No
caso delas, Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade ainda vai levar a
rótulos mais intensos, como “desatenta” ou “desorganizada”
Evento
Body 2026, que vai reunir mais de duas mil mulheres para discutir empoderamento
e autoaceitação feminina em São Paulo, revela que a ideia de incapacidade ainda
as deixam no escuro e sem diagnóstico
Desatenta,
desorganizada ou incapaz de dar conta de tudo.
Quantas mulheres já não passaram por rótulos como esses na sua rotina,
muitas vezes, com impactos na sua autoestima e desafios reais para sua saúde
física e psicológica? E quantos anos uma mulher passa sendo julgada antes de
entender o próprio diagnóstico? O que é estigmatizado como falta de esforço ou
uma falha pessoal, muitas vezes, esconde aspectos do Transtorno do Déficit de
Atenção e Hiperatividade (TDAH), uma condição que ainda enfrenta desafios e
reconhecimento principalmente junto ao
público feminino.
Neste ano, os rótulos
associados ao TDAH e as dificuldades de diagnóstico que também são maiores para
as mulheres estarão entre os temas centrais do painel “Por trás de cada rótulo
existe uma pessoa” do Body 2026, evento dedicado a autoaceitação e ao
empoderamento feminino que acontece no Hotel Unique em São Paulo, reunindo mais
de duas mil mulheres.
De acordo com um estudo
recente publicado no Journal of Child Psychology and Psychiatry, que analisou
85.330 pessoas com TDAH, as mulheres recebem o diagnóstico, em média, até
quatro anos mais tarde que os homens. “Quando uma mulher passa anos ouvindo que
é desorganizada, que não consegue dar conta de tudo ou que precisa se esforçar
mais, esses julgamentos podem influenciar a maneira como ela enxerga a si
mesma. Precisamos ampliar o acesso à informação e abrir espaço para que as
pessoas contem suas histórias sem serem reduzidas a rótulos, com mais
compreensão e menos culpa”, afirma Renata Spallicci, vice-presidente executiva
da Apsen, que participa do painel.
Como se não bastasse,
muitas vezes, as queixas femininas também acontecem no período de perimenopausa
ou menopausa, levando a um diagnóstico ainda mais tardio das mulheres acima dos
40 anos, justamente por uma confusão relacionada a esse momento de transição
feminina. “As mulheres que sofrem com o TDAH, muitas vezes, ainda vão ouvir que
se trata de algo normal nesse período, quando, na prática, precisam de uma
avaliação clínica mais detalhada relacionada ao seu histórico e as diferentes
fases da sua vida”, alerta Fabrícia Signorelli, psiquiatra do Ambulatório de
TDAH no Adulto da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)
As particularidades
da experiência feminina também aparecem na meia-idade. Pesquisa publicada em
2025 na revista European Psychiatry, com 5.392 mulheres de 35 a 55 anos,
identificou sintomas graves relacionados à perimenopausa em 54,2% das
participantes com TDAH, em comparação com 30,1% daquelas sem o transtorno. Os
resultados apontam para uma associação entre o TDAH e uma maior prevalência
desses sintomas, reforçando a importância de uma avaliação clínica que
considere o histórico e as diferentes fases da vida da mulher.
“Nenhuma mulher
deveria precisar passar anos tentando provar que se esforça o suficiente para
que suas dificuldades sejam levadas a sério. Por trás de cada rótulo, existe
uma história que merece ser compreendida”, completa Ju Ferraz, sócia-diretora
da Holding Clube, idealizadora do evento Body.
Por trás dos rótulos,
histórias que precisam ser ouvidas
O diagnóstico tardio não diz respeito apenas à identificação de sintomas. Ele também pode afetar a maneira como uma mulher interpreta sua própria trajetória.
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