Da assistência durante a gestação ao
acompanhamento após a alta hospitalar, neonatologista do Hospital e Maternidade
Santa Joana explica por que o cuidado integrado é fundamental para o desenvolvimento
de bebês que nascem antes do tempo
Os primeiros 1.000 dias de vida são considerados uma janela
decisiva para o desenvolvimento infantil. O período, que compreende a gestação
e os dois primeiros anos após o nascimento, reúne etapas importantes para a
formação do cérebro, o crescimento, a maturação do sistema imunológico e a
aquisição de habilidades motoras, cognitivas e socioemocionais. Quando o
nascimento acontece antes do tempo esperado, parte desse percurso exige cuidados
específicos, que começam ainda durante a gravidez e continuam muito além da
alta hospitalar.
A prematuridade é definida pelo nascimento antes de 37 semanas
completas de gestação. Como órgãos e sistemas ainda estão em desenvolvimento,
especialmente o cérebro e os pulmões, alguns recém-nascidos podem precisar de
suporte respiratório, assistência nutricional e monitoramento intensivo. As
necessidades variam de acordo com a idade gestacional, as condições clínicas e
a evolução de cada bebê, o que torna essencial uma abordagem individualizada.
“Os primeiros 1.000 dias precisam ser compreendidos como uma
trajetória de desenvolvimento, e não apenas como um período contado a partir do
nascimento. Para o bebê prematuro, essa perspectiva é especialmente importante,
porque o cuidado envolve desde a identificação de riscos durante a gestação até
as medidas que favorecem seu desenvolvimento depois do parto. Cada etapa exige
atenção às necessidades da criança e planejamento da assistência”, explica a
Dra. Suely Dornellas, coordenadora médica
da UTI neonatal de prematuros extremos do Hospital e Maternidade Santa Joana.
O que pode ser feito antes do nascimento?
O
acompanhamento pré-natal permite identificar condições que podem aumentar o
risco de parto prematuro ou comprometer a saúde materna e fetal. Hipertensão,
diabetes, infecções, alterações placentárias, histórico de parto prematuro,
encurtamento de colo uterino e gestação múltipla estão entre os fatores que
podem exigir avaliação mais frequente e assistência especializada. Embora nem
todos os casos de prematuridade possam ser prevenidos, reconhecer precocemente
os riscos ajuda a orientar decisões clínicas e a preparar a equipe para
diferentes cenários.
Quando
existe a possibilidade de nascimento antecipado, o planejamento da assistência
neonatal pode fazer diferença. Conforme a situação clínica e a idade
gestacional, intervenções realizadas antes do parto, como o uso de
corticosteroide antenatal para acelerar a maturação pulmonar do feto e de
sulfato de magnésio para neuroproteção, além da transferência da gestante para
uma maternidade com UTI de alta complexidade, ajudam a reduzir o risco de
determinadas complicações. A comunicação entre obstetras e neonatologistas
também permite antecipar as necessidades do recém-nascido e organizar os
recursos necessários para sua recepção.
“Quando
há risco de prematuridade, o planejamento é parte fundamental do cuidado. A
avaliação das condições maternas e fetais, a definição do momento mais adequado
para o nascimento e a preparação da equipe neonatal precisam caminhar juntas.
Isso permite que as decisões sejam tomadas considerando tanto a saúde da mãe
quanto as necessidades do bebê”, destaca a especialista.
Na UTI neonatal, o cuidado vai além da estabilização clínica
Após
o nascimento, os prematuros que necessitam de internação em unidade de terapia
intensiva neonatal recebem assistência direcionada às suas condições clínicas.
O suporte pode incluir auxílio respiratório, controle da temperatura corporal,
monitoramento de sinais vitais, acompanhamento nutricional e medidas de
neuroproteção para favorecer o crescimento e o amadurecimento dos órgãos.
Nesse
ambiente, medidas que respeitam a maturidade e a tolerância do recém-nascido,
como o controle de luminosidade, de ruídos e a manipulação mínima, também
integram a assistência. Sempre que as condições clínicas permitem, o contato
pele a pele (método canguru), o incentivo à participação dos pais e o estímulo
à amamentação são estratégias importantes para fortalecer o vínculo e favorecer
o bem-estar do bebê.
O
leite materno merece atenção especial, pois fornece nutrientes e componentes
imunológicos relevantes para o prematuro. Quando a amamentação direta ainda não
é possível, a equipe pode orientar a extração e a oferta do leite de acordo com
as condições clínicas e as necessidades nutricionais da criança.
A
participação da família é outro componente importante. Com orientação dos
profissionais, os pais podem aprender a reconhecer os sinais do bebê,
participar dos cuidados e se preparar para a rotina após a alta. A internação,
portanto, também é um período de acolhimento e preparação para a continuidade
da assistência em casa.
Por que o acompanhamento precisa continuar após a alta?
A
alta hospitalar representa uma conquista importante, mas não encerra o cuidado
com o prematuro. Nos primeiros anos, o acompanhamento permite observar o
crescimento, a alimentação, a visão, a audição e a evolução das habilidades
motoras e cognitivas. Fazem parte desse cuidado o rastreamento da retinopatia
da prematuridade e de alterações auditivas, o cumprimento do calendário vacinal
conforme a idade cronológica e a atenção à prevenção de infecções
respiratórias. Quando necessário, a criança pode ser encaminhada a
profissionais de diferentes áreas, conforme suas necessidades individuais.
Um
aspecto importante dessa avaliação é a idade corrigida, calculada o tempo que
faltou para o bebê completar 40 semanas de gestação. Essa referência pode
ajudar os profissionais a interpretar os marcos do desenvolvimento,
especialmente nos primeiros anos, sem comparar a criança prematura
exclusivamente com bebês nascidos a termo da mesma idade cronológica.
O
seguimento também favorece a identificação precoce de possíveis atrasos ou
dificuldades, permitindo iniciar intervenções quando indicadas. A frequência
das consultas e as especialidades envolvidas dependem da história clínica, do
grau de prematuridade e da evolução de cada criança.
“Não
podemos considerar a alta hospitalar como o ponto final da assistência. O
desenvolvimento continua, e o acompanhamento permite avaliar como o bebê está
crescendo, identificar necessidades que podem surgir ao longo do tempo e
orientar a família em cada fase. O objetivo é oferecer condições para que a
criança alcance seu potencial de desenvolvimento, respeitando suas
particularidades”, afirma a Dra. Suely Dornellas.
A prematuridade não determina, isoladamente, o futuro de uma criança. Os resultados dependem de diferentes fatores, incluindo as condições clínicas ao nascimento, a evolução individual e o acesso a cuidados adequados. Por isso, compreender os primeiros 1.000 dias como uma jornada contínua ajuda a ampliar o olhar sobre a saúde infantil: o desenvolvimento começa na gestação, ganha novas demandas com o nascimento e continua sendo acompanhado nos primeiros anos de vida.
Hospital e Maternidade Santa Joana
www.santajoana.com.br
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