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quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Nem sempre é falta de força de vontade: nutróloga alerta para sinais de resistência à insulina em crianças

Ana Luísa Vilela explica por que o ganho de peso na infância exige avaliação individualizada e por que dietas restritivas e cobranças podem fazer mais mal do que bem 

 

A dificuldade para controlar o peso na infância nem sempre se explica apenas pela alimentação ou pela falta de atividade física. Fatores genéticos, hormonais e metabólicos, a qualidade do sono, o uso de medicamentos e a rotina familiar também influenciam o desenvolvimento das crianças. Entre as condições que merecem atenção está a resistência à insulina, alerta a médica nutróloga Ana Luísa Vilela.


A resistência à insulina é uma alteração em que as células do organismo passam a responder menos ao hormônio responsável por ajudar a glicose a entrar nelas. Ela pode estar associada ao excesso de peso e a outras alterações metabólicas, mas, segundo a especialista, não deve ser considerada automaticamente a causa da dificuldade para emagrecer.


“Quando uma criança apresenta ganho de peso excessivo ou uma evolução diferente da esperada para a idade, é preciso olhar o contexto como um todo: crescimento, alimentação, atividade física, sono, histórico familiar e possíveis fatores metabólicos. Não dá para atribuir a situação exclusivamente ao que ela come”, afirma Ana Luísa.



Sinais de alerta


De acordo com a nutróloga, alguns achados justificam uma avaliação médica mais cuidadosa: excesso de peso persistente, histórico familiar de diabetes tipo 2, pressão arterial elevada e acantose nigricans, áreas de pele mais escura e espessada que costumam aparecer no pescoço e nas axilas. Muitas vezes confundida com sujeira, essa alteração pode estar associada à resistência à insulina, embora sozinha não confirme o diagnóstico.


Na infância, também é importante observar mudanças nos hábitos alimentares, como seletividade alimentar persistente e preferência frequente por alimentos ricos em açúcar, especialmente quando esses comportamentos vêm acompanhados de outras alterações. O aumento do volume abdominal, o cansaço excessivo e mudanças no padrão ou no ritmo do desenvolvimento puberal também merecem atenção. Esses sinais, isoladamente, não confirmam resistência à insulina, mas podem justificar uma avaliação individualizada para investigar possíveis causas metabólicas, hormonais, nutricionais ou outras condições de saúde.


A necessidade de exames é definida caso a caso. Conforme a idade, o estágio de desenvolvimento, o histórico e os achados clínicos, o médico pode solicitar a avaliação da glicemia e de outros indicadores metabólicos. O diagnóstico não se baseia apenas na aparência física nem em um resultado isolado.


“Mais importante do que o número da balança é entender como a criança está crescendo e o que pode estar interferindo na saúde dela. A avaliação precoce permite identificar riscos, orientar a família e construir um plano de cuidado com mudanças sustentáveis na rotina”, destaca a médica.



Sem culpa e sem estigma


A especialista chama atenção também para o impacto emocional do excesso de peso na infância. Comentários sobre o corpo, comparações com irmãos ou colegas e dietas restritivas sem orientação profissional podem prejudicar a autoestima e a relação da criança com a comida. Por isso, o acompanhamento deve priorizar a saúde, o desenvolvimento e a construção de hábitos saudáveis em família, sem culpabilizar a criança.



O papel da família


Para a nutróloga, a mudança mais eficaz é aquela que envolve toda a casa, e não apenas a criança. Refeições em família, uma rotina de sono adequada, mais tempo para brincar e se movimentar e menos foco em proibições ajudam a construir hábitos que se sustentam ao longo do tempo. Diante de sinais de alerta, a orientação é buscar avaliação médica em vez de recorrer a dietas por conta própria.


“A criança não precisa carregar sozinha a responsabilidade pelo próprio peso. Quando a família muda junto, com acolhimento e orientação profissional, o cuidado deixa de ser uma cobrança e passa a ser parte da rotina. É isso que faz diferença no longo prazo”, conclui Ana Luísa.


Observação editorial: incluí a seletividade e a preferência por alimentos açucarados como aspectos do comportamento alimentar que merecem atenção, mas não como sinais específicos de resistência à insulina. Já o aumento abdominal, o cansaço excessivo e as alterações puberais foram apresentados como motivos para investigar diferentes possibilidades clínicas, evitando sugerir que, isoladamente, indiquem essa condição.



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