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Com cerca de 90% das grandes
corporações já alinhando suas decisões de compra a critérios ESG, a falta de
indicadores de sustentabilidade deixou de ser um aspecto reputacional e virou
um risco operacional direto para fornecedores. Para as pequenas e médias
empresas (PMEs), a ausência de dados socioambientais não significa apenas perda
de competitividade, mas uma ameaça real de descontinuidade de contratos e de
exclusão das cadeias globais de suprimentos.
Para apoiar essa transição, a
Global Reporting Initiative (GRI) lança no Brasil, no dia 4 de novembro, o
Programa de Negócios Competitivos (PNC), em parceria com o Consulado-Geral da
Suíça. Com apoio financeiro do governo suíço, o projeto busca capacitar entre
100 e 150 PMEs brasileiras no primeiro ano para que emitam seu primeiro
relatório oficial de sustentabilidade.
Em entrevista ao Diário do
Comércio, Danielly Mello Freire, head da GRI no Brasil, detalhou como a
iniciativa vai simplificar processos, o impacto para quem deseja exportar e os
caminhos para desmistificar o ESG no ambiente dos pequenos negócios.
Ao citar que a ausência de
dados de sustentabilidade afeta diretamente a sobrevivência do negócio na
cadeia de grandes corporações, Danielly aponta que, para as grandes empresas -
que, em sua maioria, já reportam esses dados -, a competitividade cai
drasticamente quando a cadeia não acompanha essa evolução, uma vez que os relatórios
passam a ser integrados diretamente ao negócio e aos seus tópicos materiais.
Apesar dessa urgência, ela diz
que a transição esbarra na maturidade e na rotina operacional das PMEs. Segundo
ela, o principal entrave identificado em países onde o programa já roda, como
Argentina e Colômbia, é a falta de conhecimento básico sobre o que é um
relatório de sustentabilidade, somada ao receio de expor dados ou impactos
negativos.
“Como as PMEs exercem múltiplas
tarefas e a sustentabilidade ainda não é mandatória em termos legais, o tema
acaba não virando prioridade”, diz.
Entretanto, ela enfatiza que a
apreensão em divulgar impactos negativos é superada ao demonstrar que o
relatório serve justamente para gerar um plano de ação e de melhoria para a
própria empresa.
Metodologia
simplificada
Para afastar a ideia de que a
metodologia GRI é complexa e inacessível para estruturas enxutas, Danielly
aponta que o PNC traz uma versão adaptada e focada na realidade dos pequenos
negócios. Nesse contexto, as PMEs participantes não precisarão realizar o
estudo de dupla materialidade exigido para grandes corporações. Além disso, a
orientação será focar na escolha de apenas três a cinco tópicos materiais para
análise, e as definições do que medir serão conduzidas diretamente nas oficinas
e workshops práticos promovidos pelos parceiros implementadores.
Nas palavras da executiva, o
programa traduz e simplifica a utilização das mesmas normas usadas pelas
grandes companhias, conduzindo essa avaliação dentro das trilhas de workshops para
que os pequenos empresários compreendam o processo, a sua importância e os seus
impactos organizacionais.
Para PMEs com equipes
reduzidas, em que o proprietário costuma acumular funções, Danielly estima que
a jornada do programa exigirá uma dedicação de três meses e meio de trabalho,
combinando um encontro mensal teórico e prático para capacitar o empresário a
emitir seu próprio reporte. Sendo que há também a opção de contratar suporte
externo.
Sobre os custos, Danielly
esclarece que a GRI não realiza cobranças pelo programa, ficando o modelo de
precificação a cargo do grupo de parceiros implementadores, que envolve
consultorias, associações e federações. Como referência internacional, ela
revela que na Argentina há implementadores que atuam de diversas maneiras,
inclusive com empresas âncoras, como a Toyota, cobrindo esses custos para seus
fornecedores.
“No Brasil, o modelo de
negócios desses parceiros ainda está sendo desenhado, mas sempre recomendamos
que sejam realizados webinars gratuitos de apresentação para as empresas
interessadas.”
Segundo Juan Pablo Rouzi,
analista sênior de sustentabilidade da Toyota na Argentina, empresa que atua
como âncora do PNC no país vizinho, a iniciativa tornou-se parte fundamental do
negócio ao impulsionar diretamente os indicadores socioambientais dentro de sua
rede de fornecedores. "O impacto do programa vai além do cumprimento
de exigências formais e se consolida como uma alavanca estratégica para o setor
automotivo."
O especialista destaca que o
processo permitiu fortalecer a transparência, a gestão de riscos e a
rastreabilidade de temas relevantes ao longo de toda a cadeia de valor, além de
consolidar programas e resultados em um documento estruturado e perfeitamente
alinhado às demandas dos diferentes grupos de interesse da companhia.
Integração
comercial
Danielly destaca que a
cooperação bilateral com a Suíça visa preparar as PMEs para exigências
internacionais e barreiras regulatórias do mercado europeu, cobrindo aspectos
trabalhistas e de cadeia de custódia. O programa buscará garantir que os
relatórios gerados se convertam em novos contratos, integrando as PMEs
diretamente aos setores de compras de grandes corporações.
A estratégia prevê trazer
empresas âncoras para puxar suas cadeias de suprimentos logo no início do
projeto e culminará em um evento de integração comercial no futuro. Danielly
revela que a intenção é realizar, no segundo semestre de 2027, um evento de
networking "Large to Small" baseado no modelo de pitch
de startups e rodadas de negócios. Nessa ocasião, a entidade convidará empresas
âncoras e companhias suíças para se conectarem diretamente com as PMEs
capacitadas, permitindo a apresentação dos relatórios e dos modelos de negócios
aos compradores globais.
Com base em dados da GRI, a
executiva aponta que a aplicação dos relatos de sustentabilidade tem se
revertido em transformações estruturais na gestão das PMEs. Os números mostram
que a totalidade das PMEs participantes afirma ter incorporado critérios
socioambientais que antes não faziam parte de sua rotina, demonstrando a
assimilação prática do tema.
Outro dado revela uma mudança
cultural: 89% das organizações executaram planos de ação concretos para
aprimorar seu desempenho ambiental e social após a publicação dos relatórios,
enquanto 66,7% confirmam uma melhora direta na eficiência operacional e no
desempenho geral do negócio.
Para participar do PNC, o único
critério exigido é que a empresa esteja formalizada na categoria de PME, nos
termos da Lei Complementar nº 123/2006, sem a necessidade de comprovar qualquer
nível prévio de maturidade em ESG. A expectativa é selecionar entre 100 e 150
empresas para a primeira turma.
O lançamento oficial ocorre no
dia 4 de novembro, em São Paulo, com a presença de representantes do
Consulado-Geral da Suíça e da GRI Global.
Mariana Missiaggia
https://www.dcomercio.com.br/publicacao/s/esg-na-pratica-o-que-as-pmes-devem-fazer-para-nao-perder-mercado

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