Pesquisa com 193 pacientes de todas as
regiões do país mostra particularidades genômicas da população brasileira e
reforça a necessidade de ampliar a representação de grupos miscigenados nos
estudos sobre câncer
A medicina de precisão vem mudando a forma como o câncer é diagnosticado e tratado ao permitir que características genéticas do paciente e do próprio tumor sejam consideradas nas decisões clínicas. Mas existe uma questão ainda pouco explorada: os parâmetros genéticos utilizados atualmente conseguem representar adequadamente uma população tão diversa e miscigenada quanto a brasileira? Um estudo multicêntrico conduzido por pesquisadores do Hospital Moinhos de Vento e de outras instituições brasileiras ajuda a colocar essa discussão em evidência. Publicado na revista Genetics in Medicine Open, o trabalho analisou 193 homens com câncer de próstata metastático, recrutados nas cinco macrorregiões do país, e investigou tanto alterações genéticas herdadas quanto aquelas adquiridas pelo tumor.
A análise revelou um perfil de ancestralidade genética diversificado: na mediana, os participantes apresentavam 67% de ancestralidade europeia, 14% africana e 13% indígena. O estudo é, segundo os autores, o primeiro a descrever de forma abrangente as características genômicas de uma população miscigenada de pacientes com câncer de próstata metastático recrutada em todas as cinco regiões brasileiras.
Para o
Dr. Gabriel Macedo, primeiro autor do estudo e responsável técnico de Genômica
do projeto , o resultado chama atenção para uma lacuna da medicina de precisão:
a produção de conhecimento genômico não acompanhou, na mesma proporção, a
diversidade das populações estudadas. “Grande parte do conhecimento que temos
hoje sobre variantes genéticas relacionadas ao câncer foi construída a partir
de populações europeias e norte-americanas. Quando olhamos para uma população
altamente miscigenada como a brasileira, percebemos que ainda existem muitas
lacunas. Conhecer melhor a nossa diversidade genética é fundamental para
interpretar esses dados de maneira mais adequada.”
O
que não está nos bancos de dados também importa
O estudo encontrou variantes germinativas patogênicas ou provavelmente patogênicas em 9,8% dos pacientes quando analisados 148 genes relacionados ou potencialmente associados ao câncer. Quando considerados apenas os genes com associação conhecida ao risco de câncer de próstata, a frequência foi de 5,7%. Entre os genes identificados estavam CHEK2, MUTYH, BRCA2, ATM e PALB2. Uma variante fundadora brasileira do gene TP53, conhecida como TP53 R337H, foi encontrada em um único paciente.
A frequência observada foi inferior à encontrada em alguns estudos realizados em populações norte-americanas e europeias. Os próprios autores ressaltam, porém, que essa diferença não deve ser interpretada apenas como uma característica biológica dos brasileiros. Uma das possíveis explicações é justamente a falta de dados genômicos adequadamente curados para populações com altas taxas de miscigenação.
Isso
traz uma questão importante para a interpretação dos testes genéticos: uma
variante pode ser pouco conhecida porque é realmente rara ou porque a população
na qual ela ocorre ainda foi pouco estudada. “Quando uma população está
sub-representada nos bancos de dados, temos menos informações para comparar e
interpretar as variantes encontradas. Isso pode aumentar a incerteza na análise
genética. Por isso, produzir dados de populações miscigenadas não é apenas uma
questão de representatividade científica; é também uma questão de melhorar a
qualidade da informação que chega ao paciente.”, explica a Dra. Daniela
Dornelles Rosa, pesquisadora do Hospital Moinhos de Vento que também é autora
do trabalho.
O
DNA do tumor também pode orientar o tratamento
Além das alterações herdadas, os pesquisadores investigaram as alterações presentes especificamente nos tumores. Entre os 55 pacientes que tiveram sequenciamento tumoral válido, 21,8% apresentaram variantes com perda de função em genes relacionados ao reparo do DNA, incluindo ATM, CDK12, BRCA2 e FANCA.
Alterações
nessa via são relevantes para a oncologia porque podem ajudar a identificar
pacientes que podem se beneficiar de determinadas estratégias terapêuticas
direcionadas. O estudo ressalta, nesse contexto, a importância do teste
genômico tumoral na identificação de pacientes potencialmente elegíveis a
tratamentos como os inibidores de PARP. “O câncer de próstata metastático não é
uma doença molecularmente uniforme. O tumor pode apresentar alterações
diferentes de um paciente para outro, e algumas delas têm implicações
terapêuticas. Quanto melhor conseguirmos caracterizar essas alterações, maior é
a possibilidade de utilizar a informação molecular para individualizar o
tratamento.”, afirma a pesquisadora.
Mas
ainda existe um obstáculo antes de chegar ao tratamento
O
estudo também revelou um desafio menos conhecido da medicina de precisão: nem
sempre é possível obter um resultado genômico confiável a partir da amostra do
tumor.
Dos 193 pacientes avaliados, 92 amostras (47,7%) apresentaram baixo conteúdo tumoral, quantidade insuficiente de DNA ou alta fragmentação e não puderam ser submetidas ao sequenciamento. Outras 46 (23,8%) não atingiram os critérios mínimos de qualidade. Ao final, apenas 55 casos, ou 28,5% da coorte, tiveram resultados válidos de sequenciamento tumoral.
A
dificuldade está relacionada, entre outros fatores, às características das
amostras de tecido preservadas em parafina, material utilizado rotineiramente
na anatomia patológica. Os autores destacam que a baixa taxa de sucesso limitou
a análise das alterações somáticas na coorte. “A medicina de precisão não
começa no momento em que o médico recebe o laudo genético. Existe toda uma
cadeia anterior: precisamos ter uma amostra adequada, conseguir extrair o DNA,
realizar o sequenciamento e interpretar aquele resultado. O estudo mostra que
ainda temos desafios importantes em todas essas etapas”, afirma Gabriel.
Um
passo para uma oncologia mais representativa
Para os pesquisadores, os resultados reforçam a necessidade de ampliar a participação de populações miscigenadas nas pesquisas genômicas sobre câncer. O Brasil, justamente por sua diversidade ancestral, pode contribuir para preencher uma lacuna existente no conhecimento internacional sobre a doença. “O Brasil tem uma população geneticamente muito diversa e isso precisa estar refletido na pesquisa. Quanto mais conhecermos o perfil genômico dos brasileiros, mais condições teremos de compreender as particularidades das doenças, aprimorar a interpretação dos testes e avançar em uma oncologia realmente personalizada”, conclui a médica.
O
estudo The distinct molecular profile of metastatic prostate cancer in the
mixed Brazilian population foi publicado em 2026 na revista Genetics in
Medicine Open e integra o trabalho do Onco-Genomas Brasil Research Group.
Hospital Moinhos de Vento
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Referências:
The distinct molecular profile of metastatic prostate cancer in the mixed Brazilian population. doi: Link. Acesso em setembro de 2026.
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