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quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Os primeiros 1.000 dias do prematuro começam antes do nascimento

Da assistência durante a gestação ao acompanhamento após a alta hospitalar, neonatologista do Hospital e Maternidade Santa Joana explica por que o cuidado integrado é fundamental para o desenvolvimento de bebês que nascem antes do tempo

 

Os primeiros 1.000 dias de vida são considerados uma janela decisiva para o desenvolvimento infantil. O período, que compreende a gestação e os dois primeiros anos após o nascimento, reúne etapas importantes para a formação do cérebro, o crescimento, a maturação do sistema imunológico e a aquisição de habilidades motoras, cognitivas e socioemocionais. Quando o nascimento acontece antes do tempo esperado, parte desse percurso exige cuidados específicos, que começam ainda durante a gravidez e continuam muito além da alta hospitalar.

A prematuridade é definida pelo nascimento antes de 37 semanas completas de gestação. Como órgãos e sistemas ainda estão em desenvolvimento, especialmente o cérebro e os pulmões, alguns recém-nascidos podem precisar de suporte respiratório, assistência nutricional e monitoramento intensivo. As necessidades variam de acordo com a idade gestacional, as condições clínicas e a evolução de cada bebê, o que torna essencial uma abordagem individualizada.

“Os primeiros 1.000 dias precisam ser compreendidos como uma trajetória de desenvolvimento, e não apenas como um período contado a partir do nascimento. Para o bebê prematuro, essa perspectiva é especialmente importante, porque o cuidado envolve desde a identificação de riscos durante a gestação até as medidas que favorecem seu desenvolvimento depois do parto. Cada etapa exige atenção às necessidades da criança e planejamento da assistência”, explica a Dra. Suely Dornellas, coordenadora médica da UTI neonatal de prematuros extremos do Hospital e Maternidade Santa Joana.


O que pode ser feito antes do nascimento?

O acompanhamento pré-natal permite identificar condições que podem aumentar o risco de parto prematuro ou comprometer a saúde materna e fetal. Hipertensão, diabetes, infecções, alterações placentárias, histórico de parto prematuro, encurtamento de colo uterino e gestação múltipla estão entre os fatores que podem exigir avaliação mais frequente e assistência especializada. Embora nem todos os casos de prematuridade possam ser prevenidos, reconhecer precocemente os riscos ajuda a orientar decisões clínicas e a preparar a equipe para diferentes cenários.

Quando existe a possibilidade de nascimento antecipado, o planejamento da assistência neonatal pode fazer diferença. Conforme a situação clínica e a idade gestacional, intervenções realizadas antes do parto, como o uso de corticosteroide antenatal para acelerar a maturação pulmonar do feto e de sulfato de magnésio para neuroproteção, além da transferência da gestante para uma maternidade com UTI de alta complexidade, ajudam a reduzir o risco de determinadas complicações. A comunicação entre obstetras e neonatologistas também permite antecipar as necessidades do recém-nascido e organizar os recursos necessários para sua recepção.

“Quando há risco de prematuridade, o planejamento é parte fundamental do cuidado. A avaliação das condições maternas e fetais, a definição do momento mais adequado para o nascimento e a preparação da equipe neonatal precisam caminhar juntas. Isso permite que as decisões sejam tomadas considerando tanto a saúde da mãe quanto as necessidades do bebê”, destaca a especialista.


Na UTI neonatal, o cuidado vai além da estabilização clínica

Após o nascimento, os prematuros que necessitam de internação em unidade de terapia intensiva neonatal recebem assistência direcionada às suas condições clínicas. O suporte pode incluir auxílio respiratório, controle da temperatura corporal, monitoramento de sinais vitais, acompanhamento nutricional e medidas de neuroproteção para favorecer o crescimento e o amadurecimento dos órgãos.

Nesse ambiente, medidas que respeitam a maturidade e a tolerância do recém-nascido, como o controle de luminosidade, de ruídos e a manipulação mínima, também integram a assistência. Sempre que as condições clínicas permitem, o contato pele a pele (método canguru), o incentivo à participação dos pais e o estímulo à amamentação são estratégias importantes para fortalecer o vínculo e favorecer o bem-estar do bebê.

O leite materno merece atenção especial, pois fornece nutrientes e componentes imunológicos relevantes para o prematuro. Quando a amamentação direta ainda não é possível, a equipe pode orientar a extração e a oferta do leite de acordo com as condições clínicas e as necessidades nutricionais da criança.

A participação da família é outro componente importante. Com orientação dos profissionais, os pais podem aprender a reconhecer os sinais do bebê, participar dos cuidados e se preparar para a rotina após a alta. A internação, portanto, também é um período de acolhimento e preparação para a continuidade da assistência em casa.


Por que o acompanhamento precisa continuar após a alta?

A alta hospitalar representa uma conquista importante, mas não encerra o cuidado com o prematuro. Nos primeiros anos, o acompanhamento permite observar o crescimento, a alimentação, a visão, a audição e a evolução das habilidades motoras e cognitivas. Fazem parte desse cuidado o rastreamento da retinopatia da prematuridade e de alterações auditivas, o cumprimento do calendário vacinal conforme a idade cronológica e a atenção à prevenção de infecções respiratórias. Quando necessário, a criança pode ser encaminhada a profissionais de diferentes áreas, conforme suas necessidades individuais.

Um aspecto importante dessa avaliação é a idade corrigida, calculada o tempo que faltou para o bebê completar 40 semanas de gestação. Essa referência pode ajudar os profissionais a interpretar os marcos do desenvolvimento, especialmente nos primeiros anos, sem comparar a criança prematura exclusivamente com bebês nascidos a termo da mesma idade cronológica.

O seguimento também favorece a identificação precoce de possíveis atrasos ou dificuldades, permitindo iniciar intervenções quando indicadas. A frequência das consultas e as especialidades envolvidas dependem da história clínica, do grau de prematuridade e da evolução de cada criança.

“Não podemos considerar a alta hospitalar como o ponto final da assistência. O desenvolvimento continua, e o acompanhamento permite avaliar como o bebê está crescendo, identificar necessidades que podem surgir ao longo do tempo e orientar a família em cada fase. O objetivo é oferecer condições para que a criança alcance seu potencial de desenvolvimento, respeitando suas particularidades”, afirma a Dra. Suely Dornellas.

A prematuridade não determina, isoladamente, o futuro de uma criança. Os resultados dependem de diferentes fatores, incluindo as condições clínicas ao nascimento, a evolução individual e o acesso a cuidados adequados. Por isso, compreender os primeiros 1.000 dias como uma jornada contínua ajuda a ampliar o olhar sobre a saúde infantil: o desenvolvimento começa na gestação, ganha novas demandas com o nascimento e continua sendo acompanhado nos primeiros anos de vida. 



Hospital e Maternidade Santa Joana
www.santajoana.com.br


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