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terça-feira, 3 de novembro de 2026

Câncer de próstata: características do tumor determina quando e como tratar a doença

 

No Novembro Azul, especialista explica como avanços no diagnóstico permitem identificar diferentes perfis da doença e definir tratamentos que consideram também a manutenção da qualidade de vida dos pacientes

 

O câncer de próstata é o tipo de tumor mais frequente entre os homens brasileiros, desconsiderando os de pele não melanoma. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), são estimados 77.920 novos casos por ano no Brasil entre 2026 e 20281. Em 2024, a doença provocou 17.826 mortes no país2.

Apesar dos números expressivos, nem todos os tumores apresentam o mesmo comportamento: enquanto alguns crescem lentamente e podem permanecer restritos à próstata durante anos, outros são mais agressivos e apresentam maior risco de atingir diferentes partes do organismo.

Neste Novembro Azul, mês dedicado ao combate do câncer de próstata, o urologista Dr. Carlo Passerotti, head do Centro Especializado em Urologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, destaca que identificar essas diferenças é fundamental para definir o tratamento mais adequado para cada paciente.

Com os avanços dos métodos de diagnóstico, tornou-se possível avaliar com maior precisão a agressividade da doença e, em situações específicas, acompanhar determinados tumores antes de iniciar uma intervenção. A decisão, entretanto, depende de uma avaliação médica criteriosa, já que adiar o tratamento sem indicação adequada pode comprometer as chances de controle do câncer.
 

Exames mais precisos ajudam a orientar o diagnóstico

A próstata é uma glândula localizada abaixo da bexiga, responsável pela produção de parte do líquido que compõe o sêmen. O câncer ocorre quando células dessa região passam a se multiplicar de maneira descontrolada, formando um tumor que pode permanecer localizado ou avançar para outros tecidos.

A investigação da doença evoluiu com a incorporação de exames capazes de identificar alterações suspeitas com maior precisão. Embora o PSA, exame de sangue que mede uma proteína produzida pela próstata, e o toque retal continuem importantes na avaliação clínica, nenhum deles, isoladamente, é suficiente para confirmar um diagnóstico de câncer. O PSA também pode apresentar alterações provocadas por condições benignas, como o aumento da próstata e processos inflamatórios3.

“A investigação do câncer de próstata deixou de depender apenas do PSA e do toque retal. Hoje, a ressonância magnética permite identificar regiões suspeitas com maior precisão e ajuda a decidir quando uma biópsia é realmente necessária. Quando encontramos uma alteração, podemos combinar as imagens da ressonância com as do ultrassom para direcionar a coleta de tecido. Também consideramos a idade, as condições de saúde e a relação entre o PSA e o tamanho da próstata. O objetivo é identificar os tumores clinicamente importantes e evitar procedimentos desnecessários”, explica o Dr. Carlo Passerotti.

Quando a biópsia é indicada, a coleta pela região entre o ânus e o escroto, chamada de via transperineal, apresenta menor risco de infecção do que a técnica realizada pelo reto. No Hospital Alemão Oswaldo Cruz, o Centro Especializado em Urologia dispõe de recursos como a biópsia com fusão de imagens.
 

Por que alguns tumores podem ser acompanhados antes do tratamento?

Após a confirmação do diagnóstico, os médicos precisam compreender o comportamento do câncer. Para isso, avaliam características das células tumorais, a agressividade, a extensão da doença e a possibilidade de ela ter atingido outras regiões do organismo. Essas informações ajudam a distinguir os casos com menor probabilidade de progressão daqueles que exigem tratamento mais rápido ou intensivo.

Nos tumores localizados e de baixo risco, uma das alternativas é a chamada vigilância ativa. A estratégia permite acompanhar a evolução da doença antes de iniciar uma intervenção, mas não significa deixar o câncer sem cuidados.

“A vigilância ativa consiste em acompanhar o tumor sem tratá-lo de imediato e acompanhá-lo com exames periódicos de PSA, ressonância magnética e novas biópsias em intervalos definidos. É uma estratégia segura para pacientes bem selecionados, com tumores de baixo risco e boa adesão ao acompanhamento. Se identificarmos mudanças na agressividade ou na extensão da doença, precisamos reavaliar a necessidade de tratamento. Por isso, não é uma conduta indicada indiscriminadamente, especialmente para tumores de risco intermediário ou alto”, esclarece o especialista.

Uma elevação isolada do PSA durante o acompanhamento pode exigir novos exames, mas não determina, necessariamente, uma intervenção imediata. Além das características do câncer, fatores como idade do paciente, expectativa de vida, condições gerais de saúde e capacidade de manter consultas regulares influenciam a escolha. Em casos selecionados de risco intermediário favorável, a possibilidade de vigilância também pode ser discutida individualmente.
 

Tratamento considera o prognóstico, sobrevida e a qualidade de vida

As possibilidades de controle da doença estão diretamente relacionadas à agressividade do tumor e ao estágio em que ele se encontra. Quando o câncer está restrito à próstata, cirurgia e radioterapia são opções que podem oferecer possibilidade de cura, ou seja, ficar livre da doença e não precisar de qualquer outro tratamento. Em casos de maior risco, pode ser necessário combinar tratamentos. Já quando a doença se espalhou para outras partes do corpo, condição conhecida como metástase, o cuidado geralmente envolve medicamentos que atuam em todo o organismo, com o objetivo de controlar sua progressão.

Um estudo publicado em 2023 no New England Journal of Medicine, conhecido como ProtecT, acompanhou 1.643 homens com câncer de próstata localizado por aproximadamente 15 anos. A mortalidade provocada pela doença foi baixa nos grupos submetidos à cirurgia, à radioterapia ou ao monitoramento, sem diferença estatisticamente significativa entre eles. Entretanto, o câncer se espalhou para outras regiões do corpo em 9,4% dos pacientes monitorados, aproximadamente o dobro do observado entre aqueles tratados com cirurgia (4,7%) ou radioterapia (5%).6

Os resultados reforçam a importância da seleção adequada dos pacientes. O acompanhamento utilizado no estudo era diferente dos protocolos atuais de vigilância ativa, e os dados não significam que deixar de tratar ofereça a mesma segurança para todos os casos. O risco de progressão precisa ser considerado individualmente, especialmente diante de tumores com características mais agressivas.

Além da possibilidade de controlar o câncer, a escolha do tratamento envolve seus impactos na rotina e no bem-estar. Cirurgia, radioterapia e tratamentos hormonais apresentam benefícios e possíveis efeitos adversos distintos, que devem ser discutidos entre médico e paciente antes da definição da conduta.

“Para muitos pacientes com doença localizada, dependendo da agressividade e sobrevida do paciente, a cirurgia e a radioterapia oferecem resultados próximos no controle do câncer. Por isso, a qualidade de vida tem um peso importante na decisão. Precisamos considerar os possíveis impactos sobre o controle da urina, a função sexual, os sintomas urinários e intestinais e até a fadiga. A escolha deve levar em conta tanto o risco da doença quanto as condições e preferências de cada pessoa. É uma decisão que precisa ser compartilhada com o paciente, com clareza sobre os benefícios e efeitos colaterais de cada alternativa”, ressalta o Dr. Carlo.

 

Atenção aos sinais e fatores de risco

O câncer de próstata costuma evoluir silenciosamente nas fases iniciais, sem provocar qualquer sintoma. Quando aparecem, sinais como dificuldade para urinar, jato urinário mais fraco, necessidade frequente de ir ao banheiro e presença de sangue na urina merecem investigação médica. Essas alterações também podem ocorrer em doenças benignas e não significam, necessariamente, a presença de câncer.

O risco aumenta com o envelhecimento, especialmente após os 60 anos, e é maior entre homens com histórico familiar da doença, principalmente quando pai ou irmão recebeu o diagnóstico em idade mais jovem.

Para pessoas sem sintomas, a decisão de realizar exames de rastreamento deve considerar fatores individuais e os possíveis benefícios e riscos da investigação. O Ministério da Saúde e o INCA não recomendam o rastreamento sistemático de toda a população masculina, pois a identificação de tumores que não causariam problemas ao longo da vida pode levar a procedimentos e tratamentos desnecessários.7

Mais do que incentivar exames indiscriminadamente, o Novembro Azul representa uma oportunidade para ampliar o conhecimento sobre a saúde masculina, reconhecer alterações que exigem atenção e estimular o diálogo com profissionais de saúde. Quando há suspeita ou confirmação de câncer, compreender as características da doença é essencial para tomar decisões seguras e buscar o cuidado mais adequado a cada situação.

 

Hospital Alemão Oswaldo Cruz

 

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