Proteína, fibras, colágeno, eletrólitos e vitaminas viraram um novo mercado entre quem usa medicamentos para emagrecer. Para especialistas, a tendência revela uma questão maior: perder peso não basta se o tratamento deixa para trás força, músculo e qualidade nutricional
A revolução das canetas para emagrecer criou um fenômeno
inesperado.
Depois de pagar pelo medicamento, muitos pacientes passaram a gastar novamente, agora tentando corrigir aquilo que aparece durante o emagrecimento.
Proteína em pó, fibras, creatina, colágeno, eletrólitos, vitaminas, probióticos e produtos prometendo combater queda de cabelo, fraqueza e constipação formam uma nova categoria de consumo criada ao redor dos medicamentos GLP-1.
Reportagem publicada pela Reuters nesta semana mostrou que quase metade dos usuários pesquisados passou a tomar novos suplementos depois de iniciar essas medicações. Há pacientes gastando entre US$ 110 e US$ 300 adicionais por mês, enquanto marcas e influenciadores transformam os efeitos e preocupações do tratamento em um novo mercado.
Mas a pergunta médica mais importante talvez não seja qual suplemento comprar. É por que aquele paciente chegou ao ponto de sentir que precisa deles.
“Quando a pessoa perde muito peso e começa a apresentar
fraqueza, queda importante na ingestão de alimentos, redução de desempenho ou
outros sintomas, simplesmente acrescentar vários suplementos pode mascarar a
questão principal. Precisamos avaliar como esse emagrecimento está
acontecendo”, explica o Dr. Gustavo de Oliveira Lima, especialista em
emagrecimento e performance.
Quando comer menos também significa
nutrir menos
Medicamentos como semaglutida e tirzepatida reduzem o apetite de maneira muito eficaz.
Para quem conviveu durante anos com fome excessiva ou
dificuldade para controlar a alimentação, isso pode representar uma mudança
enorme.
Mas existe uma consequência bastante lógica: quando a quantidade de comida diminui muito, cai também a oportunidade de ingerir proteínas, fibras, vitaminas e minerais.
Uma orientação conjunta publicada por quatro importantes sociedades médicas e nutricionais colocou justamente esse ponto entre as prioridades do acompanhamento de pacientes em GLP-1. O documento recomenda avaliar alimentação, força, composição corporal, atividade física e possíveis deficiências nutricionais durante o tratamento.
“Não basta o paciente dizer que está comendo pouco e concluir que isso é ótimo porque está emagrecendo”, afirma Dr. Gustavo. “Precisamos perguntar o que ainda está cabendo nesse pouco.”
Um paciente que passa a fazer refeições muito pequenas pode continuar ingerindo alimentos pobres em nutrientes. A balança cai. A qualidade da alimentação nem sempre melhora junto.
O músculo entra nessa conta
Outra preocupação ganhou destaque conforme os medicamentos passaram a produzir perdas cada vez maiores de peso: o que exatamente está sendo perdido?
Em uma análise de composição corporal do estudo SURMOUNT-1, com tirzepatida, aproximadamente três quartos da redução de peso corresponderam à gordura e cerca de um quarto à massa magra.
Massa magra não significa exclusivamente músculo, inclui também água e outros tecidos, mas o resultado reforçou a necessidade de acompanhar força e composição corporal durante grandes perdas de peso.
O músculo participa do metabolismo da glicose, da capacidade física, da autonomia e da proteção contra fragilidade ao envelhecer.
Por isso, perder peso e ficar progressivamente mais fraco não deveria ser considerado o resultado ideal de um tratamento.
“Se o paciente está 20 quilos mais leve, mas perdeu força, interrompeu exercícios porque se sente cansado e passou a consumir proteína insuficiente, existe um problema que a balança sozinha não consegue mostrar”, diz Dr. Gustavo de Oliveira Lima.
A orientação atual para preservar massa muscular combina
alimentação adequada com treinamento de resistência. Apenas aumentar proteína
sem estímulo muscular não resolve toda a equação.
Constipação, náusea e fadiga não devem
virar uma coleção automática de potes
Náusea, vômitos, constipação, dor abdominal e fadiga estão
entre os efeitos adversos descritos para medicamentos como a semaglutida. É
justamente nessa área que o mercado de suplementos encontrou espaço.
Fibras para o intestino. Eletrólitos para fraqueza. Magnésio para diferentes sintomas. Colágeno para pele e cabelo. Probióticos para desconfortos digestivos. O problema é transformar todos os pacientes em candidatos ao mesmo pacote.
Constipação, por exemplo, pode exigir ajustes na ingestão de água, fibras, alimentação e atividade física, mas sintomas persistentes ou intensos também podem exigir avaliação médica.
Fadiga pode estar relacionada a ingestão calórica muito baixa, deficiência nutricional, desidratação, redução abrupta da alimentação ou outros problemas que não serão necessariamente resolvidos por uma vitamina comprada nas redes sociais.
“Suplemento deve responder a uma necessidade. Não deveria
ser uma taxa obrigatória cobrada de todo mundo que usa GLP-1”, afirma o
especialista.
E a queda de cabelo?
Esse é outro sintoma que alimentou uma grande quantidade de produtos direcionados aos usuários das canetas.
Queda de cabelo apareceu em estudos com medicamentos para perda de peso, mas o mecanismo não está totalmente estabelecido.
Uma das explicações possíveis é o chamado eflúvio telógeno, queda temporária que pode acontecer após grandes perdas de peso, dietas muito restritivas, doenças ou outros estresses fisiológicos.
Ou seja, em alguns casos, o problema pode estar menos relacionado a uma ação direta do medicamento sobre o cabelo e mais à velocidade da mudança corporal e à redução da ingestão nutricional. Isso muda a abordagem.
Antes de comprar biotina, colágeno ou qualquer fórmula
prometendo recuperar os fios, o paciente pode precisar investigar ferro,
alimentação, proteínas, tireoide e outras possíveis causas.
O erro de tratar cada sintoma
separadamente
É aqui que a nova indústria dos suplementos revela algo
maior sobre o tratamento moderno da obesidade. O paciente emagrece. Surge
fraqueza: compra um produto. O intestino trava: compra outro. O cabelo cai:
acrescenta outro. A energia diminui: procura uma vitamina.
De repente, o tratamento que começou com uma caneta termina acompanhado por seis potes diferentes.
Para Dr. Gustavo de Oliveira Lima, esse cenário mostra por que a
medicina do emagrecimento precisa ir além da prescrição. “O acompanhamento deve
perguntar se o paciente está perdendo gordura, preservando músculo, comendo
adequadamente, treinando, dormindo bem e mantendo disposição. Quando avaliamos
tudo isso em conjunto, conseguimos tratar a causa de muitos problemas antes de
criar uma lista enorme de correções.”
Dr. Gustavo de Oliveira Lima - Médico CRM/SP 207.928 - Com uma formação sólida em nutrologia e
endocrinologia, Dr. Gustavo de Oliveira Lima é reconhecido por sua atuação em
emagrecimento saudável e longevidade. Focado em oferecer tratamentos modernos e
personalizados, ele utiliza abordagens científicas de ponta para promover saúde
integral e bem-estar a longo prazo


Nenhum comentário:
Postar um comentário