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quarta-feira, 4 de novembro de 2026

ESG na prática: o que as PMEs devem fazer para não perder mercad

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Grandes corporações buscam parcerias com fornecedores que adotam essas boas práticas. Organização internacional vai capacitar até 150 PMEs brasileiras em ação conjunta com o Consulado-Geral da Suíça

Com cerca de 90% das grandes corporações já alinhando suas decisões de compra a critérios ESG, a falta de indicadores de sustentabilidade deixou de ser um aspecto reputacional e virou um risco operacional direto para fornecedores. Para as pequenas e médias empresas (PMEs), a ausência de dados socioambientais não significa apenas perda de competitividade, mas uma ameaça real de descontinuidade de contratos e de exclusão das cadeias globais de suprimentos.

Para apoiar essa transição, a Global Reporting Initiative (GRI) lança no Brasil, no dia 4 de novembro, o Programa de Negócios Competitivos (PNC), em parceria com o Consulado-Geral da Suíça. Com apoio financeiro do governo suíço, o projeto busca capacitar entre 100 e 150 PMEs brasileiras no primeiro ano para que emitam seu primeiro relatório oficial de sustentabilidade.

Em entrevista ao Diário do Comércio, Danielly Mello Freire, head da GRI no Brasil, detalhou como a iniciativa vai simplificar processos, o impacto para quem deseja exportar e os caminhos para desmistificar o ESG no ambiente dos pequenos negócios.

Ao citar que a ausência de dados de sustentabilidade afeta diretamente a sobrevivência do negócio na cadeia de grandes corporações, Danielly aponta que, para as grandes empresas - que, em sua maioria, já reportam esses dados -, a competitividade cai drasticamente quando a cadeia não acompanha essa evolução, uma vez que os relatórios passam a ser integrados diretamente ao negócio e aos seus tópicos materiais.

Apesar dessa urgência, ela diz que a transição esbarra na maturidade e na rotina operacional das PMEs. Segundo ela, o principal entrave identificado em países onde o programa já roda, como Argentina e Colômbia, é a falta de conhecimento básico sobre o que é um relatório de sustentabilidade, somada ao receio de expor dados ou impactos negativos.

“Como as PMEs exercem múltiplas tarefas e a sustentabilidade ainda não é mandatória em termos legais, o tema acaba não virando prioridade”, diz.

Entretanto, ela enfatiza que a apreensão em divulgar impactos negativos é superada ao demonstrar que o relatório serve justamente para gerar um plano de ação e de melhoria para a própria empresa.


Metodologia simplificada

Para afastar a ideia de que a metodologia GRI é complexa e inacessível para estruturas enxutas, Danielly aponta que o PNC traz uma versão adaptada e focada na realidade dos pequenos negócios. Nesse contexto, as PMEs participantes não precisarão realizar o estudo de dupla materialidade exigido para grandes corporações. Além disso, a orientação será focar na escolha de apenas três a cinco tópicos materiais para análise, e as definições do que medir serão conduzidas diretamente nas oficinas e workshops práticos promovidos pelos parceiros implementadores.

Nas palavras da executiva, o programa traduz e simplifica a utilização das mesmas normas usadas pelas grandes companhias, conduzindo essa avaliação dentro das trilhas de workshops para que os pequenos empresários compreendam o processo, a sua importância e os seus impactos organizacionais.

Para PMEs com equipes reduzidas, em que o proprietário costuma acumular funções, Danielly estima que a jornada do programa exigirá uma dedicação de três meses e meio de trabalho, combinando um encontro mensal teórico e prático para capacitar o empresário a emitir seu próprio reporte. Sendo que há também a opção de contratar suporte externo.

Sobre os custos, Danielly esclarece que a GRI não realiza cobranças pelo programa, ficando o modelo de precificação a cargo do grupo de parceiros implementadores, que envolve consultorias, associações e federações. Como referência internacional, ela revela que na Argentina há implementadores que atuam de diversas maneiras, inclusive com empresas âncoras, como a Toyota, cobrindo esses custos para seus fornecedores.

“No Brasil, o modelo de negócios desses parceiros ainda está sendo desenhado, mas sempre recomendamos que sejam realizados webinars gratuitos de apresentação para as empresas interessadas.”

Segundo Juan Pablo Rouzi, analista sênior de sustentabilidade da Toyota na Argentina, empresa que atua como âncora do PNC no país vizinho, a iniciativa tornou-se parte fundamental do negócio ao impulsionar diretamente os indicadores socioambientais dentro de sua rede de fornecedores. "O impacto do programa vai além do cumprimento de exigências formais e se consolida como uma alavanca estratégica para o setor automotivo."

O especialista destaca que o processo permitiu fortalecer a transparência, a gestão de riscos e a rastreabilidade de temas relevantes ao longo de toda a cadeia de valor, além de consolidar programas e resultados em um documento estruturado e perfeitamente alinhado às demandas dos diferentes grupos de interesse da companhia.


Integração comercial

Danielly destaca que a cooperação bilateral com a Suíça visa preparar as PMEs para exigências internacionais e barreiras regulatórias do mercado europeu, cobrindo aspectos trabalhistas e de cadeia de custódia. O programa buscará garantir que os relatórios gerados se convertam em novos contratos, integrando as PMEs diretamente aos setores de compras de grandes corporações.

A estratégia prevê trazer empresas âncoras para puxar suas cadeias de suprimentos logo no início do projeto e culminará em um evento de integração comercial no futuro. Danielly revela que a intenção é realizar, no segundo semestre de 2027, um evento de networking "Large to Small" baseado no modelo de pitch de startups e rodadas de negócios. Nessa ocasião, a entidade convidará empresas âncoras e companhias suíças para se conectarem diretamente com as PMEs capacitadas, permitindo a apresentação dos relatórios e dos modelos de negócios aos compradores globais.

Com base em dados da GRI, a executiva aponta que a aplicação dos relatos de sustentabilidade tem se revertido em transformações estruturais na gestão das PMEs. Os números mostram que a totalidade das PMEs participantes afirma ter incorporado critérios socioambientais que antes não faziam parte de sua rotina, demonstrando a assimilação prática do tema.

Outro dado revela uma mudança cultural: 89% das organizações executaram planos de ação concretos para aprimorar seu desempenho ambiental e social após a publicação dos relatórios, enquanto 66,7% confirmam uma melhora direta na eficiência operacional e no desempenho geral do negócio.

Para participar do PNC, o único critério exigido é que a empresa esteja formalizada na categoria de PME, nos termos da Lei Complementar nº 123/2006, sem a necessidade de comprovar qualquer nível prévio de maturidade em ESG. A expectativa é selecionar entre 100 e 150 empresas para a primeira turma.

O lançamento oficial ocorre no dia 4 de novembro, em São Paulo, com a presença de representantes do Consulado-Geral da Suíça e da GRI Global.

 

Mariana Missiaggia

https://www.dcomercio.com.br/publicacao/s/esg-na-pratica-o-que-as-pmes-devem-fazer-para-nao-perder-mercado



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