O turismo brasileiro vive um ciclo de expansão
consistente. Dados do Banco Central, compilados pelo Ministério do Turismo,
mostram que os turistas estrangeiros deixaram R$ 33,3 bilhões no Brasil entre
janeiro e julho deste ano, 9,4% a mais em relação aos R$ 30,7 bilhões
registrados no mesmo período em 2025. Esse crescimento turístico, porém,
costuma ser discutido sob a ótica da hotelaria, do marketing de destino ou do
investimento público em atrativos, e raramente sob a ótica de quem sustenta
essa operação por trás das cortinas: a engenharia elétrica.
O Operador Nacional do Sistema Elétrico projetou
para este ano, um aumento de 4,1% no consumo de energia elétrica do país. Como
engenheiro que atua há quase duas décadas em projetos ligados a esse setor,
tenho visto de perto como o sucesso ou o fracasso de um destino turístico está
diretamente ligado à qualidade da infraestrutura elétrica que o sustenta.
Cidades turísticas convivem com um padrão de
consumo elétrico muito diferente do de outras cidades. A demanda varia
drasticamente conforme a temporada, os feriados e os grandes eventos. Um
destino de praia pode multiplicar sua população em poucos dias no verão; uma
cidade histórica pode receber, num único fim de semana de evento um público
equivalente a meses de visitação; grandes festivais de música ou festas
tradicionais — como a Oktoberfest Blumenau, por exemplo — concentram, em poucos
dias, um volume de consumo elétrico comparável ao de meses de operação normal.
Tendas, palcos, iluminação cênica e praças de alimentação exigem painéis
corretamente dimensionados e uma rede capaz de suportar picos de carga sem
comprometer a segurança do público. O mesmo vale, na prática, para qualquer
destino turístico do país em alta temporada: hotéis, pousadas e comércios
locais precisam de infraestrutura pensada para o pico de ocupação, não apenas para
o dia a dia.
Por isso, eficiência energética, para além de uma
pauta ambiental, se tornou também um diferencial competitivo para o setor. Um
empreendimento turístico que reduz o desperdício de energia consegue direcionar
esse recurso para melhorar a experiência do hóspede, seja em conforto, seja em
serviço. Projetos de eficiência energética ainda são uma ferramenta pouco
explorada pelo turismo brasileiro, mas têm potencial de reduzir custos
operacionais sem exigir grandes reformas estruturais — algo especialmente
relevante para pequenos e médios municípios turísticos, que muitas vezes não
têm orçamento para grandes obras.
Além disso, vale reforçar que ambientes com grande
concentração de pessoas, como pavilhões de eventos, centros históricos
movimentados, resorts, prédios com alta ocupação turística, exigem manutenção
preventiva e laudos técnicos periódicos, muito além da instalação inicial. Não
é incomum encontrar estruturas elétricas planejadas para um uso que, com o
tempo, passou a operar muito acima da capacidade original, sem que ninguém
tenha reavaliado essa condição. Em locais com grande fluxo de visitantes, isso
é um risco que precisa ser tratado com prioridade e inspeções recorrentes, não
apenas quando o problema já apareceu.
Um fenômeno que tem se repetido em vários pontos do
litoral brasileiro é a verticalização acelerada de cidades turísticas —
Balneário Camboriú, com uma das maiores concentrações de arranha-céus do país,
é hoje uma referência nacional desse movimento. Cada novo empreendimento de
grande porte precisa ser pensado como parte de um sistema elétrico maior, com
subestações, redundância de fornecimento e painéis dimensionados para
elevadores, climatização e áreas comuns, sob pena de sobrecarregar a rede em
períodos de altíssima ocupação, como réveillon e alta temporada.
É importante ter em mente que o crescimento
turístico só se sustenta a longo prazo quando vem acompanhado de investimento
contínuo em infraestrutura, e não apenas de esforços pontuais em época de
eventos. Desenvolvimento sustentável também é uma questão de engenharia
bem-feita: iluminação moderna e eficiente, painéis dimensionados corretamente,
laudos técnicos em dia e um olhar atento para o crescimento da demanda antes
que ela vire um problema. É isso que garante que os municípios brasileiros
continuem crescendo com segurança, sendo um bom lugar tanto para quem visita
quanto para quem vive nesses destinos.
Jones Poffo - engenheiro eletricista e CEO da P3 Engenharia

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