Da carreira aos relacionamentos, da sexualidade ao esgotamento emocional, os desafios do autismo na vida adulta vão muito além do diagnóstico. O neurologista Dr. Matheus Trilico, referência nacional em autismo e TDAH em adultos, explica como compreender o próprio funcionamento pode transformar a qualidade de vida.
Trabalhar,
pagar contas, construir uma carreira, manter relacionamentos, cuidar da família
e encontrar tempo para si. Para muitos adultos, essas são responsabilidades
naturais da vida. Mas, para algumas pessoas autistas, atividades aparentemente
simples podem exigir um esforço emocional, social e sensorial que quase ninguém
percebe.
Por trás de
profissionais competentes, pessoas independentes e relacionamentos
aparentemente estáveis, podem existir histórias de exaustão, dificuldades de adaptação
e uma sensação permanente de não pertencer.
Segundo o
neurologista Dr. Matheus Trilico, referência nacional em autismo e TDAH em
adultos, um dos maiores equívocos é acreditar que conseguir cumprir as responsabilidades
significa necessariamente estar bem.
“Adaptar-se
não significa viver com conforto emocional. Muitos adultos autistas conseguem
trabalhar, estudar, constituir família e manter uma rotina funcional.
Frequentemente, porém, isso ocorre às custas de um enorme esforço interno que
passa despercebido”, explica.
Carreira: quando ser competente não significa estar confortável
O ambiente
profissional pode representar um dos maiores desafios. Reuniões frequentes,
barulho, iluminação intensa, interrupções constantes, cobranças sociais e
mudanças inesperadas de rotina podem gerar sobrecarga.
Isso não
significa falta de capacidade. Muitas vezes, o problema está na
incompatibilidade entre as necessidades individuais e as condições oferecidas
pelo ambiente.
“Alta
performance não significa ausência de dificuldade. Muitas vezes, existe um
custo enorme por trás daquela entrega. E esse custo pode aparecer como
ansiedade, esgotamento, problemas de relacionamento, sensação de fracasso ou
sobrecarga constante”, alerta o neurologista.
Para alguns
adultos autistas, empreender ou trabalhar com maior autonomia pode representar
uma alternativa. Entretanto, o médico ressalta que administrar o próprio
negócio também exige organização, planejamento financeiro e capacidade de lidar
com imprevistos.
O esgotamento de representar um papel todos os dias
Outro
fenômeno importante é o masking, conhecido como camuflagem social. Trata-se do
esforço para esconder características autistas, imitar comportamentos e
corresponder às expectativas de outras pessoas.
“Muitos
adultos chegam ao consultório exaustos. Eles passaram décadas tentando se
encaixar em um mundo que parece funcionar em uma frequência incompreensível.
Para sobreviver a isso, desenvolvem o que chamamos de masking, ou camuflagem
social”, explica Trilico.
Essa adaptação
constante pode estar associada à ansiedade, baixa autoestima, sofrimento
emocional e sensação de perda da própria identidade.
O desafio
não é simplesmente aprender a conviver socialmente, mas encontrar formas de participar
da sociedade sem precisar ultrapassar continuamente os próprios limites.
Amor, convivência e sexualidade: sentir não é o mesmo que demonstrar
Na vida
afetiva, dificuldades de comunicação, necessidade de previsibilidade e
diferenças na percepção sensorial podem provocar conflitos.
Uma pessoa
autista pode amar profundamente e, ainda assim, precisar de momentos de
isolamento, apresentar dificuldades para interpretar indiretas ou sentir
desconforto com determinados contatos físicos.
“A diferença
está na compreensão, não na capacidade de amar”, afirma o neurologista.
A
sexualidade também merece atenção. Enquanto alguns adultos autistas apresentam
pouco ou nenhum interesse sexual, outros relatam desejo intenso. Há ainda
aqueles cuja experiência sexual é semelhante à de pessoas não autistas.
“O desejo
sexual envolve muito mais do que libido. O cérebro organiza informações,
interpreta o contato físico e regula emoções. No autismo, essas características
variam bastante de uma pessoa para outra”, esclarece.
Para o
especialista, compreender essas particularidades favorece o diálogo, reduz
interpretações equivocadas e permite construir relações mais respeitosas.
E quando o
TDAH também faz parte da história?
O Transtorno
do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) também pode estar presente em adultos
autistas, embora sejam condições distintas.
Dificuldades
de organização, administração do tempo, manutenção da atenção e controle de
impulsos podem tornar a rotina ainda mais desafiadora quando existem sintomas
associados de TDAH.
O
neurologista destaca que o sucesso profissional não exclui nenhuma dessas
condições.
“Existe uma
ideia equivocada de que, se a pessoa estudou, construiu uma carreira, teve
sucesso financeiro ou se tornou famosa, ela não poderia ter TDAH ou estar no
espectro autista. Uma coisa não exclui a outra.”
Por isso,
uma avaliação individualizada é fundamental para compreender quais dificuldades
estão presentes e quais estratégias podem ajudar.
Como
construir uma vida adulta com menos sobrecarga?
Mais do que buscar produtividade ou tentar corresponder a padrões sociais, o caminho envolve reconhecer necessidades individuais e criar condições mais adequadas de vida.
No trabalho,
isso pode significar maior previsibilidade, comunicação objetiva, pausas e
adaptações sensoriais. Nos relacionamentos, diálogo claro e respeito aos
limites. Na rotina, organização compatível com as necessidades de cada pessoa e
acompanhamento profissional quando necessário.
O
diagnóstico, mesmo quando chega depois dos 30, 40 ou 50 anos, pode contribuir
para essa compreensão. Mas ele não resolve automaticamente os desafios
acumulados ao longo da vida.
“Muitas
pessoas deixam de se enxergar como inadequadas ou incapazes. Passam a
compreender que possuem uma forma diferente, não inferior, de processar
informações e interagir com o ambiente”, explica Trilico.
Para o
neurologista, o mais importante é abandonar a ideia de que existe apenas uma
maneira correta de trabalhar, amar, conviver e alcançar o sucesso.
“Não é o
cérebro autista que precisa se encaixar no sistema. É o sistema que precisa
começar a considerar diferentes formas de funcionamento”, conclui.
Afinal,
construir uma vida adulta não deveria significar apenas aprender a suportar as
exigências do mundo, mas também encontrar espaço para viver com autonomia, saúde
mental e qualidade de vida.
Dr. Matheus Luis Castelan Trilico - neurologista, referência nacional em autismo e TDAH em adultos, mestre em Medicina Interna e Ciências da Saúde pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pós-graduado em Transtorno do Espectro Autista (TEA). CRM 35805/PR | RQE 24818.
http://www.matheustriliconeurologia.com.br
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