas com
maior precisão e ajuda a decidir quando uma biópsia é realmente necessária.
Quando encontramos uma alteração, podemos combinar as imagens da ressonância
com as do ultrassom para direcionar a coleta de tecido. Também consideramos a
idade, as condições de saúde e a relação entre o PSA e o tamanho da próstata. O
objetivo é identificar os tumores clinicamente importantes e evitar
procedimentos desnecessários”, explica o Dr. Carlo Passerotti.
Quando
a biópsia é indicada, a coleta pela região entre o ânus e o escroto, chamada de
via transperineal, apresenta menor risco de infecção do que a técnica realizada
pelo reto. No Hospital Alemão Oswaldo Cruz, o Centro Especializado em Urologia
dispõe de recursos como a biópsia com fusão de imagens.
Por que alguns tumores podem ser acompanhados antes do tratamento?
Após
a confirmação do diagnóstico, os médicos precisam compreender o comportamento
do câncer. Para isso, avaliam características das células tumorais, a
agressividade, a extensão da doença e a possibilidade de ela ter atingido
outras regiões do organismo. Essas informações ajudam a distinguir os casos com
menor probabilidade de progressão daqueles que exigem tratamento mais rápido ou
intensivo.
Nos
tumores localizados e de baixo risco, uma das alternativas é a chamada
vigilância ativa. A estratégia permite acompanhar a evolução da doença antes de
iniciar uma intervenção, mas não significa deixar o câncer sem cuidados.
“A
vigilância ativa consiste em acompanhar o tumor sem tratá-lo de imediato e
acompanhá-lo com exames periódicos de PSA, ressonância magnética e novas
biópsias em intervalos definidos. É uma estratégia segura para pacientes bem
selecionados, com tumores de baixo risco e boa adesão ao acompanhamento. Se
identificarmos mudanças na agressividade ou na extensão da doença, precisamos
reavaliar a necessidade de tratamento. Por isso, não é uma conduta indicada
indiscriminadamente, especialmente para tumores de risco intermediário ou
alto”, esclarece o especialista.
Uma
elevação isolada do PSA durante o acompanhamento pode exigir novos exames, mas
não determina, necessariamente, uma intervenção imediata. Além das
características do câncer, fatores como idade do paciente, expectativa de vida,
condições gerais de saúde e capacidade de manter consultas regulares
influenciam a escolha. Em casos selecionados de risco intermediário favorável,
a possibilidade de vigilância também pode ser discutida individualmente.
Tratamento considera o prognóstico, sobrevida e a qualidade de vida
As
possibilidades de controle da doença estão diretamente relacionadas à
agressividade do tumor e ao estágio em que ele se encontra. Quando o câncer
está restrito à próstata, cirurgia e radioterapia são opções que podem oferecer
possibilidade de cura, ou seja, ficar livre da doença e não precisar de
qualquer outro tratamento. Em casos de maior risco, pode ser necessário
combinar tratamentos. Já quando a doença se espalhou para outras partes do
corpo, condição conhecida como metástase, o cuidado geralmente envolve
medicamentos que atuam em todo o organismo, com o objetivo de controlar sua
progressão.
Um
estudo publicado em 2023 no New England Journal of Medicine, conhecido
como ProtecT, acompanhou 1.643 homens com câncer de próstata localizado por
aproximadamente 15 anos. A mortalidade provocada pela doença foi baixa nos
grupos submetidos à cirurgia, à radioterapia ou ao monitoramento, sem diferença
estatisticamente significativa entre eles. Entretanto, o câncer se espalhou
para outras regiões do corpo em 9,4% dos pacientes monitorados, aproximadamente
o dobro do observado entre aqueles tratados com cirurgia (4,7%) ou radioterapia
(5%).6
Os
resultados reforçam a importância da seleção adequada dos pacientes. O
acompanhamento utilizado no estudo era diferente dos protocolos atuais de
vigilância ativa, e os dados não significam que deixar de tratar ofereça a
mesma segurança para todos os casos. O risco de progressão precisa ser considerado
individualmente, especialmente diante de tumores com características mais
agressivas.
Além
da possibilidade de controlar o câncer, a escolha do tratamento envolve seus
impactos na rotina e no bem-estar. Cirurgia, radioterapia e tratamentos
hormonais apresentam benefícios e possíveis efeitos adversos distintos, que
devem ser discutidos entre médico e paciente antes da definição da conduta.
“Para
muitos pacientes com doença localizada, dependendo da agressividade e sobrevida
do paciente, a cirurgia e a radioterapia oferecem resultados próximos no
controle do câncer. Por isso, a qualidade de vida tem um peso importante na
decisão. Precisamos considerar os possíveis impactos sobre o controle da urina,
a função sexual, os sintomas urinários e intestinais e até a fadiga. A escolha
deve levar em conta tanto o risco da doença quanto as condições e preferências
de cada pessoa. É uma decisão que precisa ser compartilhada com o paciente, com
clareza sobre os benefícios e efeitos colaterais de cada alternativa”, ressalta
o Dr. Carlo.
Atenção aos sinais e fatores de risco
O
câncer de próstata costuma evoluir silenciosamente nas fases iniciais, sem
provocar qualquer sintoma. Quando aparecem, sinais como dificuldade para
urinar, jato urinário mais fraco, necessidade frequente de ir ao banheiro e
presença de sangue na urina merecem investigação médica. Essas alterações
também podem ocorrer em doenças benignas e não significam, necessariamente, a
presença de câncer.
O
risco aumenta com o envelhecimento, especialmente após os 60 anos, e é maior
entre homens com histórico familiar da doença, principalmente quando pai ou
irmão recebeu o diagnóstico em idade mais jovem.
Para
pessoas sem sintomas, a decisão de realizar exames de rastreamento deve
considerar fatores individuais e os possíveis benefícios e riscos da
investigação. O Ministério da Saúde e o INCA não recomendam o rastreamento
sistemático de toda a população masculina, pois a identificação de tumores que
não causariam problemas ao longo da vida pode levar a procedimentos e
tratamentos desnecessários.7
Mais
do que incentivar exames indiscriminadamente, o Novembro Azul representa uma
oportunidade para ampliar o conhecimento sobre a saúde masculina, reconhecer
alterações que exigem atenção e estimular o diálogo com profissionais de saúde.
Quando há suspeita ou confirmação de câncer, compreender as características da
doença é essencial para tomar decisões seguras e buscar o cuidado mais adequado
a cada situação.
Hospital Alemão Oswaldo Cruz
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