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quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Autismo depois dos 30: o que ninguém vê na vida de um adulto que trabalha, ama e tenta encontrar seu lugar no mundo

Da carreira aos relacionamentos, da sexualidade ao esgotamento emocional, os desafios do autismo na vida adulta vão muito além do diagnóstico. O neurologista Dr. Matheus Trilico, referência nacional em autismo e TDAH em adultos, explica como compreender o próprio funcionamento pode transformar a qualidade de vida.

Trabalhar, pagar contas, construir uma carreira, manter relacionamentos, cuidar da família e encontrar tempo para si. Para muitos adultos, essas são responsabilidades naturais da vida. Mas, para algumas pessoas autistas, atividades aparentemente simples podem exigir um esforço emocional, social e sensorial que quase ninguém percebe.

Por trás de profissionais competentes, pessoas independentes e relacionamentos aparentemente estáveis, podem existir histórias de exaustão, dificuldades de adaptação e uma sensação permanente de não pertencer.

Segundo o neurologista Dr. Matheus Trilico, referência nacional em autismo e TDAH em adultos, um dos maiores equívocos é acreditar que conseguir cumprir as responsabilidades significa necessariamente estar bem.

“Adaptar-se não significa viver com conforto emocional. Muitos adultos autistas conseguem trabalhar, estudar, constituir família e manter uma rotina funcional. Frequentemente, porém, isso ocorre às custas de um enorme esforço interno que passa despercebido”, explica.


Carreira: quando ser competente não significa estar confortável 

O ambiente profissional pode representar um dos maiores desafios. Reuniões frequentes, barulho, iluminação intensa, interrupções constantes, cobranças sociais e mudanças inesperadas de rotina podem gerar sobrecarga.

Isso não significa falta de capacidade. Muitas vezes, o problema está na incompatibilidade entre as necessidades individuais e as condições oferecidas pelo ambiente.

“Alta performance não significa ausência de dificuldade. Muitas vezes, existe um custo enorme por trás daquela entrega. E esse custo pode aparecer como ansiedade, esgotamento, problemas de relacionamento, sensação de fracasso ou sobrecarga constante”, alerta o neurologista.

Para alguns adultos autistas, empreender ou trabalhar com maior autonomia pode representar uma alternativa. Entretanto, o médico ressalta que administrar o próprio negócio também exige organização, planejamento financeiro e capacidade de lidar com imprevistos.


O esgotamento de representar um papel todos os dias 

Outro fenômeno importante é o masking, conhecido como camuflagem social. Trata-se do esforço para esconder características autistas, imitar comportamentos e corresponder às expectativas de outras pessoas.

“Muitos adultos chegam ao consultório exaustos. Eles passaram décadas tentando se encaixar em um mundo que parece funcionar em uma frequência incompreensível. Para sobreviver a isso, desenvolvem o que chamamos de masking, ou camuflagem social”, explica Trilico.

Essa adaptação constante pode estar associada à ansiedade, baixa autoestima, sofrimento emocional e sensação de perda da própria identidade.

O desafio não é simplesmente aprender a conviver socialmente, mas encontrar formas de participar da sociedade sem precisar ultrapassar continuamente os próprios limites.


Amor, convivência e sexualidade: sentir não é o mesmo que demonstrar 

Na vida afetiva, dificuldades de comunicação, necessidade de previsibilidade e diferenças na percepção sensorial podem provocar conflitos.

Uma pessoa autista pode amar profundamente e, ainda assim, precisar de momentos de isolamento, apresentar dificuldades para interpretar indiretas ou sentir desconforto com determinados contatos físicos.

“A diferença está na compreensão, não na capacidade de amar”, afirma o neurologista.

A sexualidade também merece atenção. Enquanto alguns adultos autistas apresentam pouco ou nenhum interesse sexual, outros relatam desejo intenso. Há ainda aqueles cuja experiência sexual é semelhante à de pessoas não autistas.

“O desejo sexual envolve muito mais do que libido. O cérebro organiza informações, interpreta o contato físico e regula emoções. No autismo, essas características variam bastante de uma pessoa para outra”, esclarece.

Para o especialista, compreender essas particularidades favorece o diálogo, reduz interpretações equivocadas e permite construir relações mais respeitosas.

E quando o TDAH também faz parte da história?

O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) também pode estar presente em adultos autistas, embora sejam condições distintas.

Dificuldades de organização, administração do tempo, manutenção da atenção e controle de impulsos podem tornar a rotina ainda mais desafiadora quando existem sintomas associados de TDAH.

O neurologista destaca que o sucesso profissional não exclui nenhuma dessas condições.

“Existe uma ideia equivocada de que, se a pessoa estudou, construiu uma carreira, teve sucesso financeiro ou se tornou famosa, ela não poderia ter TDAH ou estar no espectro autista. Uma coisa não exclui a outra.”

Por isso, uma avaliação individualizada é fundamental para compreender quais dificuldades estão presentes e quais estratégias podem ajudar.


Como construir uma vida adulta com menos sobrecarga?

 Mais do que buscar produtividade ou tentar corresponder a padrões sociais, o caminho envolve reconhecer necessidades individuais e criar condições mais adequadas de vida.

No trabalho, isso pode significar maior previsibilidade, comunicação objetiva, pausas e adaptações sensoriais. Nos relacionamentos, diálogo claro e respeito aos limites. Na rotina, organização compatível com as necessidades de cada pessoa e acompanhamento profissional quando necessário.

O diagnóstico, mesmo quando chega depois dos 30, 40 ou 50 anos, pode contribuir para essa compreensão. Mas ele não resolve automaticamente os desafios acumulados ao longo da vida.

“Muitas pessoas deixam de se enxergar como inadequadas ou incapazes. Passam a compreender que possuem uma forma diferente, não inferior, de processar informações e interagir com o ambiente”, explica Trilico.

Para o neurologista, o mais importante é abandonar a ideia de que existe apenas uma maneira correta de trabalhar, amar, conviver e alcançar o sucesso.

“Não é o cérebro autista que precisa se encaixar no sistema. É o sistema que precisa começar a considerar diferentes formas de funcionamento”, conclui.

Afinal, construir uma vida adulta não deveria significar apenas aprender a suportar as exigências do mundo, mas também encontrar espaço para viver com autonomia, saúde mental e qualidade de vida.

 


Dr. Matheus Luis Castelan Trilico - neurologista, referência nacional em autismo e TDAH em adultos, mestre em Medicina Interna e Ciências da Saúde pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pós-graduado em Transtorno do Espectro Autista (TEA). CRM 35805/PR | RQE 24818.
http://www.matheustriliconeurologia.com.br


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