A poucos dias da prova, especialista em desenvolvimento cognitivo
explica por que atenção, memória de trabalho e metacognição pesam mais que
volume de estudo na reta final
O Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) 2026
acontece no próximo dia 8. E, nesta semana, mais de 5 milhões de
candidatos entram na rotina de horas extras de estudo. Para quem pesquisa
desenvolvimento cognitivo, o esforço adicional tem um limite claro: o cérebro
não aprende por volume de tempo, e sim pela qualidade do processamento da
informação. "A aprendizagem é resultado da transformação de uma informação
em conhecimento", afirma Patrícia Lessa, diretora pedagógica do Supera.
Segundo a especialista, o processo depende de
etapas que não se resolvem com mais tempo de leitura: prestar atenção, entender
o significado e a relevância do que se aprende, organizar a informação e
conseguir aplicá-la fora do contexto original.
O gargalo da última semana é a atenção, não o tempo
"A atenção é a porta de entrada para a
memória, sem ela nada é processado", diz. A consequência prática aparece
numa cena comum de véspera de prova: o candidato passa quatro horas com o
caderno aberto e o celular ao lado, e no dia seguinte não consegue reproduzir o
conteúdo. "Se a atenção não sustentou a explicação, o conteúdo
provavelmente não foi para a memória, ou seja, não se tornou aprendizado."
Saber a matéria não garante acertar a questão
A segunda armadilha é confundir domínio de
conteúdo com capacidade de usar esse conteúdo. "Um aluno pode saber a
fórmula e não conseguir aplicá-la num problema novo se a memória de trabalho
estiver sobrecarregada ou se não souber inibir a informação irrelevante",
explica.
A especialista lista as habilidades que
sustentam o aprendizado escolar: memória
de trabalho, atenção seletiva e sustentada, memória de longo prazo, raciocínio
lógico e funções executivas — planejamento, controle inibitório e flexibilidade
cognitiva, sediadas no córtex pré-frontal. "Conteúdo sem as habilidades
que o sustenta tem vida curta, pode virar repetição mecânica, não
aprendizagem."
Outro ponto importante é entender o que
acontece no cérebro diante de um problema. Ao contrário do que diz o senso
comum, o cérebro aprende quando se sente desafiado. "Quando a dificuldade
está na medida, o esforço aciona o sistema de recompensa do cérebro: errar,
ajustar e acertar. Isso dá a sensação de 'eu consigo' e é assim que o
aprendizado se consolida", garante. O erro seguido de feedback qualificado
se torna motor de ajuste para a próxima etapa.
Patrícia alerta, porém, para a precisão na
calibragem dessa dificuldade. "Quando o desafio é grande demais e o aluno
não tem apoio, quem assume é a amígdala, o centro do estresse. O cérebro entra
em modo ameaça: a atenção fecha, a memória de trabalho trava e a pessoa
desiste." O que define qual caminho o estudante percorre não é talento nem
quantidade de exercícios, é a mediação na realização da tarefa — da escolha do
nível de dificuldade ao acompanhamento das tentativas, erros e progresso.
O que fazer nas 72 horas antes da prova
A pergunta que segue é se atenção, memória, raciocínio lógico e
funções executivas podem ser desenvolvidos. Podem, e o mecanismo
é a plasticidade cerebral. "Nosso cérebro é plástico. Conexões se
fortalecem com o uso repetido e se enfraquecem com o desuso", afirma
Patrícia.
Isso explica por que a estimulação cognitiva ganha
peso justamente na semana de prova. Para os próximos dias, a consequência
prática é direta: em vez de somar horas no mesmo formato de estudo que já não
rendia, vale distribuir a revisão em dias distintos e alternar os formatos de
contato com o conteúdo.
E a estimulação não precisa virar mais uma
obrigação. "Qualquer atividade realizada em casa, com amigos, em festas
pode trazer aprendizados. O cérebro que aprende a aprender aproveita qualquer
oportunidade para se reorganizar. No entanto, métodos estruturados aplicados
por especialistas trazem um efeito mais assertivo", diz.
Além disso, dormir pelo menos 8h por dia,
manter uma alimentação saudável, boa hidratação e cultivar momentos de lazer
com familiares e amigos são atitudes importantes para fortalecer o estudante e
prepará-lo para o momento da prova.
Nenhum comentário:
Postar um comentário