Ana Luísa Vilela explica por que o ganho de peso na infância exige avaliação individualizada e por que dietas restritivas e cobranças podem fazer mais mal do que bem
A dificuldade
para controlar o peso na infância nem sempre se explica apenas pela alimentação
ou pela falta de atividade física. Fatores genéticos, hormonais e metabólicos,
a qualidade do sono, o uso de medicamentos e a rotina familiar também
influenciam o desenvolvimento das crianças. Entre as condições que merecem
atenção está a resistência à insulina, alerta a médica nutróloga Ana Luísa
Vilela.
A resistência à
insulina é uma alteração em que as células do organismo passam a responder
menos ao hormônio responsável por ajudar a glicose a entrar nelas. Ela pode
estar associada ao excesso de peso e a outras alterações metabólicas, mas,
segundo a especialista, não deve ser considerada automaticamente a causa da
dificuldade para emagrecer.
“Quando uma
criança apresenta ganho de peso excessivo ou uma evolução diferente da esperada
para a idade, é preciso olhar o contexto como um todo: crescimento,
alimentação, atividade física, sono, histórico familiar e possíveis fatores
metabólicos. Não dá para atribuir a situação exclusivamente ao que ela come”,
afirma Ana Luísa.
Sinais
de alerta
De acordo com a
nutróloga, alguns achados justificam uma avaliação médica mais cuidadosa:
excesso de peso persistente, histórico familiar de diabetes tipo 2, pressão
arterial elevada e acantose nigricans, áreas de pele mais escura e espessada
que costumam aparecer no pescoço e nas axilas. Muitas vezes confundida com
sujeira, essa alteração pode estar associada à resistência à insulina, embora
sozinha não confirme o diagnóstico.
Na infância,
também é importante observar mudanças nos hábitos alimentares, como
seletividade alimentar persistente e preferência frequente por alimentos ricos
em açúcar, especialmente quando esses comportamentos vêm acompanhados de outras
alterações. O aumento do volume abdominal, o cansaço excessivo e mudanças no
padrão ou no ritmo do desenvolvimento puberal também merecem atenção. Esses
sinais, isoladamente, não confirmam resistência à insulina, mas podem
justificar uma avaliação individualizada para investigar possíveis causas
metabólicas, hormonais, nutricionais ou outras condições de saúde.
A necessidade de
exames é definida caso a caso. Conforme a idade, o estágio de desenvolvimento,
o histórico e os achados clínicos, o médico pode solicitar a avaliação da
glicemia e de outros indicadores metabólicos. O diagnóstico não se baseia
apenas na aparência física nem em um resultado isolado.
“Mais importante
do que o número da balança é entender como a criança está crescendo e o que
pode estar interferindo na saúde dela. A avaliação precoce permite identificar
riscos, orientar a família e construir um plano de cuidado com mudanças
sustentáveis na rotina”, destaca a médica.
Sem
culpa e sem estigma
A especialista
chama atenção também para o impacto emocional do excesso de peso na infância.
Comentários sobre o corpo, comparações com irmãos ou colegas e dietas restritivas
sem orientação profissional podem prejudicar a autoestima e a relação da
criança com a comida. Por isso, o acompanhamento deve priorizar a saúde, o
desenvolvimento e a construção de hábitos saudáveis em família, sem
culpabilizar a criança.
O papel
da família
Para a
nutróloga, a mudança mais eficaz é aquela que envolve toda a casa, e não apenas
a criança. Refeições em família, uma rotina de sono adequada, mais tempo para
brincar e se movimentar e menos foco em proibições ajudam a construir hábitos
que se sustentam ao longo do tempo. Diante de sinais de alerta, a orientação é
buscar avaliação médica em vez de recorrer a dietas por conta própria.
“A criança não
precisa carregar sozinha a responsabilidade pelo próprio peso. Quando a família
muda junto, com acolhimento e orientação profissional, o cuidado deixa de ser
uma cobrança e passa a ser parte da rotina. É isso que faz diferença no longo
prazo”, conclui Ana Luísa.
Observação
editorial: incluí a seletividade e a preferência por alimentos açucarados como
aspectos do comportamento alimentar que merecem atenção, mas não como sinais
específicos de resistência à insulina. Já o aumento abdominal, o cansaço
excessivo e as alterações puberais foram apresentados como motivos para
investigar diferentes possibilidades clínicas, evitando sugerir que,
isoladamente, indiquem essa condição.
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