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quarta-feira, 4 de novembro de 2026

O papel da engenharia elétrica no desenvolvimento sustentável de cidades turística

Magnific

O turismo brasileiro vive um ciclo de expansão consistente. Dados do Banco Central, compilados pelo Ministério do Turismo, mostram que os turistas estrangeiros deixaram R$ 33,3 bilhões no Brasil entre janeiro e julho deste ano, 9,4% a mais em relação aos R$ 30,7 bilhões registrados no mesmo período em 2025. Esse crescimento turístico, porém, costuma ser discutido sob a ótica da hotelaria, do marketing de destino ou do investimento público em atrativos, e raramente sob a ótica de quem sustenta essa operação por trás das cortinas: a engenharia elétrica. 

O Operador Nacional do Sistema Elétrico projetou para este ano, um aumento de 4,1% no consumo de energia elétrica do país. Como engenheiro que atua há quase duas décadas em projetos ligados a esse setor, tenho visto de perto como o sucesso ou o fracasso de um destino turístico está diretamente ligado à qualidade da infraestrutura elétrica que o sustenta. 

Cidades turísticas convivem com um padrão de consumo elétrico muito diferente do de outras cidades. A demanda varia drasticamente conforme a temporada, os feriados e os grandes eventos. Um destino de praia pode multiplicar sua população em poucos dias no verão; uma cidade histórica pode receber, num único fim de semana de evento um público equivalente a meses de visitação; grandes festivais de música ou festas tradicionais — como a Oktoberfest Blumenau, por exemplo — concentram, em poucos dias, um volume de consumo elétrico comparável ao de meses de operação normal. Tendas, palcos, iluminação cênica e praças de alimentação exigem painéis corretamente dimensionados e uma rede capaz de suportar picos de carga sem comprometer a segurança do público. O mesmo vale, na prática, para qualquer destino turístico do país em alta temporada: hotéis, pousadas e comércios locais precisam de infraestrutura pensada para o pico de ocupação, não apenas para o dia a dia.

Por isso, eficiência energética, para além de uma pauta ambiental, se tornou também um diferencial competitivo para o setor. Um empreendimento turístico que reduz o desperdício de energia consegue direcionar esse recurso para melhorar a experiência do hóspede, seja em conforto, seja em serviço. Projetos de eficiência energética ainda são uma ferramenta pouco explorada pelo turismo brasileiro, mas têm potencial de reduzir custos operacionais sem exigir grandes reformas estruturais — algo especialmente relevante para pequenos e médios municípios turísticos, que muitas vezes não têm orçamento para grandes obras.

Além disso, vale reforçar que ambientes com grande concentração de pessoas, como pavilhões de eventos, centros históricos movimentados, resorts, prédios com alta ocupação turística, exigem manutenção preventiva e laudos técnicos periódicos, muito além da instalação inicial. Não é incomum encontrar estruturas elétricas planejadas para um uso que, com o tempo, passou a operar muito acima da capacidade original, sem que ninguém tenha reavaliado essa condição. Em locais com grande fluxo de visitantes, isso é um risco que precisa ser tratado com prioridade e inspeções recorrentes, não apenas quando o problema já apareceu.

Um fenômeno que tem se repetido em vários pontos do litoral brasileiro é a verticalização acelerada de cidades turísticas — Balneário Camboriú, com uma das maiores concentrações de arranha-céus do país, é hoje uma referência nacional desse movimento. Cada novo empreendimento de grande porte precisa ser pensado como parte de um sistema elétrico maior, com subestações, redundância de fornecimento e painéis dimensionados para elevadores, climatização e áreas comuns, sob pena de sobrecarregar a rede em períodos de altíssima ocupação, como réveillon e alta temporada.

É importante ter em mente que o crescimento turístico só se sustenta a longo prazo quando vem acompanhado de investimento contínuo em infraestrutura, e não apenas de esforços pontuais em época de eventos. Desenvolvimento sustentável também é uma questão de engenharia bem-feita: iluminação moderna e eficiente, painéis dimensionados corretamente, laudos técnicos em dia e um olhar atento para o crescimento da demanda antes que ela vire um problema. É isso que garante que os municípios brasileiros continuem crescendo com segurança, sendo um bom lugar tanto para quem visita quanto para quem vive nesses destinos.

  

Jones Poffo - engenheiro eletricista e CEO da P3 Engenharia

 

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