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terça-feira, 3 de novembro de 2026

Estudo aponta influência da genética nas particularidades do câncer de próstata

Pesquisa com 193 pacientes de todas as regiões do país mostra particularidades genômicas da população brasileira e reforça a necessidade de ampliar a representação de grupos miscigenados nos estudos sobre câncer 

 

A medicina de precisão vem mudando a forma como o câncer é diagnosticado e tratado ao permitir que características genéticas do paciente e do próprio tumor sejam consideradas nas decisões clínicas. Mas existe uma questão ainda pouco explorada: os parâmetros genéticos utilizados atualmente conseguem representar adequadamente uma população tão diversa e miscigenada quanto a brasileira? Um estudo multicêntrico conduzido por pesquisadores do Hospital Moinhos de Vento e de outras instituições brasileiras ajuda a colocar essa discussão em evidência. Publicado na revista Genetics in Medicine Open, o trabalho analisou 193 homens com câncer de próstata metastático, recrutados nas cinco macrorregiões do país, e investigou tanto alterações genéticas herdadas quanto aquelas adquiridas pelo tumor. 

A análise revelou um perfil de ancestralidade genética diversificado: na mediana, os participantes apresentavam 67% de ancestralidade europeia, 14% africana e 13% indígena. O estudo é, segundo os autores, o primeiro a descrever de forma abrangente as características genômicas de uma população miscigenada de pacientes com câncer de próstata metastático recrutada em todas as cinco regiões brasileiras. 

Para o Dr. Gabriel Macedo, primeiro autor do estudo e responsável técnico de Genômica do projeto , o resultado chama atenção para uma lacuna da medicina de precisão: a produção de conhecimento genômico não acompanhou, na mesma proporção, a diversidade das populações estudadas. “Grande parte do conhecimento que temos hoje sobre variantes genéticas relacionadas ao câncer foi construída a partir de populações europeias e norte-americanas. Quando olhamos para uma população altamente miscigenada como a brasileira, percebemos que ainda existem muitas lacunas. Conhecer melhor a nossa diversidade genética é fundamental para interpretar esses dados de maneira mais adequada.”

 

O que não está nos bancos de dados também importa

O estudo encontrou variantes germinativas patogênicas ou provavelmente patogênicas em 9,8% dos pacientes quando analisados 148 genes relacionados ou potencialmente associados ao câncer. Quando considerados apenas os genes com associação conhecida ao risco de câncer de próstata, a frequência foi de 5,7%. Entre os genes identificados estavam CHEK2, MUTYH, BRCA2, ATM e PALB2. Uma variante fundadora brasileira do gene TP53, conhecida como TP53 R337H, foi encontrada em um único paciente. 

A frequência observada foi inferior à encontrada em alguns estudos realizados em populações norte-americanas e europeias. Os próprios autores ressaltam, porém, que essa diferença não deve ser interpretada apenas como uma característica biológica dos brasileiros. Uma das possíveis explicações é justamente a falta de dados genômicos adequadamente curados para populações com altas taxas de miscigenação. 

Isso traz uma questão importante para a interpretação dos testes genéticos: uma variante pode ser pouco conhecida porque é realmente rara ou porque a população na qual ela ocorre ainda foi pouco estudada. “Quando uma população está sub-representada nos bancos de dados, temos menos informações para comparar e interpretar as variantes encontradas. Isso pode aumentar a incerteza na análise genética. Por isso, produzir dados de populações miscigenadas não é apenas uma questão de representatividade científica; é também uma questão de melhorar a qualidade da informação que chega ao paciente.”, explica a Dra. Daniela Dornelles Rosa, pesquisadora do Hospital Moinhos de Vento que também é autora do trabalho.

 

O DNA do tumor também pode orientar o tratamento

Além das alterações herdadas, os pesquisadores investigaram as alterações presentes especificamente nos tumores. Entre os 55 pacientes que tiveram sequenciamento tumoral válido, 21,8% apresentaram variantes com perda de função em genes relacionados ao reparo do DNA, incluindo ATM, CDK12, BRCA2 e FANCA. 

Alterações nessa via são relevantes para a oncologia porque podem ajudar a identificar pacientes que podem se beneficiar de determinadas estratégias terapêuticas direcionadas. O estudo ressalta, nesse contexto, a importância do teste genômico tumoral na identificação de pacientes potencialmente elegíveis a tratamentos como os inibidores de PARP. “O câncer de próstata metastático não é uma doença molecularmente uniforme. O tumor pode apresentar alterações diferentes de um paciente para outro, e algumas delas têm implicações terapêuticas. Quanto melhor conseguirmos caracterizar essas alterações, maior é a possibilidade de utilizar a informação molecular para individualizar o tratamento.”, afirma a pesquisadora.

 

Mas ainda existe um obstáculo antes de chegar ao tratamento

O estudo também revelou um desafio menos conhecido da medicina de precisão: nem sempre é possível obter um resultado genômico confiável a partir da amostra do tumor.

Dos 193 pacientes avaliados, 92 amostras (47,7%) apresentaram baixo conteúdo tumoral, quantidade insuficiente de DNA ou alta fragmentação e não puderam ser submetidas ao sequenciamento. Outras 46 (23,8%) não atingiram os critérios mínimos de qualidade. Ao final, apenas 55 casos, ou 28,5% da coorte, tiveram resultados válidos de sequenciamento tumoral. 

A dificuldade está relacionada, entre outros fatores, às características das amostras de tecido preservadas em parafina, material utilizado rotineiramente na anatomia patológica. Os autores destacam que a baixa taxa de sucesso limitou a análise das alterações somáticas na coorte. “A medicina de precisão não começa no momento em que o médico recebe o laudo genético. Existe toda uma cadeia anterior: precisamos ter uma amostra adequada, conseguir extrair o DNA, realizar o sequenciamento e interpretar aquele resultado. O estudo mostra que ainda temos desafios importantes em todas essas etapas”, afirma Gabriel.

 

Um passo para uma oncologia mais representativa

Para os pesquisadores, os resultados reforçam a necessidade de ampliar a participação de populações miscigenadas nas pesquisas genômicas sobre câncer. O Brasil, justamente por sua diversidade ancestral, pode contribuir para preencher uma lacuna existente no conhecimento internacional sobre a doença. “O Brasil tem uma população geneticamente muito diversa e isso precisa estar refletido na pesquisa. Quanto mais conhecermos o perfil genômico dos brasileiros, mais condições teremos de compreender as particularidades das doenças, aprimorar a interpretação dos testes e avançar em uma oncologia realmente personalizada”, conclui a médica. 

O estudo The distinct molecular profile of metastatic prostate cancer in the mixed Brazilian population foi publicado em 2026 na revista Genetics in Medicine Open e integra o trabalho do Onco-Genomas Brasil Research Group.

  

 

Hospital Moinhos de Vento

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Referências:

The distinct molecular profile of metastatic prostate cancer in the mixed Brazilian population. doi: Link. Acesso em setembro de 2026.


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