Manutenção da taxa
de juros é importante até que governo apresente sinais claros de compromisso
com o equilíbrio fiscal
O Comitê de Política
Monetária (Copom) do
Banco Central decidiu nesta quarta-feira (4) manter a Selic em 13,75% ao ano,
interrompendo o ciclo de flexibilização iniciado nos meses anteriores. A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do
Estado de São Paulo (FecomercioSP), avalia que a
decisão foi correta e prudente para o momento. O cenário econômico mudou
substancialmente desde a reunião de setembro, após o segundo turno das eleições
presidenciais. A entidade analisa que a autoridade monetária fez bem em manter
a taxa inalterada e aguardar até que fiquem mais claros os desdobramentos do
quadro pós-eleitoral, a definição da estratégia fiscal do governo reeleito e a
composição de sua equipe econômica.
Os indicadores
mais recentes de inflação justificam a cautela. O IPCA-15 de outubro subiu
0,32% e elevou o acumulado em 12 meses para 4,62%, acima dos 4,47% do mês
anterior e do teto de 4,5% do intervalo de tolerância da meta. A composição é
preocupante, visto que alimentação e bebidas avançaram 0,88% e combustíveis,
1,2%, e o alívio veio de itens voláteis, como energia elétrica e passagens
aéreas, que tendem a não se repetir. Diante de uma desaceleração de qualidade
frágil, insistir nos cortes seria apostar em uma melhora que os números ainda
não mostram.
Além disso, o resultado das eleições provocou uma mudança importante nas expectativas do mercado. Após o segundo turno, o dólar registrou forte valorização, encerrando a R$ 5,40, enquanto os juros futuros avançaram expressivamente. Esse movimento amplia as preocupações com a inflação, uma vez que a desvalorização cambial encarece combustíveis e produtos importados, pressionando os preços internos e dificultando a convergência para a meta.
No Exterior, as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos realizadas na terça-feira (3), acrescentam incerteza sobre os rumos da política fiscal e comercial americana, inclusive em relação às tarifas impostas ao Brasil, podem influenciar o comportamento do dólar e os fluxos internacionais de capital destinados às economias emergentes, ampliando os riscos para o cenário econômico doméstico. Nesse caso, esperar para avaliar os efeitos também é mais sensato do que agir no escuro.
O Boletim Focus
desta semana já havia sintetizado a deterioração. A estimativa para o IPCA de
2026 passou de 5,19% para 5,22%, enquanto a de 2027 avançou de 4,34% para
4,76%, afastando-se ainda mais do centro da meta, de 3%. A Selic projetada para
o fim de 2027 passou de 11,75% para 12,50%, enquanto a estimativa de
crescimento do PIB deste ano recuou para 1,76%. Com expectativas em processo de
desancoragem, a pausa era o sinal que o mercado precisava receber.
Ao manter a taxa,
o Copom preservou sua credibilidade e deixou aberta a possibilidade de retomar
a flexibilização em bases mais sólidas. A FecomercioSP entende que embora juros
mais baixos seriam melhores para os empresários e para os consumidores, a
conjuntura atual não oferece condições seguras para a continuidade dos cortes.
Uma redução adicional de 0,25 ponto percentual teria efeito limitado sobre a
atividade, mas poderia ser interpretada pelo mercado como um sinal de tolerância
maior com os riscos inflacionários, pressionando ainda mais o câmbio e os juros
de longo prazo, que determinam boa parte do custo dos financiamentos para
empresas e famílias.
No entanto, a
Federação analisa que a manutenção da Selic não resolve o problema de fundo e
que a chave para se ter juros estruturalmente menores está no lado fiscal, pois
o comércio, os serviços e o turismo que são setores intensivos em crédito e
dependentes da renda das famílias, sentem de imediato o peso de uma Selic elevada.
Nesse contexto, é urgente que o governo reeleito defina o comando do Ministério
da Fazenda e apresente medidas de contenção das despesas obrigatórias e de
estabilização da dívida pública. Somente com esse compromisso será possível
reduzir o prêmio de risco elevado e abrir espaço para um ciclo duradouro de
queda dos juros.
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