Ampliando o número de medicamentos registrados no Brasil, farmacêutico alerta que embalagens aparentemente originais não garantem a autenticidade do produto e explica os cuidados necessários antes da compra
Em 29 de outubro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa) anunciou a aprovação de cinco novos registros de medicamentos da classe
GLP-1, ampliando as opções disponíveis no mercado brasileiro. Mas existe um
risco que nem sempre é percebido pelo consumidor: uma caneta pode apresentar
embalagem, rótulo e aparência semelhantes aos de um medicamento original e,
ainda assim, conter uma substância diferente, uma dose incorreta ou até não
possuir o princípio ativo anunciado.
Segundo o farmacêutico Jamar Tejada, o problema é que a
falsificação de medicamentos vai muito além de uma embalagem mal impressa ou de
um produto vendido sem identificação.
"Hoje, não podemos confiar apenas na aparência. Uma embalagem
pode reproduzir cores, logotipos, números de lote e outros elementos de um
medicamento verdadeiro. O consumidor pode acreditar que está comprando um
produto legítimo quando, na realidade, não existe garantia sobre o que está
dentro daquela caneta", alerta.
Por que uma caneta falsificada pode ser tão perigosa?
Medicamentos como semaglutida e tirzepatida atuam sobre mecanismos
relacionados ao controle da glicose, do apetite e da saciedade. Por isso, a
quantidade de princípio ativo administrada precisa ser rigorosamente
controlada.
Em produtos falsificados ou de origem desconhecida, não há
garantia de que a substância utilizada seja realmente aquela informada no
rótulo, nem de que sua concentração esteja correta.
“O risco não é apenas o medicamento não funcionar. Ele pode conter
uma dose diferente da indicada, substâncias não declaradas ou apresentar contaminação.
Isso pode provocar reações adversas graves, como vômitos intensos, desidratação
e alterações importantes da glicemia. Dependendo da substância e dos
medicamentos utilizados pelo paciente, também existe o risco de hipoglicemia”,
alerta o farmacêutico.
Outro perigo envolve as condições de armazenamento. Muitos
medicamentos injetáveis dessa classe exigem refrigeração antes do primeiro uso,
conforme as orientações específicas de cada fabricante.
Se a caneta for transportada ou armazenada fora das condições
recomendadas, sua estabilidade pode ser comprometida, mesmo que o produto seja
original.
Ter número de lote e validade significa que o medicamento é
verdadeiro?
Não necessariamente.
O número do lote permite identificar um conjunto de unidades fabricadas
sob determinadas condições e é fundamental para a rastreabilidade do
medicamento. Entretanto, falsificadores podem copiar essas informações de
produtos legítimos.
O mesmo vale para o prazo de validade, o código de barras e outros
elementos impressos na embalagem.
"Um número de lote não funciona como certificado automático
de autenticidade. É preciso verificar se o medicamento possui registro na
Anvisa, se a apresentação corresponde à autorizada no Brasil e se foi adquirido
por um canal regular. Quando houver suspeita, o fabricante e a autoridade
sanitária podem ajudar na verificação", orienta Jamar.
O registro sanitário pode ser consultado no portal da Anvisa.
Porém, é importante compreender que a existência de um medicamento registrado
não comprova, por si só, que determinada unidade à venda seja autêntica.
O perigo das ofertas pelas redes sociais
A comercialização de canetas emagrecedoras por perfis de redes
sociais, aplicativos de mensagens e vendedores informais merece atenção
especial. A exigência de receita médica com retenção na farmácia é uma medida
adicional de segurança. Quando alguém oferece esses medicamentos sem cumprir
essa obrigação, já existe um sinal de irregularidade na comercialização.
Ofertas com preços muito inferiores aos praticados no mercado,
promessas de entrega sem exigência de receita ou produtos trazidos do exterior
sem comprovação de procedência devem ser encarados como sinais de alerta.
"Quando um medicamento é vendido por alguém que não consegue
comprovar sua origem, o consumidor perde uma parte essencial da segurança: a
rastreabilidade. Se houver um problema com aquele lote, como será possível
saber de onde veio, como foi transportado e quem é responsável pela
comercialização?", questiona o farmacêutico.
O especialista reforça que a prescrição médica não substitui a
necessidade de comprar o produto em um estabelecimento regularizado.
Como reduzir o risco de comprar uma caneta irregular?
Antes de adquirir o medicamento, alguns cuidados são fundamentais:
1. Compre em farmácias e drogarias regularizadas. Evite vendedores particulares, grupos
de mensagens e perfis de redes sociais que não comprovem autorização para
comercializar medicamentos.
2. Consulte o registro na Anvisa. Verifique o nome do medicamento,
fabricante, princípio ativo e apresentação autorizada no Brasil.
3. Observe a embalagem. Informações ilegíveis, erros de
impressão, lacres violados ou divergências entre a caixa e a caneta são sinais
de alerta. A ausência desses problemas, porém, não garante autenticidade.
4. Confira lote e validade. As informações devem estar presentes e
ser coerentes. Em caso de dúvida, procure os canais oficiais do fabricante.
5. Verifique as condições de conservação. Confirme as exigências de temperatura
da apresentação adquirida e se a farmácia garante armazenamento e transporte
adequados. Algumas apresentações permitem permanecer temporariamente fora da
geladeira, dentro dos limites estabelecidos pelo fabricante. Por isso, é
importante consultar as orientações específicas da bula.
6. Desconfie de preços muito baixos. Valores muito inferiores aos habituais
podem indicar produtos irregulares, falsificados ou de procedência
desconhecida.
E se a pessoa já comprou uma caneta suspeita?
A orientação é não utilizar o medicamento até que sua procedência
seja esclarecida. Caso já tenha sido administrado, o paciente deve procurar
orientação de um profissional de saúde, especialmente se apresentar sintomas
inesperados.
É importante preservar a embalagem, a nota fiscal, o número do
lote e as informações do vendedor, pois esses dados podem ajudar na
investigação e na notificação às autoridades sanitárias.
Para Jamar Tejada, a principal mensagem é que a segurança de um
medicamento não pode ser avaliada apenas pelo aspecto visual.
"Uma caneta emagrecedora não é um produto de beleza que pode
ser comprado de qualquer vendedor. Estamos falando de um medicamento que
interfere em mecanismos importantes do organismo. A procedência, o
armazenamento e a qualidade são tão importantes quanto o princípio ativo. Quando
não sabemos de onde veio o produto, também não sabemos exatamente o que estamos
aplicando no corpo", conclui.
Jamar Tejada - Farmacêutico graduado pela Faculdade de Farmácia e Bioquímica pela Universidade Luterana do Brasil, RS (ULBRA), Pós-Graduação em Gestão em Comunicação Estratégica Organizacional e Relações Públicas pela USP (Universidade de São Paulo), Pós-Graduação em Medicina Esportiva pela (FAPES), Pós-Graduação em Comunicação com o Mercado pela ESPM, Pós-Graduação em Formação para Dirigentes Industriais com Ênfase em Qualidade Total - Engenharia de Produção pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul-(UFRGS) e Pós-Graduação em Ciências Homeopáticas pelas Faculdades Associadas de Ciências da Saúde. Proprietário e Farmacêutico Responsável da ANJO DA GUARDA Farmácia de manipulação e homeopatia desde agosto 2008. tejard
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